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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Os Vencedores Levam Tudo

Quando Isaac Newton desenvolveu o cálculoinfinitesimal e a teoria da gravidade seu prêmio foi muito maior que acumular opções para um trabalho recém-iniciado ou um grande bônus de final de ano. Seu trabalho mereceu crédito e reconhecimento de seus pares e, posteriormente, de um mundo muito maior. Desde Newton, a ciência mudou muito, mas esse fato basicamente não mudou. Crédito pelo trabalho realizado ainda é a moeda de troca na ciência.


Como deveriam ser atribuídos os créditos pelo trabalho científico? A questão tem implicações enormes na forma como a ciência se desenvolve e o que a sociedade recebe em troca por seus investimentos. Desde os primórdios da ciência os direitos de uma descoberta científica têm sido outorgados àquele que primeiro a relata. Essa “regra de prioridade” tem provocado algumas disputas acirradas – Newton manteve numa querela famosa com Gottfried Wilhelm Leibniz, que reclamava os méritos de ter inventado o cálculo, mas em geral a regra tem funcionado bem. Nos últimos anos, no entanto, uma competição ferrenha começou a criar dificuldades e passamos a conjecturar se não existe uma forma melhor de aplicar a regra.

Por seus aspectos positivos a regra da prioridade estimula uma competição saudável, que pode ser um forte motivador para os cientistas inovarem e rapidamente resolverem problemas. Os economistas consideram o conhecimento científico um bem público, o que significa que os competidores têm liberdade de usar esse conhecimento assim que é divulgado. A regra da prioridade é um incentivo poderoso para os cientistas compartilharem conhecimento. Alguns acreditam que a regra também ajuda a garantir que a sociedade receba um retorno compensador por seus investimentos em ciência porque são premiados os cientistas que mais beneficiam a sociedade.

Já sob o aspecto de “os vencedores levam tudo” a regra da prioridade não é tão vantajosa. Ela pode encorajar a dissimulação, falta de critério na realização de experimentos, desonestidade e ênfase excessiva em medidas subsidiárias da qualidade científica, como publicação em revistas de alto impacto. Os editores da revista Nature exortaram recentemente os cientistas a tomar mais cuidado com seus trabalhos mencionando a baixa reprodutibilidade dos resultados publicados, erros numéricos, controles inadequados, descrições incompletas de métodos e análises estatísticas impróprias.

Como a competição por recursos escassos tem aumentado consideravelmente, essas desvantagens da regra da prioridade podem ter começado a ir além de seus benefícios. As taxas de êxito dos cientistas que solicitam recursos para o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês) têm atingido, nos últimos anos, valores cada vez mais baixos. Como resultado, assistimos a um aumento exagerado na competição não saudável entre cientistas, acompanhado de uma proliferação incrível no número de publicações científi cas contestadas devido a fraude ou erro. Escândalos recentes na ciência são semelhantes aos casos de doping nos esportes, quando prêmios desproporcionalmente grandes atribuídos aos vencedores têm estimulado fraudes.

A importância da equipe de trabalho na ciência nunca foi tão grande. Estudos sobre publicações nos últimos 50 anos mostram que os grupos têm dominado cada vez mais a ciência e estão contribuindo para pesquisas de maior impacto. Colaboradores, consórcios e redes de trabalho são fundamentais para atacar problemas interdisciplinares e tarefas de grande porte como o Projeto Genoma Humano. A regra da prioridade pode estar minando esse processo.

A conveniência da regra da prioridade na ciência nunca foi seriamente questionada. Ela se adapta melhor à era da ciência moderna, na qual os cientistas trabalham em grandes equipes que apostam na cooperação para receber os méritos da pesquisa? Um sistema alternativo, que contemple o esforço da equipe voltado para a solução de problemas, pode funcionar melhor. A indústria que privilegia metas coletivas sobre conquistas individuais e o Programa de Pesquisa Intramuros do NIH, que encoraja a assimilação de risco e parcerias de colaboração entre indústria e academia, fornecem exemplos contrastantes, mas instrutivos. Talvez os cientistas possam negociar prazerosamente as vantagens da regra de prioridade (recompensas individuais) num sistema que ofereça maior estabilidade de apoio e coleguismo, compartilhamento mais livre de informação, mais integridade, rigor científico aprimorado e maior cooperação. Essas condições beneficiariam enormemente as iniciativas científicas e a sociedade a que servem.

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