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sábado, 14 de março de 2015

Os bastidores inéditos da Operação Lava Jato


Faz um ano que a PF bateu à porta de Paulo Roberto Costa e saiu de lá com o maior caso de corrupção da história do brasil. Mas você não sabe tudo sobre ele

FILIPE COUTINHO

DOMINÓ Paulo Roberto Costa, em depoimento no Congresso. Ele estreou  a delação premiada (Foto: Alan Marques/Folhapress)
Em 27 de agosto de 2013, conforme foi registrado num caderno de capa preta, com caneta esferográfica azul, dois agentes da Polícia Federal do Paraná estiveram na sede da instituição, em Brasília, para tratar das operações de combate a desvio de dinheiro público. No meio das anotações, feitas sem pretensões por um integrante da cúpula da PF, foi registrado o tópico “Operação Lava Jato”. Tratava-se, na origem, de um caso de lavagem de dinheiro. Acertou-se ali o envio de um agente com experiência nessa área para reforçar a equipe. Na mesma página, havia o registro de outra operação, numa refinaria da Petrobras no Paraná. Até aquele momento, eram investigações distintas – os caminhos dos doleiros e da Petrobras ainda não haviam se cruzado. O que juntou os dois tópicos na maior operação já feita no Brasil para o combate à corrupção teve de tudo: preparo, improvisos e, claro, um pouco de sorte.
O foco nos doleiros visava a desarticular o operador da lavagem de dinheiro para, então, descobrir os clientes. A investigação foi rápida. Ainda em novembro de 2013, tudo estava acertado para deflagrar a operação contra quatro doleiros. Um primeiro tropeço: não havia tempo de a Justiça aceitar tantos pedidos antes do recesso forense, em dezembro. Os investigadores esperaram o retorno do juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba, para entrar em ação em fevereiro. Mais um tropeço: uma divergência interna no Ministério Público Federal atrasou a operação para março de 2014.

A Lava Jato completa um ano nesta semana. O momento é decisivo para as investigações – e para o país. De um lado, há uma imensidão de provas contra empreiteiros, lobistas e políticos. O Planalto está acossado pela força do caso, pela gravidade das acusações contra as campanhas de Dilma e pela responsabilidade política pelo fisiologismo que permitiu os petrorroubos. De outro lado, há uma população disposta a ir às ruas, protestar e bater panelas para mostrar insatisfação. A sociedade anseia por ver as investigações resultar em corruptos na cadeia. O caso já revelou muito. Mas creia: ainda falta muito a revelar.

Em 17 de março de 2014, a operação não parecia tão inflamável. Havia apenas doleiros investigados. Na véspera, policiais vararam a noite esperando a aurora para deflagrar a operação. Havia 47 alvos monitorados, para o cumprimento de 81 mandados de busca e apreensão, além de prisões em 17 cidades.

Tudo avançava como planejado. Cada investigado estava em casa, situação ideal para uma grande operação. De última hora, entretanto, a equipe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros teve de mudar os planos. O principal alvo, o doleiro Alberto Youssef, não estava mais em Londrina. Viajara para o Maranhão. Em poucas horas, uma equipe de policiais federais em São Luís foi destacada para prendê-lo. Hoje, sabe-se que Youssef era muito mais que um doleiro. Era um operador de propinas, a ponte entre políticos e empreiteiros. Na capital maranhense, o destino da mala de dinheiro era um assessor da então governadora Roseana Sarney, agora um alvo da investigação.

Naquele mesmo dia 17, um senhor grisalho foi levado a depor na Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. O objetivo era explicar por que Youssef havia comprado um Land Rover de R$ 250 mil e emitido a nota em nome dele. O senhor era Paulo Roberto Costa. No mundo das aparências, tratava-se de um consultor de empresas privadas, que se valia do status de ter sido diretor de Abastecimento da Petrobras até 2012.

Enquanto ele depunha, duas equipes de policiais tentavam cumprir, sem sucesso, mandados de busca e apreensão na casa e no escritório de Costa. Na casa, a mulher dele passava mal. Costa dificultava o acesso ao escritório, dizendo que apenas ele tinha a chave. Os policiais que haviam ido ao escritório deixaram o local (em busca de segredos de cofres). Quando voltaram, a sorte apareceu. Um vizinho percebera que, assim que os policiais deixaram o escritório, houve uma movimentação intensa de retirada de documentos. Os investigadores conseguiram as imagens do condomínio. 

Bingo! As filhas e genros de Costa foram flagrados retirando provas. A PF tinha elementos para prender Costa e colocar sua família como suspeita. De consultor e ex-diretor da Petrobras, ele passou a principal suspeito. “É bom investigar um engenheiro organizado. Estava tudo lá, registrado em planilhas”, disse uma pessoa que acompanhou de perto a operação – planilhas que foram reveladas por ÉPOCA, logo depois. A Lava Jato deixava de ser uma operação contra doleiros para se tornar uma investigação sobre a Petrobras. Youssef também era organizado e deixara rastros. Rastros que colocavam grandes empresários como suspeitos de pagar propina na Petrobras. O doleiro se valia de uma empresa de fachada para receber dinheiro de empreiteiras. Faltava a ponte que ligasse os pontos.


Em agosto, Costa, já preso e réu por corrupção na estatal, passou a ser um delator. Em troca, livrou a família dos problemas com a Justiça. É bem provável que a PF chegasse à Petrobras após devassar a vida de Youssef. Mas seria impossível fazer isso em apenas cinco meses, sem as trapalhadas de Costa e a delação premiada dele.

Youssef seguiu o mesmo caminho e passou a colaborar logo depois, em setembro. O desenrolar do caso, para os mais perspicazes, estava evidente. Naquele momento, a investigação já passara por crises. Em abril, Youssef acusara a PF de grampeá-lo ilegalmente na carceragem da Superintendência do Paraná. Em maio, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, chegou a mandar soltar todos que estavam presos naquele momento. Num episódio raro, o juiz da primeira instância, Sergio Moro, fez um ministro da Suprema Corte voltar atrás em menos de 24 horas.

Nada se compara ao estresse de 14 de novembro de 2014, o dia apelidado de Juízo Final. Naquela sexta-feira, a equipe da Lava Jato passou a madrugada na Superintendência, alternando turnos de cochilo até desbaratar a operação. Foram 17 prisões, representando uma parcela considerável do PIB do país. Entre os presos estava Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras. Costa, como delator, havia apontado Duque como o maior responsável pelo esquema dentro da companhia. Era o homem do PT no esquema. Além dele, 16 executivos de oito empreiteiras foram presos pela PF.
 
JUÍZO FINAL Renato Duque ao sair do prédio da PF, em Curitiba.  Ele foi acusado por Costa, ex-colega de Petrobras (Foto:  Zanone Fraissat/FOLHAPRESS, PODER)
Com os executivos no xilindró, começou uma segunda fase da Juízo Final. Por volta das 15 horas, um avião Legacy da PF deixava o aeroporto de Brasília. O destino final era Curitiba. Antes, passou em São Paulo e Rio de Janeiro para recolher presos. Para entrar no avião, os empreiteiros passaram por uma revista completamente nus. O protocolo de segurança foi o mais rígido possível, a fim de garantir a segurança dos agentes da PF que estavam no voo. Já eram 4h30 da madrugada quando o avião se preparava para pousar em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba. O aeroporto Afonso Pena, contudo, estava fechado para obras desde meia-noite e só abriria às 6 horas. As obras tiveram de ser interrompidas para a aeronave pousar.
Atrás dos grandes executivos vieram os grandes advogados, e um fantasma passou a rondar a Lava Jato. Não era a primeira vez que a polícia se aproximava de empreiteiros. Mas, em 2010, a Operação Castelo de Areia não sobreviveu ao Superior Tribunal de Justiça, que trancou a investigação. Foi um trauma para os investigadores. “A gente apanhou muito lá atrás. Hoje, pisa em ovos”, diz um investigador. As mais bem pagas bancas de advogados do país passaram a exercer o legítimo direito de defesa, mirando em falhas da investigação para anular a Lava Jato.

O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, já havia anunciado sua expectativa de anular, de novo no STJ, a operação. A Justiça, contudo, tem sido unânime. O principal recado veio do desembargador convocado Newton Trisotto, relator no STJ de vários habeas corpus. Quando os advogados esperavam uma vitória à Castelo de Areia, Trisotto deu a dimensão da Lava Jato. “Poucos momentos na história brasileira exigiram tanta coragem do juiz como esse que vivemos nos últimos anos. Coragem para punir os políticos e os economicamente fortes, coragem para absolvê-los quando não houver nos autos elementos para sustentar um decreto condenatório”, disse o relator.

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