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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Morbidade hospitalar por ingestão de esteroides anabólico-androgênicos (EAA) no Brasil




Sérgio Henrique Almeida da Silva Junior
Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca – ENSP/FIOCRUZ



RESUMO
INTRODUÇÃO: Os esteroides anabólico-androgênicos (EAA) são hormônios sexuais masculinos, promotores e mantenedores das características sexuais associadas à masculinidade e do status anabólico dos tecidos somáticos. Os efeitos físicos e mentais do uso abusivo de EAA são raros e é praticamente impossível afirmar com certeza quais os efeitos adversos que poderão tornar-se evidentes após a autoadministração, mas os mesmos constituem risco de morte para os indivíduos.
OBJETIVO: O objetivo do presente estudo foi descrever as principais características da morbidade por ingestão de EAA no Brasil, no período de 2000/2010.
MÉTODOS: As informações sobre as internações hospitalares foram obtidas dos bancos de dados informatizados do Ministério da Saúde. Na análise da ingestão de EAA como diagnóstico principal e secundário de hospitalização, partiu-se das causas de internação sob os códigos E28.1 (excesso de andrógenos), E34.5 (síndrome de resistência a andrógenos), T38.7 (intoxicação por andrógenos e anabolizantes congêneres) e Y42.7 (efeitos adversos de andrógenos e anabolizantes congêneres) do CID-10.
RESULTADOS: As hospitalizações por EAA foram responsáveis por 0,001% do total de internações do País. Foram contabilizadas 1.319 internações (média = 119,9, DP = 99,01). A síndrome de resistência a andrógenos foi a principal causa, correspondendo a 55,8% do total de internações. Do total de internações, 1% dos pacientes evoluiu para óbito e o tempo máximo de permanência foi de 47 dias (média = 3,8 e DP = 4,7). Minas Gerais, Maranhão e Espírito Santo possuíram as maiores taxas de internações por 1.000.000 de habitantes, nos anos de 2002 a 2007. As mulheres e a faixa etária de 15-29 tiveram maiores taxas, 82,5% e 37,7%, respectivamente.
CONCLUSÃO: Os resultados do presente estudo mostraram uma hospitalização por ingestão de EAA relativamente baixa, as mulheres e indivíduos na faixa etária de 15-29 anos possuíram as maiores taxas no período estudado.
Palavras-chave: anabolizantes, efeitos adversos, hospitalização.



INTRODUÇÃO
Os esteroides anabolizantes ou esteroides anabólico-androgênicos (EAA) são hormônios sexuais masculinos, promotores e mantenedores das características sexuais associadas à masculinidade e do status anabólico dos tecidos somáticos1. Eles incluem a testosterona e seus derivados, que são substâncias "construtoras" de tecido muscular.
O uso dessas substâncias com objetivo ergogênico iniciou-se em 1889, quando o investigador Brown-Séquard2injetou em si mesmo um extrato que tinha preparado a partir dos testículos de cães e cobaias; ele imaginou que dessa forma aumentaria sua vitalidade. Em 1930, a testosterona foi finalmente isolada e caracterizada na Alemanha3,4. Nos anos seguintes, numerosos derivados de testosterona foram sintetizados e finalmente foram criados os hormônios chamados de EAA5.
Logo após a introdução de EAA como possíveis agentes terapêuticos, os atletas descobriram que estas drogas poderiam permitir maiores níveis de massa muscular, além dos obtidos naturalmente6. Essas substâncias se espalharam rapidamente pela comunidade de elite atlética e, em 1954, a equipe russa foi flagrada no campeonato de levantamento de peso de Viena7.
Os efeitos físicos e mentais do uso abusivo de esteroides anabolizantes são raros e é praticamente impossível afirmar com certeza quais os efeitos adversos que poderão tornar-se evidentes após a autoadministração, por um longo período, de doses maciças de várias combinações de diferentes EAA, mas os mesmos constituem risco de morte para os indivíduos8.
A maior parte das informações disponíveis sobre os efeitos adversos dessas substâncias existe sob a forma de estudos dos casos de pacientes. Thiblin e Petersson, afirmam que os EAA podem ser letais ou trazer complicações físicas, como doenças coronarianas, cardiomiopatia, embolia pulmonar ou derrame9. Estudos recentes usando modernas técnicas de imagens encontraram associação entre uso de EAAs e disfunção diastólica e diminuição subclínica do ventrículo esquerdo10,12.
Outras evidências indicam que os EAAs podem causar complicações psiquiátricas associadas com um maior risco de morte prematura. No estudo de Pope e Katz, 23% dos usuários de EAA relataram problemas de humor e depressão, Teuber et al. encontraram problemas de psicose paranoica aguda, Perry e Hughes, transtorno afetivo e episódios esquizofrênicos.13-15
Os EAAs têm efeitos profundos nos sistemas endócrinos e reprodutivos. Alén et al. e Yesalis relataram que essas substâncias induziram baixa fertilidade nos homens e seu abuso prolongado pode produzir insuficiência testicular transitória.16-18
Além dos efeitos apresentados, estudos clínicos têm demonstrado uma associação entre o uso de EAA e uso de opiáceos e/ou outras substâncias psicoativas, como maconha, cocaína, anfetaminas ou de LSD (Dietilamida do Ácido Lisérgico)19-23.
Autorização de Internação Hospitalar (AIH) é um instrumento preenchido nos hospitais, obrigatório para a internação dos pacientes, pago pelo sistema público de saúde. Esse documento contém todas as informações relativas às internações, como dados demográficos, diagnósticos, procedimentos realizados e custos, o que permite o conhecimento do perfil da morbidade atendida por essa parcela do sistema e, de maneira importante, o cálculo dos custos das diferentes causas de internação. O sistema AIH, atualmente, é responsável por 80% da assistência médico-hospitalar prestada à população brasileira, representando cerca de 1.000.000 de internações por mês (aproximadamente 12.000.000 de internações/ano), em 6.380 unidades hospitalares24.
O objetivo do presente estudo é descrever as principais características da morbidade por ingestão de esteroides anabólico-androgênicos no Brasil, no período de 2000 a 2010, através do exame das AIH.

MÉTODOS
As informações sobre as internações hospitalares por ingestão de esteroides anabólico-androgênicos ocorridas no Brasil, no período de 2000 a 2010, foram obtidas de bancos de dados informatizados, disponibilizados pelo Ministério da Saúde, que contêm informações de todas as internações realizadas através das Autorizações de Internação Hospitalar (AIH) do Sistema Único de Saúde (SUS)1.
Na análise da ingestão de anabolizantes como diagnóstico principal e secundário de hospitalização, partiu-se das causas de internação sob os códigos E28.1 (excesso de andrógenos), E34.5 (síndrome de resistência a andrógenos), T38.7 (intoxicação por andrógenos e anabolizantes congêneres) e Y42.7 (efeitos adversos de andrógenos e anabolizantes congêneres) da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 10a revisão (CID-10)25.
As taxas de internações foram calculadas como número de internações em uma área em determinado ano, dividido pela população residente na área no mesmo ano e multiplicado por 1.000.000. Os dados populacionais para os anos em estudo foram provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)*2.

RESULTADOS
As hospitalizações por EAA no Brasil, nos últimos 11 anos, foram responsáveis por cerca de 0,001% do total de internações do País. Nesse período, foram contabilizadas 1.319 internações (média = 119,9, DP = 99,01), sendo o ano 2002 com o maior número (tabela 1).


A síndrome de resistência a andrógenos foi a principal causa, correspondendo a 55,8% do total de internações no período estudado. Intoxicação por andrógenos e anabolizantes congêneres e excesso de andrógenos participaram com, respectivamente, 41,35% e 2,6% do total de internações.
Dos pacientes internados, 1% evoluiu para óbito, o tempo máximo de permanência foi de 47 dias (média = 3,8 e DP = 4,7). A média de idade foi de 27,7 anos (DP = 19,5 anos).
De maneira geral, Minas Gerais, Maranhão e Espírito Santo possuíram as maiores taxas de internações por 1.000.000 de habitantes, nos anos de 2002 a 2007. O estado do Tocantins, em 2002, chegou a uma taxa de 8,3 por 1.000.000 de habitantes (tabela 2).


figura 1 apresenta a tendência ao longo do tempo e o número da morbidade hospitalar por ingestão de esteroides anabólico-androgênicos. Os casos se concentraram no período de 2002 a 2007, tendo uma leve queda no ano de 2006.


As mulheres e a faixa etária de 15-29 tiveram maior taxa de internação, 82,5% e 37,7%, respectivamente (tabela 3). As circunstâncias relativas às condições do modo de vida foram a principal causa associada de morbidade por ingestão de andrógenos (11,9%). Queda (3,3%) e estreitamento e atresia da vagina1,4, também foram causas importantes.


DISCUSSÃO
A motivação ao uso dos EAAs é, na maioria das vezes, de natureza estética. De acordo com Freitas26, preocupamo-nos em "perder a barriga", "aumentar o bíceps", "diminuir o nariz", como se as partes do nosso corpo estivessem fora de nós mesmos e como se as modificações sofridas por uma delas não fossem, na verdade, modificações do todo e, portanto, com implicações de tal abrangência.
A literatura científica há bastante tempo vem associando essas substâncias a uma série de malefícios que acometem seus usuários, porém, é difícil predizer com exatidão os efeitos colaterais promovidos pelo seu uso clínico e, além disso, a natureza da associação entre EAA, e aos desfechos hospitalares ou óbitos que necessitam ser melhores esclarecidos, uma vez que existem poucos dados sobre o efeito dessas substâncias ao longo da vida dos indivíduos.
A taxa de hospitalização por ingestão de EAA no Brasil foi relativamente baixa, isso pode ser explicado pelo sub-registro de casos, uma vez que não existe o preenchimento de AIH nos atendimentos de pronto-socorro e esse agravo não é de notificação compulsória.
Outro fator importante a ser investigado é a qualidade dos diagnósticos das internações, pois, segundo Pinheiro27, sistemas de informações padronizadas e confiáveis são essenciais para o monitoramento de qualidade e cobertura de serviços de saúde.
A subnotificação, o sub-registro, a falta de completitude dos campos e a cobertura do sistema são elementos que comprometem as estimativas de parâmetros clínico-epidemiológicos distorcendo muitas vezes a interpretação por parte de gestores e profissionais de saúde sobre a relevância e magnitude das doenças.
As circunstâncias relativas do modo de vida, quedas e estreitamento e atresia da vagina foram os diagnósticos mais associados à ingestão de EAA. Petersson et al.28, em um estudo de coorte com 1.463 suecos, encontraram que indivíduos usuários de EAA possuem 2,2 mais risco de hospitalização por consumo abusivo (IC95% = 1,2-4,2), 2,1 risco por desordens psiquiátricas (IC95% = 1,4-3,2) e 3,5 por dor torácica (IC95% = 1,1-10,9). As razões de mortalidade padronizada (RMP) nesse estudo em pacientes positivos e negativos foram 20,43 (IC95% = 10,56-35,70) e 6,02 (IC 95% = 3,77-9,12), respectivamente.
Pärssinen et al.29, em indivíduos finlandeses suspeitos de consumo de EAAs, encontraram um risco de morte de 4,6 (IC95% = 2,04-1,45). Os casos prematuros de morte foram associados a suicídios, infarto agudo do miocárdio, coma hepático e linfoma de Hodgkin's.

CONCLUSÃO
Os resultados do presente estudo mostraram uma hospitalização por ingestão de EAA relativamente baixa, as mulheres e indivíduos na faixa etária de 15-29 anos possuíram as maiores taxas no período estudado

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