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sábado, 14 de março de 2015

Dilma, uma presidente acuada

Sem força na economia, na política e, agora, nas ruas, Dilma Rousseff vive seu pior momento na presidência - e parece apoplética, sem saber como sair dele

LEANDRO LOYOLA COM MURILO RAMOSERA ROTINA Dilma é festejada em visita ao Acre. Com a crise, recepções amistosas assim não são mais uma certeza (Foto: Odairl Leal/Reuters)

A presidente Dilma Rousseff não estava muito confortável naquele momento da conversa com líderes de partidos aliados, ao final da tarde da última segunda-feira. Sentada à frente de uma mesa grande, no Palácio do Planalto, Dilma dizia que os protestos ocorridos durante seu pronunciamento de 15 minutos em cadeia de rádio e TV, na noite anterior, haviam sido “uma coisa concentrada em alguns bairros” de São Paulo, referindo-se a  locais de classe média alta. Acrescentou que, em Brasília, os protestos ocorreram “no Sudoeste e em Águas Claras”, também bairros de classe média. “Em Recife foi só na Aldeota (outro bairro nobre)”, disse. “Aldeota é em Fortaleza, presidenta”, corrigiu o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira. Dilma foi então interrompida por um novato nesses encontros, o senador Omar Aziz, do PSD, ex-governador do Amazonas. “Presidenta, no domingo não vai ser assim...”, disse Aziz. Um novato permitia-se contradizer a presidente da República. Aziz prosseguiu: “Eu queria prestar minha solidariedade à senhora porque envolveram a senhora neste roubo na Petrobras, que é o maior roubo da história do Brasil. É uma vergonha fazerem isso com a senhora”. Constrangida e sem paciência, Dilma admoestou Aziz: “Governador (na verdade, Aziz agora é senador), o senhor está equivocado”.

A conversa estava tensa. Em outro momento, Dilma alertou os líderes: “Nós temos de ter cuidado porque a política está muito criminalizada”. Parecia o ex-presidente Lula falando. Ele usa esse argumento sempre que um companheiro é acusado de corrupção. Em tempos de petrolão, é quase todo dia. Dilma, então, narrou os dissabores de quem vive sob a ameaça das vaias dos contribuintes que povoam as ruas do Brasil e enxergam a criminalização na política. Contou aos parlamentares o caso da ex-presidente da Petrobras Maria das Graças Foster, sua amiga, que deixou o cargo em fevereiro após uma temporada exposta pelas investigações do petrolão. “Ela não pode sair de casa nem para ir à padaria”, disse Dilma. Graça vive hoje uma vida de aposentada no Rio de Janeiro, mas não tem sossego.

O governo acredita que os protestos recentes não são isolados, mas o início de um movimento 
Omar Aziz é um político engraçado, um piadista que usa palavrões para descontrair a conversa e não se prende às mesuras do mundo político. Faria sucesso em reuniões com Lula. Entretanto, o fato de ele e outros terem tido abertura para dizer tanto a Dilma é sinal de que o governo enfrenta tempos difíceis. Sempre avessa a políticos, para seus padrões Dilma já fazia uma grande concessão ao recebê-los; sujeitar-se a ouvir conselhos beirava o inaceitável. Na semana passada, ouviu muitos. “A senhora tem de dialogar com o Congresso, o diálogo está obliterado”, disse o senador Fernando Collor, do PTB, um dos participantes. Collor, quanta ironia, serve às analogias políticas mais simplistas com Dilma: ignorava o diálogo com o Congresso e foi alvo de maciços protestos populares em 1992 – até sofrer o impeachment. “A senhora tem de ter humildade de pedir desculpas pelos seus erros”, disse. Que cena.


Dilma só se sujeitou às perorações dos políticos porque precisa deles para atravessar seu momento mais difícil na Presidência da República. A semana passada foi, provavelmente, a mais tormentosa de seu governo, ameaçado por uma crise econômica grave e uma inoperância política de grandes proporções. Dilma foi acuada por vaias ao visitar uma feira de construção em São Paulo – que nem estava aberta ao público. Contrariada e com semblante tenso, discursou para uma plateia semivazia. Comparecer ao evento era parte de uma estratégia traçada há um mês, para tentar recuperar a popularidade de Dilma, em queda livre desde a reeleição. Mas o cenário mudou rapidamente. No final da semana, Dilma cancelou a visita que faria a um evento em Belo Horizonte. O governo afirma que mudou os planos não por medo de vaias, mas porque a mãe da presidente, Dilma Jane, de 90 anos, não passava bem.


“Há um sentimento ruim, que precisa ser revertido”, disse recentemente o ex-presidente Lula em um café da manhã na casa do presidente do Senado, Renan Calheiros, em Brasília. Partindo de sua lógica preferida, a da divisão do Brasil entre classes sociais, Lula afirmou que antes o governo era vítima da desaprovação dos ricos por, na sua visão, ter privilegiado os pobres. Hoje, no entanto, haveria um sentimento difuso de desaprovação por outras camadas da população. A insatisfação expressa em junho de 2013 não desapareceu. A avaliação do governo é que os protestos marcados para domingo, dia 15, não devem se resumir a um evento isolado, mas devem marcar o ponto inicial de um movimento maior. O 15 de março será uma espécie de reunião para marcar o 15 de abril, o 15 de maio, e assim por diante. Será mais um problema agregado aos vários outros que Dilma já tem a resolver.
É GUERRA Mulher vaia Dilma em  São Paulo. Pesquisas do governo mostram que a popularidade  de Dilma se mantém  em queda (Foto: Jorge Araujo/Folhapress)
A crise política, que atrapalha a solução da crise econômica, é alimentada por muitos erros, aqueles mencionados por Collor. Centralizadora, Dilma sempre resistiu a ouvir opiniões para tomar decisões na área política. Paulatinamente, desidratou o poder do vice-presidente, Michel Temer. O resultado disso hoje é que Temer perdeu parte da capacidade de influenciar seu partido, o PMDB. No início do ano, Dilma fez uma reforma ministerial que lhe custa caro. A troca diminuiu a capacidade de influência do PMDB no governo, a ponto de o partido ter cinco ministérios e trabalhar boa parte do tempo na oposição; diminuiu a presença da mais forte corrente interna do PT; e deu força para que os ministros Gilberto Kassab e Cid Gomes turbinassem seus partidos. Assim, Dilma deixou claro que queria enfraquecer o PMDB e o PT. Foi um erro estratégico em um momento delicadíssimo, em que Dilma precisa justamente de PT e PMDB para afastar o país do abismo econômico construído durante sua gestão anterior. Dilma tem de fazer isso em um momento em que as pesquisas feitas sob encomenda do Palácio do Planalto mostram que a avaliação de seu governo está ainda pior do que a atestada pelo Datafolha, no mês passado, quando havia atingido seu mais baixo índice. Na ocasião, a maioria dos entrevistados afirmava que Dilma havia mentido sobre a situação da economia. Hoje, a maior parte dos insatisfeitos está em São Paulo, como o governo já sabia; mas cresceu o número de descontentes no Nordeste.
Lula e Dilma passaram dois meses sem conversar, entre o resultado da eleição e o início deste ano. Lula esteve em Brasília em algumas ocasiões para conversar com políticos. No recente café da manhã com senadores, Lula ouviu reclamações sobre a má relação com Dilma. Tentou contemporizar. Disse que Dilma, pelo menos, havia montado um núcleo político com seis ministros, estava ouvindo mais a opinião de outras pessoas. Contudo, disse que esse núcleo não poderia ser fechado nem excluir o vice Michel Temer.  “É um absurdo o governo não ter tido cuidado com o PMDB”, disse. Na semana passada, Lula e Dilma conversaram a sós no Palácio da Alvorada e, depois, jantaram com ministros do PT. Lula defendeu que é preciso abrir mais espaço para o PMDB no governo. No dia seguinte, Dilma anunciou que mais três ministros entrariam para o grupo, entre eles Eliseu Padilha, do PMDB.

Em público, Lula sugeriu ainda a troca do ministro da Articulação Política, Pepe Vargas, talvez a única unanimidade negativa no governo e no Congresso. Incumbido de trabalhar pela relação entre o governo e o Congresso, Vargas não pode articular na Câmara, porque o presidente Eduardo Cunha, do PMDB, não o recebe; também é sabotado por boa parte do PT, porque é de uma corrente minoritária dentro do partido. Também não tem apoio no governo. Na semana passada, Pepe chamou para uma reunião deputados para tratar da lei de socorro aos clubes de futebol. Após uma exposição de meia hora sobre a importância dos clubes, Pepe disse que, infelizmente, não tinha nada a apresentar porque os técnicos do Ministério da Fazenda não haviam terminado os estudos. “Estão todos envolvidos nesse negócio do Imposto de Renda”, disse Pepe. Os deputados saíram fulos de raiva. Hoje, ninguém aposta que Pepe Vargas permaneça muito mais tempo no cargo. A questão é que Dilma demora a tomar decisões. Se há sete meses o Supremo Tribunal Federal espera que ela escolha um substituto para Joaquim Barbosa, quanto tempo levará para nomear um substituto para Pepe?

O fracasso de Dilma na política já foi mascarado em outras ocasiões com a ajuda da popularidade e do marketing. Na semana passada, a saída da propaganda deu errado. O pronunciamento de Dilma era um legítimo texto escrito pelo marqueteiro João Santana. No entanto, foi a primeira vez que Dilma se dirigiu à nação sem anunciar uma novidade ou benefício – nas ocasiões anteriores, anunciou reajuste do Bolsa Família ou novos programas, como o Minha Casa Melhor, que concedia financiamentos de até R$ 5 mil aos beneficiários do Minha Casa Minha Vida para comprar eletrodomésticos. Há duas semanas, o governo acabou com o programa por causa da alta taxa de inadimplência. Provavelmente, nos quatro últimos anos de governo, Dilma terá de ouvir todos os conselhos que não ouviu dos políticos nos quatro primeiros. 

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