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quinta-feira, 16 de abril de 2015

EXAME VHS - O QUE É ? PRA QUE SERVE? COMO INTERPRETAR?

PARA QUE SERVE O EXAME VHS






VHS é a sigla usada para representar o exame "velocidade de hemo-sedimentação" ou "velocidade de sedimentação das hemáceas", um fenômeno que acontece quando o sangue é deixado em repouso na posição vertical, dentro de um tubo graduado em milímetros.
Nessa situação, as hemáceas se depositam no fundo do tubo, separando-se do plasma, que permanece na parte superior. Após uma hora de repouso, a linha de separação entre as hemáceas e o plasma serve para a leitura direta do resultado do exame na escala numérica. O valor é expresso como VHS de primeira hora em milímetros e a referência é até 20. Não existe um valor normal para VHS, existe um valor apenas dereferência, que o médico deve usar para avaliar o significado do resultado. Isso quer dizer que valores acima da referência, embora estejam aumentados, podem não ser anormais (veja adiante). A leitura de segunda hora não tem importância clínica e deve ser abandonada.



Os praticantes da que já denominei "medicina baseada em reumatismo" (veja MEDICINA BASEADA EM REUMATISMO), quando se deparam com um resultado de VHS aumentado, circulam ou sublinham o resultado e, pondo uma flecha ao lado, apontada para cima, afirmam imediatamente: - "É reumatismo".
O hábito de circular, sublinhar e marcar com flechas o resultado de exames é uma forma de iatrogenia que reforça na pessoa doente a informação que está sendo transmitida. Aos olhos de quem o recebe, o estímulo visual da marca sendo aposta ao resultado do exame passa a ter mais importância do que o significado científico do exame em si.
Essa prática debocha do conhecimento científico, pois VHS aumentado não significa "reumatismo" em nenhuma situação. E também não significa "reumatismo no sangue".
Mas os praticantes da medicina baseada em reumatismo não estão interessados em conhecimento científico. A única preocupação que os guia é convencer o paciente de que eles sabem o que a pessoa tem e usam a interpretação mitológica do exame VHS para isso, pois sabem que ninguém irá questionar que VHS aumentado não é "reumatismo" nem "reumatismo no sangue".



Quando digo que "reumatismo" nesse país é um problema de comunicação, refiro-me a várias coisas, e uma delas é a maneira como a informação científica é levada para a população.
Existem vários textos sobre VHS disponíveis na Internet e vou usar um deles como exemplo.
Trata-se do artigo Velocidade de sedimentação das hemáceas - utilidade e limitações, publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, volume 46, nº 3, de julho-setembro de 2000. O artigo é destinado a médicos, mas está disponível na rede e portanto pode ser acessado por qualquer pessoa.



Na vida diária do país, a maioria das pessoas que toma conhecimento do exame VHS e do significado que possa ter o faz através de profissionais que não estão preparados para explicar a utilidade do exame. Esses profissionais são os que relacionam VHS aumentado com o mito "reumatismo".



Como qualquer um poderá comprovar, a palavra "reumatismo" e a expressão "reumatismo no sangue" não aparecem no artigo acima. Não aparecem simplesmente porque não são informação científica, pois VHS aumentado não significa "reumatismo" nem "reumatismo no sangue" e ninguém perde tempo escrevendo sobre isso em artigos científicos. Por outro lado, no dia-a-dia, é com essa desinformação que a população se depara quando toma conhecimento do exame.
A maioria da população aceita a desinformação sem hesitar, baseando-se na autoridade e no conhecimento do profissional que a transmitiu. Entretanto, muitas pessoas já se acostumaram a procurar outra opinião através da Internet, para mais esclarecimentos e confirmação do que ouviram.
Mas quando se deparam com as explicações científicas disponíveis, não têm como tirar conclusões sobre as diferentes realidades apresentadas.
De um lado, a explicação mitológica simples e direta - "é reumatismo ou é reumatismo no sangue" - e do outro a informação científica extensa e confusa "é um teste inespecífico na documentação de processo inflamatório, infeccioso ou neoplásico, servindo também para inferência de sua intensidade e, considerando-se as limitações, da resposta à terapêutica".
Não tenho nenhuma dúvida de que alguém sem formação técnica, ao comparar essas alternativas, preferirá a primeira explicação. Ou seja, preferirá a explicação errada.



Isso acontece porque a informação científica disponível, por se dirigir originariamente a profissionais, não aborda diretamente a maneira como esses profissionais deturpam a informação ao transmiti-la para a população. Mas o artigo citado aborda esse comportamento de maneira indireta, velada, como na afirmação:"Dessa forma, para se evitar gastos desnecessários, o VHS só deve ser solicitado mediante suspeita clínica razoável, baseada na anamnese e no exame físico".
Para afirmar isso, o autor sabe que o exame é solicitado "na ausência de suspeita clínica razoável" e um exemplo disso acontece quando é solicitado como "exame para ver se é reumatismo", finalidade que simplesmente não existe (leia O EXAME MAIS IMPORTANTE EM REUMATOLOGIA).



Sabendo que a informação científica é deturpada nas explicações dadas a leigos, deixei de lado as citações veladas e indiretas dos artigos científicos e passei a usar nesse blog a linguagem mais direta possível para revelar as práticas sem fundamento envolvendo "exames para ver se é reumatismo", "diagnóstico de reumatismo" e "tratamentos para reumatismo", pois acredito que a linguagem simples e direta é de maior utilidade para a população.



O artigo sobre VHS citado anteriormente, relaciona 32 situações clínicas que causam elevação do VHS, entre elas aparecendo até o alcoolismo. Além disso, explica que o resultado do exame aumenta em condições fisiológicas (normais) como menstruação, gravidez e envelhecimento, e cita autores que notaram aumentos do exame em função de hábitos (tabagismo e consumo de café), nível socio-econômico baixo e raça negra. Essas observações explicam porque o exame pode estar aumentado em pessoas normais, na ausência de doença.



Portanto, VHS aumentado não é doença, não é "reumatismo" e também não é "reumatismo no sangue".



Para o reumatologista, o VHS:
- é útil para auxílio no diagnóstico - mas isoladamente não é diagnóstico de nenhuma doença;
- é útil para ajudar a descobrir alguma inflamação - mas isoladamente não significa que alguma inflamação esteja presente;
- é útil para avaliar a intensidade da inflamação presente - mas isoladamente não diz que a inflamação é grande ou pequena;
- é útil para avaliar a resposta ao tratamento da inflamação - mas isoladamente não diz que a inflamação melhorou ou não.
A interpretação correta do exame requer a análise do resultado em conjunto com os dados da história e do exame físico e esses dados podem dizer que um VHS aumentado é normal em determinada situação ou que um VHS "normal" não está mostrando a condição real da doença de alguém.



O verdadeiro papel do médico é aplicar o conhecimento científico no diagnóstico e tratamento de doenças e deve fazer isso pensando em primeiro lugar no benefício do doente. Usar mitos para explicar doenças e assustar pessoas vai contra esse princípio. 

O que significa um VHS elevado?


O que significa um VHS (velocidade de hemossedimentação) elevado?
O VHS é um dos exames mais utilizados por um reumatologista. O que significa o VHS? Em que situações ele está elevado? Quais as implicações desta elevação? Confira estas e outras respostas abaixo.
O que é o VHS?
VHS vem de Velocidade de Hemo-Sedimentação. “Hemo” (αίμα), em grego, significa sangue, e sedimentação, é a precipitação de partículas sólidas suspensas em um líquido pela ação da gravidade. Ao pé da letra, VHS significa a velocidade com que os glóbulos vermelhos se separam do “soro” e se depositam no fundo, se um tubo de sangue (com anti-coagulante) é deixado parado (veja figura). Os glóbulos vermelhos (hemácias), que têm a forma de “balas soft”, vão sendo puxadas para baixo pela gravidade e tendem a se aglomerar no fundo do tubo. No entanto as hemácias são cobertas por cargas elétricas negativas e, quando elas vão se aproximando no fundo, repelem-se umas às outras, como cargas iguais de ímans. Essa força magnética de repulsão se contrapõe à gravidade, e naturalmente diminui a velocidade com que as hemácias caem. No entanto, se junto com as hemácias, nadando no plasma, haja outras estruturas de cargas positivas, estas vão anular as cargas negativas das hemácias e também a repulsão magnética entre elas, permitindo sua aglutinação. Neste caso a gravidade age sozinha e a velocidade com que elas caem (velocidade de hemossedimentação) é acelerada. O VHS é expresso como o número de milímetros que o sangue sedimentou (no tubo) no espaço de 1 hora (mm/h).
VHS
O que mede o VHS?
Muitas proteínas concentram cargas positivas em um lado e negativas em outro (assimetria de cargas). A parte positiva destas proteínas tem o mesmo efeito sobre as hemácias. Diversas proteínas produzidas pelo corpo durante infecções ou inflamações (proteínas de fase ativa, principalmente o fribrinogênio) são assim. Portanto VHS é um jeito indireto de medir a presença inflamação ou infecção no corpo.
Em que condições o VHS está elevado?
Como acima descrito, em situações onde há inflamação/ infecção existe a produção de proteínas (de fase ativa) que elevam a velocidade de hemossedimentação. Mas outras proteínas também são capazes de alterar a velocidade da queda das hemácias. Fibrinogênio (necessário para a cogulação e produzido em excesso na gravidez), imunoglobulinas (anticorpos) e paraproteínas (produzidas por cânceres do sangue) são exemplos. Além disso, a diluição do sangue (gravidez, insuficiência cardíaca, insuficiência renal) diminui a viscosidade e separa as cargas repulsivas elevando o VHS. Uma das principais proteínas do plasma sanguíneo chama-se albumina. Ela também tem carga negativa, portanto quando sua concentração cai (falência hepática, perda renal ou intestinal) “sobra” proporcionalmente mais cargas positivas para anular as hemácias, elevando o VHS. Outro mecanismo de elevação do VHS consiste na diminuição do número de hemácias (anemia) ou alteração da forma das mesmas (anemia falciforme). A obesidade, o diabetes mellitus, o sexo e a idade são fatores que também influenciam o VHS.
Tabela 1: Situações nas quais há elevação de VHS
Situações
Exemplos
InflamaçãoArtrites (Reumatóide, Lúpus), Vasculites, Serosites
InfecçãoAguda (amigdalite, cistite, gripe), Crônica (hepatites, osteomielites)
HemodiluiçãoInsuficiência cardíaca, Insuficiência renal, Gravidez
Queda de albuminaInsuficiência hepática, perda renal (s. nefrótica), perda intestinal
Proteínas no sangueGravidez (fibrinogênio), Câncer (paraproteínas), Crioglobulinemia
Alteração das hemáciasNúmero (anemia), Forma (A. falciforme, esferocitose)
OutrasObesidade (aumento IL-6), Diabete Mellitus (vários mecanismos), tabagismo, idade, sexo feminino.
Qual é o valor normal para o VHS?
O VHS varia de acordo com a idade, sexo e método de aferição. Pode haver variações entre os valores normais de laboratório para laboratório, mas de maneira geral os valores normais podem ser aproximadamente expressos pela seguinte fórmula:
Homens
.      Valor normal = idade/2
Mulheres
.     Valor normal = (idade+10)/2
Crianças:
.      Valor normal =~ 3-13 mm/h
Meu VHS está elevado, o que isso significa?
Como acima descrito, existem diversas condições que podem alterar o VHS, muitas delas corriqueiras e passageiras como um resfriado, uma amigdalite e ou uma infecção urinária. Um exame pontualmente alterado pode não querer dizer nada! Frente a um VHS elevado a melhor postura muitas vezes é aguardar e repetir o exame mais tarde (como o VHS pode demorar semanas para cair mesmo depois da melhora clínica, o ideal é repetir o exame somente 1 mês mais tarde). Como praticamente todo exame laboratorial, o VHS deve ser interpretado dentro de um contexto clínico. Seu médico é a melhor pessoa para dizer se o VHS tem ou não importância clínica.

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