Loading...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Religião e Psicologia – acreditar e conhecer

A psicologia da religião é a área da psicologia que estuda os fenômenos religiosos. Não confundir com psicologia religiosa, aquela que defende uma determinada religião.
Olá amigos!
Dizem que existem alguns temas – como a religião – que não podemos discutir. Bem, é claro que uma discussão mal educada nunca vai realmente fazer bem, mas, por outro lado, perdemos a oportunidade de conhecer um outro ponto de vista ou passar a conhecer as crenças mais profundas das outras pessoas por um preconceito social. Afinal, não há nada demais em conversar sobre religião, futebol ou política. Não são os temas que vão criar inimizades, apenas o modo com o qual vamos lidar.

Religião: acreditar e conhecer

Fiz questão de colocar este primeiro sub-título como acreditar e conhecer (e não fé e razão) porque não quero falar da dicotomia entre ciência e religião. Quando falamos que uma pessoa tem fé, geralmente não sabemos muito em que consiste a palavra fé. Talvez possamos dizer: “aquela pessoa tem fé, pois confia e concorda como o que é dito em sua religião”.
Gosto particularmente da palavra alemã para fé, que é Glauben. Glauben significa acreditar. Portanto, quem tem fé é quem acredita. Mas, curiosamente, e talvez para o espanto de alguns, acreditar não exclui de maneira necessária o conhecimento. Pois temos que conhecer para acreditar.
Você conhece a verdade X, logo, você acredita nesta verdade.
Esse é um ponto delicado na crítica às religiões. Dizem que se não tivéssemos tido contato, de uma forma ou de outra, com certos conhecimentos, não teríamos como acreditar. Assim, se você nasceu na Polinésia, é muito improvável de ser xintoísta.
Porém, existem aspectos mais sutis nessa relação em conhecer primeiro para depois acreditar. Pois, segundo Platão, conhecer é reconhecer (é conhecer de novo…) e também podemos inverter a ordem e dizer que conhecemos porque acreditamos, em algo ou alguém.
Por exemplo, embora o método científico faça de tudo para que o argumento de autoridade não seja o critério último de verdade, não raro encontramos pessoas acreditando em uma dita verdade totalmente científica porque o cientista reconhecido disse, apenas para ser desmentido décadas ou séculos depois…
No fundo, o problema reside no que é e como é a verdade (e se há ou não mais de uma verdade).

Psicologia: a verdade da psique

Considero brilhante a análise que Jung faz do nascimento da psicologia no livro A Psicologia da Religião Oriental e Ocidental como tendo tido início na filosofia de Kant. Como sabemos, foi Kant quem utilizou a razão para definir os limites da razão.
A sua epistemologia, belíssima por sinal, coloca um problema que somos herdeiros sem saber: não há como saber, em última instância, sobre a coisa-em-si. Ou seja, independente do objeto que estejamos analisando, o objeto (a coisa-em-si) sempre vai ser uma coisa-para-mim. E, a grosso modo, essa coisa-para-mim vai estar limitada à minha possibilidade de compreensão, meus cinco sentidos e minha capacidade reflexiva.
O problema, no que concerne à verdade da religião, é que a religião trata de fenômenos que extrapolam estes limites. Se nos basearmos apenas no que podemos ver, ouvir, cheirar, tocar e degustar – neste mundo físico (físico vem de physis, natureza em grega) – não veremos almas, nem demônios, nem fantasmas, nem anjos, nem deuses. Teremos que falar de um sexto sentido, de uma intuição, de uma inspiração ou de um conhecimento revelado.
Entretanto, apesar dos limites da nossa cognição, não podemos deixar de observar que toda e qualquer cultura possui estes elementos transcendentes mencionados acima. Como diria Mircea Eliade, é como se a alma, a psique, fosse platônica, vivendo concomitantemente no mundo observável pelos sentidos e em um mundo suprarreal, metafísico, além do físico.
Os críticos da religião, então, afirmariam que isto se deve ao medo da morte, presente em todo ser humano. Esta tese tem até certo sentido, porque os fenômenos transcendentes geralmente tem relação com a morte e a superação da morte (ou imortalidade dos deuses).
Mas ainda fica a questão: como saber o que é verdade? Como conhecer a verdade? Como saber em que se deve acreditar?
Bem, psicologicamente falando, penso que podemos dar duas respostas:
1) Existem pessoas que possuem o tipo psicológico sentimento extrovertido. Elas vão concordar necessariamente com qualquer opinião do meio em que foram criadas. Em certo sentido, elas acreditam naquilo que ouviram desde cedo e realmente concordam com o que ouviram, pois provavelmente nunca ousaram duvidar ou questionar o que foi culturalmente dado.
2) As pessoas mais lógicas, do tipo pensamento, vão questionar e propor questões. Ao contrário do que poderia parecer a princípio, isto não significa descrença. A teologia (e a filosofia) não trabalham apenas com dogmas rígidos. Na verdade, o que une estas duas áreas do conhecimento, é que o pensamento, a razão, o questionamento – como faz também parte do ser humano – não devem ser descartados como apêndice.
Contudo, como também muito bem apontou Kant, a partir de certo limite da razão, teremos que propor postulados. Kant definiu alguns: a imortalidade da alma, a existência de Deus e da liberdade. Em outras palavras, os postulados de Kant (ou de uma religião) são hipóteses necessárias para que possamos viver eticamente. Sem eles, a vida perde o sentido face à inevitabilidade da morte.
(Os postulados são como axiomas, os quais não podemos comprovar mas são úteis e necessários).
E, para complementar, eu diria que também é possível conhecer a verdade a partir de uma revelação interna; o que muitos dizem ser a experiência de vivenciar, internamente, e profundamente uma verdade compartilhada em determinada comunidade religiosa.

Conclusão

No começo eu disse que muitas pessoas não gostam de debater assuntos como religião. Em minha opinião, isto pode evitar brigas, mas pode evitar também conhecermos mais sobre nós e sobre os outros. Seria até justificável não debater para não brigar ou conflitar, todavia, não pensar sobre tais questões por medo de perder o que se acredita é sinal de que a crença não está bem assentada.
No fundo, racionalmente, o que podemos acreditar sobre a verdade última da vida (presente em uma dada religião) não pode ser descrita racionalmente. É como se esta verdade – ou este tipo de verdade – estivesse para além dos cinco sentidos e dos limites da razão, talvez por fazerem referência a outro tipo de experiência, diferente das experiências cotidianas.
Para quem está em busca da verdade que corresponda à verdade desconhecida ainda dentro de si, o que eu recomendo é continuar a busca.
Este foi um texto bastante despretensioso sobre religião (e filosofia e psicologia da religião). Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escreva abaixo!

Nenhum comentário:

Postar um comentário