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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

31 Curiosidades sobre a Itália

 Juliana Miranda

Img - 31 Curiosidades sobre a Itália











A Itália é uma nação localizada no centro-sul da Europa. Conhecida por sua culinária maravilhosa e por seu estilo de vida encantador, a Itália possui 60,6 milhões de habitantes, sendo a quinta nação mais populosa do continente Europeu.

Esta é, sem dúvida, uma nação repleta de paisagens deslumbrantes e abençoada com uma cultura rica em tradições e costumes.

Confira 31 curiosidades sobre a Itália:



1. A Capital da Itália é a cidade de Roma, o terceiro destino turístico que mais recebe estrangeiros na Europa.

2. Além do italiano, que é a língua oficial do país, algumas localidades falam dialetos como o vêneto e o napolitano.

3. A cidade de Milão, na Itália, é considerada um dos mais importantes centros da moda de luxo no mundo, sendo sede de grifes consagradas como Valentino, Gucci, Versace, Prada, Armani e Dolce & Gabbana.

4. Os ônibus urbanos e os trens italianos não possuem cobradores. É preciso comprar a passagem antes de embarcar no transporte coletivo.

5. Não é permitido o trânsito de carros nos centros históricos das cidades italianas.

6. Viajar a partir da Itália é fácil. Existem ônibus noturnos que saem da Itália com destino direto à França.

7. Os panetones foram criados no século XVII, na região da Lombardia.

8. A mortadela, tão famosa no Brasil, é um embutido italiano.

9. A atriz Sophia Loren foi eleita pelos italianos como a rainha da mortadela.

10. A Itália é o oitavo país do mundo com mais qualidade de vida.

11. Hoje, a Itália tem o Euro como moeda, mas o país costumava usar a Lira italiana.

12. A região metropolitana de Milão tem 2,7 milhões de habitantes.

13. A maior parte da população italiana é católica.

14. São Benedito, Santa Cecília e São Francisco de Assis são santos italianos bastante admirados pelos católicos brasileiros.

15. Os italianos comem brioches no café da manhã.

16. A pizza Margherita tem as cores da bandeira italiana: o verde do manjericão, o branco da muçarela e o vermelho do tomate.

17. A Itália tem o único museu do mundo dedicado à máfia.

18. A bandeira da Itália é carinhosamente chamada de “tricolor”.

19. As cores da bandeira nacional da Itália representam os valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

20. A Fiat é uma montadora de veículos italiana.

21. O Brasil ainda conserva muita coisa da cultura italiana nas cidades serranas do Rio Grande do Sul.

22. Mais de 25 milhões de brasileiros têm origem italiana.

23. A cidade de São Paulo também possui uma forte colônia de italianos.

24. Os imigrantes italianos também se espalharam por países como Estados Unidos e Canadá.

25. O time de futebol Palmeiras, de São Paulo, foi fundado por italianos.

26. A Itália já esteve presente em seis finais de Copa do Mundo.

27. Todos os filmes que passam nos cinemas italianos são dublados.

28. A Itália ainda tem poderosas organizações da máfia pelo país, e esses grupos exigem propinas de comerciantes locais.

29. Existem roteiros turísticos para conhecer a história da máfia na Sicília.

30. O aborto é legalizado na Itália e pode ser feito até a décima terceira semana de gestação.

31. Os italianos são adeptos do slow food, movimento de oposição ao fast food americano. Os italianos valorizam muito o preparo e o sabor das refeições.

Even Thinking About Nearby Smartphones or Tablets May Disrupt Kids' Sleep

By Kathryn Doyle
(Reuters Health) - Children and teens with access to tablets and smartphones at night don't get enough sleep and are sleepier during the day, whether or not they use the devices, according to a new review.
The review of 20 previous studies found kids using portable media devices around bedtime were more than twice as likely as kids who didn't use them to have short sleep times, but so were kids who had access to such devices at night but didn't use them.
"A lot of people argue that it's the device light emission that leads to sleep outcomes, but even if you're not using it, even having the presence of the device near you affects sleep," said lead author Ben Carter of King's College London.
"My personal view is it's due to continuous stimulation from things like social media engagement," and that there may be a similar relationship with adults, Carter told Reuters Health.
"Your social group is active and you can be thinking about it," he said. "If I text a loved one an hour before bed then I'm hoping I might get a reply."
The reviewers included studies of children aged 6 to 19 years that measured exposures to portable media like tablets and smartphones, but excluded studies that looked at television, personal computers or sources of electromagnetic radiation. In total, the included studies covered more than 125,000 children.
Bedtime media device use was consistently linked to difficulty falling asleep or staying asleep and poor daytime function due to sleepiness. Bedtime device use was also tied to insufficient sleep times of less than 10 hours per night for children and less than nine hours for teens.
Kids with bedtime access to these devices at least three times a week around bedtime, or with a device in the sleep environment, also had poorer measures of sleep quality and quantity than kids with less or no access, according to the results in JAMA Pediatrics, October 31st.
"It's normal to wake up during the night but when the phone is there, many people instead of just turning over will tap on the phone ostensibly to check the time, will see 15 text messages from their buddy or whatever, then 2 hours later they're going back to bed," said Dr. Charles Czeisler, director of the Sleep Health Institute and chief of the Division of Sleep and Circadian Disorders at Brigham and Women's Hospital in Boston.
"It's very engaging technology and when it's present in the bedroom it reduces sleep duration," said Czeisler, who coauthored an editorial alongside the review.
Two-thirds of teens leave a device on while sleeping in bed at night, and turning the device off or moving it to another room can make a big difference, he told Reuters Health.
"Device use is ubiquitous and they are hugely beneficial in some cases," Carter said. "However we need to recognize that there are negative consequences of some device use."
Some devices can be programmed to switch off at a certain hour, which Carter would strongly encourage, he said.
Poor sleep has been tied to many health outcomes, among them dementia, Carter noted. "Sleep is an exposure that we take for granted, is free and we don't take enough notice of it."

sábado, 29 de outubro de 2016

A última noite de Mary Stuartp


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Reportagem

A última noite de Mary Stuart

Fevereiro de 1587. A rainha da Escócia será executada por ordem de sua prima Elizabeth da Inglaterra. Diante da morte iminente, a soberana recapitula sua vida, dedicada a combater a Reforma protestante e zelar pela fé católica na Grã-Bretanha

A última noite de Mary Stuart

Pascal Marchetti-Leca
Museu do Lovre/ (c) RMN /Jean-Gilles Berizzi/ Other Imges
Mary Stuart (à dir.) no momento em que foi levada para a execução. Óleo sobre tela de Philippe Jacques Van Bree, século XIX
Amanhã não haverá alvorecer. Eu, ao menos, não vou ver o dia amanhecer. Foi o desejo de Deus que chegasse ao fim esse doloroso caminho que foi minha vida. A peregrinação termina por meio de um decreto no último dia 1o de fevereiro, com o selo real de minha prima, Elizabeth da Inglaterra. Esse fim varrerá tanto os sonhos não cumpridos quanto as traições não patentes e as repetidas humilhações. Deo gratias.

Na aurora de minha vida, nada deixava antever o desastre. Para ser rainha, me bastou nascer, em 9 de dezembro de 1542, no castelo de Linlithgow. Mas já naquela época a calamidade se preparava para dissipar a bem-aventurança. Eu mal tinha aberto os olhos, e morria meu pai, Jaime V da Escócia, confirmando a perturbadora profecia: “A coroa nos veio por uma mulher, e com uma mulher ela nos deixará!”.

Soberana no berço, eu tinha um corpo frágil, que se tornou de imediato objeto de tratativas políticas. Meu real parente, Henri que VIII da Inglaterra, se apressou a pedir a mão da herdeira perfeita para seu filho caçula, o príncipe herdeiro Eduardo. Em nosso meio, nada como um casamento para transformar hostilidade em concórdia. O sangue dos Stuarts e o dos Tudors mesclados para comandar o destino do mundo!

Interveio aí a perspicácia de minha mãe, a católica Maria da Lorena, herdeira dos Guises. Temendo a ideia de delegar os cuidados de minha educação a heréticos, ela preferiu se voltar para a França e, com o apoio dos papistas, promoveu negociações com sua terra natal para propiciar a minha fuga. Em 7 de agosto de 1548, eu embarquei no galeão de velas brancas.
Reprodução
Mary Stuart ao lado de seu primeiro marido, o rei Francisco II da França. Óleo sobre madeira de François Clouet, 1559
Fui recebida como uma pequena rainha em terras francesas, onde houve festejos, salvas e vivas. Foi lá que conheci o lívido príncipe que me tinha sido destinado por esposo: Francisco, o herdeiro do trono dos Valois. Daquele momento em diante, nossos destinos estavam para sempre unidos. Em 24 de abril de 1558, os noivos adolescentes se ajoelharam diante do altar de Nossa Senhora e desempenharam a representação da cena de dupla grandeza monárquica para a qual tinham sido mecanicamente preparados.

Ao me tomar por esposa, Francisco II fez de mim sua rainha. Ao lhe dar minha mão, eu oferecia a ele a coroa da Escócia.

A França me ensinou a civilidade dos prazeres, a sutileza intelectual, o refinamento das maneiras que, ainda hoje, faltam à nossa miserável Escócia, petrificada pela rudeza. Não me desagradou descobrir como se pode ser concomitantemente uma dama e uma alegre, sensual, elegante e humanista esposa.

Em 6 de dezembro de 1560, eu vesti luto por meu marido Francisco II. Minha sogra Catarina de Médici, que o meteórico casamento do filho havia eclipsado, foi novamente alçada a seus direitos dinásticos.
Galeria Nacional de Retratos, Londres
Amargo retorno: depois de 13 anos de ausência, Mary volta para sua terra natal e encontra uma Escócia hostil. Gravura, autor desconhecido, 1893
Como é que eu, Mary Stuart, princesa de sangue real, e até a véspera rainha da França, teria podido aceitar viver à sombra de uma arrogante filha de mercadores? Viúva real, talvez, mas sempre rainha. Com a morte na alma, atravessaria o oceano de volta, para garantir o único bem que me parecia inalienável: a coroa da Escócia.

Eu estava enganada. Lordes e barões nunca recuaram diante da oportunidade de uma traição – minha defunta mãe sentiu isso na carne, mas até seu último suspiro ateve-se à fidelidade à Igreja romana. Para mim, a deslealdade tornou-se algo familiar.

Deixei a França com fausto e pompa, para chegar em casa em 19 de agosto, um ambiente hostil. As delicadezas com as quais havia me acostumado se perderiam sob a indigência de uma terra que, depois de 13 anos de ausência, me considerava uma completa estrangeira. Fui para o castelo de Holyrood, que, às portas de Edimburgo, tornava-se minha residência.

A rainha da Escócia não era bem-vinda em seu próprio reino. Para se apoderar dos bens da santa Igreja e usurpar o poder real, os lordes escoceses haviam cedido à Inglaterra e se devotado ao calvinismo. Eles formaram uma barreira fatal à minha autoridade de soberana católica.
Ante tantas alianças contrariadas, como eu, sozinha e mulher, poderia resolver uma situação tão delicada? Com um novo casamento, disse a mim mesma.

Depois de um exame do mercado matrimonial político, minha escolha recaiu sobre um primo, o primeiro príncipe de sangue dos Tudors: Henry Darnley. Contra todas as expectativas, aquele jovem soube comover meu coração, e decidi elevá-lo à dignidade de rei consorte, título que ele obteve em 25 de junho de 1565, ao colocar a aliança em meu dedo, na capela de minha fortaleza.

Infelizmente, o cortesão perfeito se tornou rapidamente altivo. Em 9 de junho de 1566, os canhões de nosso castelo de Holyrood ribombaram, anunciando a chegada ao mundo do herdeiro que oferecíamos à Escócia, mas nem isso tirou nossa união do rumo do desastre. Henry se irritava com todos os que, cercando minha pessoa, faziam sombra a suas prerrogativas de esposo. Ferido em seu orgulho conjugal, esse insolente chegou ao cúmulo de conspirar contra mim. Na aterradora noite de 9 de março de 1566, mandou apunhalar diante de meus olhos o menestrel que eu havia ordenado com o grau de conselheiro, David Riccio. Nunca mais nós voltaríamos a nos entender.
Galeria Nacional Escocesa de Retratos
James Hepburn, o “urso letrado” a quem a rainha delegou a tarefa de assassinar o marido. Óleo sobre madeira, artista flamengo, 1566
Onde, então, buscar socorro? A quem poderia eu dedicar uma confiança tantas vezes traída? Obtive a resposta nos traços do guerreiro que outrora havia emprestado seu braço forte à resistência que minha mãe opunha aos lordes da Congregação: James Hepburn, conde de Bothwell. Quase cavaleiro, quase fora da lei, aquele urso letrado conhecia a arte de somar a astúcia à força.

Sua máscula segurança venceu todos os meus princípios, e meus sentidos lutaram em vão para conter o caudal de uma moral em dispersão. Naquele momento, só o que me importava era sua satisfação. E, para Bothwell, não podíamos mais esperar: era preciso nos livrarmos de meu marido. Apesar de ser incapaz de fomentar um complô, tampouco fiz algo para impedir o atentado em 10 de fevereiro de 1567, que roubou a vida do rei da Escócia.

A voz do povo se fez de imediato ouvir, e não tardou para que todas as fachadas de Edimburgo ficassem cobertas de galhofas. Eu me emparedei em silêncio, que aos olhos da Escócia e de outras nações sugeria minha culpa. Ao anúncio de meu necessário casamento com alguém tido como o assassino do rei da Escócia, saltava aos olhos essa culpa, como um insulto.

Os senhores se sublevaram, e, em 15 de junho de 1567, as tropas reais desertaram. Fiquei prisioneira no castelo de Lochloven e fui obrigada a abdicar em favor de um filho demasiado jovem para reinar.
Quando tudo parecia perdido, ergui a cabeça. Menos de um ano depois de minha detenção, consegui ludibriar a vigilância de meus carcereiros e buscar asilo junto de minha eterna rival, Elizabeth da Inglaterra, que me mantém cativa há cerca de 20 anos.

Por instigação dela, a infâmia de um processo – capciosamente chamado de “conferência” – me foi infligida, a fim de deixar patente ao mundo a responsabilidade que eu porventura poderia ter no assassinato de meu esposo. Contrariamente à promessa que me tinha feito, de não atentar contra minha honra, os versos e cartas que eu havia escrito a Bothwell foram trazidos para figurar das discussões.

Minha prima nunca poupou mesquinhez, intriga e humilhação. E minha Impetuosidade serviu de desculpa para seu ressentimento. Só lamento esse traço parcialmente, porém: para ser rainha, teria sido preciso ser menos mulher. Meu coração se incendiou como um pedaço de estopa, mas essa ousadia, que foi minha perdição, também me valeu um bom número de adeptos.

Estará Elizabeth ainda rindo de mim? Que me importa! Não me envergonho. Meu único crime é minha posição, minha verdadeira ofensa é meu título. Como ela ousa me pôr a perder, perderá mais que eu. Seu nome ficará para sempre manchado. A história fustiga a impostura e reabilita o justo. Um dia – quem sabe? – meu filho reunirá as duas coroas, que de maneira tão ávida disputaram comigo. Assim, não cederei ao miserável triunfo de minha prima e de suas reformas doutrinárias.

Não será como pecadora contrita que caminharei para o cadafalso, mas como uma autêntica soberana. Na hora derradeira, no grande salão de Fotheringhay, eu sei que Deus me ajudará a enfrentar o suplício com dignidade, sem falhar. Se em vida eu nem sempre compreendi tudo, de minha morte não quero ignorar nada. Quero adentrá-la com os olhos abertos, um crucifixo nas mãos e dois rosários à cintura. Até o fim, permanecerei surda aos ventos heréticos do calvinismo. Castelo de Fotheringhay, 7 de fevereiro do ano da graça de 1587.
Galeria Nacional de Retratos, Londres
O herdeiro: em 1603, Jaime I realizou o sonho de sua mãe ao reunir as coroas da Escócia e da Inglaterra. Óleo sobre tela de Daniel Mytens, 1621

E a história seguiu seu curso...

O filho de Mary Stuart foi coroado rei da Escócia com 1 ano de idade, em 1567, chamado de Jaime VI. Em 1603 tornou-se soberano da Inglaterra e da Irlanda, como Jaime I. Governou longamente os ingleses, até 1625, como era o desejo de sua mãe.

A disputa entre católicos e protestantes continuou na Inglaterra e na Escócia de Mary Stuart. Seu filho Jaime, ao tomar o poder, tentou transformar a religião anglicana da Inglaterra em algo mais próximo do catolicismo e mais distante do calvinismo.

Nessa área religiosa, porém, nunca houve um vitorioso. Hoje, no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte), há cerca de 20% de católicos, igual proporção de anglicanos, cerca de 40% de presbiterianos, metodistas, batistas e outros cristãos, 17% de islâmicos e o restante de sikhs, hinduístas, judeus e adeptos de outras religiões.
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ESTUDO COMPORTAMENTAL SOBRE A VAIDADE

A vaidade: interação complexa entre biologia e cultura

 
A vaidade corresponde a um dos aspectos mais intrigantes da nossa biologia. Nos excitamos sexualmente de diversas formas, sendo a mais evidente a que acontece por meio de estímulos tácteis nas zonas erógenas. Elas podem ser tocadas pela nossa mão e também por qualquer parte do corpo do parceiro com o qual estejamos trocando carícias. Nos excitamos ao imaginarmos determinadas situações e, principalmente nos homens, ao observarmos corpos que nos são atraentes. Também sentimos uma excitação difusa de natureza erótica ao nos percebermos como objeto da admiração, interesse ou desejo de outras pessoas. A excitação pode surgir de forma espontânea, especialmente durante os anos da infância; a partir de um certo momento, passamos a fazer esforços ativos para nos destacarmos para que a agradável sensação de excitação volte a se manifestar.
As primeiras manifestações espontâneas acontecem lá pelos 5-6 anos de idade: ao ganharmos algum adorno especial (jóia, relógio) nos sentimos possuídos por uma sensação difusa agradabilíssima. A sensação se renova ao nos exibirmos para cada nova pessoa (que deverá manifestar espanto e encantamento diante do que vê). Ao fenômeno natural, biológico (parte do instinto sexual, cujas peculiaridades mais íntimas desconhecemos), associa-se uma percepção racional: a criança reconhece naquela ação um prazer, de modo que passa a buscá-lo ativamente. O que acontecia de forma natural agora passa a ser buscado de forma deliberada e intencional.
Com a chegada da puberdade nossa sexualidade se exalta. O mesmo acontece com o prazer exibicionista. Rapazes e moças se apercebem que o prazer exibicionista é muito importante e está presente em quase todas as ações dos adultos. Todos buscam algum tipo de destaque, sempre com o objetivo de atrair olhares de admiração, condição necessária para o surgimento da excitação sexual difusa que ganha o nome de vaidade. As mulheres se vestem de forma provocante com o intuito de atrair olhares de desejo dos homens. Estes praticam cada vez mais esportes com o intuito de estarem de acordo com os padrões estéticos. Os padrões masculinos variam muito mais em função da cultura: há cem anos uma certa “barriga” era tida como sinal de prosperidade (e fonte de admiração); hoje, a barriga é sinal de desleixo e até mesmo de uma certa condição sócio-cultural inferior. É relevante assinalar que a beleza e sensualidade femininas sempre foram valorizadas, ao passo que os critérios de valorização masculina dependem muito mais do momento histórico que se considera.
Dessa forma, uma manifestação aparentemente ingênua do nosso instinto sexual se transforma em variável extraordinariamente importante para a construção de todo o tipo de ordem social. Algumas pessoas nascem mais bonitas, mais inteligentes, com maior habilidade para a dança, para a música, para a prática de atividades esportivas. Mesmo sem se esforçarem, chamam a atenção dos demais e se destacam. Estas diferenças são inatas e não dependem da época ou da sociedade que está sendo avaliada (a não ser no que diz respeito aos critérios de beleza). Elas são próprias da nossa biologia. Dentre aqueles que se reconhecem pouco dotados pela biologia surgem alguns que se insurgem contra a falta de sorte. Farão de tudo para tentar reverter a situação desfavorável à qual foram destinados pela biologia. Nasce assim a ambição, “filha” pródiga da frustração por não se sentir atraente o suficiente para despertar olhares capazes de atiçar a excitação difusa da vaidade.
Não é absurdo supor que uma boa parte do que nós humanos construímos foi com o intuito de melhorarmos nossa posição perante os olhos dos “outros” (e em especial do sexo oposto). Usamos todos os recursos disponíveis com o objetivo de nos destacarmos, condição recompensada pela excitação erótica difusa. Os mais bem sucedidos, provavelmente os mais inteligentes, geraram um conjunto de conhecimentos que se desdobraram em mudanças dramáticas em nosso planeta e nas relações entre as pessoas. Produziram o que chamamos de cultura.


Vaidade, agressividade e inveja

 
Estamos tratando de um dos aspectos mais intrigantes da nossa condição: nascemos diferentes uns dos outros e vivemos numa sociedade onde, inexoravelmente, algumas propriedades serão mais valorizadas do que outras.
Os critérios de beleza poderão variar de uma sociedade para a outra, de uma época para a outra. Porém, sempre algumas pessoas serão tidas como mais belas; e elas sempre serão poucas, visto que o que é menos frequente chama mais a atenção.
A inteligência sempre será valorizada e, quando especial, criará facilidades para a vida prática de seus portadores. O mesmo vale para o vigor físico, para dotes artísticos especiais, para a facilidade no trato com as pessoas etc.
Mesmo em um contexto ideal, no qual a competição não seja estimulada e seja até mesmo desencorajada, penso que a questão da comparação das pessoas entre si tenderia a ocorrer, gerando desconforto e humilhação em algumas das que se sentissem menos favorecidas.
Acredito que num ambiente não competitivo muitas pessoas não se sentiriam tão prejudicadas por não serem portadoras de prendas excepcionais (o oposto do que acontece em sociedades como a nossa de hoje, onde a ambição, mesmo desmedida, é tida como virtude).
Talvez fosse possível observar mais atentamente até mesmo o lado negativo daquilo que é muito valorizado: mulheres muito bonitas se acostumam a chamar a atenção por esta via e, com frequência, se tornam displicentes no cultivo de outras prendas; a vida é longa, a beleza é efêmera e talvez tenham uma maturidade e velhice mais sofrida do que aquelas que nunca apostaram muito em sua aparência física. Este é apenas um exemplo, mas poderia ser estendido para outras propriedades muito valorizadas.
Ainda que em menor intensidade e envolvendo um menor número de pessoas, é provável que algumas pessoas se sentissem prejudicadas pelo fato de não terem sido as “eleitas” para serem portadoras de tantas prendas. Ao se compararem, sentirão a dor típica da ofensa à vaidade que é a humilhação. Sentir-se-ão agredidas pela simples presença daquelas virtudes no interlocutor. Reagirão com a agressividade típica deste tipo de mecanismo que chamamos de inveja: farão algum comentário depreciativo, desprezando justamente aquilo que gostariam de ter; farão com humor para disfarçar a sensação de inferioridade que está embutida em toda ação invejosa. A agressividade sutil dirigida contra pessoas que nada fizeram, a não ser existirem e serem como são, é a marca registrada da inveja.
Penso que é quase impossível que a inveja não exista. As pessoas teriam que ter a docilidade de aceitar sua condição sem nenhum tipo de frustração. Teriam que viver numa sociedade que não privilegiasse virtudes excepcionais e sim as de caráter democrático, acessíveis a todo o mundo. Teriam que, ao se comparar com as outras pessoas, não construir uma hierarquia: teriam que se reconhecer como diferentes e não como superiores ou inferiores. Este seria o mundo ideal, onde as pessoas seriam amigas e solidárias: estamos mais próximos do fim dos tempos do que dele.
O que não tem o menor sentido é atuarmos, consciente e deliberadamente, no sentido inverso, na direção de estimularmos a vaidade, a competição e, portanto, a rivalidade e a hostilidade entre as pessoas.
Não sei se todas as pessoas são plenamente conscientes, de modo que vale o alerta: não se trata de um caminho obrigatório, pois não somos assim escravos da nossa biologia. Podemos amenizar ou estimular uma dada predisposição que faça parte de nossa natureza. Estamos no sentido inverso, transformando as pessoas em inimigos, rivais. As pessoas estão cada vez mais solitárias e desamparadas. Quanto mais fracas emocionalmente estiverem, mais serão escravas das “felicidades” aristocráticas, por meio das quais se sentem momentaneamente importantes.
O círculo vicioso que estamos vivendo é terrível e já temos claros sinais de para onde é que estamos nos dirigindo.

Vaidade, Importância e Utilidade


A reflexão sobre a interferência da vaidade no modo como avaliamos as pessoas e as funções que elas exercem na sociedade merece especial consideração.
No nosso ambiente cultural, as pessoas consideradas importantes são as que conseguem se destacar, chamar a atenção sobre si. O destaque, sabemos, é gerador de um prazer erótico muito valorizado e não são poucas as pessoas que consideram este tipo de conquista como a grande fonte de felicidade. É importante ressaltar que, se isso for verdade, a grande maioria da humanidade está condenada à infelicidade eterna, a arder de inveja e a buscar meios moralmente pouco legítimos para alcançar algum tipo de notoriedade.
O destaque tem muito pouco a ver com a efetiva utilidade daquela dada pessoa na vida em sociedade.
Uma mulher linda que não tenha feito nada de relevante pode ser uma personagem destacada, admirada e extremamente valorizada em seu meio.
O filho de um empresário de sucesso, herdeiro de fortuna à qual não fez por merecer – a não ser pela sorte de ter tido aquele cidadão como pai – pode desfilar pelas ruas com um carrão e chamar a atenção de uma forma espetacular.
Estas pessoas tornam-se famosas e, hoje em dia, são chamadas de celebridades. São admiradas; suas vidas se transformam em fonte de grande curiosidade para as “pessoas comuns”. Passam a representar o sonho de vida dos adolescentes e o modo como são e se vestem é imitado pela grande maioria.
Os malefícios deste tipo de “classificação” das pessoas definido pela competência para chamar a atenção das outras é mais que evidente. Impulsionam os jovens para a busca desenfreada de destaque e os afasta de atividades incrivelmente gratificantes, importantes e úteis.
Aliás, a palavra “importante” acabou relacionada apenas com a notoriedade que o indivíduo consegue obter. Importante é quem se destaca, quem é rico, belo, magro, reconhecido na rua…
Não há, portanto, nenhuma correlação entre importância e utilidade social da atividade exercida pela pessoa. O que fica implícito neste tipo de tratamento é que atividades essenciais à vida em comum passam a ser tratadas como menores, como secundárias. Há uma completa subversão de valores.
Nos dias em que vivemos, o importante é aquele que aparece em jornais, revistas ou blogs. Algumas atividades determinam este tipo de destaque e elas têm, como regra, a ver com certas atividades artísticas ou com assuntos de beleza de interesse de grandes empresas. Afora isso, são famosos os chefes de cozinha, os médicos que estão “na moda”, os arquitetos que fazem obras prestigiadas etc.
Não se trata de desconsiderar estas atividades. O essencial é que existem atividades de extrema valia e utilidade social que não são minimamente valorizadas. O mais triste é que as que não são prestigiadas implicam em remuneração muito menor do que aquelas que trazem a fama. Assim, fama e fortuna caminham juntas.
Um ator de televisão é famoso, prestigiado e muito bem remunerado. O mesmo vale para o cirurgião plástico que consegue alguma notoriedade. Agora, o enfermeiro, o professor de primeiro grau, o policial, a secretária valem muito pouco!
É trágico, porque poucas são as atividades mais importantes e úteis do que as que apontei acima. A pessoa que ensina nossas crianças a ler e a escrever ganha salários irrisórios porque exerce atividades que nossa sociedade não valoriza. Sim, porque o ganho define a forma como a comunidade avalia a relevância de um dado trabalho.
É difícil não se indignar diante de tamanha injustiça.
Não estou depreciando as atividades que geram destaque. Estou tentando transmitir a ideia de que deveríamos prestigiar aquelas criaturas que, sem alarde, cuidam do dia-a-dia dos enfermos, da formação intelectual das crianças, da segurança das nossas cidades e estradas.
Que dizer então dos bombeiros, chamados sempre que catástrofes nos assolam? Ganham algum destaque na imprensa durante aqueles poucos dias em que a tragédia é notícia e depois mergulham no anonimato. Isso não os incomoda e, em todos os países, só têm dado demonstrações de amor e orgulho pelo que fazem.
Tais criaturas, que extraem satisfação intrínseca da atividade que exercem, são portadoras de boa autoestima e muitas são bem mais felizes do que os ricos e famosos. Ainda assim, mereciam um tratamento mais considerado por parte das nossas comunidades

A Vaidade e o Problema dos Outros

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O prazer erótico de caráter exibicionista é um tanto dependente de quem é que está assistindo nosso “show”. O observador não é totalmente irrelevante, já que uma moça sempre preferirá ser olhada com desejo por um homem que ela valorize do que por um outro que não seja diferenciado (segundo os critérios dela).
Em todos os casos, se as pessoas que estiverem nos olhando tiverem uma reação negativa, padeceremos da terrível dor da humilhação ao passo que, se manifestarem admiração e respeito, nos sentiremos elevados, estimulados e sexualmente um tanto excitados.
Dependemos, pois, da reação das outras pessoas (os observadores).
Não há como desconsiderar o fato de que nosso estado de alma é muito influenciado pela forma como nossa pessoa – ou algo que tenhamos feito – será recebida.
Isso explica considerações que as famílias sempre fizeram aos seus filhos adolescentes acerca da importância de terem um comportamento compatível com a opinião média dos vizinhos. Quem nunca ouviu ou pensou sozinho acerca “do que é que os outros vão falar ou pensar a nosso respeito”?
Quanto mais dependemos da opinião dos outros para nos sentirmos bem, menor será nossa liberdade individual. Pensaremos duas vezes antes de tomarmos alguma atitude menos comum.
Pensaremos na repercussão que nossos atos, nossa forma de vestir e até mesmo nossos pensamentos terá sobre os outros. Os outros passam a ser nossos juízes, aqueles que julgarão se somos ou não criaturas legais, dignas.
A vaidade nos leva, pois, a uma situação muito delicada na qual nós somos os juízes dos outros e os outros serão os que irão dizer se somos ou não criaturas válidas.
Quanto maior a vaidade, maior a dependência que temos das outras pessoas. Assim, os outros se transformam nos “OUTROS”, observadores todo-poderosos aos quais devemos obediência.
O paradoxo é inevitável: para chamar a atenção deles temos que nos destacar, nos diferenciar. Se o fizermos de uma forma inaceitável, segundo os critérios deles, seremos objeto de chacota e ironia. Como fazer? Onde encontrar coragem para arriscar e correr o risco de desagradar os OUTROS?
Na grande maioria dos casos, a questão se resolve apenas no plano da quantidade e não da qualidade. Ou seja, as pessoas buscam o destaque pela via da aquisição de uma quantidade maior de algo que seja valorizado por todos.
Terão mais dinheiro, mais conhecimento, serão mais magras, mais belas (e recorrerão aos melhores cirurgiões para chegar a isso), mais viajadas etc.
Usarão roupas caras e terão muitas delas. Não usarão, porém, aquelas que não sejam aprovadas pela maioria, as que não possuem uma grife (certificado de garantia de que se trata de algo precioso).
Terão muitos carros, muitos relógios, farão dietas incríveis e dirão que são magras “por força da natureza”. A política do destaque será regida pelo lema “mais do mesmo”. As pessoas poderosas têm, portanto, muito das mesmas coisas; e são admiradas por isso. Destaque sem risco de decepcionar OS OUTROS e serem objeto de rejeição e humilhação.
É claro que uma pessoa pode ser mais corajosa e tentar se destacar por ser, agir e pensar de uma forma original. Quase sempre será objeto de reações variadas e dificilmente agradará a todos os observadores.
Será tida como pessoa extravagante e talvez desperte mais inveja pela coragem do que pelo modo de se comportar.
Nossas sociedades permitem uma cota maior de originalidade aos artistas e a alguns intelectuais, criaturas responsáveis pelas inovações. Sim, porque a busca de destaque pelo caminho apenas de ter mais do mesmo não leva a nada de novo (o que acabaria por determinar a estagnação geral).
Sabemos que existem algumas pessoas com mais coragem para se exibir de forma incomum mesmo sem serem portadoras de grandes talentos. São poucas e, principalmente na adolescência, acabam se filiando a alguma “tribo” minoritária, passando a agir de acordo com o padrão daquele subgrupo.
O desejo de destaque é grande e na falta de criatividade acabam por se integrar numa turma onde a originalidade é duvidosa e a extravagância é um objetivo em si mesmo. Penso que os “punks” são um bom exemplo disso. Não é essa a liberdade que me encanta. A que me encanta é a de não abrirmos mão de nossas convicções mesmo se venhamos a bater de frente com a opinião dos OUTROS.
Ou, como dizia Santo Agostinho, que reconhecia, é claro, a presença da vaidade em si mesmo: “entre a vaidade e a verdade eu não tenho dúvidas acerca do caminho a escolher”.

Vaidade e agressividade


Comecei a me aprofundar nas questões da vaidade há muitos anos. Porém, parece que só agora sou capaz de compreender a dimensão agressiva embutida neste prazer erótico que todos temos de nos exibirmos, atrairmos olhares de admiração ou de desejo.
Gastamos tempo e energia consideráveis com o objetivo de chamar a atenção das pessoas em geral – até mesmo daquelas que nos interessam pouco. Nos preocupamos muito com nossa aparência física e os mais displicentes sabem que também se destacam por agirem da forma como agem. Gostamos de exibir nossas conquistas materiais, nossos sucessos profissionais, artísticos, esportivos etc.
Muitos de nós têm prazer genuíno naquilo que fazem (trabalho, esporte ou qualquer outra atividade) e sentem crescer sua autoestima (juízo que uma pessoa faz de si mesma em função de estar agindo de acordo com suas convicções). Porém, os prazeres derivados da vaidade (que depende do juízo que “os outros” fazem de nós por estarmos de acordo com as convicções deles) raramente são secundários.
Vivemos nos comparando e quando nos sentimos menos do que “os outros”, segundo algum item, imediatamente nos sentimos humilhados. A humilhação é a dor derivada de nos sentirmos por baixo, perdedores no jogo exibicionista. Fugimos da humilhação porque é uma das maiores dores que podemos sentir.
Estamos expostos ao risco deste sofrimento porque vivemos numa sociedade que estimula de maneira desmedida todas as formas de competição e todo o tipo de sucesso que só pode ser atingido por um pequeno grupo de pessoas.
Chamo de “felicidades aristocráticas” – beleza, riqueza, inteligência ou dotes esportivos excepcionais – as propriedades raras e que condenam à infelicidade e à humilhação a grande maioria da população. Na verdade, mesmo quem tem inteligência excepcional pode se sentir frustrado por não ser tão bonito e se tornar uma pessoa extremamente ressentida.
Ou seja, numa sociedade assim competitiva e estimuladora da ambição (que nos levaria a atingir resultados extraordinários capazes de chamar a atenção dos outros cidadãos), praticamente todos nós nos sentimos por baixo (humilhados) em algum aspecto “essencial”. Somos todos movidos pela competição e estamos todos frustrados porque achamos que a cota de privilégios que recebemos é insuficiente.
Nos tornamos rancorosos, amargurados e com sede de vingança: usamos nossas prendas, nossas facilidades (inteligência, beleza, destreza verbal, “cara-de-pau” ou o que seja) com o intuito de nos vingarmos daqueles que nos humilham com as “qualidades” que não possuímos.
O fenômeno é quase universal: todo o mundo fica com raiva de todo o mundo. Todos aqueles que podem sentem a humilhação e tratam de se vingar exibindo seus dotes.
Muitas meninas, quando crianças, acham que o legal é ser menino e se sentem frustradas e prejudicadas pelo destino. Quando, na adolescência, se tornam atraentes aos olhos dos rapazes, transformam seu poder sensual em arma, humilhando aqueles que agora estão a seus pés.
Meninos delicados, objeto de humilhação durante a infância porque eram mais baixos, porque eram gordinhos ou menos competentes para as práticas esportivas, descobrem que são particularmente inteligentes e dotados para os estudos. Transformam seus dotes em arma, humilhando quem os humilhou com seu saber e com o sucesso que podem atingir pela via do conhecimento.
O triste é constatar que nossa sexualidade (da qual a vaidade é parte essencial) se compromete com elementos agressivos de uma forma quase que irrecuperável.
Homens e mulheres vêm se digladiando de uma forma brutal em prejuízo de todos. A associação é tão radical que muitos casais, que efetivamente se amam, mal conseguem ter um relacionamento sexual básico (o sexo acoplado à agressividade se distancia da ternura que reina entre os que se curtem).
Triste também é constatar que o universo do conhecimento, tão importante para nosso bem-estar quanto a sexualidade, também se contamina com a agressividade, condição na qual os erros poderão se suceder de uma forma dramática. Não espanta que num mundo constituído desta forma, estejamos a um passo da autodestruição total.
Considero essencial aprofundarmos a reflexão acerca da vaidade, da competição, da ênfase que temos dado às qualidades excepcionais que só uns poucos podem ter (em prejuízo de outras que poderiam fazer parte do modo de ser de todos, como é o caso das virtudes de caráter, a disciplina, a competência sentimental etc.), de quanto tudo isso é, de fato, inexorável.
Sim, porque vivemos numa época em que se atribui tudo à seleção natural, às disputas para que os mais fortes reproduzam mais e gerem descendentes mais e mais violentos. Ao tratarmos isso como inevitável, teremos que constatar que tais processos, que estavam a serviço do aprimoramento e perpetuação da nossa espécie, agora serão os que nos levarão ao fim dos tempos.

Amor, Admiração e Vaidade


Tenho descrito o amor como o sentimento que temos por aquela pessoa especial junto da qual nos sentimos em paz, em harmonia, aconchegados. O fenômeno, na fase adulta, reproduz o que experimentamos em relação à nossa mãe durante os primeiros tempos de vida; ela foi o nosso primeiro objeto do amor. Durante a vida adulta, escolhemos nossos parceiros segundo os valores que admiramos. Aqui começam os problemas, pois os critérios de admiração dependem de cada fase da vida e podem não se perpetuar; ou seja, aqueles que nos encantam aos 20 anos de idade podem não mais ser muito valorizados 15 ou 20 anos depois.
Quando mudam os critérios de admiração, muda o encantamento que sentimos por quem amávamos e muda também o tipo de pessoa que irá nos encantar daqui para a frente. Assim, não é nada fácil o amor perdurar ao longo de toda a vida, especialmente aqueles que se estabeleceram durante os primeiros anos da vida adulta, época em que todos ainda estão vivenciando profundas transformações em seus critérios e valores. Encantamentos mais tardios têm mais chance de serem duradouros. Vale registrar que basta um dos dois parceiros alterar seus critérios de admiração para que o relacionamento possa entrar em colapso; a única chance de longevidade dos relacionamentos em uma época como a nossa, em permanente mutação, é quando ambos evoluem em grande sintonia e se modificam segundo os mesmos valores.
Muitos jovens admiram aqueles que, sendo mais bonitos e populares, despertam o entusiasmo das outras pessoas. Buscam se aproximar sentimentalmente deles em função de admirá-los; porém, é importante perceber um componente de vaidade envolvido nesse processo: estar ao lado de alguém muito valorizado pelos outros membros do grupo é algo que faz com que aquela pessoa se sinta igualmente valorizada. Ou seja, o prestígio da pessoa aumenta – ou diminui – em função do parceiro ao qual se acopla sentimentalmente.
Fica claro que os critérios de admiração têm relação íntima com a vaidade, com o quanto a pessoa se sentirá elevada por ter sido a escolhida por aquele dado parceiro. Uma escolha sentimental composta por esse tipo de ingrediente tem enorme chance de ser equivocada, uma vez que os critérios usados são um tanto superficiais e dependentes da aprovação dos “outros”. A vaidade, esse prazer erótico de se destacar, chamar a atenção e atrair olhares de admiração, se intromete em todas as nossas ações e emoções; sua intromissão no fenômeno amoroso é intensa, intermediada pelos nossos critérios de escolha e costumam gerar mais equívocos do que acertos.
Melhor seria escolhermos alguém com quem nos damos bem, com quem, entre 4 paredes, nos sentimos felizes e realizados; as parcerias sentimentais servem antes de tudo para atenuar nosso desamparo; destacar-se por estar ao lado de uma pessoa valorizado aos olhos dos outros pode ser legal, mas como um ingrediente a mais e não como algo essencial. Esse deve ser o papel da vaidade em nossas vidas: algo que nos faz bem, mas que não deve ser preponderante nos processos de escolha.
A influência da vaidade no amor também se manifesta na intimidade de um casal apaixonado. Aqueles que se encontram, se envolvem e percebem que possuem enormes afinidades tanto de caráter, gostos, interesses e projetos de vida desenvolvem um elo de enorme intensidade. É tão forte que parece único, algo que ninguém experimentou antes, algo excepcional. E isso também é vaidade!
Os casais apaixonados, aqueles cujos critérios de admiração se voltaram para o que têm em comum – o que indica melhora da autoestima – costumam incensar o amor que vivem e também um ao outro: “você é a pessoa mais incrível que eu conheci”; “tenho você, de modo que não preciso de mais nada”; “eu sem você não sou ninguém”; “não existe amor maior que o nosso”… Compõe-se um ambiente em que ambos se elogiam com constância e regularidade; o discurso é repetitivo e beira o ridículo.
A gratificação da vaidade que acontece pela existência do elo amoroso intenso é tal que parece prescindir de qualquer outro tipo de reforço. O casal passa a se bastar e serem admirados pelos outros se torna irrelevante. Estão tão plenos, tanto de aconchego quanto de alimento para a vaidade, que podem pensar em abandonar suas vidas anteriores, amigos, trabalho, bens materiais. Uma casinha simples no meio do mato parece mais que suficiente para que possam viver livre e intensamente o amor que nutrem um pelo outro. Felizmente não costumam realizar esse sonho, condenado ao fracasso pela falta de outros estímulos também essenciais.

Vaidade, ambição e inteligência


Sempre me intrigou o fato de que a maior parte das pessoas mais inteligentes que tenho conhecido são portadoras de uma vaidade muito maior do que a da maioria das pessoas. É claro que existem falhas nesta avaliação subjetiva, até porque não temos meios efetivos de quantificar a vaidade (e a própria avaliação da inteligência nem sempre é muito precisa).

A ambição também parece guardar alguma relação com a inteligência: pessoas mais dotadas sonham com posições mais altas para si; o fazem por se sentirem competentes para disputá-las e também porque parecem precisar muito deste tipo de “alimento” para a vaidade.
Pessoas mais inteligentes e ambiciosas (as que fazem qualquer tipo de esforço – ou eventuais ações eticamente duvidosas – com o intuito de atingir seus objetivos práticos) constituem a elite, aquele grupo que se destaca da média e a quem caberia direcionar a vida em sociedade. Deveriam fazê-lo em nome dos interesses de todos. Sabemos que não agem assim e que só cuidam de seus próprios interesses.
O que também precisa ficar claro é que não cuidam dos interesses dos outros membros da sua casta: pessoas bem sucedidas disputam tudo umas com as outras. Não há solidariedade alguma entre os sócios de um iate clube e todos disputam para saber quem será o proprietário do maior barco.
Há mais solidariedade entre os integrantes de um bairro de periferia do que nos edifícios de luxo.
A elite não é homogênea: existem os mais ricos (empresários, profissionais liberais bem sucedidos, artistas e esportistas destacados etc.) e também os que se destacam pela atividade intelectual (professores de ciências humanas, cientistas, artistas plásticos etc.). Padecem de uma rivalidade entre si, sendo que estes últimos costumam se considerar como humanistas, mais preocupados com os destinos da maioria da população e gostam de se exibir como portadores de um saber superior.
Os ricos não suportam estar em condição de inferioridade em relação a quem quer que seja; os mais voltados para o saber também não!
Assim, ricos disputam entre si e com os intelectuais; os intelectuais disputam entre si e com os ricos (usam as citações bibliográficas, com a mesma virulência com que os ricos usam o dinheiro).
Entre os membros da elite quase não existem amigos. Os mais bem sucedidos vendem a imagem de que são pessoas mais felizes; não é verdade. Uma avaliação acurada mostra que são pessoas que, durante os anos da infância, compreenderam que não eram dotadas da quota de privilégios inatos que gostariam e que não se destacariam de forma automática.
Graças à inteligência privilegiada, passaram a se considerar como altamente desfavorecidas, posto que queriam possuir tudo que é tido como o melhor. Alguns eram mais baixos; outros menos aptos para os esportes; outros ainda portadores de um nariz inadequado; e assim por diante. Usaram suas potencialidades e as transformaram em atividades que também geram destaque, suprindo assim as frustrações que tanto as amarguravam.
A fórmula seria mais ou menos assim: crianças (e depois adultos) frustradas em sua vaidade (já que não chamavam a atenção e se destacavam da forma como acontecia com alguns outros) e portadoras de um tipo de inteligência que não aceita com docilidade suas limitações e imperfeições, desenvolvem uma enorme frustração por não terem sido tão favorecidas pelo destino quanto gostariam. Decidem que irão se empenhar, alguns usando apenas meios lícitos e outros quaisquer meios, para reverter sua condição. A isso se chama de ambição, postura altamente estimulada por nossa cultura (pouco atenta ao caráter duvidoso de sua motivação).
A ambição traz consigo competição, esforços para se destacar que faz com que os bem sucedidos se alegrem quando provocam algum tipo de desconforto (humilhação, inveja) nas outras pessoas. Assim, talvez esta seja uma das vias pelas quais caminhem as piores emoções e as mais nefastas ações que presenciamos em nossa vida social. Se a vaidade estivesse envolvida apenas neste tipo de desastre, já seria uma emoção a ser melhor estudada e compreendida.