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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A ciência da mentira

Por Michael Shermer


“Mudando para a Geico [empresa americana de seguros] você realmente economiza 15% ou mais em seguros automotivos? Abraham Lincoln foi sincero?”. Assim pergunta o comercial da Geico, seguido por uma gravação em falso vintage de Mary Lincoln perguntando a seu marido: “Esse vestido deixa meus quadris grandes?”. O sincero Abe examina o vestido, então hesita e, com seu indicador e polegar separados por um centímetro, finalmente murmura “Talvez um pouquinho”, fazendo sua mulher sair da sala, furiosa.

O humor funciona porque nós reconhecemos a pergunta como um pedido de elogio disfarçado, ou como um teste de nosso amor e fidelidade. De acordo com o livro Lying (Four Elephants Press, sem edição em português)publicado em 2013 pelo neurocientista Sam Harris, nós deveríamos dizer a verdade mesmo nessa situação: “Ao mentir, nós negamos a nossos amigos o acesso à realidade – e a ignorância resultante disso frequentemente pode prejudicá-los de maneiras que não previmos.

Nossos amigos podem agir com base em nossa falsidade, ou fracassar em problemas que poderiam ter sido resolvidos com base em boas informações”. Talvez o alfaiate de Mary fosse incompetente, ou talvez Mary realmente precisasse perder peso, o que a tornaria mais saudável e feliz. Além disso, de acordo com Harris, mentiras inocentes frequentemente levam a mentiras perigosas: “Em pouco tempo você poderá se comportar como a maioria das pessoas faz, sem muito esforço: obscurecendo a verdade, ou até mentindo diretamente, sem sequer pensar sobre isso. O preço é muito alto”. Uma solução prática é pensar em uma maneira de dizer a verdade com sensibilidade.

Como Harris aponta, pesquisas mostram que “todas as formas de mentira – incluindo mentiras inocentes para poupar os sentimentos alheios – são associadas com relacionamentos de baixa qualidade”.    

A maioria das pessoas não conta mentiras hitlerianas, mas quase todos nós obscurecemos a verdade apenas o suficiente para fazer os outros, ou nós mesmos, se sentirem melhor. Quanto nós mentimos? Cerca de 10%, de acordo com o economista comportamental Dan Arielyem seu livro A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade (Campus Elsevier, 2012).

Em um experimento em que os participantes resolvem quantas matrizes conseguirem em um período limitado de tempo, e são pagos por cada resposta correta, os que entregaram seus resultados ao experimentador na sala obtiveram uma média de quatro em 20. Na segunda condição, em que participantes contavam suas respostas corretas, destruíam a folha de respostas e diziam ao experimentador em outra sala quantas tinham acertado, a média foi de seis em 20 – um aumento de 10%. E o efeito persistiu mesmo quando a quantia paga por resposta correta foi aumentada de 25 centavos para 50, e depois para US$1, US$2 e até US$5. De maneira reveladora, quando o valor atingiu US$10 por resposta correta, a quantidade de mentiras diminuiu.

A mentira, de acordo com Ariely, não é resultado de uma análise de custo-benefício. Ao contrário, é uma forma de auto-ilusão em que pequenas mentiras nos permitem melhorar nossa auto-imagem e ainda manter a percepção de sermos pessoas honestas. Mentiras grandes não são assim.

            Os psicólogos Shaul Shalvi, Ori Eldar e Yoella Bereby-Meyer testaram a hipótese de que pessoas têm uma tendência maior a mentir quando podem justificar a mentira para si mesmas. O resultado foi um artigo intitulado “Honesty Requires Time (and Lack of Justifications)” [A Sinceridade Exige Tempo (E Falta de Desculpas)], publicado em 2013 em Psychological Science.

Os participantes rolaram um dado três vezes em uma situação que impedia o experimentador de ver o resultado, e foram instruídos a relatar o número obtido na primeira rolagem. (Quanto maior o número, mais dinheiro eles recebiam). Ver o resultado da segunda e da terceira rolagem dava aos participantes a oportunidade de justificar o relato de apenas o maior dos três números; como aquele número realmente tinha aparecido, era uma mentira justificada.

Alguns participantes tiveram que relatar sua resposta em 20 segundos, enquanto outros não tinham limite de tempo. Ainda que os dois grupos tenham mentido, os participantes que receberam menos tempo tinham uma tendência maior a fazê-lo. Em outro experimento, participantes rolaram o dado uma vez e relataram o resultado. Os que tinham pouco tempo, mentiam; os que tinham tempo para pensar, diziam a verdade. Os dois experimentos sugerem que pessoas têm uma tendência maior a mentir quando o tempo é curto mas, quando o tempo não é problema, elas só mentem quando têm justificativa para fazê-lo.

Talvez Mary não devesse ter dado tanto tempo para Abe ponderar sua resposta.

 

Michael Shermer é editor da revista Skeptic (www.skeptic.com). Seu livro Cérebro e Crença já está disponível em português. Siga-o no Twitter @michaelshermer

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