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terça-feira, 6 de maio de 2014

Brincadeiras de faz-de-conta em crianças autistas: limites e possibilidades numa perspectiva evolucionista



Make-Believe play in autistic children: constraints and possibilities in the evolutionary perspective


Carla Silva Fiaes; Ilka Dias Bichara
Universidade Federal da Bahia



RESUMO
A constatação da presença universal da brincadeira na infância sugere que tal comportamento deva ter grande valor adaptativo para a espécie. Apesar de universal, a brincadeira sofre interferência do estado desenvolvimental do indivíduo. Crianças com autismo, por exemplo, apresentam dificuldades no brincar, o que nos leva a questionamentos sobre a natureza da sua brincadeira simbólica, se todo faz-de-conta necessariamente inclui teoria da mente e porque um fenômeno considerado universal surge de modo tão atípico no autismo. O artigo discute essas questões à luz da psicologia evolucionista, ilustrando relatos de brincadeiras espontâneas de crianças autistas coletados em instituições educacionais na cidade de Salvador (BA). Os resultados sugerem que os episódios de faz-de-conta envolvem freqüentemente a presença de objetos como apoio para o desenvolvimento da brincadeira. Tal fato está em acordo com a descrição de alguns autores sobre o desenvolvimento do faz-de-conta, com seu início mais sustentado por objetos e independente de metarepresentação.
Palavras-chave: brincadeira; autismo; psicologia evolucionista; teoria da mente.

ABSTRACT
The universal presence of play into the infancy suggests that this behavior must to have a great value adaptative to specie. Although universal, the play receive interference of developmental degree, as children with autism. The difficulties presented by autistic children on the play have came questions about the nature of symbolic play, if all make-believe include theory of mind and why a phenomenon universal emerge of differentiated way in the autism. The article discuss this questions to view of evolutionary psychology, illustrating relates of autistic children's spontaneous play collecting in educational institutions in the Salvador's City. The results suggests that the make believe episodes involves the presence of objects as supportive to developmental of the play. This fact is in accord with the description of some authors about the make-believe developmental, with the start more sustained for objects and independent of metarepresentation.
Keywords: play; autism; evolutionary psychology; theory of mind.



A brincadeira, considerada um fenômeno universal na infância, tem sido postulada na atualidade, como uma das características definidoras desta fase. De fato, a observação cotidiana de crianças revela que elas freqüentemente convertem quase toda atividade em brincadeira. Entretanto, entre crianças com desenvolvimento atípico, a brincadeira emerge de forma diversa, especialmente entre aquelas portadoras de transtornos globais do desenvolvimento, onde os próprios critérios diagnósticos incluem a identificação de algum comportamento disruptivo na brincadeira, como falta de reciprocidade social, ausência de jogos ou brincadeiras de imitação social e pobreza ou inexistência de brincadeiras simbólicas espontâneas (American Psychiatric Association, 2002; Organização Mundial de Saúde, 2003).
A investigação da brincadeira espontânea de crianças autistas em diferentes contextos de seu cotidiano tem nos levado a questionamentos acerca do modo atípico com que se expressam tais brincadeiras como, por exemplo, se existe ou não faz-de-conta, se todo faz-de-conta necessariamente inclui teoria da mente, entre outros.
Também, considerando-se que as principais dificuldades enfrentadas por indivíduos autistas localizam-se na área da sociabilidade, coloca-se a questão: por que um fenômeno considerado universal, a saber, a brincadeira, surge de modo tão distorcido no autismo?
Para responder essas e outras questões, buscaremos, neste artigo, discutir os principais conceitos envolvidos, dialogando criticamente com a literatura pertinente sob o ponto de vista evolucionista e, ao fazer isso, relatar alguns episódios colhidos em pesquisa desenvolvida pelas autoras utilizando a observação de brincadeiras espontâneas de crianças autistas em instituições educacionais especiais e regulares na cidade de Salvador (BA).
A brincadeira como comportamento adaptativo
A constatação da presença universal da brincadeira na infância sugere que tal comportamento deva ter grande importância para o desenvolvimento das crianças. Os principais teóricos da área de desenvolvimento trataram do tema, propondo distintas funções à brincadeira, que pode refletir, resultar ou reforçar o desenvolvimento da criança, a depender da abordagem adotada (Johnson, Christie, & Yawkey, 1999).
Apesar de deter o interesse das mais variadas áreas de investigação quanto à sua funcionalidade (Psicologia, Antropologia, Sociologia, Educação, etc.), definir o que é brincadeira tem sido uma tarefa árdua e os resultados, em geral, não são conclusivos, isto porque, "brincar" inclui uma ampla variedade de atividades e nenhuma delas sozinha é representativa do fenômeno exclusivamente. Por esse motivo, no intuito de auxiliar a identificação da brincadeira e distingui-la de outros fenômenos com os quais costuma ser confundida, tais como exploração, curiosidade e comportamento estereotipado, Burghardt (2005) propôs um grupo de cinco critérios identificadores da brincadeira, compatíveis com a visão evolucionista do desenvolvimento, como um modo de sintetizar as características mais centrais do fenômeno, que não se restringe apenas à espécie humana. São eles: 1) função imediata limitada; 2) comportamento intrinsecamente motivado; 3) diferença temporal ou estrutural; 4) ocorrência repetida; e 5) em ambiente relaxado.
Esses critérios são úteis porque salientam a distinção entre um comportamento que é realizado repetidamente de forma similar (brincadeira) daquele que é estereotipado rigidamente. Além disso, considera que a criança teria uma tendência a brincar de forma relativamente independente de estimulações ou motivações externas, pelo prazer que a brincadeira proporciona, desde que o ambiente seja seguro o suficiente para permitir que o comportamento seja expresso. Por fim, os critérios sugerem que a brincadeira pode não ter resultados observáveis a curto prazo.
Os teóricos que adotam a perspectiva evolucionista defendem que o brincar possui uma função adaptativa evidenciada pela ampla presença nas diversas espécies de mamíferos e pelos seus padrões semelhantes de expressão. Tal fato sugere uma unidade filogenética e funcional em resposta a pressões evolutivas semelhantes que as espécies enfrentaram para a sobrevivência (Yamamoto & Carvalho, 2002).
Dentre os mamíferos, aqueles que mais brincam são também os que precisam exibir, na vida adulta, maior flexibilidade comportamental e habilidades especializadas com maior nível de complexidade para caçar, lutar, subir em árvores, viver em grupos sociais e utilizar instrumentos (Bichara, Lordelo, Carvalho, & Otta, 2009). O tempo estendido da infância, protegida pelos adultos, parece favorecer a aquisição dessas habilidades através da experimentação e aprendizagem. Neste sentido, a brincadeira seria um meio importante de treinar, na ausência de grandes perigos, as atividades que serão necessárias para a fase adulta.
As demandas do passado evolutivo tornaram a espécie humana a mais lúdica dentre os primatas. Dentro desta perspectiva, esse tempo estendido pode ser considerado como um momento importante para o amadurecimento de determinadas estruturas e funções do organismo e a brincadeira teria papel fundamental neste desenvolvimento.
Para Pellegrini, Dupuis e Smith (2007), a brincadeira durante o período de imaturidade humana representa um exemplo paradigmático de um comportamento nos níveis ontogenético e filogenético. Em termos filogenéticos, oHomo Sapiens é considerado uma espécie neotênica, pois os bebês humanos nascem de forma relativamente precoce e os indivíduos adultos preservam características físicas semelhantes aos dos indivíduos jovens. Além disso, a espécie humana possui uma infância bastante estendida em relação aos demais primatas, o que lhe possibilita um tempo maior de experimentação através da brincadeira. Ou seja, em conseqüência à relativa prematuridade do bebê humano, a criança nasce com poucas habilidades completamente desenvolvidas. Entretanto, a posse de um cérebro relativamente grande e o tempo longo da infância, habilitam o indivíduo a explorar recursos do ambiente e, conseqüentemente, a aprender os meios necessários para a própria sobrevivência.
Assim, indivíduos que tiveram mais oportunidades para experimentar na infância através do brincar, podem alcançar a fase adulta com mais habilidades que o auxiliarão a sobreviver em ambientes de grandes perigos e de poucos recursos, características presentes no ambiente de adaptação evolutiva. Considerando-se que a sobrevivência de uma espécie se dá através da seleção de indivíduos e não de grupos, os indivíduos melhor adaptados ao ambiente tendem a gerar mais descendentes, que herdam tais capacidades.
Portanto, a brincadeira que ocorre durante o período juvenil foi um comportamento selecionado, não para a sobrevivência na cultura moderna, mas pelo seu valor adaptativo no ambiente evolucionário. Sendo assim, uma característica que foi adaptativa para nossos ancestrais poderia não ter utilidade para os humanos contemporâneos, mas permanecer presente, desde que não fosse suficientemente prejudicial a ponto de resultar em extinção da espécie, ou caso tivesse um impacto neutro na evolução, não interferindo no seu potencial reprodutivo (Bjorklund, 1997). No entanto, as considerações acerca do papel da brincadeira na infância contemporânea sugerem a existência de fatores positivos para a espécie na atualidade.
Em relação à ontogenia, a brincadeira é observada desenvolvendo-se de forma regular em termos de idade de aparecimento e declínio. Assim, por exemplo, todas as formas de brincadeira são precedidas pela exploração (Pellegrini & Smith, 1998), seguidas de brincadeiras que são qualitativamente diferentes ao longo do tempo até que começam a surgir comportamentos que são aparentemente similares aos de um adulto. Tais comportamentos são tipicamente exagerados e, possivelmente, possuem importância para o desenvolvimento subseqüente (Pellegrini et al., 2007).
Apesar dos benefícios para a fase adulta serem bastante reconhecidos por boa parte dos estudiosos do desenvolvimento infantil, estudos recentes na área, compatíveis com a idéia de que a infância não é apenas um período preparatório para a fase adulta, mas uma fase importante em si, e que certas tarefas desenvolvimentais possuem funções específicas durante certos períodos da história de vida, têm considerado que a brincadeira possui benefícios a curto prazo (Bjorklund, 1997; Pellegrini & Bjorklund, 2004; Pellegrini et al., 2007; Pellegrini & Smith, 1998). Dessa forma, alguns aspectos da brincadeira podem ser preparatórios para as demandas físicas, sociais e cognitivas particulares do ambiente da própria infância (Bjorklund, 1997).
A hipótese de que a brincadeira tem efeitos imediatos e não apenas retardados baseia-se, basicamente, em duas premissas: a primeira assume que o trabalho de seleção natural não se restringe apenas aos efeitos para a maturidade; e a segunda que, para um comportamento ser selecionado, os benefícios associados devem ser maiores que os custos (Pellegrini et al., 2007).
Sendo assim, embora a brincadeira possa ser custosa em termos de dispêndio calórico, de tempo e de riscos para a sobrevivência (como a exposição do sujeito a predadores), os benefícios associados têm implicações importantes para a função e possível seleção natural do comportamento. Ou seja, a brincadeira é um comportamento funcional porque os benefícios associados superam os seus custos (Pellegrini & Bjorklund, 2004) e, provavelmente, possuem tanto efeitos retardados para a maturidade, como efeitos imediatos durante o período juvenil.
Atualmente os benefícios imediatos da brincadeira têm ganhado destaque, especialmente porque as vantagens para o desenvolvimento posterior podem não ser evidentes, haja vista que o desenvolvimento apresenta descontinuidades. Em acordo com este pensamento, Pellegrini et al. (2007) mencionam como principal benefício a curto prazo da brincadeira a geração de comportamentos e estratégias inovadoras, especialmente na brincadeira social. Pellegrini e Smith (1998) também enumeram como benefícios imediatos a boa forma física, possibilitada pela brincadeira motora; as habilidades de luta e dominância desenvolvida nas brincadeiras turbulentas; e as habilidades afiliativas e de teoria da mente, que se desenvolvem principalmente nas brincadeiras social e simbólica.
Por outro lado, ao invés de brincar, algumas dessas habilidades poderiam ser adquiridas de modo mais direto, através de treino. Entretanto, as crianças permanecem brincando apesar dos riscos e desperdício energético, o que sugere que o prazer produzido na brincadeira consiste em um forte motivador que não deve ser desconsiderado.
Tais considerações acerca da importância da brincadeira na ontogenia sugerem que o estudo deste fenômeno no autismo possa trazer informações importantes para a compreensão de como estão relacionados aspectos críticos do desenvolvimento infantil, tais como o amadurecimento de habilidades sociais, de capacidades cognitivas e comunicativas a partir da investigação de como esses comportamentos se expressam no brincar de crianças que têm graves prejuízos nas áreas de interação social, comunicação e imaginação.
O autismo à luz da Psicologia Evolucionista
A Psicologia Evolucionista considera que, de modo semelhante às características físicas, as capacidades cognitivas e emocionais e seus comportamentos correspondentes evoluíram em função de problemas de relevância adaptativa. De acordo com Luz e Bussab (2009), a prevalência na população de transtornos que comprometem o desempenho dos indivíduos para atividades mínimas de sobrevivência aparentam comprometer as idéias darwinistas de aptidão para a sobrevivência e reprodução, entretanto, tal idéia não corresponde à realidade. Doenças e psicopatologias têm sido alvo da atenção de psicólogos evolucionistas, que as consideram como respostas desproporcionais ou inadequadas às demandas pela sobrevivência, ou como resultantes de permutas adaptativas que tiveram vantagens colaterais.
Para melhor compreender como tem sido concebido o processo de constância de doenças, especialmente, de psicopatologias ao longo do processo evolutivo, torna-se necessário caracterizar alguns termos importantes, tais como doença, patologia, sintoma, e vantagens colaterais.
Os termos doença, saúde e patologia têm sido tratados classicamente de modo comparativo, em relação à média da população, sendo a normalidade entendida a partir de um prisma estatístico e saúde como a prontidão para o funcionamento normal (Luz & Bussab, 2009). A patologia, por sua vez, corresponderia a uma disfunção no funcionamento que levaria a um quadro de insuficiência para manutenção das funções vitais.
Em termos evolutivos, a eleição dos sinais e sintomas como unidade de funcionamento dos organismos configura-se como mais útil do que o uso do termo "doença", porque os sintomas possuem grande valor de defesa para o organismo, enquanto a doença, em si, corresponde à manifestação de uma série de sintomas, que podem ser comuns a muitas outras doenças (Luz & Bussab, 2009). Assim, sintomas como febre, dor e inchaço, funcionariam como mecanismos de defesa que foram selecionados ao longo da evolução para serem estratégias associadas ao aumento de sobrevivência no ambiente de adaptação evolutiva.
O questionamento sobre a função de um determinado sintoma conduz à busca dos sistemas comportamentais que lhes possam dar subsídios em uma explicação de tipo evolucionista. De acordo com Luz, Brüne e Bussab (2004), os "sistemas funcionais" correspondem a comportamentos que foram moldados pela seleção natural e de cuja eficácia a espécie depende para sobreviver. Uma vez identificado o sistema e constatada sua funcionalidade, trata-se de investigar os fatores determinantes nos níveis próximos e últimos.
O nível de causalidade próxima do fenômeno refere-se ao valor adaptativo imediato, em termos de ontogênese e de causação imediata, que pode ser satisfatório ou não. Já a causalidade última corresponde à evolução do processo psicológico em questão no ambiente de adaptabilidade evolutiva, que resultou em traços adaptativos e não adaptativos. É no nível último que se deve procurar um sistema funcional que lhe esclareça a ocorrência, considerando as circunstâncias em que tais traços poderiam ser adaptativos (Luz, Brüne, & Bussab, 2004). Como é sabido, o processo de seleção, geralmente, ocorre de modo bastante lento e gradual, o que justifica, de certo modo, a persistência de traços não adaptativos nos dias atuais.
As estratégias de seleção e adaptação dos organismos ao meio devem levar em consideração a equação de custos e benefícios. Luz e Bussab (2009) chamam atenção para o que eles denominam complexo co-adaptado, no qual a perpetuação de um traço limitante deve ser observada a partir do organismo como um todo, pois há características que trazem tanto prejuízos quanto benefícios. Dessa forma, a noção de eficiência adaptativa, segundo esses autores, é relativa, considerando-se as causas próximas e últimas.
Em relação aos distúrbios psicopatológicos, Brüne e Brüne-Cohrs (2006) propõem que a ausência e o empobrecimento na capacidade de inferir estados mentais próprios e de outros indivíduos, conhecida como "teoria da mente", podem estar subjacentes a muitos deles, como nas psicopatias, nos distúrbios afetivos, na esquizofrenia e nos danos e distúrbios degenerativos cerebrais. Entretanto, é nos distúrbios do espectro autista que se concentram as maiores discussões acerca da falha do desenvolvimento da teoria da mente.
De acordo com os autores supracitados, essa capacidade teria papel central na vida humana, porque, do ponto de vista evolucionista, a inteligência, incluindo a teoria da mente, teria evoluído para facilitar a detecção de trapaceiros e reforçar a cooperação. Considerando-se que primatas, de modo geral, e a espécie humana, de modo mais extremo, vivem em grupos sociais nos quais o sucesso na interação social resulta em vantagens no compartilhamento de alimento, na distribuição de recursos e na conquista de parceiros sexuais, faz sentido conceber que qualquer disfunção nesta capacidade cognitiva poderia provocar danos ao funcionamento social.
Distúrbios na teoria da mente têm sido freqüentemente usados para explicar os sintomas comportamentais em crianças com espectro autista, pois as suas falhas no estabelecimento de relacionamentos emocionais, a evitação de contatos visual e corporal e o uso de recursos lingüísticos de modo anormal ou empobrecido, sugerem um empobrecimento em apreciar estados mentais em outros indivíduos, mesmo que outras capacidades cognitivas estejam intactas (Brüne & Brüne-Cohrs, 2006; Leslie, 1987). Em contrapartida, crianças com atraso cognitivo significativo, como portadores de Síndrome de Down, demonstram melhor desempenho em ações que evidenciam teoria da mente, como atenção compartilhada (Brown & Whiten, 2000) e tarefas de falsas crenças (Frith & Frith, 1999), do que crianças autistas, até quando situações do dia-a-dia são usadas, como no reconhecimento de emoções complexas e estados mentais em contextos sociais (Golan, Baron-Cohen, & Golan, 2008).
Algumas hipóteses têm tentado justificar os motivos que levaram à possível falha na teoria da mente de indivíduos autistas. A teoria do cérebro masculino extremo, por exemplo, toma por base as pressões seletivas relativas ao cuidado parental e as demandas por reprodução, que ao longo do processo evolutivo resultaram em diferenças comportamentais entre machos e fêmeas. Essa teoria defende que o autismo seria um extremo das diferenças típicas do sexo masculino em termos de sistematização e da capacidade de ter empatia (Baron-Cohen, Wheelwright, Lawson, Griffin, & Hill, 2008).
Falhas no sistema dos neurônios-espelho, responsáveis pelo reconhecimento da ação, pela imitação e empatia, também têm sido associados às causas do autismo (Lameira, Gawryszewski, & Pereira Jr, 2006). De acordo com Oberman e Ramachandran (2007), mecanismos de simulação interna, como os neurônios espelhos, são necessários para o desenvolvimento da imitação, do reconhecimento, da teoria da mente, da empatia e da linguagem, sendo assim, disfunções nesses mecanismos podem estar subjacentes aos déficits comunicativos observados em indivíduos autistas.
Teoria da mente, brincadeira de faz-de-conta e autismo
A ausência de Teoria da Mente em crianças autistas tem sido utilizada também para justificar o empobrecimento de suas brincadeiras de faz-de-conta. A quase totalidade dos estudos tem encontrado uma menor freqüência de brincadeiras simbólicas entre crianças autistas (Blanc, Adrien, Roux, & Barthélémy, 2005; Brown & Whiten, 2000; Libby, Powell, Messer, & Jordan, 1998; Tamanaha, Chiari, Perissinoto, & Pedromônico, 2006), dando margem a algumas propostas de trabalhos que estimulem o faz-de-conta nessas crianças (Keen, Rodger, Doussin, & Braithwaite, 2007; Sherrat, 2002; Yang, Wolfberg, Wu, & Hwu, 2003). Segundo Leslie (1987), é nesse tipo de brincadeira que emergem as mais precoces manifestações da habilidade de caracterizar e manipular informações relativas aos estados mentais próprios e dos outros.
Nas brincadeiras de faz-de-conta, simbólicas ou fantasiosas, a criança trata os objetos como se fossem outros, podendo atribuir propriedades diferentes das que eles realmente possuem, ou atribuir a si e aos outros, papéis diferentes dos habituais, criando cenas imaginárias e representando-as (Morais & Otta, 2003). Apesar de haver certa variedade na nomenclatura e nas definições desse tipo de brincadeira, de modo geral, compreende-se que há a substituição de uma coisa por outra, quer seja ela um objeto (como tratar uma boneca como se fosse um bebê) ou um papel (como uma criança tratar a si como um professor e a outra criança como seu aluno).
De acordo com Pellegrini e Bjorklund (2004), a brincadeira de faz-de-conta tem um caráter essencialmente social, o que implica a função imediata de ajudar crianças mais jovens a tomar a perspectiva de outros brincantes.
Estudos sobre entendimento de falsas crenças têm encontrado que, de modo geral, crianças a partir de 4 a 5 anos compreendem que cada mente representa o mundo em uma variedade de formas. O mesmo tipo de solução parece estar presente na brincadeira de faz-de-conta porque enquanto finge algo, a criança é capaz de entender que uma coisa que está representando algo do mundo pode, na realidade, ser outra (por exemplo: um telefone de plástico de brinquedo representa um aparelho que permite duas pessoas se comunicarem à distância).
Por conceber que a realização de brincadeira simbólica envolveria a representação de estados mentais, alguns autores defendem que ela seja limitada apenas aos humanos, o que implicaria uma descontinuidade filogenética. Alternativamente, alguns teóricos têm proposto que a brincadeira de faz-de-conta não envolve necessariamente metarepresentação (Lillard, 2001; Pellegrini & Bjorklund, 2004) e que alguns macacos, especialmente chimpanzés, seriam capazes de realizar algumas transformações simbólicas em suas brincadeiras. Washoe, o primeiro chimpanzé treinado em linguagem, por exemplo, banhava, ensaboava e secava bonecas (Gardner & Gardner, 1969), de forma semelhante como o fazem as crianças pequenas.
Lillard (2001) realizou uma revisão de alguns estudos que tomam por premissa o modelo da metarepresentação e concluiu que as evidências empíricas não o apóiam. Outros modelos são revisados, culminando na proposta do modelo Twin Earth, que propõe relações específicas entre a brincadeira de faz-de-conta mais simples e o entendimento mental, até a emergência mais tardia do jogo de papéis e a representação mental. Esse modelo sugere que o mundo imaginado pela criança durante o faz-de-conta é, em muitos aspectos, semelhante ao mundo real, sendo apenas determinadas circunstâncias modificadas, como a areia que se torna uma torta de maçã ou a boneca que ganha vida. O mais central nessa teoria é que o faz-de-conta permite a participação e o raciocínio da criança sobre situações não presentes.
Pellegrini e Bjorklund (2004), por sua vez, assumem a "Teoria da Simulação" de Harris (1995), que dá conta de explicar como crianças menores de três anos engajam-se no faz-de-conta. De acordo com essa teoria, inicialmente essas crianças assumem que suas simulações na brincadeira são as mesmas que as dos seus colegas, mas com a repetição de encontros para brincadeira, elas reconhecem que muitas vezes suas perspectivas e estados mentais diferem dos outros. Assim, com o decorrer do tempo, elas passam a pôr suas crenças e desejos de lado e a imaginar, temporariamente, o de seus pares, usando suas próprias funções mentais para apreciar o que os outros sentem ou pensam. De acordo com Pellegrini e Bjorklund (2004), nesse período, entender o ponto de vista do outro depende da acurácia da simulação e não da natureza da representação.
É só depois da maturação e de repetidas interações com os outros que as crianças, por volta dos 5 anos, começam a compreender os estados mentais alheios. Assim, crianças jovens e chimpanzés não têm uma teoria da mente, mas reconhecem que os outros vêem os mesmos objetos de modo diferente deles. Tal fato parece encontrar apoio no uso que alguns animais fazem de sinais para anunciar aos outros que a sua ação é uma brincadeira (por exemplo: uso da face de brincadeira em primatas), o que sugere que eles reconhecem que seus co-específicos podem ter uma visão diferente da situação (Pellegrini & Bjorklund, 2004).
A partir dessas novas perspectivas, torna-se possível conceber que crianças autistas possam apresentar algum tipo de brincadeira simbólica ainda que não façam uso de metarepresentação. Assim, com o objetivo de descrever os possíveis padrões de desenvolvimento da brincadeira simbólica dessas crianças, selecionamos alguns episódios observados em contextos educacionais (regular e especial) e que fazem parte de uma investigação mais ampla a respeito do brincar de crianças autistas.

Método
Participantes
Os participantes deste trabalho foram cinco crianças autistas, sendo quatro meninos e uma menina, dois deles irmãos gêmeos, todos na faixa etária de 4 a 9 anos. As características desenvolvimentais apresentadas pelos participantes são diversas, com aquisição da linguagem verbal e escrita diferenciada entre os indivíduos. Tal fato não constitui exceção ao universo autista, pois este grupo apresenta sintomas e formas de expressão amplamente variados, embora algumas características sejam recorrentes, como os comprometimentos na interação social, na comunicação e nos padrões de comportamentos e de atividades restritos e repetitivos. Pode-se afirmar que as subcategorias formadas pelos transtornos globais do desenvolvimento compõem um espectro, que varia num continuum quanto à gravidade.
Situação
A pesquisa foi desenvolvida em dois tipos de ambientes: o primeiro deles, a instituição especializada no atendimento a crianças autistas, e o segundo, quatro escolas de ensino regular diferentes. Apenas uma das escolas foi alvo de observação por mais de uma vez, pois nela estudavam dois irmãos em salas diferentes.
A escolha pela observação na escola regular justifica-se pela premissa de que em tal contexto, a criança com dificuldades encontra modelos mais avançados de comportamentos para seguir e para interagir do que em escolas especiais e tal fato pode ter interferência na expressão da brincadeira. Por outro lado, as crianças permanecem por pouco tempo na instituição especializada (apenas o suficiente para realizarem as atividades pedagógicas com o professor), não havendo tempo reservado especificamente para sua interação com outras crianças, como ocorre na escola.
Procedimento
Os dados foram obtidos através da observação direta do comportamento durante o período de brincadeira livre, no qual as crianças desenvolviam suas atividades lúdicas sem o direcionamento de adultos. Foram realizadas três sessões semanais de observação na escola e três na instituição especial para cada criança, com duração de pelo menos 15 minutos, variando conforme os horários de recreação de cada local. As atividades realizadas pelas crianças foram anotadas através da técnica de registro cursivo de comportamento, que consiste em registrar de forma pormenorizada os comportamentos observados numa folha de registro.

Resultados e Discussão
A fim de delimitar de forma mais precisa os episódios de brincadeiras simbólicas, foram utilizados critérios como pistas faciais e corporais, verbalizações e comportamento motor. Apesar dos sujeitos da pesquisa possuírem um repertório verbal limitado - o que dificulta a identificação dos enredos das brincadeiras -, incluímos nesse item a emissão de vocalizações, gritos e risos. Os movimentos e gestos também auxiliaram na identificação de muitos episódios porque a atividade motora parece ser um meio mais evidente da excitação que a brincadeira provoca na criança. Os pulos constantes durante a brincadeira representaram um exemplo bastante ilustrativo neste sentido.
O episódio a seguir consiste em um exemplo típico da brincadeira de faz-de-conta apresentada pelas crianças, que, por sua característica de pouca riqueza e uso limitado de verbalizações, poderia vir a ser definido como uma brincadeira de manipulação de objetos:
João pega um carro, mexe nele em cima da mesa. Vocaliza: "Ih, inh". Mexe o carro em cima da mesa, balança os braços, vocaliza, empurra o carro (...). Sacode o carro na mão (...). Ri. Bate no carro com o dedo. Empurra (...). Empurra o carro em cima da mesa (...). No chão, empurra o carro contra os outros brinquedos, fazendo "Ih, ih", passa pelos outros carros, empurra um avião atrás. Vocaliza. Deita no chão e empurra o avião. Tira os outros brinquedos da frente, passa entre eles (como se fossem obstáculos), empurra o carro contra o avião. Empurra o caminhão adiante. Pega o carro, faz "Ih". Empurra o avião e o carro.
Este episódio reflete algumas das características das brincadeiras de faz-de-conta encontradas: limitadas freqüentemente ao uso de objetos, com gestos e verbalizações escassos, que dificultam a criação de enredos mais elaborados. Como afirmam Pellegrini e Bjorklund (2004), a complexidade da brincadeira de faz-de-conta está relacionada à facilidade lingüística para a manutenção da interação entre pares e compartilhamento dos episódios. Além disso, a linguagem consiste em um dos meios utilizados para identificar cenas de faz-de-conta entre crianças pequenas, pois elas costumam realizar mudanças no tom de voz durante a brincadeira (Bichara, 1994).
A dependência da presença de objetos para a ocorrência do faz-de-conta também parece encontrar apoio em alguns achados anteriores acerca do desenvolvimento da brincadeira simbólica. De acordo com Fein (1981), a brincadeira de faz-de-conta segue um curso desenvolvimental na direção de um aumento de independência do estímulo que está imediatamente presente para uma maior dependência de esquemas mentais (imaginativos), sugerindo que a criança adquire progressivamente a capacidade de simbolizar em modos mais complexos com o decorrer do tempo. Assim, por exemplo, as brincadeiras dependentes do objeto são características de crianças até a idade de dois anos; a partir de então a criança realiza transformações via substituição de um objeto por outro, seguidas de transformações via animação de um objeto inanimado e assim por diante.
Bering (2001) também propõe uma diferenciação entre a brincadeira simbólica que é dependente das características do objeto da brincadeira simbólica verdadeira. No primeiro tipo, o comportamento imaginativo é dirigido a um objeto que guarda semelhança com outro, enquanto que a brincadeira simbólica verdadeira seria aquela que ocorre independentemente da existência de qualquer estímulo perceptual, ou seja, a criança é capaz de criar enredos mesmo que não exista qualquer tipo de objeto presente. Esse tipo de brincadeira costuma emergir apenas depois do terceiro ano de idade, enquanto o tipo dependente do objeto parece caracterizar as brincadeiras simbólicas observadas em alguns chimpanzés, como no caso citado acima envolvendo o chipanzé Washoe.
No episódio exposto a seguir podemos observar um exemplo de brincadeira bastante associado às características dos objetos, onde o indivíduo apresenta diversos comportamentos estereotipados e repetitivos.
Marcelo vai até o carrinho dos brinquedos, escolhe o avião e traz para a mesa. A professora diz: "Avião, Marcelo". Ele fica empurrando o avião em cima da mesa. Empurra pela ponta do bico do avião até o outro lado da mesa. Vai até o carrinho, traz uma caixa de DVD e empurra. Devolve a caixa para o carrinho, traz um dado, empurra em cima da mesa. Devolve para a caixa; Traz um ovo quebrado de plástico e fica empurrando de um lado para o outro. Pega o avião e fica empurrando. Pega o avião e pula. Aperta a ponta do fundo do avião e pula. Faz isso várias vezes.
Matthews (1977) visando identificar as principais mudanças cognitivas que marcam o início dos episódios de faz-de-conta de crianças de quatro anos de idade encontrou seis modos predominantes de transformação empregados: substituição, atribuição de função, animação, atribuição material a objetos que não existem ou não estão presentes, atribuição a situações que não existem no contexto e atribuição de características de personagens através de representação. Esses modos de transformação simbólica foram agrupados em dois modos principais de transformação, sendo o primeiro, o modo material, no qual as iniciações de brincadeiras fantasiosas são caracterizadas pela atribuição da criança de qualidades estranhas ou não associadas a objetos presentes; e o segundo modo foi denominado de ideacional, pois se refere a idéias ou imagens mentais de coisas que não estão presentes no local.
De acordo com a categorização de Matthews (1977), podemos supor que a maior parte das brincadeiras de faz-de-conta apresentadas por crianças autistas pode ser descrita como modo de transformação de atribuição de função, onde se atribui uma propriedade funcional a um objeto que não possui tal propriedade. Neste sentido, a um brinquedo que representa uma miniatura de um objeto real pode ser atribuída a capacidade funcional desse objeto, como por exemplo, imaginar que um carro de brinquedo pode ser dirigido, como no episódio descrito abaixo: "João pega o ônibus pequeno, coloca entre as pernas da Minnie, empurra de um lado para o outro".
Constatamos então, que as brincadeiras de faz-de-conta de crianças com autismo guardam uma grande semelhança ou parecem ser do mesmo tipo daquelas observadas em crianças menores, ainda que outras capacidades desenvolvimentais estejam mais avançadas.
A variedade com que se apresenta o desenvolvimento de crianças autistas é bastante ampla, conforme descrito anteriormente. Se eles possuem teoria da mente, metarepresentação ou qualquer outro tipo de compreensão dos estados mentais alheios é uma questão controversa. Exemplos como o seguinte levantam questionamentos acerca da idéia amplamente difundida de um mundo próprio vivenciado por esses sujeitos. No exemplo abaixo, Leo demonstra atenção à conversa das professoras e que tem conhecimento sobre a existência de Pokemons e queKio seria o nome de um deles.
Léo pega um brinquedo no carrinho, pergunta o que é. A professora diz que é um pintinho no ovo. Ele bate um urso de plástico e o "ovo" um no outro. Duas outras professoras conversando comentam que o ovo é um Pokemon, chamado Kio. Léo coloca o Pokemon e o urso um do lado do outro. Léo fala "Kio, Pokémon". Coloca um em cima do outro. Bate o urso no Pokemon. Léo com o Pokemon fala "Kio", deita o urso, coloca um do lado do outro, diz: "Pokemon".
Os exemplos aqui relatados ilustram temas de brincadeira evidentemente marcados pela estereotipia de gênero e semelhantes aos de meninos que possuem desenvolvimento típico (brincadeiras de luta e transportes). Segundo Bichara (1994), a maior parte dos estudos de faz-de-conta constatou preferências diferenciadas de meninos e meninas, onde os meninos preferem brincadeiras com muita ação e as meninas, temas domésticos. Entre crianças autistas, apesar do isolamento social típico e da forma do brincar, o conteúdo da brincadeira destaca-se como semelhante ao das demais crianças. Todos os meninos brincaram de temas e objetos associados a transportes como carrinhos, aviões, ou mesmo dados e outros objetos usados como se fossem carrinhos. Já a única menina presente neste estudo apresentou episódios mais independentes de objetos, interagindo freqüentemente com os colegas da escola regular. Os exemplos a seguir ilustram algumas dessas interações:
Mônica entra na sala da brinquedoteca com as crianças. Senta numa mesa sozinha. Escolhe dois cavalos na estante e senta-se na mesa. Coloca um cavalo de frente para o outro e faz eles se baterem. Uma menina aproxima-se, pega um dos cavalos e fala "aqui o cavalinho". A menina e Mônica sacodem os cavalinhos no ar. A menina se afasta. Mônica pega mais 3 animais na estante, senta na mesa. Sacode os cavalos como se estivesse cavalgando. Coloca um cavalo em cima do outro (....). Sacode a zebra como se cavalgasse.
Mônica engatinha atrás de duas meninas no velotrol. Anda ajoelhada. Levanta e corre. Ajoelha. Uma menina se ajoelha, depois outra. Uma delas fala "mamãe, mamãe", junto com as outras no velotrol. Mônica corre e senta em um velotrol vazio. Aproxima-se das meninas e corre. As meninas dizem: "Corre, Mônica". Outras meninas ajoelhadas dizem: "Mamãe";
"Mônica anda pelo parque. Entra na casinha, um menino entra também. Ela coloca a cabeça para fora da janela. Sai da casa. Sopra a casa forte e diz: 'Tá soprando, a casa caiu!'".
Estes episódios contendo falas da própria criança indicam o quanto a linguagem e os gestos orientam a compreensão do faz-de-conta. Em relação aos temas, diferentemente dos meninos, os conteúdos apresentados por Mônica nas brincadeiras foram mais neutros do que tipificados. No entanto, o reduzido número da amostra nos impossibilita fazer generalizações em relação a esses dados. Por outro lado, o estudo de Knickmeyer, Wheelwright e Baron-Cohen (2008), que contou com uma amostra de 20 meninas, encontrou que elas brincaram mais de faz-de-conta e demonstraram significativamente mais interesse por brinquedos de faz-de-conta típicos do seu sexo do que itens neutros ou masculinos em comparação com os meninos, sugerindo que a brincadeira simbólica está mais preservada nelas do que neles.
Isso é bastante interessante, pois mostra a existência de certo grau de identidade dessas crianças com seu próprio gênero, e como dizem Aydt e Corsaro (2003) a mais importante identidade que a criança aprende para definir a si mesma e aos outros é a de gênero.

Considerações finais
É possível conjecturar, a partir do enfoque evolucionista, que a brincadeira empobrecida de crianças autistas possa ter conseqüências no período desenvolvimental, desde os mais imediatos, como o reforço dos prejuízos típicos do próprio transtorno, bem como efeitos danosos mais distais. Dessa forma, a baixa freqüência de envolvimento em atividades que possibilitam o desenvolvimento dessas habilidades, sendo a brincadeira o principal espaço para tal na infância, possibilita predizer as conseqüências negativas também para o desenvolvimento adulto. Ou seja, os déficits característicos do transtorno prejudicam a aparição do fenômeno (a brincadeira) e, a ausência deste, por sua vez, possivelmente conduz a atrasos no desenvolvimento de habilidades importantes para a adaptação do sujeito numa sociedade complexa.
Entretanto, vale à pena considerar que as descontinuidades no desenvolvimento sugerem que a brincadeira em si pode não ser determinante para o desenvolvimento de todas as habilidades importantes para a vida adulta do sujeito. De forma que alguns indivíduos desenvolvem habilidades em áreas específicas, apesar de apresentarem atrasos globais no comportamento.
Fica evidente a necessidade de mais estudos empíricos, principalmente os que busquem a observação de brincadeiras e interações espontâneas, pois só assim poderemos conhecer melhor os limites e possibilidades de crianças autistas em relação às formas e conteúdos de seus faz-de-conta.

Agradecimentos
As autoras agradecem a CAPES pela concessão da bolsa de mestrado da primeira autora.

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Recebido em 30.set.09
Revisado em 07.dez.09
Aceito em 21.dez.09


Carla Silva Fiaes é mestranda no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia, bolsista CAPES. E-mail: csfiaes@yahoo.com.br
Ilka Dias Bichara, doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, é professora associada do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia e coordenadora do núcleo de pesquisa "Brincadeiras e Contextos Culturais. E-mail: ilkadb@ufba.br

Autismo e ensino de habilidades acadêmicas: adição e subtração



Autism and teaching academic skills: addition and subtraction


Camila Graciella Santos Gomes
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Especial - Universidade Federal de São Carlos - Bolsista de mestrado da CAPES -camilagsg@uol.com.br



RESUMO
O ensino de habilidades acadêmicas para pessoas com autismo tem recebido pouca atenção de estudos, provavelmente porque os comprometimentos clássicos do transtorno relacionados à comunicação, interação social e comportamentos são vistos como prioritários no desenvolvimento de pesquisas. Porém, o desenvolvimento de tecnologias para o ensino de habilidades acadêmicas que atinjam esse público é fundamental, principalmente na realidade brasileira em que, com o advento da filosofia de inclusão escolar, a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais, incluindo autistas, passou a ser direcionada para a escola regular. Assim, crianças com autismo estão cada vez mais expostas aos conteúdos acadêmicos nas salas de aula regulares e estratégias de ensino adequadas às suas necessidades são fundamentais para a entrada, permanência e progresso destas pessoas na escola. Assim, este trabalho descreve o ensino de habilidades de adição e subtração para uma adolescente com autismo e utilizou procedimentos adaptados com base em descrições sobre o quadro de autismo, princípios de aprendizagem da análise experimental do comportamento, técnicas de ensino e observação direta do repertório da participante. Para as tarefas acadêmicas foram utilizados estímulos visuais – gráficos e uso das mãos – que indicavam relações visualmente óbvias para explicar à participante como as operações aritméticas deveriam ser realizadas. Gradualmente, aumentou-se a complexidade das operações ensinadas, à medida que ia aumentando o número de acertos dela nas tarefas. Esses procedimentos foram realizados no decorrer de nove sessões. Os erros e acertos foram computados e serviram para representação gráfica. Os resultados demonstram a aprendizagem gradativa das habilidades ensinadas à medida que a intervenção ocorreu.
Palavras-chaves: autismo; aprendizagem; ensino de matemática; adição; subtração; educação especial.

ABSTRACT
The teaching of academic skills to individuals with autism has received little attention from research literature, probably because the classical deficits in communication, reciprocal social interaction and behaviors are seen as priorities in scientific investigations. Nevertheless, the development of technologies for teaching academic skills to this population is necessary, mainly in the context of Brazilian school inclusion. People with autism are being included with greater frequency in regular classes and, consequently, need adequate strategies to learn academic contents for their entrance, permanence and progress in the schools. Many studies describe characteristics and difficulties that people with autism have, which can influence the way they learn. These variables need to be considered when planning appropriate teaching strategies for this population. Among these variables are the ways in which these individuals respond to environmental stimuli, the way they think and their typical behaviors. This study describes strategies for teaching addition and subtraction to an adolescent with autism. These teaching procedures were elaborated based on the general characteristics of autism, principles derived from Applied Behavior Analysis, and the repertoire of the participant. The results show gradual learning of the taught skills.
Keywords: autism; teaching; mathematics; addition; subtraction; especial education.



1 INTRODUÇÃO
Segundo O'Connor e Klien (2004), o ensino de habilidades acadêmicas para pessoas com autismo tem recebido pouca atenção de estudos, provavelmente porque os comprometimentos clássicos do transtorno relacionados à comunicação, interação social e comportamentos, são vistos como prioritários no desenvolvimento de pesquisas. Porém, estes autores ressaltam que, com o aumento do número de pessoas diagnosticadas com autismo nos últimos anos1, aumentou-se também o número de pessoas com diagnóstico de Síndrome de Asperger e autismo de alto funcionamento, cujas habilidades cognitivas e de linguagem são menos comprometidas e cujas necessidades educacionais são mais amplas, englobando habilidades de leitura, escrita e matemática.
Pode-se perceber também que, com o aumento da eficácia das estratégias de ensino que possibilitam a aquisição de habilidades básicas e que suplementam as dificuldades clássicas do transtorno, crianças com autismo têm mostrado um ganho no repertório geral e, conseqüentemente, tornam-se hábeis a aprender comportamentos mais complexos como àqueles necessários aos conteúdos acadêmicos.
Neste sentido, justifica-se o desenvolvimento de tecnologias para o ensino de habilidades acadêmicas que atinjam esse público, principalmente na realidade brasileira em que, com o advento da filosofia de inclusão escolar, a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais, incluindo autistas, passou a ser direcionada para a escola regular, evitando-se a exclusão em ambientes específicos como escolas especiais (MENDES, 2006). Assim, crianças com autismo estão cada vez mais expostas aos conteúdos acadêmicos nas salas de aula regulares e estratégias de ensino adequadas às suas necessidades são fundamentais para a entrada, permanência e progresso destas pessoas na escola.
Muitos estudos descrevem características e dificuldades de pessoas com autismo que podem influenciar na aprendizagem de habilidades acadêmicas, ressaltando aspectos fundamentais a serem considerados no planejamento de estratégias de ensino para essa população (FRITH, 1989; HAPPÉ; FRITH, 2006; LOVAAS, et al., 1971; MESIBOV, SCHOPLER, HEARSEY, 1994; PEETERS, 1998; RIVIÈRE, 1995; RONCERO, 2001, SPRANDLIN; BRADY, 1999). Entre esses aspectos estão a forma como essas pessoas respondem aos estímulos do ambiente, a maneira como pensam e os comportamentos típicos desta população.
Em relação a respostas aos estímulos do ambiente, vários pesquisadores, em orientações teóricas diversas, descreveram limitações ou alterações na maneira como pessoas com autismo respondem aos estímulos. Lovaas et al. (1971) perceberam que crianças com autismo geralmente aprendiam a responder a parte de um estímulo complexo e não mantinham a atenção no estímulo como um todo, ou seja, quando era apresentada à criança uma figura complexa, com muitos detalhes, ela mantinha a atenção em apenas um dos detalhes e não via a figura como um todo. A mesma reação também pôde ser verificada na apresentação simultânea de estímulos visuais e auditivos (LOVAAS; SCHREIBMAN, 1971 apud STROMER; MCILVANE; DUBE; MACKAY, 1993), geralmente um dos elementos do estímulo composto (estímulo visual ou estímulo auditivo) exercia controle discriminativo, o outro era aparentemente ignorado. A esse fenômeno os pesquisadores chamaram de controle restrito de estímulos e segundo Dube e MacIlvane (1999), trata-se de um problema amplo na educação de indivíduos com alterações no desenvolvimento como no caso da deficiência mental ou autismo e, apesar da questão ser muito difundida, ainda são poucas as estratégias para remediar a situação.
Nesta mesma perspectiva, porém com outro referencial teórico, os experimentos de Uta Frith e as formulações a respeito da teoria da coerência central parecem descrever o mesmo fenômeno do controle restrito de estímulos. Segundo a pesquisadora, coerência central refere-se à habilidade inata, apresentada por pessoas com desenvolvimento típico, de perceber características de algo e compreendê-lo como um todo. No caso dos autistas, estes demonstram falha na coerência e, conseqüentemente, tendência a prestar atenção em detalhes. Desta forma, torna-se difícil o estabelecimento da relação entre as partes e o todo (HAPPÉ; FRITH, 2006).
Sprandlin e Brady (1999) também descreveram dificuldades apresentadas por essa população na integração das informações e ao fazer uma análise do controle de estímulos por crianças com autismo, estes afirmaram que autistas necessitam de relações mais consistentes entre estímulos, respostas e conseqüências para que possam adquirir novos comportamentos e mantê-los ao longo do tempo. Os pesquisadores levantam a hipótese de que muitos dos sintomas do autismo se devem a este aspecto e afirmam que, como estas pessoas necessitam de reforçadores consistentes para estabelecer relações entre estímulos, apenas reforçadores sociais como elogios poderiam não ser suficiente para a aquisição e manutenção de habilidades.
Outros autores descrevem respostas atípicas de autistas frente aos estímulos do ambiente e dificuldades na integração das sensações captadas pelos órgãos dos sentidos. Entre os comportamentos relatados estão: muita ou pouca sensibilidade a estímulos sonoros, visuais, tácteis e olfativos, exemplificados por muita tolerância a estímulos dolorosos, incômodo a certos tipos de sons e exploração do ambiente de forma inadequada, lambendo objetos ou cheirando pessoas (TULIMOSCHI, 2002). Dentro deste aspecto, Ludlow, Wilkins e Heaton (2006) descrevem respostas idiossincráticas de autistas frente a cores diferentes, citando o relato de uma autista de alto funcionamento sobre como cores diferentes influenciavam no seu humor, sensação de conforto e acurácia na forma como ela podia ver as coisas. Estes autores pesquisaram o efeito da utilização de coberturas coloridas sobre textos impressos para verificar o aumento da precisão e velocidade da leitura em pessoas com autismo; concluíram que o recurso teve um efeito positivo sutil na qualidade da leitura nas crianças avaliadas.
Em relação ao pensamento, Peeters (1998) afirma que, apesar de 80% dos autistas apresentarem deficiência mental severa ou moderada, o que os define é o "estilo cognitivo diferente"; uma forma de pensar própria do transtorno. Este estilo seria caracterizado pela rigidez dos pensamentos e pouca flexibilidade no raciocínio, demonstrada pela dificuldade que autistas apresentam em criar coisas novas, fazer um raciocínio inverso, dar sentido além do literal, associar palavras ao seu significado, compreender a linguagem falada e generalizar a aprendizagem. Ressalta que a imaginação e a brincadeira simbólica são restritas ou mesmo ausentes:
O desenvolvimento da imaginação (adicionando significado na percepção) e do comportamento social no autista é completamente diferente. Se convidados a brincar, procuram atividades focalizadas na percepção pura como amontoar objetos ou colocá-los alinhados em filas.(PEETERS, 1998, p.16).
Grandin (1995), que é autista de alto funcionamento, ressalta a habilidade de autistas frente a estímulos visuais ao afirmar que essa população apresenta um "pensamento visual", ou seja, estas pessoas pensam e raciocinam com mais facilidade por meio de imagens e sistemas visuais, podendo demonstrar dificuldades em compreender estímulos auditivos e conceitos abstratos que não possuem representação visual.
Outra descrição da forma como pessoas com autismo pensam é oferecida pela teoria da mente (FRITH, 1989), que se refere às estratégias que crianças de desenvolvimento típico utilizam para inferir sobre os estados mentais2 de outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destes atributos. No caso dos autistas, estes podem não prever comportamentos humanos e não atribuir crenças ou idéias a comportamentos observados em outras pessoas, falhando em estabelecer uma teoria da mente.
Em relação aos comportamentos, pessoas com autismo apresentam tendência a manter rotinas; resistência frente a mudanças; dificuldades na compreensão da linguagem falada comprometendo o seguimento de ordens verbais e interesses restritos. Segundo Roncero (2001), o desenvolvimento desta população é caracterizado por um desajuste qualitativo, ou seja, um padrão descoordenado com dificuldades significativas em algumas áreas como interação social e comunicação, porém com habilidades em outras, como memória mecânica e destrezas espaciais. Na maioria dos casos, as habilidades destas pessoas que ressaltam em seu repertório relacionam-se principalmente a memória visual, estabelecimento de relações lógico-matemáticas e, principalmente, ao seguimento e manutenção de regras e rotinas.
AUTISMO E APRENDIZAGEM
Windholz (1995), fazendo uma revisão histórica sobre pesquisas e tratamentos voltados ao autismo, afirma que Lovaas e Smith (1989) propõem quatro princípios para apoiar a intervenção com autistas: 1) as leis da aprendizagem3 respondem adequadamente para pessoas coma autismo e podem constituir base para seu tratamento; 2) crianças com autismo apresentam muitos déficits comportamentais distintos e os comportamentos devem ser ensinados um-a-um, em pequenos passos; 3) crianças autistas aprendem, desde de que colocadas em ambientes especiais4 e 4) o fracasso de crianças autistas em ambientes normais e seu sucesso em ambientes especiais indica que seus problemas podem ser melhorados através de manipulação do ambiente.
Alguns autores afirmam que autistas respondem melhor a propostas de trabalho estruturadas que a situações livres e a estímulos visuais que a estímulos auditivos (LEWINS; DE LEON, 1995). Segundo Rivière (1995), o conceito de estrutura é de grande importância na educação destas pessoas e envolve ambientes simples, sem muitos estímulos, que facilite a percepção e compreensão.Mesibov, Schopler e Hearsey (1994) afirmam que prover estrutura visual para crianças com autismo ajuda-os a organizar-se e responder de forma mais apropriada ao ambiente: "O que é visual é concreto e portanto fácil para as crianças aprenderem e entenderem" (p.202)
O trabalho a ser relatado a seguir descreve o ensino de habilidades de adição e subtração para uma adolescente com autismo, que utilizou procedimentos adaptados com base em descrições sobre o quadro de autismo, princípios de aprendizagem de análise experimental do comportamento, técnicas de ensino e observação direta do repertório da participante.

2 MÉTODO
PARTICIPANTE
Participou do estudo uma menina de doze anos, com diagnóstico de autismo, de nível sócio-econômico alto, que freqüentava uma escola privada da rede regular e estava na quinta série, em uma turma composta por alunos com média de onze anos de idade. Em avaliação prévia ela obteve pontuação 35,00 no CARS5 (SCHOPLER; REICHLER; RENNER, 1988), sugerindo autismo leve/moderado.
A menina estava matriculada na escola desde as séries iniciais e, apesar de estar inserida na rotina da escola e relacionar-se diariamente com pares da idade, ela não acompanhava os conteúdos acadêmicos de sua turma. Na matemática, enquanto a escola trabalhava conteúdos de multiplicação, divisão, potenciação e raiz quadrada, a menina ainda não havia aprendido a resolver operações de adição e subtração.
Em relação às características da participante, suas maiores dificuldades relacionadas ao autismo estavam na área da comunicação. Esta apresentava fala e conseguia utilizá-la para comunicar-se por meio de palavras isoladas ou frases simples, porém, na maioria das vezes, a fala mostrava-se repetitiva e estereotipada e era comum que a menina falasse sobre o mesmo assunto ou fizesse a mesma pergunta diversas vezes. Apresentava também alteração no tom da fala, troca de pronomes e dificuldades na organização de frases. Compreendia literalmente ordens verbais e apresentava dificuldades na compreensão de ordens complexas e conceitos abstratos, necessitando de explicações mais simples e diretas. Não compreendia conceitos que necessitavam de relações entre objetos ou quantidade como "maior", "menor", "mais" ou "menos".
Apresentava comportamento socialmente aceito e organizado, com poucas estereotipias motoras que eram facilmente interrompidas quando solicitada. Mostrava interesse pelas pessoas, porém de forma passiva, sem muita iniciativa, apesar de responder adequadamente a cumprimentos, a perguntas do interlocutor e despedir-se. Tinha autonomia em relação ao auto cuidado e não fazia uso de nenhuma medicação.
Aprendeu a ler na escola, junto com os pares da idade, sem a necessidade de ensino diferenciado, e na época deste estudo, apresentava leitura fluente e escrita correta, porém, mostrava pouca compreensão daquilo que era lido e dificuldades para interpretar textos. Apesar de conseguir responder a perguntas simples oralmente, não conseguia responder de forma escrita. Demonstrava interesse pelos conteúdos da escola e passava as aulas copiando aquilo que era trabalhado nas disciplinas.
SITUAÇÕES E MATERIAIS
As sessões de ensino foram realizadas em consultório de psicologia, uma vez por semana, com duração de aproximadamente cinqüenta minutos de intervenção com a participante e dez minutos de orientação com a acompanhante doméstica que tinha a função de desenvolver com a menina, em casa, atividades pedagógicas da escola e treinos das atividades trabalhadas no consultório. Em relação aos materiais, foram utilizadas folhas em branco, lápis, borracha e caneta.
A acompanhante doméstica tinha formação em magistério de nível técnico, freqüentava a casa da participante de segunda à sexta, duas horas por dia, fazia com a menina prioritariamente os deveres da escola e no tempo que restava, treinava com ela as operações trabalhadas no consultório. As orientações a acompanhante consistiam na explicação breve do conteúdo trabalhado e da maneira como ele foi ensinado à menina, além de sugestões de operações que ela poderia treinar com a participante em casa para evitar que esquecesse o que havia aprendido. Desta forma, só eram treinadas no ambiente doméstico, com a acompanhante, operações que a menina já havia aprendido no consultório.
Procedimento
Antes do início das sessões de ensino de habilidades de adição e subtração, a participante foi avaliada por meio de tarefas de adição simples (com números de apenas um dígito), adição com números de dois dígitos, subtração simples (com números de apenas um dígito) e discriminação entre tarefas de adição e subtração. As operações foram apresentadas, uma por vez, em uma folha de papel, sendo solicitado à menina que resolvesse as tarefas. Erros ou acertos não foram reforçados e nenhuma ajuda foi oferecida à participante (Figura 1).


A partir dos dados da avaliação inicial, optou-se por dividir as habilidades a serem ensinadas em oito categorias de operações: 1) adição com números de dois ou mais dígitos; 2) adição com número a ser elevado; 3) subtração simples, com números de apenas um dígito; 4) subtração com números de dois ou mais dígitos; 5) discriminação entre tarefas de adição e subtração; 6) subtração com números menores que dez e 7) subtração com números entre onze e dezoito (maiores que dez).
Após as sessões de ensino, outra avaliação foi efetuada, semelhante à avaliação inicial, porém, as habilidades avaliadas foram: soma com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos, subtração com números menores que dez e subtração com números entre onze e dezoito. As operações de adição simples, subtração simples, adição com números de dois dígitos e discriminação não foram avaliadas porque os tipos de tarefas escolhidas para a avaliação final abarcavam as habilidades necessárias à resolução destas operações (Tabela 1).


Para a avaliação inicial a menina fez um total de 47 operações e na avaliação final foram no total 44 operações apresentadas em seqüência aleatória. O número total de operações das Sessões de ensino variou de acordo com a complexidade da tarefa, sendo que o número mínimo de operações efetuadas pela participante foi de 22 e o número máximo foi de 81, tendo como média 49 operações (Figura 2). Nas avaliações e nas Sessões de ensino houve variação também no número de tarefas com cada tipo de operação, aparecendo em maior número a cada Sessão, tarefas com o tipo de operação ensinada (Figura 3). As Sessões se iniciavam com a apresentação de operações trabalhadas na Sessão anterior, antes do ensino de novas operações.




SESSÃO 1 – ADIÇÃO COM NÚMEROS DE DOIS OU MAIS DÍGITOS
A adição é uma operação caracterizada pelas ações de juntar, agrupar ou reunir, ou seja, é necessário que se saiba juntar certa quantidade a uma outra quantidade para obter o resultado esperado.
A participante era capaz de fazer com precisão adições simples como: 6 + 3 = 9 e utilizava os dedos das mãos para fazer os cálculos. No caso anterior, levantava seis dedos, contava até seis, levantava três dedos, continuava a contagem - sete, oito, nove - e assim chegava ao resultado. Em operações mais complexas, com números constituídos por dois dígitos ou mais, cometia muitos erros e necessitava de aprimoramento; muitas vezes, em vez de somar os números na vertical, somava todos os números (Figura 4):


Num primeiro momento, a participante foi ensinada a somar os números que estavam em colunas, começando da direita e seguindo em direção à esquerda. Para isso utilizou-se uma linha fina entre as colunas para indicar visualmente a separação entre elas. No resultado era feito um círculo em volta dos números para indicar visualmente que estes deveriam ser considerados como um todo, evitando que a menina os considerasse de forma isolada. Gradativamente, a linha e o círculo foram esvanecidos e a complexidade das tarefas foi aumentada (Figura 5). O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez quatro seqüências de tarefas e precisou de ajudas nas duas primeiras. Cada acerto era elogiado e esse tipo de conseqüência, assim como o próprio desempenho na atividade, parecia ser suficiente para mantê-la atenta e motivada.


SESSÕES 2 E 3 - ADIÇÃO COM NÚMERO A SER ELEVADO
O próximo passo era ensinar operações de adição em que a soma dos números das colunas era superior a 10. Neste caso, apenas o segundo número da dezena é colocado abaixo dos números da coluna somada, enquanto o primeiro número da dezena é elevado à parte superior da primeira coluna seguinte, à esquerda da coluna somada, e este é somado aos números desta coluna (Figura 6):


Como o valor da soma dos números da coluna tem dois dígitos (exemplo: 10), ensinou-se à menina a fazer os seguintes passos: somar os números da coluna, escrevê-lo na operação de maneira que o primeiro dígito ficasse sobre a primeira coluna à esquerda da coluna em que os números foram somados e o segundo dígito ficasse abaixo desta coluna. Assim, ela escrevia o resultado com dois dígitos de forma fragmentada, sem esquecer de elevar o primeiro dígito e nem de colocar o segundo abaixo da coluna somada (Figura 7).


Desta forma, utilizou-se de estímulos visuais e relações visualmente óbvias para explicar à menina como a operação deveria ser feita e, gradualmente, aumentou-se a complexidade das operações ensinadas, a medida em que ia aumentando o número de acertos dela nas tarefas (Figura 8). O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez dez seqüências de cinco operações nas Sessões 2 e 3 e precisou de ajudas nas duas primeiras.


Após a aprendizagem das diversas possibilidades de operações de adição, iniciou-se o ensino da subtração. O objetivo era manter as habilidades de adição e ensinar habilidades de subtração sem que as primeiras fossem suprimidas.
SESSÃO 4 - SUBTRAÇÃO SIMPLES
A subtração é caracterizada por operações de tirar, comparar e completar, ou seja, é a ação de encontrar a diferença entre dois valores. As parcelas das operações de subtração são chamadas de minuendo, subtraendo ediferença (Figura 9).


Como foi descrito anteriormente, a participante fazia contas de adição utilizando os dedos das mãos, assim partiu-se deste ponto para o ensino da subtração, porém, invés de levantar os dedos, a menina foi ensinada a levantar a quantidade referente ao minuendo e abaixar a quantidade do subtraendo para obter o resultado (Figura 10):


As instruções verbais dadas à menina foram: "quanto você tem aqui?" (mostrava a ela o minuendo e esperava ela mostrar a quantidade de dedos), "quantos dedos você vai abaixar?" (mostrava o subtraendo e esperava ela abaixar a quantidade de dedos referente) e "quantos dedos ficaram?" (esperava a resposta oral e pedia a ela para escrevê-la na folha). A menina aprendeu rapidamente e gradativamente as orientações verbais foram retiradas para que ela pudesse fazer as operações sem ajuda. O critério para diminuição da ajuda e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez quinze seqüências de cinco operções e precisou de ajudas nas duas primeiras.
SESSÃO 5 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS DE DOIS OU MAIS DÍGITOS
Após a aprendizagem de operações de subtração simples, trabalhou-se com operações constituídas por números de dois ou mais dígitos e no início, utilizou-se uma linha divisória entre as colunas, como na adição, para ajudá-la a se organizar, que rapidamente foi esvanecida na medida em que o número de acertos aumentou. Não foi necessária a utilização do círculo em volta do resultado como na adição. O critério para diminuição das ajudas e aumento da complexidade das tarefas foi de cem porcento de acerto em pelo menos uma seqüência de cinco operações do mesmo tipo. A menina fez três seqüências com cinco operações cada e precisou de ajuda nas duas primeiras. Até esse ponto, todos os valores do subtraendo eram menores do que o minuendo (Figura 11).


Com o início dos treinos de subtração, as atividades de adição foram temporariamente suspensas para evitar que a menina confundisse as operações, porém, como o objetivo era manter as habilidades de adição assim como ensinar as de subtração, voltou-se com tarefas de adição paralelamente aos treinos de subtração, então, percebeu-se que a menina não identificava quais operações eram de adição ou subtração e assim tarefas de discriminação foram organizadas.
SESSÕES 6 E 7 - DISCRIMINAÇÃO
Primeiramente, o sinal da adição começou a ser apresentado em azul, o de subtração em vermelho e a seguinte regra foi treinada (Figura 12):


Pediu-se à menina que escrevesse, algumas vezes, a regra, primeiro copiando o modelo dado e, posteriormente, tendo que lembrá-la frente aos sinais de mais e de menos, escritos em azul e vermelho, respectivamente.
Uma sequência de atividades foi programada, começando com tarefa de adição, em seguida de subtração e, posteriormente, em ordem aleatória. À participante foram apresentadas as tarefas com as seguintes questões verbais: "que sinal é esse?" (resposta oral esperada: mais/menos). "O que você deve fazer?" (resposta oral esperada: levantar/abaixar). As perguntas foram gradualmente retiradas na medida em que a menina apresentava maior número de acertos. Nas Sessões 6 e 7, os sinais de mais e de menos apareceram em azul e vermelho, respectivamente, sendo que, na Sessão 6, a participante fez doze seqüências com cinco operações em cada e precisou de ajuda apenas na primeira e na Sessão 7. Foram dez seqüências com cinco operações cada sem a necessidade de ajuda em nenhuma delas. Na Sessão 8, os sinais de mais e de menos foram apresentados na mesma cor; a menina fez cinco seqüências com cinco operações em cada e precisou de ajudas apenas na primeira seqüência.
SESSÕES 8 E 9 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS MENORES QUE DEZ
O próximo passo relacionava-se ao ensino de operações em que o minuendo era inferior ao subtraendo. Neste caso, tínhamos duas situações: a primeira quando era necessário subtrair de números até dez e a segunda quando o número a ser subtraído encontrava-se no intervalo entre onze e dezoito. A segunda situação era mais complexa, pois a menina utilizava os dedos das mãos para fazer os cálculos e, como esse tipo de operação exigia números superiores à quantidade de dedos das mãos, então era necessário pensar outro recurso para que ela conseguisse fazer as operações (Figura 13).


Nas operações com números até dez, ensinou-se à participante a transformar o número zero em número dez, colocando o número um embaixo da primeira coluna à esquerda da coluna com o zero e subtraindo-o junto aos números desta coluna (Figura 14). Gradativamente, aumentou-se a complexidade das tarefas na medida em que a participante ia acertando as operações. Na Sessão 8, a menina fez sete seqüências de cinco operações e precisou de ajuda em cinco delas, já na Sessão 9 ela fez seis seqüências e precisou de ajudas apenas na primeira e na terceira.


SESSÃO 10 - SUBTRAÇÃO COM NÚMEROS MAIORES QUE DEZ
Na segunda situação, a solução encontrada para que a menina fizesse os cálculos foi ensiná-la a fazer traços pequenos, correspondente à quantidade do minuendo, cortar o número de traços correspondentes ao subtraendo e obter o resultado através da quantidade de traços que restavam (Figura 15).


Nesta sessão, a menina fez três seqüências de cinco operações e não precisou de ajuda em nenhuma delas. A discriminação entre operações de subtração com números até dez e operações com números maiores do que dez ocorreu naturalmente, já que a menina, ao tentar fazer as tarefas, tinha as mãos como referência, assim, nenhum treino adicional foi necessário.

3 RESULTADOS
Figura 16 mostra, em gráficos representativos de cada sessão, o número de operações efetuadas pela participante e seus respectivos números de acertos. Foram considerados os resultados em números absolutos devido à variação no número de tarefas por sessão. As barras em preto indicam o número de operações oferecido à menina e as barras em cinza indicam o número de operações que ela acertou, sendo consideradas como corretas àquelas em que a participante não precisou de dicas ou ajudas para executá-las. Pode-se observar que nem todos os tipos de operações ocorreram em todas as sessões, porém, à medida que novas operações foram sendo ensinadas, tarefas com os tipos de operações trabalhadas anteriores foram oferecidas à menina para verificar e favorecer a manutenção das habilidades aprendidas.


Na Sessão 1, em que foram ensinadas operações de adição com dois ou mais dígitos, a menina acertou todas as tarefas de adição simples e a metade das operações de adição com números de dois ou mais dígitos. Nas Sessões 2 e 3, nas quais foram trabalhadas operações de adição com número a ser elevado, a participante acertou todas as operações de adição com números de dois ou mais dígitos e acertou em torno de 65% das operações de adição com número a ser elevado na Sessão 2. Na Sessão 3, apresentou quase 100% de acerto nas operações de adição com número a ser elevado.
Na Sessão 4, operações de subtração simples foram trabalhadas e a menina apresentou 100% de acerto nas poucas operações de adição com número a ser elevado, 80% de acerto nas operações de subtração simples e nenhum acerto nas tarefas de discriminação entre operações de adição e subtração. Na Sessão 5, operações de subtração com números de dois ou mais dígitos foram ensinadas e a participante apresentou novamente 100% de acerto nas poucas operações de adição com número a ser elevado, demonstrando a manutenção desta habilidade, 50% de acerto nas operações de subtração simples e nas operações de subtração com números de dois ou mais dígitos.
Nas Sessões 6 e 7 foram treinadas operações para que a menina aprendesse a discriminar tarefas de adição e subtração (sinais em azul e vermelho). Na Sessão 6, a participante apresentou 100% de acerto e todos os tipos de operações de adição oferecida e praticamente 100% de acerto nas operações para discriminação. Na Sessão 7, apresentou novamente 100% de acerto em todos os tipos de operações de adição e nas operações de subtração simples, 50% de acerto nas operações de subtração com números de dois ou mais dígitos e 100% de acerto nas operações para discriminação.
Nas Sessões 8 e 9 foram trabalhadas operações de subtração com números menores que dez. Na Sessão 8, a participante apresentou 100% de acerto em todos os tipos de operações de adição e subtração com números de dois dígitos, 75 % de acerto na subtração simples e na discriminação (sinais em preto), além de 30% de acerto nas operações de subtração com números menores que dez. Na Sessão 9, foram em torno de 100% de acerto nas tarefas de adição com números de dois ou mais dígitos, adição com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos e discriminação, além de 50% nas operações de subtração com números menores que dez.
Na Sessão 10, na qual foram trabalhadas operações de subtração com números entre onze e dezoito, a menina apresentou 100% de acerto nas operações de adição com números de dois ou mais dígitos, adição com número a ser elevado, subtração com números de dois ou mais dígitos e subtração com números menores que dez, além de 85% de acerto nas operações de subtração com números entre onze e dezoito.
Na avaliação final, na qual foi pedido à menina que resolvesse operações de adição com número a ser elevado, subtração com números de dois dígitos, subtração com números menores que dez e subtração com números maiores que dez, a participante apresentou praticamente 100% de acerto em todas as tarefas (Figura 17).


Os dados mostram a aprendizagem gradativa das habilidades ensinadas à medida que o ensino ocorreu no consultório, sugerindo que esta intervenção foi a principal responsável pela aprendizagem. Em algumas situações pode-se perceber que a participante apresentou um número de acertos inferior a 100% em algumas tarefas, como no caso da Sessão 2, nas operações de adição com número a ser elevado, e acertos próximos a 100% na Sessão seguinte, como no caso da Sessão 3, com o mesmo tipo de atividade. Isso, provavelmente, se deve a dois fatores: 1) a menina começava errando as operações no início da Sessão e os acertos apareciam após algumas tentativas e se mantinham até o fim da Sessão, se estendendo para a Sessão seguinte e 2) os treinos que ocorriam em casa, com a acompanhante doméstica, ajudaram a melhorar a performance da menina. A mesma discussão também pode ser feita em relação à manutenção das habilidades adquiridas que pode ter ocorrido devido às diversas operações efetuadas em todas as Sessões de ensino, assim como aos treinos em casa.

4 DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
A avaliação inicial forneceu dados importantes sobre as habilidades da participante, principalmente no que se refere ao uso dos dedos das mãos para resolver operações de adição simples. Esta habilidade foi aproveitada em praticamente todos os momentos do ensino, exceto no caso da subtração com números entre 11 e 18. A baixa compreensão de ordens verbais demonstrada pela menina e as dificuldades com conceitos abstratos indicavam a necessidade de orientações simples, diretas, concretas e que fossem preferencialmente visuais e óbvias.
A organização visual das tarefas através do uso de linhas e círculos favoreceu com que a participante conseguisse separar as colunas e somar/subtrair de maneira correta, além de ver o resultado como um todo. Este recurso possibilitou que ela olhasse corretamente para os estímulos necessários à resolução das operações e, conseqüentemente, as executasse corretamente, evitando qualquer possibilidade de que ela mantivesse a atenção em detalhes, como no caso do controle restrito de estímulos, e errasse as operações. O esvanecimento gradual desses sinais visuais ajudou a participante a resolver as operações sem esses recursos com pouquíssimos erros durante o processo de aprendizagem, o que favoreceu com que ela se sentisse confiante, motivada e disposta durante as Sessões.
Relações visualmente lógicas também foram utilizadas no ensino da adição com número a ser elevado e no ensino da subtração com números até dez. O uso de regras foi de fundamental importância na discriminação entre os sinais de mais e menos, assim como entre os comportamentos a serem emitidos com as mãos nas situações de adição e subtração. O uso deste recurso foi escolhido devido à habilidade de pessoas com autismo no seguimento e manutenção de regras, principalmente quando estas são simples, claras e diretas, como foi o caso das regras utilizadas neste trabalho. Na discriminação dos sinais, além das regras, utilizaram-se também cores diferentes; recurso escolhido em função de descrições da literatura a respeito de respostas diferenciadas de autistas frente aos estímulos sensoriais. Desta forma, pensou-se que, se autistas podem responder de formas diferentes frente a cores diferentes, como no caso do estudo de Ludlow, Wilkins e Heaton (2006), talvez fosse possível direcionar este aspecto no ensino da discriminação entre os sinais de mais e de menos, assim como entre os comportamentos a serem emitidos em cada operação.
Outro aspecto importante a ser observado refere-se à aprendizagem consistente das habilidades de adição e subtração e sua manutenção ao longo das Sessões. Por trata-se de habilidades que são, de certa forma, uma contrária à outra, era esperado que a participante apresentasse muitas dificuldades quando a subtração começou a ser ensinada, devido a descrições da literatura a respeito do "pensamento rígido e pouco flexível", característico do quadro de autismo, além das próprias características da participante que indicavam esse aspecto, principalmente pelas dificuldades que ela apresentava com conceitos abstratos, tendência a manter rotinas e interesses restritos repetitivos. A aprendizagem da adição e da subtração, neste caso, sugere que, apesar da pouca flexibilidade do raciocínio, os procedimentos de ensino utilizados podem ter suplementado essas dificuldades.
O ensino ocorreu passo a passo, partindo-se de habilidades mais simples para as mais complexas, gradativamente, e de acordo com o desempenho da participante, seguindo as observações de Lovaas e Smith (1989), citados por Windholz (1995), a respeito da aprendizagem de pessoas com autismo. Os dados sugerem que as adaptações feitas e a seqüência escolhida para o ensino favoreceram a aprendizagem e a manutenção das habilidades. Assim, trata-se de uma experiência educacional efetiva, que trouxe bons resultados, garantiu a aprendizagem das habilidades ensinadas, em um tempo de ensino relativamente pequeno. Os benefícios da aquisição destes conteúdos pela participante são grandes e permitiram que ela estivesse mais próxima de acompanhar aos conteúdos de matemática ofertados pela escola.
Apesar dos resultados alcançados, o estudo mostra-se limitado em relação à generalização dos dados para outras pessoas com autismo, por apresentar apenas uma participante, além de problemas no controle de variáveis que podem ter influenciado nos resultados atingidos, como no caso das tarefas que a acompanhante doméstica fazia com a participante na casa dela. Seria importante que o estudo fosse replicado com um número maior de participantes, com um controle melhor das variáveis, além da utilização de um delineamento mais adequado, como no caso do delineamento de linha de base múltipla (ALMEIDA, 2003; TAWNEY; GAST, 1984). O uso desse tipo de delineamento entre as habilidades trabalhadas seria mais interessante, pois além de possibilitar um controle maior das variáveis, permitiria acompanhar o desempenho dos participantes ao longo de todo o procedimento de ensino, em relação às habilidades, antes que elas fossem ensinadas, durante e após o ensino.

REFERÊNCIAS
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Recebido em 28/02/2007
Reformulado em 04/10/2007
Aprovado em 31/10/2007


1 Segundo Filipek e colaboradores (1999) os dados preliminares apontavam para a prevalência de 4-5 casos de autismo em cada 10.000 pessoas, ou um autista em cada 2.000 pessoas. Com a ampliação do fenótipo clínico a prevalência estimada cresceu para 10-20 em cada 10.000 ou seja, um autista em cada 500-1.000 pessoas. Os números ainda são controversos e apesar do DSM-IV-TR (Associação Americana de Psiquiatria, 2002) considerar a estimativa de 15 casos em cada 10.000 indivíduos, outras fontes oferecem valores muito diferentes como no caso da Autism Society of America que aponta para 40 casos em cada 10.000 pessoas, ou um autista em cada 250 indivíduos (Gargiulo, 2006).
2 crenças, desejos, conhecimentos e pensamentos.
3 Com base na Análise Experimental do Comportamento
4 "ambientes especiais" é entendido aqui como espaços que favorecem a aprendizagem e não necessariamente escola ou classe especial.
5 Childhood Autism Rating Scale