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terça-feira, 26 de julho de 2016

Detalhes sobre autismo

Ressonância magnética para detectar autismo

Embora os primeiros sinais do espectro autista apareçam a partir do primeiro ano de vida, os processos cerebrais ligados à comunicação sofrem alterações que desencadeiam o transtorno muito antes disso. É o que sugere os resultados preliminares de uma pesquisa recente conduzida pelo pesquisador Jason Wolff, da Universidade Chapel Hill, Carolina do Norte, publicada pelo American Journal of Psychiatry.

Para chegarem a essa conclusão, os pesquisadores investigaram o desenvolvimento cerebral de 92 bebês, todos com um irmão mais velho autista, e acompanharam as mudanças na organização neurológica ao longo do tempo por meio de exames de ressonância magnética. Quando as crianças estavam com 2 anos, 28 haviam desenvolvido o autismo, enquanto 64 não. A incidência do transtorno entre irmãos sugere correlação genética, segundo os especialistas. 

Os pesquisadores observaram também que a substância branca (componente sólido do sistema nervoso central responsável pela transmissão de sinais entre regiões do cérebro) se formou lentamente em crianças que posteriormente desenvolveram a patologia, enquanto que nas saudáveis essa estrutura se constituiu rapidamente. Além disso, notaram alterações no desenvolvimento das fibras nervosas que conectam áreas cerebrais.

Esses indícios sugerem que o transtorno seja um fenômeno que atinge o cérebro inteiro, e não uma região específica como se acreditava anteriormente. Apesar de ser muito cedo para dizer o que causa essas diferenças, a descoberta indica uma interação complexa entre os genes e as experiências da criança com o mundo. “Futuros tratamentos poderão ser administrados em fases precoces da maturação cerebral para diminuir o impacto do autismo ou até mesmo para interromper seu desenvolvimento”, diz Wolff.

“As pessoas pensam que sou idiota.” “É realmente frustrante não conseguir falar.” “Eu me expresso através de comportamentos negativos que ninguém pode entender.” Essas são algumas frases de crianças com autismo, digitadas em aplicativos touch screen (telas sensíveis ao toque) e exibidas no curta-metragem documentário Eu quero dizer (I want to say, sem legendas em português). O filme mostra como esses programas, criados por desenvolvedores das empresas HP e Intel, se tornaram um canal de comunicação para pessoas com o transtorno. A ideia surgiu quando um executivo da HP levou um computador com tela touch à casa de um amigo, pai de um autista, para ver se o garoto se interessaria pelo equipamento. O menino começou a usar a interface intuitivamente e se comunicou com sua família. Em uma cena, uma mãe relata sua emoção ao ver a filha, que não fala, digitar que a amava. O vídeo, de 30 minutos, está disponível no canal Autism Speaks, no Youtube: I want to say.




O elo do silêncio


Quando comparamos a linguagem humana aos sistemas de comunicação de outros animais, nossa complexidade salta aos olhos. Combinando com grande liberdade um repertório de poucas dezenas de fonemas, somos capazes de produzir milhares de palavras para nomear tudo que nossa mente consegue perceber, fazer e pensar. Os defensores do excepcionalismo humano argumentam que nada parecido existe em nossos parentes mais próximos, os símios africanos. Apesar de limitado, nosso repertório fonêmico é grande o bastante para gerar uma explosão de possíveis combinações, o que só é possível por causa de um aparato fonador especializado. Ainda que bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotangos vocalizem durante suas interações sociais, não apresentam um repertório de palavras capaz de representar a variedade de objetos do mundo. Eles contam, claro, com sinais vocais relacionados ao humor, além de muitos gestos e expressões faciais para comunicação de curta distância. No excêntrico teatro símio, o silêncio é de ouro.

Grande parte da elite acadêmica, das ciências biomédicas às humanas, sustenta que a linguagem é a principal linha divisória entre nós e todos os outros animais. Isso faz da expressão verbal humana um mistério evolutivo, sem elos filogenéticos com qualquer outro sistema de comunicação animal. Segundo uma teoria alternativa, defendida há décadas pelo biólogo Peter MacNeilage, a linguagem vocal humana evoluiu através da modificação de movimentos rítmicos faciais realizados por nossos ancestrais primatas. Infelizmente as estruturas necessárias para a produção da fala não se fossilizam, fazendo da abordagem comparativa uma necessidade. Entre os primatas do velho mundo, destaca se uma expressão facial de afiliação chamada abre-fecha labial. Caracterizado por movimentos verticais da mandíbula, esse comportamento quase inaudível é dirigido a outro indivíduo durante interações face a face, envolvendo troca de turnos como num diálogo.

Uma característica fundamental da fala humana é um ritmo em torno de 5 Hz (hertz) relacionado com a taxa de produção de sílabas. Se a fala evoluiu de movimentos faciais rítmicos, seria de esperar que o abre-fecha labial também apresentasse um ritmo próximo a 5 Hz. Para investigar a questão, pesquisadores das Universidades de Princeton e Viena filmaram em raios X os movimentos bucais de macacoscaranguejeiros enquanto realizavam abre-fecha labial ou mastigação.

Embora à primeira vista o abrefecha labial pareça envolver simplesmente a abertura e o fechamento dos lábios, a pesquisa mostrou que o comportamento requer movimentos rápidos e coordenados dos lábios, língua, mandíbula e do osso hioide. Os autores, entre os quais o médico, matemático e neurocientista brasileiro Daniel Takahashi, descobriram que esses movimentos ocorrem 5 vezes por segundo, quase o dobro da velocidade dos movimentos de mastigação. Além disso, análises matemáticas mostraram que os distintos componentes do aparato fonador se articulam durante o abre-fecha labial de modo muito semelhante ao da fala humana. Considerando que os macacos-caranguejeiros são primatas asiáticos que divergiram de nossa linhagem há quase 30 milhões de anos, os resultados sugerem que a fala humana evoluiu a partir de uma linguagem primata ancestral, baseada menos no som do que nas expressões faciais. Talvez a excepcionalidade do Homo sapiens não seja a linguagem e sim o barulho.

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