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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Perfil e Perspectivas profissionais para o graduado em Filosofia

Perfil do Profissional

Os cursos de bacharelado e licenciatura em Filosofia da UFES propõem as mesmas competências e habilidades indicadas nas Diretrizes Curriculares aos Cursos de Graduação em Filosofia, proposta pela Comissão de Especialistas de Ensino da Filosofia supracitada e publicada no Parecer CNE/CES 492/2001:
- capacitação para um modo especificamente filosófico de formular e propor soluções a problemas, nos diversos campos do conhecimento;
- capacidade de desenvolver uma consciência crítica sobre conhecimento, razão e realidade sóciohistórico- política;
- capacidade para análise, interpretação e comentários de textos teóricos, segundo os mais rigorosos procedimentos de técnica hermenêutica;
- compreensão da importância das questões acerca do sentido e da significação da própria existência e das produções culturais;
- percepção da integração necessária entre a filosofia e a produção científica, artística, bem como com o agir pessoal e político;
- capacidade de relacionar o exercício da crítica filosófica com a promoção integral da cidadania e com respeito à pessoa, dentro da tradição de defesa dos direitos humanos.

filósofo é o pensador que se debruça sobre questões da ética (o bem e o mal), estética (o “belo”), epistemologia (formas e natureza da produção de conhecimento) e da política. A partir da especulação e da argumentação, o filósofo busca destrinchar a natureza e as condições das ideologias, dos valores humanos, da “verdade”, das ciências, das relações humanas.
Disparadamente a maior área de atuação é o ensino de filosofia, tanto no ensino médio como no ensino superior. Para ser professor de ensino médio é necessária a licenciatura. Para lecionar em faculdades o graduado deve realizar estudos de pós-graduação (mestrado e doutorado). A rede privada de ensino em geral remunera melhor o professor que a rede pública. Na pública o salário base gira em torno de R$ 950,00 por 24 horas semanais. No ensino superior a remuneração é maior.
Outras possibilidades são trabalhar com crítica de arte / literatura, produzir e editar textos reflexivos sobre temas pertinentes à área e eventualmente em empresas e instituições que desejem refletir sobre aspectos éticos. Porém essas são oportunidades muito diminutas.
Uma opção para ampliar as possibilidades de remuneração é buscar a graduação paralela em outras áreas correlatas, em função de seu interesse. 

1. SOBRE O CURSO

Filósofo


Este profissional se dedica ao estudo e à pesquisa da essência e da natureza da humanidade, do universo e suas inter-relações. Dedica-se à compreensão de questões como espaço, tempo, verdade, consciência e existência. Sua atividade pode se aplicar à compreensão de questões e problemáticas contemporâneas, em vários campos do conhecimento, relacionando o exercício da crítica filosófica com a promoção integral da cidadania.

Principais áreas de atuação  

 
- Consultoria na área de gestão de pessoas em empresas e organizações do terceiro setor
- Crítica de produções artísticas e culturais
- Ensino  e pesquisa acadêmica

TOPO

2. ENSINO

Número de faculdades62
Melhores cursosFaculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Belo Horizonte – MG), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (São Leopoldo – RS), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janei
Vagas disponíveis por ano3.043
Duração do curso4 anos
Candidatos6.396
Candidatos/vaga2,10
Formandos por ano987
TOPO

3. ESTÁGIO

Estágio obrigatório?    


Só para os estudantes de licenciatura, que vão dar aulas na Educação Básica.

Quem recruta estagiários    


- Escolas.
- Institutos de pesquisa.
- Universidades.

Melhor época do ano para procurar estágio  

 
Começo do ano.


Momento ideal para iniciar estágio    


A partir do terceiro ano.

Atividades do estágio


- Observação das aulas de um professor titular.
- Auxílio nas tarefas, como produção de exercícios, planejamento de aulas, avaliações.
- Sugestão de materiais didáticos.
- Se a escola autorizar, participação em reuniões e conselhos de classe.


Particularidades do estágio  

 
A legislação referente ao estágio em licenciatura prevê um total de 1 mil horas, distribuídas da seguinte maneira: 400 horas na escola, 400 de prática docente e 200 horas de atividades didáticas e culturais.TOPO

4. MERCADO

Profissionais no mercado

    
Cerca de 7 mil licenciados em Filosofia atuam na Educação Básica.

Exigências para atuar na profissão 

   
- Ter curso superior de licenciatura em Filosofia para atuação na Educação Básica.
- Para ingressar no Ensino Superior, ter mestrado no sistema privado e de doutorado no sistema público.

Regulamentação 

   
Não há

Ganho inicial (média mensal)  

 
- Na rede pública, de R$ 1 mil a R$ 2 mil, dependendo da carga horária.
- No Ensino Médio em escolas privadas, cerca de R$ 4 mil.
- Como professor doutor de uma universidade pública, R$ 5 mil.

Ganho escalão intermediário (média mensal)  

 
De R$ 6 mil a R$ 7 mil no Ensino Superior.

Ganho no auge (média mensal)  

 
R$ 8 mil no Ensino Superior.

Atividades do início de carreira  

   
- Prepara e dá aulas na Educação Básica e no Ensino Superior.

Evolução da profissão


Se for professor na Educação Básica na rede pública, segue a progressão prevista na legislação do estado onde atua. No Ensino Superior, segue a progressão da carreira prevista na instituição em que atua.
- Algumas empresas contratam filósofos como consultores para dar parecer sobre seu modo de funcionamento.
- O filósofo também é requisitado para ministrar cursos e formações em outras áreas, especialmente teatro e artes plásticas. O profissional experiente e renomado também escreve livros e atua em revistas especializadas.


Auge da carreira    


Cerca de dez anos na Educação Básica. No Ensino Superior, pode levar de 15 a 20 anos.

Dicas     


- Para ser professor de Filosofia na Educação Básica, é preciso ter habilidade para construir uma aula interessante e ser capaz de manter a atenção dos alunos.
- Já o bacharel precisa gostar de ler e de pensar, além de ser ousado na construção de novas ideias e formas de pensar e ver a realidade. 
TOPO
Fontes: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)/Ministério da Educação (MEC), dados de 2010; Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), dados de 2008;

Ministério da Educação (MEC)

Especialistas entrevistados para compor o perfil da profissão:

Filipe Ceppas, filósofo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Os profissionais dessa área de pesquisa serão cada vez mais fundamentais já que situações como o aquecimento global trazem à luz questões nunca antes pensadas como: em que consiste exatamente a trajetória do humano na terra, seu papel na preservação da vida futura e demais assuntos de tanta urgência?
Dica 1 – Entrou no seu radar fazer o curso de graduação em Filosofia? Veja também outras carreiras antes de se decidir. Sociologia, Psicologia, Antropologia, e tambem Medicina,Direito e Engenharias. Veja aqui como é cada um destes cursos e a vida profissional depois da faculdade: https://blogdoenem.com.br/guia-de-cursos-e-profissoes/

Quem é o filósofo?

FilosofiaAo se formar no curso de graduação em Filosofia espera-se do profissional as seguintes habilidades: Capacidade para argumentação e um discurso articulado de maneira clara. Também sua escrita deve ser límpida a fim de simplificar e transmitir com clareza conceitos que por vezes sejam demasiado complexos;
O filósofo deve compreender questões que abordam a existência humana bem como as suas relações com os demais discursos da ciência exata e humana;
Quem estuda a fundo esta área torna-se capaz de harmonizar o exercício da filosofia, ou seja, da reflexão com o compromisso de uma cidadania experimentada pelas pessoas de maneira progressiva em busca de um ambiente que promova a liberdade;    E, num aspecto mais técnico e acadêmico, espera-se do profissional de filosofia ser capaz de organizar pesquisas e projetos em sua área de conhecimento, e de ministrar aulas desde a Educação Básica e até à Pós-graduação.
Dica 2 – Veja as notas de corte no Sisu para o curso de graduação em Filosofia, e outras carreiras também. Tudo aqui: https://blogdoenem.com.br/notas-corte-universidades/

O curso de graduação em Filosofia

O curso de graduação em filosofia dura em geral quatro anos e aborda diversas disciplinas importantes para a formação do filósofo como: história da filosofia e do pensamento ocidental, e estudos de lógica e de história.
Dependendo da universidade onde se realize o curso há também um importante enfoque na história da arte já que a arte anda colada com o desenvolvimento do pensamento humano. Vale a pena você pensar em Filosofia para o vestibular, o Sisu, ou no Prouni.
Este vídeo de apenas um minuto e meio, produzido pelo canal de TV da Universidade Federal de Goiás, mostra para você um pouco mais sobre em que consiste a estimulante graduação em Filosofia. Veja.
Dica 3 – Quer mandar bem no Enem e no Vestibular? Estude com as apostilas gratuitas que o Blog do Enem selecionou para você. Dicas de todas as matérias. https://blogdoenem.com.br/apostilas-gratis/

5 cursos de graduação em Filosofia com conceito 5 no Enade

O conceito do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) leva em conta uma série de critérios, como: o desempenho dos estudantes do curso em uma prova realizada anualmente, o corpo docente, a infraestrutura, os recursos didático-pedagógicos, além dos programas de pós-graduação.
Todos são sintetizados em um único indicador, que varia de 1 a 5. Os cursos com nota acima de 3 são considerados satisfatórios pelo Ministério da Educação.
  • Universidade Presbiteriana Mackenzie – MAKENZIE
  • Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP
  • Universidade Federal Fluminense – UFF
  • Universidade Federal do Espírito Santo – UFES
  • Universidade Federal de Goiás – UFG

Mercado de Trabalho para Filosofia  

Por ser bastante abrangente, o filósofo tem uma gama muito ampla de ambientes em que pode atuar como profissional. Obviamente, o cargo mais comum que o filósofo ocupa é o de professor.
Vagas nas escolas públicas e particulares de ensino médio são abertas regulamente através de concursos ou processos seletivos. Também nas universidades eles podem atuar, com o adicional de poderem desenvolver pesquisas diversas na sua área de conhecimento.
A média de salário inicial para o profissional de filosofia na Educação Básica gira em torno de R$ 1.500,00 a até R$ 2.400,00, a depender de onde se consegue o emprego.
Filósofos também podem atuar em empresas como consultores, bem como consultores de governos e instrutores específicos. Os profissionais da área podem até mesmo atuar na área de publicidade colocando em prática um conhecimento mais aplicado da percepção humana.

Perfil do profissional após a formação

O profissional egresso do curso de graduação em Filosofia sabe dispor de teorias diversas e por vezes contrárias a respeito do conhecimento humano, estética, ética e moral. Ele sabe transmitir o que aprendeu a fim de que outros também possam possuir amplo aglomerado de conhecimentos para a interpretação da vida. O valor fundamental de um filósofo formado é o de nutrir o respeito pela reflexão e procurar incutir esse respeito na sociedade em que está inserido.
Post escrito por Victor Barreto. Ele é formado em jornalismo,  e reside em São Paulo. Já atuou como professor de inglês em diversas escolas, como Cultura Inglesa, Yázigi e United Institute, além de haver trabalhado como assistente editorial. Atualmente, realiza traduções, dá aulas particulares de inglês e atua como redator online. Twitter: @victor_toscano

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Análise da obra "Dos Deveres"

Artigo sobre o livro "Dos Deveres" de Marco Túlio Cícero
Introdução
O objetivo de nossa pesquisa é fazer um estudo sobre a Formação do Orador e sua inserção dentro da política romana, no contexto de crise da República do século I a. C., em que o livro objeto de estudo fora escrito. Veremos como Cícero resgatou as idéias dos filósofos da Grécia antiga, como o Estoicismo, (doutrina que propõe viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença em relação a tudo que é externo ao ser) o influenciou. O Estoicismo influiu sobre a justiça romana, e Cícero foi um dos idealizadores do Direito Romano, tornando-se o maior representante na antiguidade clássica.
Biografia do autor
            Marco Túlio Cícero nasceu em Árpino, um localidade próxima de Roma, no seio de uma família abastada em 13 de janeiro de 106 a.C. e morreu em 7 de dezembro de 43 a.C. em Formia, Itália. Recebeu aprimorada educação, com os maiores oradores e jurisconsultos de sua época. Viveu num período especialmente turbulento da história de Roma. Cícero foi advogado, orador, senador, escritor e se aprofundou no conhecimento das leis e doutrinas filosóficas. Cícero foi um dos idealizadores do Direito Romano.
O pai de Cícero proporcionou aos seus dois filhos, Marco, o mais velho, e Quinto, uma educação muito completa, sendo que Marco Túlio Cícero, após ter aprendido na escola pública e ter chegado à maioridade, foi entregue aos cuidados do célebre senador e jurista romano Múcio Cévola que o pôs a par das leis e das instituições políticas de Roma.                               
Durante a Guerra Social do princípio do século I a.C. (91-88 a.C.) Cícero passou brevemente pela vida militar, passo necessário para poder participar plenamente na vida política romana, tendo estado presente numa campanha militar sob o comando do cônsul Pompeu Estrabão, pai de Pompeu o Grande.
Regressado à vida civil, começou a estudar filosofia com Filão, o Académico, mas a sua atenção centrou-se na oratória que estudou com a ajuda de Molo, o principal retórico da época, e de Diodoto, o Estóico. Cícero é considerado o primeiro romano que chegou aos principais postos do governo com base na sua eloquência, e ao mérito com o qual exerceu as suas funções de magistrado civil.Em 76 a.C. foi eleito questor para servir na Sicília, fazendo-se respeitar pelo povo como administrador justo. Sua reputação cresceu em 70 a.C., com a acusação ao ex-governador da Sicília, Caio Licínio Verres, por extorsões. Pouco depois foi eleito edil (69 a.C.) e pretor (66 a.C.).                                                                                          
No fim da sua atuação como pretor, decidiu concorrer ao consulado, tendo por isso recusado a nomeação para o governo de uma província do império, o pagamento normal para o exercício do cargo de pretor. Foi eleito cônsul em 62 a.C., para o exercício do ano seguinte. Nesse cargo conseguiu destruir a Conjuração de Catilina, tendo sido declarado Pai da Pátria por essa atuação em defesa das instituições republicanas.                                                                                                                                             
Para realizar seu propósito de estabelecer a política do “acordo entre as classes”, necessitava de forte apoio político e pensou encontrá-lo em Pompeu, mas este se uniu no primeiro triunvirato a César e Crasso, permitindo a eleição de Clódio, inimigo político de Cícero, para o tribunato. Ameaçado por Clódio, que substituía César em Roma durante a guerra na Gália, Cícero exilou-se na Grécia.Quando regressou (57 a.C.), o Senado foi recebê-lo às portas da cidade, sendo a sua entrada quase uma procissão triunfal. Cícero permaneceu afastado da política por quase dois anos, elaborando suas obras filosóficas.Seis anos mais tarde (51 a.C.), devido a uma lei de Pompeu, que obrigava os senadores de nível consular ou pretoriano a dividirem as províncias vagas entre si, foi governar a Cilícia. Lutou vitoriosamente no antigo centro da pirataria do Mediterrâneo oriental na Ásia Menor contra tribos rebeldes das montanhas, recebendo dos seus soldados o título de Imperator.Demitiu-se e regressou a Roma por volta do ano 50 a.C., com intenção de reclamar a realização de um triunfo. Mas o começo das lutas entre Pompeu e César, que deram origem à Guerra Civil, impediram a sua efetivação.Foi o período mais crítico do ponto de vista moral e político da vida de Cícero.                
       Querendo manter-se neutral na feroz luta política da época tentou agradar aos dois campos, sem conseguir agradar a nenhum deles. Mas manteve-se sempre mais perto de Pompeu, e do partido senatorial, do que de César, e do partido popular, e de facto acabou por se decidir, mas muito timidamente, pelo campo senatorial. Cícero passou então a dedicar-se integralmente à filosofia e à literatura, sendo desta época o tratado De Republica.Os empréstimos feitos a Pompeu, naturalmente não pagos, empobreceram-no, tendo necessidade de pedir a assistência do seu velho amigo Ático, e de se divorciar da sua mulher, Terência, casando com Publilia, uma jovem de meios. Nesse período, Túlia, filha do seu primeiro casamento, morreu, o que provocou o divórcio da sua segunda mulher, que não terá mostrado suficiente pesar pela morte da enteada. Estes factos provocaram a publicação de De Consolatione. Em 44 a.C., contudo, o assassinato de César permite a ascensão de Marco Antônio, cujas ambições ditatoriais Cícero denuncia nas veementes "Filípicas". Na última das "Filípicas", ele exalta a vitória de Otávio, filho adotivo de César, cujas reivindicações estimularam contra Marco Antônio. Otávio, no entanto, vencedor na guerra constitui com Marco Antônio e Lépido o segundo triunvirato. Seguem-se as execuções dos oposicionistas, e Cícero é um dos primeiros a cair, em dezembro de 43. Sua cabeça e suas mãos decepadas, por ordem de Antônio, são expostas ao povo nas tribunas dos oradores no fórum romano.
            Cícero teve um caráter indeciso, além de exagerada vaidade, e cometeu numerosos erros políticos. Sempre subestimou seus oponentes e exagerou as virtudes dos amigos. Parecia não compreender a debilidade fundamental da administração da república romana: ausência de mecanismos asseguradores da lei e da ordem e o controle dos exércitos. Mas sua honestidade, patriotismo e dons intelectuais são incontestáveis. De temperamento moderado e oportunista, soube mostrar grande energia ao debelar a conspiração de Catilina e opor-se a Marco Antônio, no fim da vida.
CÍCERO: ESTOICISMO E LEI NATURAL
Após o período clássico grego (Sócrates/Platão/Aristóteles), a filosofia passa por um momento de pluralismo próprio da queda da dominação helênica. Os Romanos, conquistadores da Grécia, assimilaram sua cultura e filosofia, praticamente copiando suas idéias e pensamentos, adequando-os ao espírito e interesse próprio de Roma. Costumava-se dizer que, se Roma conquistou o mundo pelas armas, a Grécia conquistara pelas idéias. Entretanto, enquanto a cultura dos gregos era mais voltada para a contemplação filosófica, dada a influência platônica de mundo extra-sensível, o pensamento romano era mais voltado para a práxis, ou seja, para o dia-a-dia. O romano era mais imediatista, administrador, prático e belicoso. O espírito de conquista dos romanos, muitas vezes, forçou um ideal de imposição de seus sistemas de leis aos povos conquistados. Enquanto a filosofia grega era de abstração, contemplação, a filosofia romana era e utilidade, voltada para a prática e para as artes lógicas, de oratória, literatura, etc. É nesse meio que Marcus Tullius Cícero (106 a 43 a.C.) surge como maior representante desse período áureo da civilização romana. Por ser o principal nome desse período, vamos deter nosso estudo nesse pensador. Sua filosofia está distante do ideal contemplativo grego e volta-se para questões políticas, patrióticas e de caráter prático pessoal do cotidiano do império. Das suas obras, as que mais nos interessam são De legibus (das Leis); De oficiis (Dos trabalhos) e De finibus malorum et bonorum (Dos fins aos bons e aos maus) entre outras.                                                                     
Vale lembrar que Cícero está influenciado pelo Estoicismo, por isso vale a pena explica-lo: O Estoicismo é a doutrina filosófica que surgiu após a difusão da filosofia grega pelo império romano. Vem do nome: stoá=jardim e significa a doutrina filosófica que preza por um estado de imperturbabilidade da alma humana a fim de alcançar um estágio de serenidade de corpo e espírito a fim de alcançar a felicidade do ser humano. Trata-se de estabelecer uma independência do ser humano a tudo que o cerca, tornando-o livre para descobrir suas afinidades e possibilidades, enfim, a verdade.
A ética estóica é da ataraxia que condiz com um estado de harmonia corporal que o ser humano busca dentro do universo, conhecendo suas limitações em vistas de distinguir o bem do mal. A ataraxia é o ápice do viver estóico, onde o ser humano consegue não se deixar perturbar por nada que é excessivamente bom nem mau, descobrindo em plenitude a sua interioridade. Nada do que é externo perturba o seu ser.
Todavia, apesar de buscar a imperturbabilidade de espírito, o estoicismo volta-se para a prática, buscando um estado de ação que permita tal condição de vida. É aqui que surgem os discursos de Cícero defendendo um Estado de leis que permita ao homem alcançar a harmonia propícia aos estoicos. Trata-se de pensar um sistema legislativo que permita ao ser humano viver sem se incomodar com as mudanças e as ações que estão a sua volta. Além disso, como foi dito, o Estoicismo voltava-se para a harmonização do homem com o cosmos e, nesse cenário, a natureza ganha destaque. Se o ser humano deve se pautar pelo equilíbrio e pela harmonia que a natureza oferece para não se deixar perturbar, deve, então, existir leis naturais que preexistem e que permitem aos seres humanos se relacionarem num estado harmonioso. Cícero busca assim os fundamentos naturais de uma legislação. Quer mostrar que a reta razão contém em si um ideal, uma lei absoluta, imutável e soberana que deveria pautar a vida dos cidadãos. O parâmetro para a conduta humana seria a observância da lei natural. Daí derivaria a felicidade e a paz na república. Homem sábio será aquele que descobrir em si esta lei natural. Para isso, ele precisará estar sem perturbações externas, e sem vícios, voltando-se para sua natureza íntima e harmônica, em identificação com o cosmos. As leis não brotam mais de convenções humanas, mas sim de uma Lei Natural, dada como parâmetro para a conduta dos indivíduos. As leis humanas só podem surgir derivadas das leis naturais. Seguindo tais leis, chegar-se-á, inevitavelmente, na justiça.
A filosofia jurídica de Cícero tem como fim a justificação da República romana. Para ele, a lei natural só tem sentido na República, pois ela é o espaço propício para a vivência harmônica entre o homem e sua natureza. Assim: A República pressupõe o Direito, o Direito pressupõe as leis e as leis pressupõem as leis naturais que, em última instância, pressupõe a Deus. O pensamento de Cícero vai influenciar profundamente toda a Filosofia do Direito daí para frente. A idéia de Lei Natural influenciará a Idade Média e, posteriormente, o jusnaturalismo e toda filosofia renascentista.
A obra – “ Dos Deveres”
            A obra “Dos Deveres” foi escrita em uma época de crise política, visto que Júlio César havia acabado de ser assassinado no ano de 44 a.C. Esta obra foi a última obra filosófica escrita por Cícero, na qual ele formula os valores políticos e éticos da sociedade romana, a partir do seu ponto de vista de homem do Estado.
A atuação pública de Cícero, que unia a reflexão filosófica à ação política, sobretudo em defesa dos princípios da república, exerceu grande influência em um fase crucial da história romana. Esta obra aborda o assunto moral.
Este tratado é constituído por três livros: livro I, II e III.
            O livro I exalta a natureza e a essência da honestidade, a conservação da sociedade humana, a grandeza da alma, o valor civil e o militar, a tutela governamental, o pudor e o decoro na vida pública, os deveres segundo as idades, o dever do cidadão, a conversação e a habitação. Este primeiro livro apresenta a existência de uma hierarquia dos deveres e que é necessário saber escolher um mais do que o outro para preservar a sua honra. O principal dever é respeitar a honestidade fundada na prática das virtudes essenciais: a sabedoria, a moderação, a justiça, a firmeza. Uma vez que há um conflito aparente entre a justiça e a moderação, a noção de escolha intervém.
            O livro II mostra a função do que é útil, que nunca deve ser confundido com o honesto nem com a aparente utilidade que não passa de esperteza. São sempre atuais as páginas sobre a natureza das coisas úteis, a conquista do favor popular, o poder da Justiça, a origem do poder, efeitos da corrupção, liberalidades, lei agrária e abastecimento, virtudes do homem público. Cícero demonstra que as noções de utilidade e de honestidade são indissociáveis: se o útil se torna nocivo a alguém, então deixa de ser honesto. Em caso de escolha, é preciso preferir o que apresenta mais honestidade.
            O livro III mostra a função do que é útil, considerando que a honestidade deve sempre prevalecer. Exibe os percalços na separação do útil e do honesto, os casos de prevalência nesse confronto, as consequências do juízo honesto com aparência de útil, a oposição de certos prazeres à virtude. Cícero inova em relação ao seu modelo, supõe um eventual conflito entre o útil e o honesto. Este conflito não é mais do que teórico já que, de fato, tudo o que é bom e honesto é igualmente útil e vice-versa. Porém, é preciso saber distinguir o “útil aparente” do “útil real”, o primeiro, mal definido, é gerador de confusão e de discórdia; o segundo, só continua de acordo com a honestidade.
            A parte da filosofia que mais atrai Cícero é a ética. De um lado, ele é levado a admirar, sobretudo a moral estóica, ou seja, uma moral que tem como característica fundamental a austeridade, de outro lado, faz concessões à moral acadêmica e à peripatética, isto é, a moral embasada nas indagações e nos conhecimentos platônicos e aristotélicos.
            Na obra “Dos Deveres”, Cícero considera que “nada em nossa vida escapa dos deveres”. Para ele os deveres seriam amizade, justiça, caridade, honestidade, verdade, temperança, mas só para os cidadãos romanos.
            Para Cícero, “a igualdade brilha por si mesma, a dúvida é sempre presunção de injustiça”. Ele define que a injustiça pode ser cometida de duas formas: pela violência e pela fraude. As duas formas são indignas do homem, mas a fraude é a mais desprezível. O fato de uma pessoa se passar por um homem de bem e enganar as outras pessoas é considerado totalmente abominável.
            Os homens devem se organizar com suas tarefas e com o seu futuro, pois isso demonstra inteligência e também demonstra que são prudentes e sábios.
            Cícero aconselha que os homens se afastem daqueles que acreditam que é necessário odiar seus inimigos e que creem que isso demonstra uma alma forte e grande, pois é louvável um coração que esquece as ofensas.
            Outro alerta que Marco Túlio faz é sobre o orgulho, visto que quando temos tudo o que queremos e quando o dinheiro nos é fácil, devemos nos proteger com mais cuidado de sermos pessoas orgulhosas e arrogantes.
            O bom senso, a amizade e o dever são exemplos de deveres que Cícero chama a atenção e quais são as condutas apropriadas para cada uma dessas situações.
Conclusão
            Do nosso trabalho podemos concluir que a Cicero devemos o conhecimento de muitas doutrinas, que de outro modo estariam perdidas. Conceitos como “qualidade”, “individual”, “indução”, “elemento”, “definição”, “noção” e outros, foram introduzidos por  ele na língua latina.
            A ele atribuímos a definição de certos valores que perduram até os dias atuais em nossa sociedade. Valores que, apesar de serem conhecidos e aprovados, nem sempre são postos em prática.
            Por “Dos Deveres” ser uma obra de caráter moral, ele faz uma reflexão filosófica, unido a ação política, sobretudo em defesa dos princípios da república, e exerceu grande influência na pedagogia da moral para os sacerdotes. Teve também, reflexos na formação do pensamento Cristão, a partir do momento que Cicero aprova um coração que saber perdoar (assemelhando-se ao Conselho de Cristo de perdoar seu irmão até setenta vezes sete vezes). Cicero, juntamente com Aristóteles, é considerado uma “suprema autoridade antiga” no âmbito religioso (católico).
           Não podemos deixar de lado a relação de Cicero com o Estoicismo, doutrina na qual ele busca os fundamentos naturais de uma legislação. A filosofia jurídica de Cícero tem como fim a justificação da República romana. Para ele, a lei natural só tem sentido na República, pois ela é o espaço propício para a vivência harmônica entre o homem e sua natureza. Assim: A República pressupõe o Direito, o Direito pressupõe as leis e as leis pressupõem as leis naturais que, em última instância, pressupõe a Deus. O pensamento de Cícero influenciou profundamente toda a Filosofia do Direito daí para frente.
Bibliografia
Dos Deveres - Marco Túlio Cícero


Leia mais: http://jus.com.br/artigos/42250/analise-da-obra-dos-deveres#ixzz3k5oPhTq6