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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Igualdade, enaltecimento e educação.

A arte de amargar a vida de nossos filhos



“Tus hijos no tendrán éxito gracias a lo que hayas hecho por ellos, sino gracias a lo que les hayas enseñado a hacer por sí mismos”. ANN LANDERS
Quando os fatos ou alguém viola nossas expectativas de idiossincrásica normalidade, quando nossa magnanimidade choca com a realidade, a realidade costuma sair ganhando.

Em nosso particular mundo perfeito, aquele em que as pessoas se comportam de maneira congruente com nossos interesses e em que os recursos físicos e biológicos estão controlados, estudar ou falar de educação dos filhos dispara em seguida todos os alarmes e paranoias. Como a maioria das verdades amargas, não reporta muita simpatia que nos recordem a falsidade de nosso mundo, pensamentos, preferências e memória, todos distorcidos e construídos[1], todos contextuais e ao serviço da narrativa sob a qual está operando nosso cérebro[2]. O nosso é o mundo verdadeiro; desquiciados, falsos, ilusórios, excêntricos, disparatados ou ao menos estúpidos são os mundos dos «outros».
Mas, quando os fatos ou alguém viola nossas expectativas de idiossincrásica normalidade, quando nossa magnanimidade choca com a realidade, a realidade costuma sair ganhando. Por exemplo, apesar de continuamente negado ou dissimulado, investigações recentes encontraram que, com efeito, as mães emocionalmente instáveis tendem a dar a seus filhos mais alimentos doces e grassos (o que lhes leva a adquirir mais peso), além de que são mais propensas a render-se e deixar que seus filhos façam o que querem quando estão fora de controle.
Outro inquietante fenômeno - sobre o qual intentaremos tratar neste artigo - diz respeito à descomedida fixação pela igualdade «a qualquer preço» e aos imoderados e indiscriminados encômios dedicados ao «talento» e/ou «êxito» de nossos filhos, notadamente no que se refere à forma de educá-los. Trata-se, no fundo, de um tema que coincide com as ideias de outros muitos autores, mas com matizes que podem resultar interessantes. Sigamos, então, por esta senda.
No conjunto dos discursos em que se emitem juízos acerca da ideia de justiça a «igualdade» parece ocupar sempre uma posição de destaque. De fato, desde suas primeiras formulações a justiça sempre foi associada com a igualdade (sobre a qual Aristóteles desenvolveu sua doutrina da justiça e que ainda hoje representa o ponto de partida de todas as reflexões sérias sobre essa questão) e sua caracterização evolucionou ao compasso desse princípio ilustrado. Do mesmo modo, as recentes evidências científicas estão revelando que a igualdade, enquanto intuição, instinto ou emoção moral, tem profundas raízes neurobiológicas e evolutivas, que se acha «gravada» em nosso cérebro, e que, em certo modo, já não pode considerar-se uma capacidade exclusiva do ser humano. A igualdade, portanto, parece ser um desses valores fora de toda discussão no mundo atual.
Contudo, como é quase ocioso recordar, a igualdade não é um fato. Dentro do marco da espécie humana, que estabelece uma grande base de semelhança, os indivíduos não são definitivamente iguais; a situação «de fato» não é a igualdade, como mostra às claras não somente a própria circunstância do nascimento (que oferece uma enorme diversidade de cunho social), senão também as diferenças em termos de talentos, caráter, personalidade, inteligência, etc. Para onde se mire a vida está atulhada de exemplos de desigualdade e injustiça.
Pois bem, um dos detratores da superlativa apologia da igualdade é  Stephen T. Asma, professor no Columbia College Chicago, que dedicou um livro muito provocador à noção de equidade (ou de igualdade, se a ideia é traduzir «fairness» de modo um pouco mais desafiador):  «Against Fairness: In Favor of Favoritism» (2012).
A tese de Asma é que a obsessão da sociedade ocidental pela igualdade a todo custo não é boa (é absurda), uma vez que as diferenças e as iniquidades da vida não somente são naturais senão saudáveis. Em particular, de que é impossível não tomar-se em sério as características e os efeitos pessoais de cada um como algo que se deve ter em conta; se trata de um fato real na vida: todos damos mais valor a nossos filhos que ao filho do vizinho, reagimos de modo diferente quando morre um amigo cercano que um desconhecido e consideramos de forma distinta as desgraças alheias segundo o próximas que nos resultem. “Preferir é humano, o amor é discriminatório e estamos biologicamente programados para favorecer os mais próximos”.


Em seu livro o autor explica que o problema não é o conceito de igualdade senão o uso distorcido que cada vez com mais frequência se faz da ideia de (ou que se dá ao termo) igualdade e que pode levar a situações altamente prejudiciais: «o medo às diferenças» para dizer com Steven Pinker. Para Asma, perseguir a igualdade sem moderação é uma utopia porque todos os reclamos para uma maior equidade estão baseados na carência de um frente a abundância do outro: a igualdade, afirma Asma, «é um slogan baseado na inveja». 
Mas não somente isso. Outro problema, diz Asma, é que essa cisma pela igualdade se vê nas aulas dos colégios diariamente, concretamente no que se refere à formação de crianças que foram educadas durante as últimas décadas e que, quando crescem, se topam com que não vivem “no melhor dos mundos possíveis” e experimentam, com angústia, um choque contínuo com a realidade. Por exemplo, Asma conta um episódio em que seu filho chegou feliz do colégio com um prêmio que ganhou em uma competição com seus companheiros de classe. Ele, cheio de orgulho o felicitou, mas o filho lhe interrompeu para dizer que todos os demais alunos também ganharam e que a todos lhes deram o mesmo prêmio. Este caso não é o único. Se trata mais bem de um tipo de política do sistema educativo implantado na maior parte de países ocidentais, cada vez mais interessado no rechaço à desigualdade (ou às diferenças) como valor máximo, adotando uma atitude condescendente em relação aos alunos “por medo de ferir sua autoestima” e, dessa maneira, “fomentar o dogma da igualdade”: já não se escolhe aos alunos por méritos pessoais, senão a todos para evitar ferir seus delicados e caprichosos egos... E todos pateticamente radiantes (pais, mães e filhos) com suas fotos estereotipadas de prêmios e medalhas postadas nas redes sociais (on-line!).
Talvez seja este “pseudoacontecimento” o legado mais importante da educação atual. Enquanto que antes a gente procurava destacar para manejar os contextos reais de suas vidas, agora se inventam contextos de igualdade com o fim de que o mérito coletivo tenha maior relevância e o mérito pessoal inútil possa parecer como de algum valor. Um “pseudocontexto” (para usar a expressão de Neil Postman) em que se cria assim uma estrutura inventada de igualdade para dar à “capacidade pessoal” uma aparência de utilidade. Um pseudocontexto que não proporciona excelência (virtude), nem solução de problemas, nem câmbio pessoal. É o único uso que resta depois da supressão do mérito  pessoal, sem nenhuma conexão com a vida real – quero dizer, com a necessidade de interpretar, compreender e enfrentar a realidade.
Para infinidade de pais, mães e filhos, o ganhar, e não o merecer, se converteu na base para crer, sem conduzir a nenhuma ação ou resultado significativo. Isso, obviamente, apesar de idílico, não deixa de ser ilusório e igual de indefinidamente perverso. Poderíamos dizer que esse pseudocontexto igualitário de desmembramento ou deformação da realidade (em que todos ganham) é o último refúgio de uma educação abrumada pela urgência de dignificar a irrelevância, de justificar a incoerência e de ampliar a impotência. Aqui, a forma conspira contra o conteúdo.
Ademais, todo esse espetáculo da igualdade leva a que infravaloremos os defeitos de nossos filhos, porque ninguém lhes diz nunca de forma direta em que são menos válidos ou eficientes (ou para que são bons), de maneira que suas expectativas vitais são cada vez menos realistas e inadequadas para afrontar de forma mais efetiva as capacidades de cada um. O qual funciona também no sentido oposto: uma criança que é talentosa vai ignorar sua capacidade superior ou suas virtudes porque crê que o normal é que todo mundo é igual de excelente e faça bem tudo. Também lhes ajuda a resistir pior à frustração, algo que na opinião de Asma se acrescentou nas últimas décadas. Como assinala em um artigo publicado en  «The Chronicle» (http://chronicle.com/article/In-Defense-of-Favoritism/135610/), “as crianças aprendem rapidamente a ocultar suas frustrações egocêntricas baixo a linguagem da igualdade”. Resultado: os mais prejudicados com esta confusão de conceitos, recorda Asma, seriam as próprias crianças, dado que durante sua infância pais, mães e professores lhes protegem das iniquidades, o que poderia levar-lhes a desiludirem-se quando de adultos vejam com seus próprios olhos que a vida é mais injusta do que pensavam. Para explicar, Asma recorre a uma célebre frase de James Poniewozik: “O apoio nos ajuda a chegar às estrelas e o realismo nos impede que à metade de nossa vida decidamos ser astronautas”.
Daí que para Carol Dweck, professora na Stanford University (e quem dedica anos a demonstrar que um dos elementos fundamentais da educação satisfatória é “a capacidade de aprender dos erros”), o mais importante que se pode fazer para ajudar as crianças é elogiar o esforço e não seu talento ou êxito. Mensagens como “é tão inteligente!” ou “aprendeste tão rápido!” ensina às crianças que podem ser inteligentes ou não sê-lo e que o esforço não joga um rol importante no êxito (quer dizer, ensina que o talento leva ao êxito e não o esforço). Crianças que crêem que o talento importa não saberão como lidar com as dificuldades que podem encontrar no futuro. Bem ou mal o talento se tem ou não; e isso é o que vale, por algo foram elogiados por seu talento e não outra coisa.
Em câmbio, mensagens como “gostei da forma como abordaste o problema”, “que bom que tenhas perseverado e encontrado uma estratégia diferente que funcione” ou  “sinto muito, isso foi muito fácil para ti, façamos algo mais desafiante”, ensina às crianças que o esforço é algo do que todos podemos beneficiar-nos para alcançar nosso máximo potencial possível, e que devem trabalhar com dedicação e determinação para crescer intelectual e mentalmente (se trata de ensinar que o talento é só um ponto de partida que sempre se pode – e se deve – melhorar).
É óbvio que não há nada mal no enaltecimento. Como disse alguma vez um psiquiatra, todos construimos castelos no ar. O perigo surge quando tratamos de «viver» neles. É falso que possamos fazer qualquer coisa, ser quem queiramos ser e que «o céu seja o limite». Esta é a quimérica atitude do «can do», do «podes fazê-lo», que não põe barreiras às capacidades de um indivíduo e que se reafirma com um tipo de otimismo ingênuo que confia cegamente no talento e no matrimônio da eficácia com a vontade. Quem espera percorrer todos os caminhos corre o risco de não empreender nenhum; uma coisa é estar ou sair de si mesmo e outra é crer-se livre, sem nenhum esforço, da necessidade de eleger e de nossas limitações, quer dizer, livre de um marco que nos restringe e condiciona nossa liberdade: a realidade, para o bem ou para o mal, resiste à distorção mental fácil. (P. Bruckner)
Assim que, e aqui termino, se queremos fomentar o caráter, a honradez, a confiança, a força e a resiliência, temos que deixar que nossos filhos aprendam de seus erros e debilidades, que reconheçam suas diferenças e suas limitações, que se enfrentem às adversidades e que experimentem o orgulho que se sente ao sair reforçado de uma situação difícil.
É complicado ver a nossos filhos «cair», mas as vezes é necessário. Em ocasiões, o mais sensato é perguntar se «intervir» se encontra entre as melhores opções. Há um sem-número de formas de amar a nossos filhos, mas, à hora de buscar sua felicidade (melhor dito, a «eudaimonia», “el trabajado dominio de uno mismo y el poder encontrarle el sentido a la vida”), convém ser conscientes de que o melhor é «preparar nossos filhos para o caminho, não o caminho para nossos filhos».

Notas

[1] Não somente interpretamos cada situação segundo nossos desejos, crenças, expectativas e intenções, senão que também reconfiguramos constantemente o passado para proteger-nos. De fato, grande parte do que vemos o inventa alegremente nosso cérebro, modificando as instantâneas da realidade como se dispusera de um sofisticado PhotoShop. Os recordos de nosso passado em realidade são reconstruções, não autênticos reflexos do que aconteceu, com independência de que nos tenhamos involucrados emocionalmente ou estejamos completamente seguros de que as coisas passaram tal e como recordamos. Às vezes, estas distorções se produzem em pequenos detalhes; mas, outras vezes, reconstruímos recordos completos e traumáticos com um grande número de detalhes falsos que em realidade nunca tiveram lugar. Tal e como explica Susana Martínez-Conde: “Hoy sabemos que cada vez que recuerdas algo extraes esa memoria de su almacén, y la haces consciente y la vuelves a guardar. Y cada vez que recordamos cambiamos esa memoria. No es igual la que extraemos que la que almacenamos de nuevo. Cuanto más se accede a un recuerdo más se cambia. Esto tiene relevancia importante, porque todos tenemos experiencias que nos definen. Soy la persona actual por los hechos que ocurrieron en mi pasado. Pero estas experiencias son las que más tiendes a recordar y por tanto son las que más cambiamos. Por tanto no somos las personas que creemos y somos los menos indicados para describimos.” Nas palavras de J. LeDoux, “el cerebro que recuerda no es el cerebro en el que se formaron los primeros recuerdos. Para que éstos tengan sentido en el cerebro actual, la memoria tiene que actualizarse. La memoria biológica se encuentra en perpetuo estado de renovación”. Em resumo, a memória é "uma amiga desleal"; é distribuída e reconstruída. Não reside em nenhum lugar específico de nosso cérebro e, a um nível mais profundo e biológico, todos nossos recordos são falíveis e incompletos.
[2] Nossa interpretação do mundo tem suas raízes nas narrativas que construímos acerca de nós mesmos e de nosso mundo social: somos os fabricantes dos significados e do sentido que damos à nossa vida. “Pero todos nosotros tenemos la sorprendente idea de que el modo como vemos el mundo refleja el mundo en su objetivo ser así. Y no caemos en la cuenta de que somos nosotros los que atribuimos una significación a ese mundo. […] Si nosotros lo creyéramos, sabríamos que no solo somos los creadores de nuestra desdicha, sino también de nuestra felicidad” (P. Watzlawick). O certo é que ao construir nossa experiência subjetiva da realidade o cérebro-mente humano é (e funciona como) uma máquina de produzir significados: “No son las cosas las que atormentan a los hombres, sino las opiniones que se tienen de ellas” (Epicteto).


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