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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Principais Conceitos da Psicologia Analítica de Jung

Semelhanças e Diferenças entre a Psicanálise de Freud e a Psicologia Analítica de Jung, Principais conceitos de Jung e características da prática clínica junguiana
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Diferenças entre Freud e Jung
Para abordar esse tema, é preciso primeiro conhecer alguns dos principais tópicos da teoria de Carl Gustav Jung e também um pouco de sua trajetória. Jung atuava na psiquiatria quando conheceu o trabalho de Freud que, na época, já se coadunava com seu pensamento e passou a contribuir muito para o atendimento de seus pacientes.
Assim começou a união entre esses dois pensadores, o que colaborou muito para o crescimento pessoal e profissional de ambos, possibilitando o surgimento e desenvolvimento de duas grandes teorias da psicologia, um legado muito valioso nos consultórios, entre outras áreas, até os dias de hoje.
Duas teorias foram citadas porque eles não permaneceram unidos por muito tempo. Isso porque após divergências em seus pensamentos, foi necessário que cada um seguisse e desenvolvesse seu próprio caminho. Dessa maneira, Freud continuou enriquecendo sua psicanálise e Jung criou sua psicologia analítica, estudando em paralelo temas como mitologia, cultura e literatura, religião e alquimia e os utilizando em sua teoria, interessado em saber os efeitos psíquicos desses temas nos homens e em fazer analogia com o funcionamento da psique. Hoje elas são consideradas duas abordagens diferentes dentro da psicologia, mas é importante saber que a psicologia analítica possui muitos fundamentos da psicanálise, pois tem esta em sua base. A análise junguiana está então, dentro da corrente psicanalítica, porque trabalha com o inconsciente.
Ambas consideram de suma importância para o trabalho analítico a análise do inconsciente (inclusive no trabalho com sonhos) e utilizam o discurso verbal como ferramenta. Porém, a psicanálise faz uso da associação livre, que consiste em deixar o paciente falar livremente o que lhe vem à cabeça, para que tudo seja objeto de análise.
E a postura do analista seria a de um observador e ouvinte que analisa tudo que o paciente traz, colocando-se atrás do mesmo para não interferir em seu processo e deixá-lo o mais a vontade possível. Pelo menos foi essa a postura que Freud passou na época, com o uso do divã.
Na psicologia analítica o psicólogo deixa o paciente livremente, mas não tanto assim, fazendo intervenções quando necessário e conduzindo ou orientando o discurso, não de maneira a influenciar, mas de modo a manter o indivíduo em seu discurso, não permitindo que ele perca o foco e vá para caminhos que, muitas vezes, podem ser distrações a serviço da resistência e de mecanismos de defesa. A postura do analista nesse caso já é diferente, pois ele se coloca como uma outra personalidade a frente do paciente, mostrando-se como uma outra pessoa passando pelos mesmos processos que o outro, apenas mais analisado e treinado para que possa ajudá-lo. Com isso, Jung defendia que a personalidade do analista está envolvida e também era um dos fatores que determinava aquela relação e aquele processo. Defendia ainda, que ambos estavam numa jornada, aprendendo, se descobrindo e se influenciando mutuamente, em busca de seus inconscientes.
Jung compartilhava com Freud a questão da transferência, porém, colocou uma diferença. Jung acrescentou que o analista deve ter conhecimento da transferência que está acontecendo ali, mas que não deve fazer uso dela. Deve, portanto, ter cuidado diante disso, pois o paciente fica muito frágil e suscetível diante do analista, assim como qualquer pessoa transferida por outra.
psicologia analítica utiliza também outras ferramentas além do discurso verbal. Elas podem ser expressões artísticas de todos os tipos, como desenhos, pinturas e argila, por exemplo. Também a amplificação, que possibilita a associação de mitologia e contos de fadas ao discurso do paciente, seja ele o relato de um sonho, fantasia, ou até mesmo de alguma situação de vida. Há ainda a imaginação ativa, que já existia entre os alquimistas, e que consiste em uma interação com os conteúdos do inconsciente através de sua personificação. Ou seja, seria imaginar livremente (utilizando a intuição e o sentimento, e não a razão) tais conteúdos específicos em questão e também seu relacionamento com eles vivos. Outra técnica utilizada é a caixa de areia, onde o sujeito pode manusear a areia seca ou molhada e acrescentar miniaturas, criando cenários em um ambiente ao mesmo tempo livre e protegido, tanto pela relação terapêutica quanto pela própria caixa. Todas essas técnicas proporcionam o diálogo entre consciente e inconsciente, ativando o desenvolvimento da personalidade.
Dois fatores foram decisivos na cisão do relacionamento entre Jung e Freud, suas discordâncias a respeito da natureza do inconsciente e sobre a libido. Para Freud o inconsciente é visto como o repositório de memórias e pulsões negadas e/ou reprimidas da consciência desde o nascimento até a morte da pessoa, cujos conteúdos são oriundos principalmente da infância e lutam sempre para vir à consciência. Sua manifestação trazia à tona o que a censura permitia passar pelos mecanismos de defesa. Nos sonhos, as imagens oníricas vinham o mais disfarçadamente possível, para que pudesse passar pela censura, e possuíam o objetivo de realização de desejos reprimidos ou vinham simplesmente porque eventos da vida ou conflitos interiores surgiam incomodando a consciência, fazendo com que tais conteúdos se manifestassem através dos sonhos.
Jung partilhava dessa opinião, mas acrescentou que, além disso, o inconsciente possuía outro aspecto além do pessoal, que seria sua parte coletiva, onde estariam presentes os arquétipos, que são imagens primordiais herdadas por todos devido ao fato de tais situações terem se repetido tantas vezes nas psiques na história da humanidade. Para Jung as imagens dos sonhos e das fantasias não vêm daquela forma difícil de ser entendida porque a censura atua para que o sujeito não se depare com o material recalcado, mas sim porque é próprio do inconsciente se comunicar de forma simbólica (e o próprio conceito de símbolo diz que nunca poderemos esgotá-lo totalmente, ficando um aspecto seu sempre inconsciente), ou seja, não porque vem disfarçado, mas sim porque o inconsciente só sabe se manifestar dessa maneira, não possuindo uma linguagem mais semelhante a que temos na consciência. Por isso é importante saber as associações do paciente, pois se o inconsciente dele usou tais imagens, é importante ver a relação que ele tem com elas. O objetivo do inconsciente é passar uma mensagem, ser reconhecido e integrado, compensar a atitude da consciência e proporcionar maior plenitude ao homem, e só não faz isso de forma mais clara porque não possui as ferramentas necessárias, fazendo então à sua maneira, mas isso não significa que ele tenta dificultar disfarçando, para proteger a consciência.
Para Freud a libido era considerada uma energia psíquica que direciona o sujeito na busca de prazer e estava relacionada aos fenômenos psicossexuais, mudando de objeto à medida em que o homem ia amadurecendo, como nas fases de seu desenvolvimento (oral, anal e fálica), sempre buscando a maturação sexual, caracterizada por um forte Eu e a capacidade de retardar o desejo por recompensas. Jung defendia que a libido não tinha somente a natureza sexual, mas tinha um sentido mais amplo, se manifestando por qualquer necessidade do indivíduo, à medida e no momento que ela fossem surgindo, como a fome, a sede, a sexualidade, a intelectualização etc.
Freud acreditava que não era possível uma cura completa, mas que a análise poderia ajudar a pessoa a abrandar as dificuldades inerentes à condição humana e, principalmente, entender e transformar os traumas infantis, deixando de ficar presa a eles de forma neurótica, mas encarando-os de forma mais saudável, mudando para objetos e objetivos mais saudáveis. Para Jung o objetivo da análise era a individuação, um caminho que cada um percorre de forma única e individual na direção de sua unidade interna através de forças interiores que sempre objetivam levar os indivíduos ao centro de seu interior, o Self.
 Jung - frase
Conceitos Junguianos
            Jung cresceu em uma casa que possuía uma enorme biblioteca, onde ele leu inúmeros assuntos diferentes e com isso foi um estudioso das mais diversas áreas, como as religiões orientais, a alquimia, a parapsicologia e a mitologia, entre outras. Dessa forma, sua análise sobre a natureza humana leva em consideração todos esses assuntos e isso faz com que ele desperte interesse e seja estudado por várias áreas além da psicologia.
Um dos principais conceitos de Jung e, pode-se dizer, o objetivo de todo homem para ele, é o da individuação, que seria um processo de desenvolvimento pessoal que envolve o estabelecimento de uma conexão entre o ego, centro da consciência, e o Self, centro da psique total, o qual, por sua vez, inclui tanto a consciência como o inconsciente. Para Jung, existe interação constante entre a consciência e o inconsciente, e os dois não são sistemas separados, mas dois aspectos de um único sistema, por isso é tão importante manter a comunicação e o equilíbrio do eixo ego-Self. A psicologia junguiana está basicamente interessada no equilíbrio entre os processos conscientes e inconscientes e no aperfeiçoamento do intercâmbio dinâmico entre eles, lutando sempre contra a unilateralidade e buscando sempre o equilíbrio entre os pares de opostos, conscientizando-os e integrando-os à consciência através da comunicação do eixo ego-Self, mas sem cair na enantiodromia, que seria passar de um oposto a outro sem fazer as devidas transformações e sem encontrar o equilíbrio entre eles.
Em relação à consciência, Jung desenvolveu as atitudes de extroversão e introversão, e as funções psicológicas pensamento, sentimento, sensação e intuição, usando tais conceitos no que chamou de Tipos Psicológicos. Segundo ele todos possuímos ambas as atitudes e ambas as funções, apenas em diferentes proporções, o que faz com que uns sejam mais extrovertidos, outros mais introvertidos, uns possuam mais desenvolvidas uma função em detrimento de outras etc.
extroversão é uma atitude objetiva e a introversão é uma atitude subjetiva. Essas duas atitudes se excluem mutuamente, pois  não podem coexistir simultaneamente na consciência embora possam alternar, e realmente o façam, uma com a outra. Uma pessoa pode ser extrovertida em determinadas ocasiões e introvertida em outras. Entretanto geralmente predomina uma dessas duas atitudes num determinado indivíduo durante a sua existência.
A função pensamento discrimina, julga e classifica os fenômenos a partir da lógica da razão, buscando avaliar objetivamente os “prós” e “contras” da natureza desses fenômenos. Nomeia e conceitua os objetos. De uma forma sintética, a função pensamento exprime o que é um objeto. Estabelece a relação lógica e conceitual entre os fatos percebidos. A função sentimento faz a avaliação dos fenômenos a partir de uma dimensão valorativa – eles são agradáveis ou não. Tal como o pensamento, julga, porém, não pela lógica da razão, mas pela lógica de valores pessoais – que, por sua vez, recebe influências dos valores sociais. O conceito de sentimento não deve ser confundido com os conceitos de emoção e afeto. Os sentimentos estão associados a uma dimensão valorativa de julgamento, já a emoção é um afeto de grande intensidade de energia chegando a alterar funções orgânicas, tais como batimento cardíaco e ritmo respiratório alterados por afetos de amor, ódio, ciúme, entre outros. A função sensação privilegia as informações recebidas pelos órgãos dos sentidos, constatando a presença sensorial das coisas que nos cercam no contexto do “aqui e agora”.
Corresponde à soma total das percepções dos fatos externos que ocorrem através dos órgãos dos sentidos. Por fim, a função intuição vai além da percepção (sensação), buscando os significados, relações e possibilidades futuras das informações recebidas.
Trata-se de uma apreensão perceptiva dos fenômenos (pessoas, objetos e fatos) pela via inconsciente. A intuição “vê” a natureza “oculta” desses fenômenos. A função intuição está associada a um tipo de percepção que antevê possibilidades de acontecimentos. Corresponde aos pressentimentos, palpites e impressões.
Pensamento e Sentimento são funções racionais e Percepção e Intuição são funções irracionais. E as funções psíquicas formam dois pares de funções opostas, entretanto, complementares: o pensamento é oposto, porém, complementar ao sentimento. E a sensação é oposta, porém, complementar à intuição.
Jung também estruturou as funções em função principal, que é a mais desenvolvida pelo sujeito, é usada de forma consciente; função auxiliar, que é a segunda mais desenvolvida, também utilizada de forma consciente, auxilia a função principal; função terciária, que possui desenvolvimento rudimentar, age num plano mais inconsciente; e função inferior, que é a mais indiferenciada, menos desenvolvida ou infantil, permanecendo num plano quase que exclusivamente inconsciente.
Todos os seus outros conceitos têm mais relação com o inconsciente. Em relação à dinâmica da personalidade, pode-se entender que no início da vida o bebê está ainda numa fase indiferenciada da mãe. Por não ter desenvolvido ainda um Eu próprio, compreende que ele e mãe são uma única individualidade, estando, portanto, numa fase urobórica, onde não há limites ou fronteiras onde um começa e o outro termina. À medida que vai se desenvolvendo ele vai desenvolvendo as pulsões de vida e de morte, e aos poucos vai se diferenciando da figura materna, constituindo-se como um Eu diferenciado. Esse, porém, é apenas o início desse desenvolvimento e dessa diferenciação, pois durante a vida será necessário haver a diferenciação do ego também com o Self no processo de individuação.
Conforme a criança vai crescendo, os primeiros grupos sociais com quem convive são a família e a escola. Nesses ambientes ela percebe que recebe aprovação por algumas coisas que faz e reprovação por outras, experimentando bons sentimentos e recompensas nas primeiras, e ruins na segunda situação. Com isso ela aprende a fazer mais aquilo que recebe aprovação, pois precisa do amor e da aceitação desses primeiros grupos sociais, principalmente dos pais e professora, para que possa se desenvolver de maneira confiante e saudável. Dessa maneira ela começa a desenvolver o arquétipo da persona, que seriam os diferentes papeis sociais que as pessoas desenvolveriam para que pudessem conviver e se adaptar em sociedade. Isso é necessário para que se possa viver de forma saudável, desde que o indivíduo transite entre suas diferentes personas de maneira a não se apegar demais a apenas uma ou algumas, deixando outras esquecidas, o que o manteria numa atitude unilateral, causando um desequilíbrio em sua personalidade. Personas seriam então os papeis que ocupamos na sociedade.
Exemplos de persona seriam a de mãe, a de filho, a de sogra, a de irmão, a de policial, a de médico, a de professor, a de esposa etc. Saudável é quando o homem assume a persona de policial no trabalho, de pai e marido em casa, de filho na casa dos pais e assim por diante. Se ele assume, por exemplo a persona de policial em casa, terá problemas decorrentes disso, tanto em sua psicologia interna, devido à unilateralidade e desequilíbrio, quanto de relacionamento com os membros da família.  Outro exemplo negativo seria se assumisse no trabalho e em casa sempre a persona de filho, o que poderia fazer com que sua esposa precisasse ser mãe dele ao invés de mulher; que seus filhos não o respeitassem tanto ou que ele disputasse coisas com eles; ou ainda que não fosse visto como um bom profissional no trabalho.
Em consequência do arquétipo da persona, outro arquétipo começa a se formar, o da sombra. Na sombra estariam contidos todos os aspectos que a criança reprimiu em si para que tivesse a aceitação que desejava, fazendo somente as coisas que saberia que receberia aprovação social. Além disso, a sombra também contém aspectos que a própria pessoa considera negativo, independente do social, ou ainda, aspectos que até ela mesma desconhece, por não ter consciência. Ela também pode conter aspectos positivos e desconhecidos do sujeito, que ele desconhece ou que não considera positivo. A sombra, portanto, é inconsciente e por isso costuma ser projetada no outro. Quanto maior e mais inconsciente é a sombra, mais a pessoa a projeta e mais fica em desequilíbrio, o que pode lhe causar muitos problemas, pois sua energia psíquica está toda represada nesse seu aspecto, ficando os outros carentes dessa energia, por isso é necessário que a pessoa se conscientize dela.
Para Jung, a criança é a extensão da psicologia de seus pais e está sujeita às influências deles, estando suas experiências posteriores e relacionamentos adultos, dependentes da forma como irão internalizar as figuras de seus pais e relacionamento deles e com eles. E quando se fala em internalizar tais figuras, não necessariamente se fala da figura real, mas também da imagem arquetípica de mãe e de pai. Segundo ele, ao nascer a criança tem sua consciência toda dentro do inconsciente, ou seja, ela é só inconsciente coletivo. Depois, vai aos poucos expandindo sua consciência, à medida que vai tendo experiências, e desenvolvendo seu inconsciente pessoal. Dessa forma o ego fica no centro da consciência, mas não sendo ele o todo, e sim apenas uma parte do todo que é o Self, centro da psique total.
Como já foi visto, o conceito de inconsciente para Jung pode ser dividido em dois, o pessoal e o coletivo. Independente de qual seja, Jung concebia que a linguagem do inconsciente seria por imagens, símbolos e fantasias, por isso seria difícil decifrá-lo, por ser um tipo de linguagem diferente (imagens) da utilizada pela consciência (palavras). Ele também trouxe a ideia de que o inconsciente possui função compensadora da consciência, ou seja, se o ego está muito focado em uma única direção, o inconsciente se manifestaria sempre numa direção oposta, com a intenção de mostrar outro ângulo à pessoa e também para buscar o equilíbrio do sistema psíquico.
inconsciente pessoal para Jung se originava a partir do coletivo e, como Freud, também considerava que continha conteúdos mentais inacessíveis ao ego, reprimidos durante a vida e um lugar psíquico com seu caráter, suas leis e funções próprias. Acrescentou que também conteria conteúdos percebidos apenas de forma subliminar.   E o inconsciente coletivo seria a parte do inconsciente que contém aspectos que nunca foram conscientes, os arquétipos, bases filogenéticas e instintivas da raça humana que foram herdadas pela psique devido às experiências repetidas que as pessoas foram tendo durante toda a história da humanidade. Nesse inconsciente estaria contido o inconsciente pessoal e seus conteúdos refletem processos arquetípicos. As manifestações do inconsciente coletivo aparecem como motivos universais, ou seja, se repetem independente da época ou cultura. Inclusive foi observando isso que Jung chegou à conclusão da existência desse inconsciente.
Exemplo disso foi o sonho que ele analisou de um paciente psicótico a respeito do falo do sol ser a origem dos ventos, e tempos depois ter encontrado a mesma referência num mito de uma antiga religião persa, tendo certeza de que não tinha como o paciente ter tido acesso a esse dado.
Através do método da livre associação, Jung identificou relações entre idéias que das quais os pacientes não podiam ter conhecimento prévio, nem por ter ouvido ou lido a respeito. Indo adiante em suas pesquisas, ele encontrou paralelos entre as tramas e os símbolos dos sonhos de todo tipo de pessoas: desde seus pacientes até prisioneiros nas cadeias americanas e indígenas no meio da África. Não somente, ele se deu conta que havia temas recorrentes na história da cultura humana, expressos tanto na mitologia como na literatura. A conclusão de Jung foi que o inconsciente não podia ser somente pessoal. Há um nível mais profundo que é coletivo, pertencente a todo indivíduo do planeta. (NOGUEIRA, 2010 Mai 13)
Jung falou também dos complexos, seriam grupos de ideias ou imagens carregadas emocionalmente, que possuem em seu núcleo um arquétipo correspondente. Dessa maneira, os arquétipos são os núcleos dos complexos, existindo um para cada situação da vida, de tal maneira que Jung chamou de arquétipo também o ego. Pelo fato dos complexos serem carregados de emoção, e estarem ligados a seu núcleo arquetípico por um vínculo energético, quando constelados ou ativados, são naturalmente acompanhados por um afeto. Por essa razão e pelo fato de serem sempre em parte ou totalmente inconscientes, acabam sendo relativamente autônomos, o que faz com que, quando constelados por alguma situação que tenha relação com eles, tenham o poder de tomar à frente do ego na consciência e agirem por si. Isso é possível porque a constelação faz com que ganhem uma quantidade grande de energia psíquica que ultrapassa a energia do ego, que só volta ao controle da consciência quando a energia do complexo em questão se esvazia, fazendo com que ele perca a força e volte ao inconsciente.
Quando totalmente inconsciente de seu complexo, o ego ao retornar ao controle, pode ficar surpreso e arrependido por ter agido de tal maneira, não entendendo o que o levou a fazer aquilo. Se a pessoa possui uma persona muito bondosa, provavelmente sua sombra é bem grande e, se nem ela e nem os outros a seu redor tiverem consciência disso, o susto pode ser bem grande quando o complexo da sombra, por exemplo, vem à tona em alguma situação. Por isso é tão importante conscientizar o máximo de conteúdos ou complexos possível, pois eles só assaltam a consciência quando são negados e reprimidos por ela, pois seu único objetivo é ser reconhecido pela mesma. Uma vez reconhecidos, conscientizados e trabalhados, o sujeito poderá perceber quando estiverem sendo constelados por alguma situação e, conscientemente, terão o poder de escolher quando e como usará seus aspectos. Isso é possível de ocorrer porque a energia psíquica do ego estará maior, uma vez que os conteúdos não estão mais tão arraigados ao inconsciente e também porque o ego mais consciente e trabalhado, estará mais fortificado.
A conscientização dos complexos e o trabalho decorrente disso, ocorrem através do diálogo entre os conteúdos do indivíduo, ou seja, não basta só tomar consciência dos aspectos de sua sombra, por exemplo, é necessário ir aos poucos integrando-os à consciência. Isso é um trabalho longo e paulatino, que deve ser feito por toda a vida e, de forma resumida, é nisso que consiste a individuação. Por isso ela nunca está terminada, pois sempre haverá conteúdos a serem reconhecidos e integrados.
Esse diálogo ou comunicação entre o ego e o Self ocorre através do eixo ego-Self, quando este está funcionando direito, sem interrupções, e é feita através de imagens, onde o ego aos poucos vai tendo acesso e se relacionando com o inconsciente. Se há uma interrupção nesse eixo, ego e Self não se comunicam direito e pode haver uma neurose, ficando a pessoa egoica demais e sem contato com seus conteúdos internos. Nesse caso é necessário o fortalecimento desse eixo e o aumento do relacionamento dessa pessoa com suas imagens e conteúdos inconscientes. Quando essa interrupção é grande demais, existe uma fenda entre ego e Self e pode ocorrer a psicose, que é quando o ego se desestrutura por completo e só o inconsciente passa a existir, estando o ego mergulhado em suas imagens. Nesse caso é necessário o fortalecimento do ego e o resgate dele das imagens do inconsciente, através do próprio relacionamento com elas.
Como foi visto, o ego também é considerado um arquétipo e é o centro da consciência, sendo o responsável por dirigir nossa vida consciente, nossas ações e escolhas, buscando sempre proteger a consciência de qualquer coisa que a ameace. Apesar das pessoas acharem que ele é tudo, que elas são ele, ele é apenas uma parte do sistema psíquico. A outra parte é o inconsciente e nele se encontra o Self, que realmente é a essência de cada um, sendo o objetivo de todos ir de encontro a esse verdadeiro centro e se tornar ele, ou seja, a individuação, como já foi dito.
Self, portanto, é o arquétipo central, responsável pela ordem e totalidade da personalidade. É formado pelo consciente e pelo inconsciente juntos e é o centro da psique total. Geralmente é representado por símbolos que remetam a essa totalidade, como mandalas, círculos e imagens impessoais.
Há ainda os arquétipos da anima e do animus, que são responsáveis por auxiliar o ego a entrar em contato com o inconsciente, afim de aprofundar sua relação com o mesmo na busca e no caminho da individuação. Anima é a parte interior feminina da psique do homem e animus a parte interior masculina da psique da mulher, servindo então ao equilíbrio do sistema psíquico, uma vez que compensam a atitude masculina ou feminina da consciência.

A prática na clínica junguiana
            A prática junguiana na clínica é psicanalítica porque trabalha com o inconsciente, e tem muitos pontos em comum com a psicanálise, afinal, Jung esteve junto com Freud por um tempo e compartilha de suas ideias. A diferença principal é que ele acrescentou coisas. Então, pode-se dizer que a prática clínica de Jung é bem semelhante à de Freud, apenas com algumas diferenças nos conceitos teóricos, principalmente na adição de alguns, como o do inconsciente coletivo, que foi adicionado ao conceito de inconsciente puramente pessoal de Freud.
Diante disso, é possível ver que a psicologia junguiana compartilha com a psicanálise a questão conceitual do recalque e do inconsciente, com a questão da formação dos sintomas; e a questão prática da forma de trabalhar, pois ambas estão interessadas em proporcionar o surgimento do discurso do inconsciente.
Como já mencionado, a diferença aparecerá na escuta desse inconsciente, pois não necessariamente ele trará conteúdos recalcados daquele paciente, mas sim a manifestação de conteúdos arquetípicos que nunca foram conscientes no sujeito, que nunca foram vividos por ele, mas foram trazidos pelo inconsciente coletivo por algum motivo, o que deve ser analisado com ele de acordo com seu momento atual. Jung defendia a ideia de uma psique autorreguladora, que está sempre buscando sua organização, mesmo em psiques em estados bem caóticos. Dessa forma, às vezes a maneira que encontra de proporcionar essa organização, é trazendo conteúdos mitológicos, por exemplo, em que sendo analisados e associados com a vida do paciente, uma transformação ou entendimento pode surgir daí.
É importante frisar que a manifestação do inconsciente (pessoal ou coletivo) e o trabalho do mesmo, não funciona apenas para resolver conflitos, mas acima de tudo, tem o objetivo de desenvolver todas as potencialidades daquele indivíduo, mobilizando a consciência e buscando o desenvolvimento como um todo, que seria o processo de individuação.
Outro tópico que é importante esclarecer, é o do uso das religiões, mitos, alquimia etc. Jung por muito tempo foi considerado místico e não levado a sério pela comunidade científica por estudar tais assuntos. Porém, ele nunca esteve interessado em obter respostas sobre eles, mas sim em analisar os efeitos de tais manifestações na psique do homem. Além disso, analogias entre a vida, sonhos e fantasias do paciente com mitos, contos de fadas, processos alquímicos ou relatos religiosos funcionam de forma a enriquecer a gama de associações e de experiências, proporcionando insights e autoconhecimento, e nunca devem ser vistos de forma literal.
Como já foi exposto, junguianos utilizam muitas técnicas expressivas para auxiliar o discurso e a manifestação do inconsciente. Além das já mencionadas, pode-se usar também expressões corporais como a dança, ou ainda os desenhos, modelagem, trabalho com o barro etc. Cada um escolhe aquela que preferir, mas todas possuem o mesmo objetivo: trabalhar o que é expresso, seja no discurso ou por sonhos, e buscar entender e interpretar, com a finalidade de proporcionar o conhecimento e a comunicação entre consciente e inconsciente.
De acordo com esse objetivo, fica claro que a abordagem junguiana não trabalha com a busca da cura, porque não acredita haver uma cura específica. Para a psicologia analítica, a “cura” seria encontrar a si mesmo, o grande si mesmo, e não o ego limitado e sempre parcial. O objetivo seria a pessoa se tornar aquilo que ela realmente é em essência, através de um trabalho de conscientização e aproximação de consciência e inconsciência pela vida toda, em movimentos circum-ambulatórios, indo e vindo e cada vez se aproximando mais. Ou seja, o objetivo da análise junguiana é a busca da individuação. Porém, sempre respeitando a capacidade do ego do paciente em lidar com seu inconsciente, e também a intenção do paciente, pois uns podem apenas querer resolver alguns sintomas ou questões específicas, outros permanecem após isso e entram em processo analítico.
Por fim, a abordagem junguiana não prioriza tanto o diagnóstico, pois o que mais importa é como ela vai lidar e se organizar diante daquilo, e qual o significado que aquilo tem para a pessoa.

Por Rafaella Santos Silveira
Psicóloga

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