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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O maior desafio climático é deixar o carbono no solo

Temos algumas vantagens quando se trata de lidar com mudanças climáticas. A primeira é que os parâmetros do problema são notavelmente claros: podemos literalmente ver o derretimento do Ártico, a acidificação oceânica e o mercúrio dos termômetros em constante ascensão. Além disso, secas e inundações reforçam diariamente nossa compreensão da difícil situação em que nos encontramos.


E mais: pesquisadores tornaram relativamente simples entender o que podemos e não podemos fazer daqui para frente. Se realmente quisermos limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC — e quase todas as nações do mundo concordaram com essa meta em 2009, nas negociações internacionais em Copenhague, na Dinamarca —, então simplesmente temos que deixar a maior parte do carbono de jazidas conhecidas enterrada no subsolo ou no fundo do mar: ele não pode ser queimado.

De fato, um contundente artigo publicado em Nature em janeiro passado listou todos os depósitos de carbono que teriam de permanecer intocados: lugares como as areias betuminosas do Canadá ou os reservatórios de petróleo e gás sob o Ártico. (A Scientific American integra o Nature Publishing Group).

Então: pode ser fácil, ou não. O presidente Barack Obama, por exemplo, viajou ao Alasca no início de setembro para chamar atenção para as mudanças climáticas. Ele visitou aldeias nativas, deu uma olhada em geleiras que estão derretendo, e fez todos os comentários politicamente corretos. Mas na semana anterior ele havia dado a permissão final para a Shell Oil perfurar e prospectar no Ártico — exatamente o tipo da coisa que, de acordo com cientistas, agravará o aquecimento global.

Ao fazer isso, Obama exemplificou nosso dilema. Ele simplesmente não conseguiu fazer frente às forças que querem desenterrar até o último naco de carvão, extrair até a última gota de petróleo.

Para políticos, essa falta de controle tem uma origem bem simples: o poder da indústria de combustíveis fósseis. Ela é o setor mais rico do planeta, e historicamente acabou ganhando absolutamente tudo o que queria. O fato de Obama ter rejeitado o controverso oleoduto Keystone XL é uma mostra singular de coragem; e foi literalmente a primeira vez que um líder mundial disse: “Este é um projeto que não podemos construir devido aos seus efeitos sobre o clima”. Mas normalmente o chamado “Big Oil” (os megaprojetos petrolíferos) é simplesmente grande e poderoso demais.

Duas coisas, porém, talvez mudem essa equação.

Uma delas é o surgimento de um movimento climático real. Ele também está ficando grande e poderoso: no outono boreal passado 400 mil manifestantes marcharam pelas ruas de Nova York, no que foi a maior manifestação sobre qualquer coisa nos EUA há muito, muito tempo. Cada vez mais esse esforço global está persuadindo bancos a parar de financiar a próxima rodada de extração. No meio do verão passado, por exemplo, a empresa que planejava construir a maior mina de carvão do mundo no deserto australiano cancelou tudo porque suas linhas de crédito haviam sido cortadas graças a um persistente ativismo.

Mas há ainda um outro fator. Nos últimos seis anos, o preço de painéis solares despencou 75%. Isso torna a energia renovável a alternativa mais barata em grande parte do mundo. Se nos comprometêssemos com essa opção, como demonstrou o professor de engenharia ambiental Mark Jacobson, da Universidade Stanford, e sua equipe, todos os estados da União (e todos os países do planeta) poderiam suprir suas necessidades com eletricidade limpa e confiável a um preço acessível até 2030.

Pesquisas mostram que a maioria das pessoas gostaria dessa mudança. Os que se opõem a ela são as pessoas que são proprietárias de minas de carvão e poços de petróleo — gente que exerce uma boa dose de influência política. Os dois irmãos Koch [Charles e David] juntos, por exemplo, formam o “homem mais rico da Terra”. Eles são barões de petróleo e gás; de fato, eles são os maiores arrendatários daquelas areias betuminosas canadenses que, de acordo com cientistas, compõem uma das jazidas que precisamos deixar em grande parte intocadas, inexploradas. E eles anunciaram que gastarão US$ 900 milhões nas eleições presidenciais americanas no outono de 2016 — isso é mais dinheiro do que os partidos Democrata e Republicano gastaram da última vez.

Essa batalha épica está se desenrolando em tempo real. Podemos facilmente medir a quantidade de dióxido de carbono (CO2) que está sendo lançada na atmosfera. Nesta primavera boreal, pela primeira vez na história da humanidade, os níveis de CO2 passaram de 400 partes por milhão (ppm). O tempo é curto: se não começarmos a exercer contenção muito em breve, então as negociações climáticas em Paris, agora, neste mês, não terão grande importância, porque as mudanças que desencadeamos se autoalimentarão, ou se fortalecerão por si mesmas.

Há dias em que, ao ler o que há de mais novo na ciência, é difícil não ser pessimista. Mas então também há dias, como aquele, neste outono boreal, em que a Shell cancelou seus planos para continuar perfurando o Ártico e, logo em seguida, o governo Obama tomou uma série de decisões dificultando que outros fizessem o mesmo. Talvez isso seja um prenúncio. Humanos são muito espertos para fazer coisas. A pergunta é: eles conseguem não fazer coisas?

Bill McKibben é fundador da campanha climática global 350.org e autor do livro original dirigido ao público em geral (leigo) sobre mudança climática “O fim da Natureza” (Editora Nova Fronteira), que foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 1989.

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