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quinta-feira, 5 de março de 2015

Inadequação do consumo de nutrientes entre adolescentes brasileiros



Consumo inadecuado de nutrientes entre adolescentes brasileños


Gloria Valeria da VeigaI; Rosana Salles da CostaI; Marina Campos AraújoII; Amanda de Moura SouzaII; Ilana Nogueira BezerraII; Flávia dos Santos BarbosaIII; Rosely SichieriIV; Rosangela Alves PereiraI
IDepartamento de Nutrição Social e Aplicada. Instituto de Nutrição Josué de Castro. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Instituto de Medicina Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIIDepartamento de Nutrição Social. Instituto de Nutrição. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IVDepartamento de Epidemiologia. Instituto de Medicina Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil



RESUMO
OBJETIVO: Estimar o consumo de energia e nutrientes e a prevalência de inadequação da ingestão de micronutrientes entre adolescentes brasileiros.
MÉTODOS: Amostra probabilística composta por 6.797 adolescentes (49,7% do sexo feminino) entre dez e 18 anos de idade foi avaliada no Inquérito Nacional de Alimentação, 2008-2009. Os fatores de expansão, a complexidade do desenho da amostra e a correção da variabilidade intrapessoal do consumo foram considerados. A prevalência de inadequação de consumo de micronutrientes foi estimada pela proporção de adolescentes com ingestão abaixo da necessidade média estimada. Para o sódio, estimou-se a prevalência de consumo acima do valor de ingestão máxima tolerável.
RESULTADOS: A média de consumo de energia variou de 1.869 kcal, observada nas adolescentes de 10 a 13 anos, a 2.198 kcal, estimada para os adolescentes de 14 a 18 anos. Os carboidratos forneceram 57% da energia total, os lipídios, 27% e as proteínas, 16%. As maiores prevalências de inadequação foram observadas para cálcio (> 95%), fósforo (entre 54% e 69%) e vitaminas A (entre 66% e 85%), E (100%) e C (entre 27% e 49%). Mais de 70% dos adolescentes apresentaram consumo de sódio superior à ingestão máxima tolerável.
CONCLUSÕES: As médias de consumo energético e a distribuição de macronutrientes eram adequadas, mas foram observadas elevadas prevalências de inadequação no consumo de vitaminas e minerais, destacando-se consumo de sódio muito acima do recomendado, consumo de cálcio reduzido e nas adolescentes de 14 a 18 anos foi observada importante inadequação na ingestão de ferro.
Descritores: Adolescente. Nutrição do Adolescente. Ingestão de Energia. Micronutrientes, deficiência. Estado Nutricional. Recomendações Nutricionais. Avaliação Nutricional. Inquéritos sobre Dietas.

RESUMEN
OBJETIVO: Estimar el consumo de energía y nutrientes y la prevalencia de ingestión inadecuada de micronutrientes entre adolescentes brasileños.
MÉTODOS: La muestra probabilística compuesta por 6.797 adolescentes (49,7% del sexo femenino) entre diez y 18 años de edad fue evaluada en la Pesquisa Nacional de Alimentación, 2008-2009. Se consideraron los factores de expansión, la complejidad de diseño de la muestra y la corrección de la variabilidad intra-personal de consumo. La prevalencia de consumo inadecuado de micronutrientes fue estimada por la proporción de adolescentes con ingestión por debajo de la necesidad promedio estimada. Para el sodio, se estimó la prevalencia de consumo por encima del valor de ingestión máxima tolerable.
CONCLUSIÓN: Los promedios de consumo energético y la distribución de macronutrientes eran adecuados, sin embargo, se observaron elevadas prevalencias de consumo inadecuado de vitaminas y minerales, destacándose el consumo de sodio muy por encima de lo recomendado, consumo de calcio reducido y en las adolescentes de 14 a 18 años fue observada importante ingestión inadecuada de hierro.
Descriptores: Adolescente. Nutrición del Adolescente. Ingestión de Energía. Micronutrientes, deficiencia. Estado Nutricional. Recomendaciones Nutricionales. Evaluación Nutricional. Pesquisas sobre Dietas.



INTRODUÇÃO
O interesse na alimentação e nutrição de adolescentes se justifica diante de evidências que associam dieta nessa fase da vida com riscos de doenças crônicas na vida adulta.23
No Brasil, o alto consumo de alimentos com elevado teor calórico, ricos em sódio, gorduras saturadas, açúcar, bebidas açucaradas e lanches do tipo fast-food, além de baixo consumo de frutas e hortaliças.20 é considerado importante fator de risco para obesidade e co-morbidades.26 Consequentemente, o excesso de peso e a obesidade entre os adolescentes brasileiros vêm aumentando expressivamente nos últimos 35 anos,a além das doenças associadas à obesidade.30
Os adolescentes também são suscetíveis a deficiências nutricionais devido à demanda aumentada de nutrientes para atender ao intenso crescimento característico dessa fase, especialmente ferro, cálcio, zinco e vitaminas A, C, D, E e as do complexo B.29
Estudo com amostra probabilística na cidade de São Paulo,32 SP, revelou elevada proporção de adolescentes de 14 a 18 anos com ingestão inadequada de magnésio e de vitaminas A, B6, C e E.
Em 2008-2009, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou a V Pesquisa de Orçamentos Familiares na qual foi incluído um inquérito de consumo alimentar individual, que consistiu no primeiro Inquérito Nacional de Alimentação (INA).b
O presente estudo tem como objetivo estimar o consumo de energia e de nutrientes e a prevalência de inadequação da ingestão de micronutrientes entre adolescentes brasileiros.

MÉTODOS
Foram utilizados dados do Inquérito Nacional de Alimentação (INA), incluído na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009. Informações mais detalhadas sobre a amostragem e coleta de dados foram publicadas anteriormente.b Expondo de forma resumida, a POF 2008-2009 adotou plano de amostragem por conglomerado em dois estágios. No primeiro, foram selecionados setores censitários, previamente estratificados de acordo com a localização geográfica e a renda média dos chefes dos domicílios. Os setores censitários foram selecionados por amostragem, com probabilidade proporcional ao número de domicílios existentes em cada setor, os quais correspondem aos setores da base geográfica do Censo Demográfico 2000. No segundo estágio, foram selecionados os domicílios particulares permanentes, por amostragem aleatória simples, sem reposição, em cada setor censitário. Dos 68.373 domicílios amostrados, foi calculada subamostra de 25% para o INA, de modo que fosse selecionado um em quatro domicílios em cada setor censitário, totalizando 16.764 domicílios. Considerando 19% de não resposta, foram avaliados 13.569 domicílios. Fizeram parte todos os moradores com pelo menos dez anos de idade, totalizando 34.032 indivíduos. Destes, 6.939 eram adolescentes (20,4%) entre dez e 18 anos, sendo 3.519 do sexo feminino (51,7%). Na presente análise foram excluídas as adolescentes gestantes e/ou lactantes (n = 142), totalizando 6.797 adolescentes investigados, sendo 3.377 do sexo feminino (49,7%). A coleta de dados teve duração de 12 meses e foi realizada no período de 2008 a 2009.
O consumo alimentar foi estimado por registro alimentar de dois dias não consecutivos, procedimento requerido para a estimativa do consumo usual.31 O adolescente entrevistado foi orientado a anotar em caderneta específica todos os alimentos e bebidas consumidos durante os dias pré-determinados, indicando o horário, as quantidades consumidas em medidas caseiras, a forma de preparação e o local de consumo do alimento (dentro ou fora do domicílio). Foi incluída uma pergunta relacionada ao consumo de açúcar e/ou adoçante. Quando o adolescente não conseguia fazer os seus registros alimentares, estes foram preenchidos com o auxílio de outro morador do domicílio ou uma pessoa por ele indicada.
A entrada de dados foi feita pelos agentes da pesquisa, no próprio domicílio, utilizando-se programa de entrada de dados elaborado, especialmente, para o módulo de consumo alimentar, no momento da coleta das cadernetas preenchidas, quando se procedia à revisão dos registros alimentares, sendo realizadas as correções necessárias a partir de procedimentos de sondagem padronizados. Esse programa incluía uma base de dados com cerca de 1.500 itens (alimentos, bebidas e preparações), selecionados a partir de 5.686 itens alimentares registrados na base dos dados de aquisição de alimentos e bebidas da POF 2002-2003. Os alimentos que não constavam na base de dados foram incluídos pelos entrevistadores. Ao final da pesquisa, foram citados 1.971 alimentos, preparações e bebidas.
O controle de qualidade da coleta de informações sobre o consumo alimentar foi realizado com base em análises parciais, como a verificação da frequência de resposta, média de itens consumidos no primeiro e no segundo dia de registro, sendo informadas, periodicamente, aos coordenadores locais as inconsistências e a necessidade de ajustes no processo de coleta de dados. Detalhes sobre o pré-teste, treinamento, validação do instrumento de coleta de dados e digitação encontram-se publicados.b Na checagem de consistência dos dados, foram excluídos adolescentes (menos de 1%) com registros alimentares incompletos. Com base em análise de consistência, foram imputados valores quando as quantidades relatadas eram consideradas improváveis.bLevou-se em conta a adição de óleo de soja em todas as formas de preparação cozidas e refogadas (carnes e vegetais). Padronizou-se a adição de 10% de açúcar do volume consumido de líquidos como suco de fruta, café, café com leite, chá e mate, quando o adolescente relatou consumir preferencialmente açúcar e 5% quando era informado o uso de açúcar e adoçante.
Para a estimativa do consumo de energia, macro e micronutrientes (cálcio, fósforo, ferro, sódio, zinco, vitaminas A, C, E, e B12), foram utilizadas as tabelas de composição nutricionalc e medidas caseiras,19elaboradas especificamente para análise dos alimentos e preparações obtidas no INA. Essas tabelas foram elaboradas a partir de uma compilação de dados disponíveis na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (Taco)d e na base de dados do Nutrition Data System for Research (NDSR).e
As médias populacionais (e respectivos erros padrão) do consumo de energia e macronutrientes, os percentis das distribuições de ingestão e as prevalências de consumo inadequado de micronutrientes foram estimadas com base nos dados de dois dias de registro alimentar, corrigidos pela variabilidade intraindividual.31 O método utilizado para estimar o consumo usual e as prevalências de inadequação de micronutrientes foi desenvolvido pelo National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos.31 Basicamente, o método NCI consiste num modelo misto não linear dividido em duas partes. A primeira se baseia em modelo de regressão logística com efeitos aleatórios para estimar a probabilidade de consumo; a segunda parte considera os dados transformados para alcançar simetria da distribuição e estima a quantidade de consumo por meio de regressão linear com efeitos aleatórios. Como todos os nutrientes investigados foram habitualmente consumidos (menos de 5% de zeros), assume-se que a probabilidade de consumo estimada na primeira parte do modelo é igual a 1 (um), levando-se em consideração para a estimativa do consumo habitual somente a segunda parte do modelo.31 Todos os modelos utilizados consideraram as cinco regiões do País (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste) e a situação do domicílio (urbano/rural) como co-variáveis. Para a estimativa da ingestão usual do percentual de energia proveniente de proteína, carboidrato e lipídio, utilizou-se uma extensão do método NCI para modelo bivariado.7
As estimativas dos erros padrão obtidas pelo método NCI são baseadas nas hipóteses de independência e de igualdade de distribuição das observações, assumindo-se amostra aleatória simples. Tais hipóteses não se aplicam a dados obtidos de um plano amostral complexo como a POF. Desse modo, os erros-padrão foram estimados por técnica de replicação (balanced repeated replication) com a modificação de Fay5 (1989) e utilizada por Barbosa et al.2
As prevalências de inadequação foram estimadas segundo sexo, faixa etária (dez a 13 anos e 14 a 18 anos) e proporção de adolescentes com consumo abaixo da necessidade média estimada (Estimated Average Requirement - EAR), conforme proposto pelo Institute of Medicine (IOM), dos Estados Unidos.18 A EAR representa o valor médio de ingestão diária de um nutriente que se estima atender às necessidades de 50% da população saudável.11-18
Especificamente para o ferro, a estimativa da inadequação de consumo foi calculada por meio do método da abordagem probabilística manualmente determinada,15 tendo em vista que a distribuição da necessidade desse micronutriente é assimétrica entre as mulheres em idade fértil, não atendendo a um dos pressupostos para que a EAR seja utilizada. Usamos o método da abordagem probabilística para ambos os sexos com o objetivo de facilitar comparações. Inicialmente, estimaram-se os percentis (10, 15, 25, 50, 75 e 90) da distribuição do consumo usual de ferro. Para cada um foi associada probabilidade de inadequação segundo sexo e faixas etárias. Essas probabilidades de inadequação são especificadas para intervalos da necessidade de ingestão de ferro segundo sexo e faixas etárias de acordo com o recomendado pelo IOM15 (2001). O risco de inadequação correspondeu ao número de indivíduos em cada intervalo de consumo de ferro, multiplicado pela respectiva probabilidade de inadequação, e a prevalência de inadequação de ferro correspondeu ao somatório do percentual de indivíduos com inadequação em cada percentil. Esse método não permite estimar o erro padrão das inadequações de ferro.
Para o consumo de sódio, foram considerados como inadequados os valores de ingestão acima do nível de ingestão máxima tolerável (tolerable upper intake level - UL).14 A escolha da UL se deu pelo fato de o consumo de sódio no Brasil ser muito elevado.28
Todas as estimativas foram calculadas utilizando o software SAS (Statistical Analysis System), versão 9.3, levando em conta os fatores de expansão da POF 2008-2009 e a complexidade do desenho da amostra. Todas as análises consideraram a estratificação por sexo e faixa etária de adolescentes.
O protocolo da pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto de Medicina Social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAAE 0011.0.259.000-11).

RESULTADOS
A média de consumo de energia variou de 1.869 kcal entre adolescentes do sexo feminino com idade de dez a 13 anos a 2.198 kcal entre os do sexo masculino de 14 a 18 anos. Não foram verificadas diferenças entre as faixas etárias quanto ao total de energia e macronutrientes na dieta para o sexo feminino. No entanto, adolescentes do sexo masculino na faixa etária de 14 a 18 anos apresentaram maior consumo médio de energia, proteínas e lipídios em relação àqueles de 10 a 13 anos. A contribuição percentual dos macronutrientes para a ingestão total de energia foi de aproximadamente 57% para carboidratos, de 16% para proteínas e de 27% para lipídios (Tabela 1).
Independente do sexo e faixa etária, a inadequação da ingestão de cálcio e vitamina E atingiu quase 100% dos adolescentes. Cerca de dois terços ou mais dos adolescentes apresentaram inadequação do consumo de fósforo e vitamina A, e um terço apresentou inadequação para vitamina C. Quanto ao consumo de sódio, mais de 70% dos adolescentes apresentou consumo superior ao valor de ingestão máxima tolerável (Tabelas 2 e 3).
Entre o sexo masculino, a prevalência de inadequação da ingestão de fósforo foi mais elevada entre aqueles na faixa etária de dez a 13 anos, e a de vitaminas A, C e sódio foi maior entre aqueles com 14 a 18 anos (Tabela 2). As adolescentes com idade entre 14 e 18 anos apresentaram maior prevalência de inadequação do consumo de ferro quando comparadas ao grupo de 10 a 13 anos, o qual, por sua vez, apresentou maior prevalência de inadequação de sódio (Tabela 3).
Foram observadas prevalências mais elevadas de inadequação do consumo de sódio em adolescentes do sexo masculino (de ambas a faixas etárias) e de vitaminas A e C (somente para o grupo de 14 a 18 anos) em relação ao sexo feminino. As adolescentes de 14 a 18 anos tiveram maiores prevalências de inadequação de fósforo e ferro do que os adolescentes de mesma faixa etária (Tabelas 2 e 3).

DISCUSSÃO
Quase a totalidade dos adolescentes brasileiros apresenta inadequações do consumo de cálcio e vitamina E, e em proporção menor, mas ainda relevante (cerca de 2/3 dos adolescentes), da ingestão de fósforo e vitamina A, e cerca de 1/3 de vitamina C. Embora com algumas pequenas diferenças entre os sexos, tais inadequações são relevantes para ambos os sexos.
Com relação ao consumo de cálcio, nem os 10% da amostra que consomem as maiores quantidades de cálcio (percentil 90) atingem a referência nutricional de 1.100 mg diárias. As diferenças metodológicas para avaliar consumo alimentar e inadequação no consumo de nutrientes dificulta a comparabilidade dos resultados entre os estudos; todavia, a inadequação do consumo de micronutrientes observada com os dados do INA confirma o que vem sendo revelado em outros estudos realizados no Brasil, independentemente do método de análise de inadequação,32 assim como em outros países emergentes6,27 e desenvolvidos.10
No presente estudo, a inadequação no consumo de cálcio e fósforo pode estar relacionada ao baixo consumo de leite e derivados, que são suas principais fontes alimentares, tendo em vista que produtos lácteos, frutas e hortaliças estão entre os alimentos menos consumidos por adolescentes brasileiros.b O baixo consumo de leite e derivados por adolescentes tem sido associado ao aumento da participação de refrigerantes e outras bebidas com adição de açúcar na dieta,6 as quais, por sua vez, vêm sendo associadas ao aumento de excesso de peso na adolescência.22
A ingestão adequada de cálcio e fósforo na adolescência é fundamental para o alcance do pico da massa óssea e manutenção da integridade do esqueleto e consequente prevenção de osteoporose e fraturas na vida adulta.4Ainda um possível papel adicional do cálcio na prevenção de doenças crônicas, como a hipertensão arterial e obesidade,3 indica os prejuízos que a deficiência desse mineral pode trazer à saúde.
As vitaminas A, C e E também foram os nutrientes com maior prevalência de inadequação em adolescentes de 14 a 18 anos de São Paulo, SP,32 avaliada ainda pelo método EAR. Foram observadas prevalências semelhantes às encontradas no presente estudo para vitamina E (quase 100%) e vitamina A (por exemplo: para adolescentes do sexo masculino e feminino, foram estimadas prevalências de 78% e 71% em SP, versus 85,6% e 72,3% no presente estudo, respectivamente). Contudo, a prevalência de inadequação da ingestão de vitamina C foi mais elevada em São Paulo (79% versus 48,8% para o sexo masculino e 53% versus 38,0% para o feminino).
Esses nutrientes foram inclusive os que tinham maior prevalência de inadequação na dieta de adolescentes americanos,25 embora em menor magnitude do que a observada no Brasil.
Além da importância dessas vitaminas para atender às demandas de crescimento satisfatório e às transformações corporais inerentes à puberdade destacam-se, entre outras, as suas funções antioxidantes e, possivelmente, protetoras contra doenças cardiovasculares.11-13,15 As elevadas prevalências de consumo inadequado desses nutrientes observadas nos adolescentes brasileiros possivelmente implica em incremento do risco de desenvolvimento de tais doenças.
A manutenção do baixo consumo de frutas, legumes e verduras tem sido constatada na população brasileira em geral21 e pode explicar a inadequação no consumo de vitaminas, principalmente a vitamina C, que tem nesses alimentos suas principais fontes. A ingestão média per capita diária de frutas, legumes e verduras observada na adolescência foi abaixo de 100 g, estando muito aquém dos 400 g diários recomendados para a proteção à saúde e diminuição do risco de ocorrência de enfermidades.18 Adolescentes são o grupo etário que apresentam o menor consumo desses alimentos,b tanto no Brasil quanto em outros países.10
De modo geral, as inadequações observadas na ingestão de micronutrientes foram semelhantes entre os sexos, com exceção do ferro e fósforo, que esteve mais inadequado nas adolescentes do sexo feminino, principalmente na faixa etária de 14 a 18 anos.
As diferenças mais expressivas nas prevalências de inadequação de micronutrientes entre as faixas etárias estão relacionadas ao ferro e à vitamina B12, com proporções de inadequação maiores em duas vezes (para o ferro) e cerca de três vezes (para vitamina B12) no grupo de adolescentes entre 14 e 18 anos, quando comparadas às mais jovens. A maior inadequação de ferro constatada nas adolescentes entre 14 e 18 anos as torna mais vulneráveis à anemia por carência de ferro, a qual se apresenta com elevada prevalência em adolescentes brasileiros de ambos os sexos.24 A maior inadequação de ferro observada entre o sexo feminino, comparado ao masculino, na segunda etapa da adolescência pode estar associada ao menor consumo do nutriente nesse grupo, visto que os valores em percentis são mais baixos dos que os valores entre os do sexo masculino, mediante necessidades semelhantes para os dois grupos (7,9 mg para sexo feminino e 7,7 mg para masculino).
Observamos também elevado percentual de adolescentes com consumo de sódio acima dos limites de ingestão diária biologicamente tolerável e que, provavelmente, não colocam os indivíduos em risco de efeitos adversos (acima de 70% entre o sexo feminino e acima de 80% entre o masculino). A mediana de consumo de sódio em ambos os sexos e nas duas faixas de idade, principalmente entre o sexo masculino (3.013 mg entre aqueles com dez a 13 anos e 3.491 mg entre aqueles com 14 a 18 anos), ultrapassa as referências de ingestão diária de 2.300 mg.14 O elevado conteúdo de sódio na dieta dos adolescentes pode estar associado ao alto consumo de alimentos industrializados observado na população brasileira.b
A avaliação da adequação da ingestão energética de adolescentes é uma tarefa complexa, pois as necessidades energéticas estimadas para essa faixa etária são estabelecidas a partir de equações que levam em consideração variáveis como sexo, idade, estatura, peso corporal e atividade física, além de energia adicional para depósito energético e crescimento.16 As necessidades energéticas para adolescentes de dez a 18 anos sedentários, considerando peso e estatura de referência, seriam de 1.798 kcal a 2.383 kcal para o sexo masculino e de 1.617 kcal a 1.690 kcal para o feminino.16 Assim, os valores médios observados entre os adolescentes brasileiros estariam, relativamente, dentro do esperado para os adolescentes do sexo masculino (1.952 kcal a 2.198 kcal), porém um pouco acima para o sexo feminino (1.869 kcal a 1.912 kcal). A opção pela comparação com estimativas para jovens sedentários é devido à elevada prevalência de sedentarismo que tem sido descrita em adolescentes brasileiros.9
A contribuição percentual dos macronutrientes para o consumo energético total observada entre os adolescentes investigados encontra-se dentro dos limites aceitáveis estabelecidos pelo IOM, que recomenda, para a população dos Estados Unidos e Canadá na faixa etária de 4 a 18 anos, que a contribuição dos macronutrientes deve variar de 45% a 65% para carboidratos, 10% a 30% para proteínas e de 25% a 35% para lipídios, que seriam limites associados ao atendimento das necessidades nutricionais e à redução no risco de doenças crônicas não transmissíveis. Contudo, o Guia Alimentar para a População Brasileiraf estabelece distribuição de 55% a 75% para carboidratos, 15% a 30% para lipídios e de 10% a 15% para proteínas. Dessa forma, as médias observadas no presente estudo estão dentro das recomendações brasileiras para lipídios (27%), carboidratos (57%) e ligeiramente acima para proteínas (16%). Apesar da adequação da distribuição percentual de macronutrientes, os adolescentes são o grupo etário que apresenta a maior média de consumo per capita de biscoitos recheados e refrigerantes, os quais são importantes fontes de açúcares simples. Além disso, entre adolescentes na faixa etária de 14 a 18 anos, são observadas as maiores médias de consumo de gorduras, quando comparados aos adultos e idosos,b o que explica, de certa forma, o maior consumo absoluto de carboidratos e lipídios, com consequente acréscimo de energia para esse grupo etário.
Estudos realizados com adolescentes brasileiros mostraram consumo elevado de lipídios20 e consumo de carboidratos e proteínas dentro ou acima do recomendado,8 resultados comparáveis ao observado no presente trabalho, exceto em relação ao consumo das gorduras, para o qual observamos menor contribuição para o consumo total de energia.
Vários métodos podem ser usados para estimar o consumo alimentar individual. O método escolhido para o INA foi o registro alimentar de dois dias não consecutivos. A escolha desse método deveu-se, principalmente, à necessidade de interferir o mínimo possível na prática de coleta de dados em campo na POF, que se baseia em registro de informações sobre despesas em uma caderneta,33 além de ter a vantagem de ser independente da memória. Todavia, assim como outros métodos de avaliação do consumo alimentar, esse também é sujeito a erros na estimativa do consumo, havendo a possibilidade de que os resultados incluam algum grau de sub-relato. Uma limitação do estudo é o fato de não terem sido adotados critérios para a exclusão do sub-relato e correção para a subestimativa, uma vez que esse procedimento poderia levar à superestimativa das inadequações no consumo de nutrientes. Porém, foram aplicados procedimentos estatísticos apropriados para minimizar o efeito da variabilidade intra-individual e que removem os valores extremos, tanto relacionados à subestimação quanto à superestimação da ingestão de nutrientes.1
O presente estudo foi pioneiro no Brasil ao estimar o consumo dietético individual em uma amostra probabilística com representatividade nacional de adolescentes, o que permitiu descrever o consumo populacional de energia e nutrientes e a prevalência de inadequação da ingestão de micronutrientes. Embora as médias de consumo energético e a distribuição de macronutrientes estejam adequadas, para micronutrientes como cálcio, fósforo, sódio e vitaminas A, E e C foram observadas prevalências elevadas de consumo inadequado em ambos os sexos e faixas etárias. A inadequação de ferro também se mostrou relevante entre as adolescentes com idade entre 14 e 18 anos.
Inadequações na ingestão de micronutrientes são particularmente preocupantes na adolescência quando as necessidades estão aumentadas devido ao estirão de crescimento e às transformações corporais inerentes à puberdade. O desenvolvimento de intervenções para redução dessas inadequações, assim como para diminuição do consumo excessivo de alimentos associados à obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis consistem em um desafio para as políticas públicas de promoção da saúde na adolescência e, consequentemente, na vida adulta.
Pesquisa financiada pelo Ministério da Saúde no que se refere ao planejamento e execução do inquérito e análise dos dados.

REFERÊNCIAS
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Os autores declaram não haver conflito de interesses. Artigo submetido ao processo de julgamento por pares adotado para qualquer outro manuscrito submetido a este periódico, com anonimato garantido entre autores e revisores. Editores e revisores declaram não haver conflito de interesses que pudesse afetar o processo de julgamento do artigo.


 Correspondência | Correspondence: Gloria V Veiga
Departamento de Nutrição Social e Aplicada
Instituto de Nutrição Josué de Castro - UERJ
Av. Carlos Chagas Filho, 373 Bloco J 2º andar
21941-590 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: gvveiga@globo.com

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