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domingo, 24 de agosto de 2014

Uso da Ciprofloxacina durante a Prenhez de Ratas: efeitos sobre a Mãe e Fetos



Use of Ciprofloxacin in Pregnant Rats: effects on Mother and Fetuses

Mário Silva Approbato, Racine Procópio Teixeira, Kátia Karina Verolli Moura, Cassiano Rodrigues Isaac, Klayvison Koslyk Alves, Fabiana Nunes de Carvalho, Mauri Felix de Souza


RESUMO
Objetivos: estudar os efeitos da ciprofloxacina sobre a taxa de abortos, ganho de peso durante a gravidez, morte materna e fetal, malformações fetais grosseiras, número de recém-nascidos, peso dos filhotes e análise dos reflexos neurológicos dos filhotes. Métodos: foram utilizadas 30 ratas da linhagem Wistar, divididas em três grupos. Os grupos tratados receberam ciprofloxacina e o grupo controle soro fisiológico, uma vez ao dia, durante os primeiros 7 dias após o cruzamento. As doses para os grupos D50 e D100 foram, respectivamente, de 50 e 100 mg de ciprofloxacina por kg de peso corporal por dia. Os parâmetros avaliados foram: o ganho de peso durante a prenhez, a prevalência de abortamentos, mortes fetal e materna e malformações fetais grosseiras. Nos 217 filhotes nascidos analisamos o número, o peso e reflexos neurológicos (postural, preensão e orientação) no 1o, 3o, 5o e 10o dia de vida por ninhada. Resultados: não houve diferenças estatisticamente significativas no número de ratas que ficaram prenhes, na média de ganho de peso materno ou número de filhotes. Os filhotes apresentaram diferenças significativas nos pesos das observações do 3o, 5o e 10o dia (p = 0,006, 0,01 e 0,03, respectivamente), sendo a média menor no grupo D100. Observamos alteração significativa (p = 0,002) na positividade do reflexo de orientação no primeiro dia de vida, alteração que não se manteve nas outras observações. Não se observou caso de abortamento ou malformações grosseiras nos recém-nascidos. Conclusões: a ciprofloxacina alterou o peso ao nascimento e o reflexo dos filhotes nos primeiros dias de vida. Portanto, deve-se estudar a restrição ao seu uso durante a gravidez.
PALAVRAS-CHAVE: Antibióticos. Drogas na gravidez. Malformações fetais. Infecção urinária.


Introdução
A ciprofloxacina é uma fluorquinolona de segunda geração. As quinolonas são mais utilizadas nas infecções dos trato urinário (ITU), pois atingem maior concentração nos túbulos renais1. Essas infecções ocorrem mais freqüentemente em mulheres, sendo mais comuns nas sexualmente ativas, pertencentes às classes sociais menos privilegiadas e na faixa dos 30 anos2. A ITU é complicação médica comum da gestação3 e é devida às mudanças anatômicas e fisiológicas que ocorrem no sistema urinário durante este período.
A bacteriúria gestacional tende a ser persistente, tem um baixo índice de cura espontânea e se não tratada pode evoluir até pielonefrite aguda4. Vários autores relatam que, devido ao risco de bacteriúria assintomática, as gestantes devem ser rastreadas em sua primeira avaliação pré-natal4.
Esta bacteriúria geralmente aparece pela primeira vez antes da décima segunda semana de gestação5. Uma vez detectada, deve ser tratada, em decorrência do risco do desenvolvimento de pielonefrite.
Linseman et al.6 trataram camundongos com ciprofloxacina, 50 e 200 mg/kg/dia, e ácido pipemídico, 50, 400 e 3.150 mg/kg/dia. Os grupos tratados na dose de 200 mg/kg/dia durante 5 dias ou com ácido pipemídico (400 e 3.150 mg/kg/dia) durante 7 dias tiveram maior incidência de lesões articulares como perda dos condrócitos, degeneração da matriz e erosão da cartilagem articular que os camundongos tratados com ácido pipemídico (400 mg/kg/dia) durante 14 dias, sugerindo a possibilidade de uma reversibilidade das lesões à medida que o tempo de tratamento se prolonga.
Foi então realizado este estudo, em decorrência da possibilidade do uso da ciprofloxacina no período inicial de gravidez (quando a paciente ainda não percebe que está grávida) e dos relatos de seus efeitos sobre a gestação.

Material e Métodos
Esse foi um estudo experimental, prospectivo e controlado, sendo utilizadas 30 ratas, da linhagem Wistar, com idade inicial entre 4 a 6 meses, peso médio de 214,47 g, divididas em 3 grupos: 10 ratas (designado grupo tratado D50) receberam ciprofloxacina 50 mg/kg e 10 (grupo tratado D100) receberam ciprofloxacina 100 mg/kg, diluída em soro fisiológico. As doses utilizadas nesse trabalho foram semelhantes às utilizadas por Linseman et al.6. Dez ratas (grupo controle C) receberam soro fisiológico pela mesma via. O período de uso foi de sete dias, com início no 1o dia após o fim do cruzamento, uma vez ao dia, por via oral por meio de sonda. As ratas foram mantidas em ciclo de luz de 12 horas, em caixas separadas. A ração fornecida foi de 15-20 g/rata/dia e água ad libitum.
Os parâmetros estudados foram: porcentagem de abortos, ganho de peso durante a gravidez (as ratas foram pesadas semanalmente no 1o, 7o, 14o e 21o dia até o parto em balança Micronal com precisão de 0,01 g), morte materna e fetal, malformações fetais grosseiras, número de recém-nascidos, peso dos filhotes no 1o, 3o, 5o e 10odia de vida e nos mesmos dias análise dos reflexos neurológicos dos filhotes: postural (os filhotes foram colocados em decúbito dorsal, sendo considerado reflexo positivo quando reassumiam a posição de decúbito ventral), preensão (um instrumento de ponta foi encostado na planta das patas, sendo considerado positivo quando havia preensão do instrumento) e orientação (o filhote era suspenso pela cauda no espaço, próximo a uma mesa). Foram considerados positivos aqueles que se orientavam para alcançar a mesa.
Para o ganho de peso materno e dos filhotes, foi utilizada análise de variância. Para a análise dos reflexos neurológicos foi utilizado o teste do c2 7. Para as malformações foram utilizados métodos descritivos. Para os cálculos foi utilizado o pacote de estatística SPSS versão 7.5.

Resultados
Nasceram 217 filhotes dos três grupos, que foram avaliados até o 10o dia pós-parto. Houve gestação em 90% do grupo controle, 70% do grupo tratado D50 e 80% do grupo tratado D100, diferença que não foi significativa (p = ns).
Em relação ao peso materno, observamos na primeira avaliação após o início do tratamento (7o dia de gravidez) que as médias dos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 202,6 g, 222,3 g e 202,3 g, diferença estatisticamente não-significante. Na segunda avaliação após o início do tratamento (14o dia de gravidez), as médias de peso materno dos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 221,3 g, 232,6 g e 212,0 g, diferença também estatisticamente não-significativa (p = ns). Na terceira avaliação após o início do tratamento (21o dia de gravidez), as médias de peso materno dos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 249,1 g, 266,4 g e 260,5 g (p = ns).
Quanto ao número de recém-nascidos por rata, obtivemos as seguintes medianas: no grupo tratado D100, 9,5, no grupo D50, 9,0 e no grupo controle, 10 (p = ns).
Quanto ao peso dos recém-nascidos no primeiro dia de vida, as médias nos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 5,4 g, 5,7 g e 5,5 g (p = ns). No terceiro dia de vida, a média de peso nos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 6,5 g, 6,9 g e 6,6 g, diferença significante (p = 0,006). No quinto dia de vida, a média de peso nos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 8,2 g, 8,9 g e 8,3 g, diferença estatisticamente significativa (p = 0,01). No décimo dia de vida, a média do peso nos grupos tratado D100, tratado D50 e controle foram, respectivamente, 13,1 g, 14,3 g e 13,7 g, diferença estatisticamente significativa (p = 0,03), Figura 1.


A respeito dos reflexos neurológicos dos recém-nascidos, observamos que no primeiro dia de vida houve positividade do reflexo postural no grupo tratado D100 em 96,2%, no grupo tratado D50 em 100% e no grupo controle em 100%, não sendo essa diferença significante. No terceiro dia de vida houve positividade no grupo tratado D100 em 96,1%, no grupo tratado D50 em 98,2% e no grupo controle em 92% (p = ns). No quinto dia de vida, houve positividade no grupo tratado D100 em 100%, no grupo tratado D50 em 100% e no grupo controle em 98,7% (p = ns). No décimo dia de vida, houve positividade no grupo tratado D100 em 100%, no grupo tratado D50 em 100% e no grupo controle em 98,6% (p = ns). Não observamos alteração do reflexo de preensão dos animais tratados com ciprofloxacina e animais controle nos dias de avaliação (1o, 3o, 5o e 10o dia de vida). Com relação ao reflexo de orientação (Figura 2) encontramos no primeiro dia de vida uma positividade de 64,5% no grupo tratado D100, 54,3% no grupo tratado D50 e 37,1% no grupo controle, diferença estatisticamente significativa (p = 0,002). No terceiro dia de vida, a positividade foi de 70,3% no grupo tratado D100, 56,1% no grupo tratado D50 e 68% no grupo controle, (p = ns). No quinto dia de vida, a positividade foi de 71,4% no grupo tratado D100, 61,4% no grupo tratado D50 e 64,9% no grupo controle (p = ns). No décimo dia de vida, a positividade foi de 43,2% no grupo tratado D100, 72,7% no grupo tratado D50 e 56,6% no grupo controle (p = ns).


Não foram observados abortos ou malformações grosseiras nos filhotes.

Discussão
Não houve diferenças significativas em relação ao número de recém nascidos entre os grupos avaliados, mostrando que a fertilidade e a gestação das ratas não foram influenciadas pelo tratamento. Resultado semelhante foi encontrado por Watanabe et al.8 que estudaram estes efeitos usando respectivamente a lomefloxacina e a levofloxacina.
Os filhotes nasceram sem diferenças significativas com relação ao peso, apresentando entretanto, diferenças no ganho ponderal até o 10o dia. Foi observado que os filhotes do grupo tratado D50 apresentaram o maior ganho ponderal até o 10o dia, ao passo que os do grupo D100 apresentaram o menor. Estes resultados indicam que o aumento da dose de ciprofloxacina administrada às ratas durante a prenhez pode influenciar os primeiros dias do desenvolvimento dos filhotes. Estes resultados foram semelhantes aos encontrados no estudo desenvolvido por Watanabe et al.8, no qual não foram encontrados efeitos adversos no grupo tratado com levofloxacina na dose de 360 mg/kg e foram encontrados redução do peso dos filhotes e retardo da ossificação (este último parâmetro não foi analisado em nosso estudo) no grupo tratado com a dose de 810 mg/kg.
Quanto ao reflexo de orientação, foi observado, no primeiro dia de vida dos filhotes, que os grupos tratados (principalmente D100) apresentaram maior positividade ao teste que o grupo controle. Esta alteração não permaneceu nas observações do 3o, 5o e 10o dia, indicando que a ciprofloxacina, na metodologia por nós utilizada, pode influenciar de maneira temporária o desenvolvimento neurológico dos filhotes. Tarantal et al.9 não encontraram alterações no desenvolvimento emocional e habilidade motora dos filhotes em seu estudo com prulifloxacina.
Não foram observados abortos nas gestações das ratas ou malformações grosseiras nos filhotes. Apesar de resultados em animais não poderem ser aplicados em seres humanos, efeitos similares foram encontrados por Berkovitch et al.10 em seu estudo com 38 mulheres tratadas com ciprofloxacina ou norfloxacina durante o primeiro trimestre de gestação.
Estudos feitos na Universidade de Toronto testando uma quinolona criada recentemente e que ainda não está sendo usada no Brasil, a prulifloxacina, mostraram que essa droga não tem aparente efeito na função reprodutiva dos pais e no desenvolvimento dos fetos. Ela não influi no número dos nascidos vivos e na diferenciação, desenvolvimento funcional, emocional, habilidade motora e performance reprodutiva dos filhotes11,12. Outros estudos feitos em coelhas mostraram que aquelas que receberam doses mais elevadas de prulifloxacina tiveram maior quantidade de fetos mortos13,14. Entretanto, estudando os efeitos da nova quinolona temafloxacina em macacas, não foram observadas diferenças significativas no crescimento dos fetos e embriões quando comparadas com o grupo controle9.
Este estudo mostrou que a ciprofloxacina tem efeitos na gravidez e portanto o seu uso deve ser restrito a situações em que, por ausência de outro medicamento eficaz e seguro, os riscos potenciais ao desenvolvimento do feto sejam menores que os benefícios do tratamento.


SUMMARY
Purpose: to study the effects of ciprofloxacin on abortion percentage, maternal weight gain during pregnancy, fetal and maternal death, gross fetal malformation, newborn number, weight and neurological reflexes. Methods: we used 30 Wistar rats, divided into three groups: D50-treated (ciprofloxacin, 50 mg/kg); D100-treated (ciprofloxacin 100 mg/kg) and control group which received physiological saline per os, from the 1st to the 7th day after mating. We studied abortion percentage, maternal weight gain during pregnancy, fetal and maternal death, gross fetal malformation, newborn number and weight at 1st, 3rd, 5th and 10th day of life and newborn neurological reflexes at 1st, 3rd, 5th and 10th day of life. Results: there was no difference between groups in the number of rats that became pregnant. The same was found for maternal weight gain and newborn number. There was a difference in newborn mean weight on day 3rd, 5th and 10th (p = 0.006, 0.01 and 0.03, respectively). The D100 newborn group was the one with less weight gain up to the 10th day of life. We found a significant difference (p = 0.002) in the newborn orientation reflex on the 1st day of life, that disappeared afterwards. No abortion or gross malformation was found in this study. Conclusions: ciprofloxacin modified the newborn weight and reflex on the first days of life. In conclusion, we consider that the use of ciprofloxacin should be restricted during the pregnancy.
KEY WORDS: Antibiotics. Drugs in pregnancy. Fetal malformation. Urinary infection.

Referências
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Laboratório de Reprodução - Hospital das Clínicas - FM - Universidade Federal de Goiás
Correspondência: Mário Silva Approbato
Av. 5a Radial, 131/103 - Setor Pedro Ludovico
74823-030 -Goiânia -GO
email: approbat@medicina.ufg.br

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Farmacocinética da associação de glucosamina e sulfato de condroitina em humanos sadios do sexo masculino




Odaly ToffolettoI; Agostinho TavaresII; Dulce Elena CasariniIII; Beata Marie RedubloIV; Artur Beltrame RibeiroV
IDoutora em Ciências, Coordenadora de Pesquisa Clínica Hospital do Rim e Hipertensão – Fundação Oswaldo Ramos
IIDoutor em Medicina, Professor Adjunto Disciplina de Nefrologia UNIFESP-EPM
IIIDoutora em Ciências, Pesquisadora Disciplina de Nefrologia UNIFESP-EPM
IVDoutor em Medicina, Disciplina de Nefrologia UNIFESP-EPM
VDoutor em Medicina, Professor Titular Disciplina de Nefrologia UNIFESP-EPM



RESUMO
A osteoartrose é uma doença crônica das articulações que, uma vez instalada, leva seus portadores a uma incapacidade funcional progressiva. Como os proteocondroitins sulfato são os maiores constituintes das cartilagens, espera-se que com a ingestão de glucosamina e condroitina haja uma melhora das condições biológicas desse tecido. Uma vez que não temos conhecimento de estudo da farmacocinética da administração oral dessa associação em seres humanos, o objetivo deste trabalho foi avaliá-la utilizando a associação entre o sulfato de glucosamina (SG) e o sulfato de condroitina (SC) administrada a dois grupos de doze voluntários sadios do sexo masculino (grupo I uma cápsula de (500 mg SG; 400 mg SC) e grupo II quatro cápsulas). Amostras de sangue foram retiradas a intervalos de tempo pré-definidos até 48 horas pós-dose. O SG e o SC foram dosados no plasma pelo método de DMMB (azul de 1,9,dimetildimetileno). A concentração máxima foi atingida em 2 horas (média ±SE; 0,893±0,093 µg/mL, grupo I e 2,222±0,313 µg/mL, grupo II). As áreas sob a curva até 48 horas foram de 10,803±0,965 µg-hr/mL e 38,776±2,981 µg-hr/mL, respectivamente para os grupos I e II. Os dois grupos apresentaram um segundo pico após 18 horas, indicando circulação êntero-hepática. Os nossos resultados indicam que essa associação é absorvida por via oral por mecanismo saturável, o que pode facilitar o seu uso em tratamentos clínicos.
Descritores: Osteoartrose; Sulfato de condroitina; Glucosamina; Proteoglicanos



INTRODUÇÃO
A osteoartrite é uma doença crônica das articulações que leva seus portadores a uma incapacidade funcional progressiva. A doença não é sinônimo de envelhecimento, mas, uma vez instalada, progride com a idade(1-3). Ela está relacionada com a perda da capacidade funcional das articulações, e é caracterizada por dor constante. A ausência de cura da osteoartrite faz com que somente a dor seja tratada por meio de agentes tópicos, antiinflamatórios, analgésicos tipo opióide e -adrenérgicos, agentes intra-articulares, como depocorticosteróides, hialuronato e radionucleotides de emissão beta. Têm sido utilizados também glicosaminoglicanos sulfatados como sulfato de condroitina (CS) e de glucosamina(GS)(4-6).Por outro lado , o tratamento cirúrgico por meio de desbridamentos, ostertomias e próteses totais têm surtido bons efeitos.
Glucosamina (N-acetil-glucosamina) é um produto do metabolismo da glicose e este produto de degradação é um dos constituintes dos galato e glucosminoglicanos(6). Os glicosaminoglicanos são polímeros lineares compostos por unidades dissacarídicas repetitivas onde uma das unidades é invariavelmente uma hexosAmina (D-glucosamina ou D-galactosamina) e a outra um ácido hexurônico (glucurônico ou idurônico) ou uma galactose em seqüência não ramificada apresentando substituições de grupamentos sulfatos em várias posições da cadeia polissacarídica(7). As três unidades dissacarídicas: N-acetil-galactosamina-ácido hexurônico; N-acetil-glucosamina-ácido hexurônico e N-acetil-glucosamina-galactose representam as unidades básicas na formação da cadeia dos glicosaminoglicanos. Os galactosminoglicanos, cuja hexosamina será sempre uma D-galactosamina, são constituídos pela família das condroitinas sulfato e os glucosaminoglicanos, cuja hexosamina será sempre uma D-glucosAmina, são constituídos pelo ácido hialurônico, heparam sulfato, heparina e queratam sulfato.
Na classe das condroitinas iremos encontrar os condroitina não sulfatados, 4-sulfatados, 6-sulfatados e o dermatam sulfato(1).
As condroitinas sulfato são formadas por unidades dissacarídicas repetitivas de ácido glucurônico unidos por uma N-acetilgalacto-samina e apresentam um éster sulfato na posição 4- ou 6- e por isso o polissacarídeo formado recebe a designação de condrotim 4-sulfato ou 6-sulfato.
As cadeias das condroitinas sulfato variam em seu comprimento médio de um tecido para outro ou dentro do mesmo tecido. Em geral, a massa molecular média das cadeias das condroitinas sulfato diminui do jovem para o adulto, na cartilagem articular(8). Com exceção do ácido hialurônico todos os glicosamino e /ou galactosaminoglicanos são encontrados na forma de proteoglicanos.
Os tipos de proteoglicanos na cartilagem apresentam-se com diferentes volumes hidrodinâmicos, fato este ligado ao número de cadeias de glicosaminoglicanos. É importante lembrar que a maior parte dos glicosaminoglicanos encontrados em ossos e cartilagens é constituída por condroitins sulfato.
Proteoglicanos (PGs) são macromoléculas complexas que contêm um esqueleto protéico com uma ou mais cadeias de glico-saminoglicano, ligado covalentemente(9-13). O esqueleto protéico dos proteoglicanos tem uma localização central na molécula e, freqüentemente, fica apoiado a um "berço" formado pelas cadeias dos glicosaminoglicanos.
Nas cartilagens, os condrócitos sintetizam os vários tipos de proteoglicanos que formam juntos com a matriz colagênica um complexo supramolecular que dão a este tecido a função de uma mola biológica capaz de resistir a forças de alta compressão, além de estarem envolvidos no crescimento e remodelação do tecido. As cartilagens têm um altíssimo teor de proteoglicanos que são responsáveis pela sua estrutura morfológica e pela nutrição das células cartilaginosas.
Como os proteocondroitins sulfato são os maiores constituintes das cartilagens, espera-se que fornecendo glucosamina e condroitina, haja uma melhora das condições biológicas do tecido. Entretanto, há controvérsias quanto a proposta sobre os benefícios do tratamento com glucosamina e condroitina nos pacientes com osteoartrite(14-17). O presente estudo mostra que a administração de sulfato glucosamina associada do sulfato de condroitina sulfato é absorvida por via oral por indivíduos sadios.

CASUÍSTICA, MATERIAL E MÉTODOS
Casuística
Este protocolo foi conduzido de acordo com a Declaração de Helsinque, expressos nas Resoluções 196/96 e 251/97 do CNS/MS – Normas de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos. O protocolo experimental e o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital do Rim e Hipertensão, credenciado pelo CONEP/Ministério da Saúde. Foram incluídos no estudo voluntários sadios do sexo masculino, idade entre 18 e 45 anos, índice de massa corpórea (IMC) entre 19 e 25. Foram excluídos indivíduos com anormalidades clinicamente significantes nos exames bioquímicos, hematológicos e de urina I, presença de doença gastrintestinal, cardiovascular, hepática, hematopoiética, renal ou respiratória ou, ainda, história de alergia ao SC e ao SG. Outros critérios de exclusão foram: exposição recente (menos do que 3 meses) a drogas experimentais ou não, ingestão recente ou história de abuso de álcool ou de drogas ilícitas, fumantes, doação recente (menos do que 3 meses) de sangue, sorologia positiva para HIV e hepatites B e C. O estudo foi conduzido na Unidade de Farmacologia Clínica do Hospital do Rim e Hipertensão, de acordo com as normas de Boas Práticas Clínicas e o TCLE foi assinado por todos os voluntários incluídos antes do início do estudo.
Desenho do estudo
O estudo foi aberto, randomizado, dose única, um período. Vinte e quatro voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos de 12 indivíduos. O grupo I (GI) recebeu 1 cápsula 500 mg de SC e 400 mg SG e o grupo II (GII) recebeu 4 cápsulas. Os voluntários foram internados na véspera da administração do medicamento. A administração foi feita às 7:00 da manhã após 10 horas de jejum. Os voluntários permaneceram sentados durante as 4 horas seguintes. Refeições padronizadas foram servidas 4, 7, 11, 13, 24, 28, 31, 35, 37 e 48 horas após a administração do medicamento.
Coleta e manipulação das amostras
As amostras de sangue dos voluntários deste estudo foram coletadas antes da administração do medicamento (coleta basal) e 0,5, 1, 2, 4, 5, 6, 8, 10, 12, 18, 24, 36, 48 e 168 horas após. em tubos Vacuntainer, perfazendo um total de 15 alíquotas. Como anticoagulante utilizou-se o EDTA. As amostras foram coletadas durante a internação dentro de 2 minutos do tempo determinado, mantidas em gelo e centrifugadas (10 minutos a 720 x g, 4ºC). O plasma separado foi congelado em 2 (duas) alíquotas e mantido a -20ºC até o momento da análise. O tempo entre a coleta do sangue e o congelamento do plasma não ultrapassou 30 minutos.
Método Analítico
O SG e o SC foram dosados pelo método que utiliza o azul de 1,9,dimetildimetileno(18) (DMMB), desenvolvido para a determinação de glucosaminoglicanos sulfatados. O método, validado de acordo com normas da ANVISA, baseia-se em extração liquido-liquido e quantificação por espectrofotometria. O método é linear entre 0,5 e 5,0 µg/mL. Tanto o SG quanto o SC são estáveis no plasma nas condições do ensaio, a três ciclos de congelamento/descongelamento, à luz e até 3 meses de armazenamento a –20ºC. A precisão intraensaio varia de 3,1 a 9,0% e interensaio de 2,9 a 13,9%; a exatidão intraensaio varia de 90 a 110% e interensaio de 100 a 115%.
Extração da Glucosamina e Condroitina
A cada alíquota de 2 mL de amostra de plasma foi adicionada 1 mg de papaína dissolvida em tampão fosfato:cisteína, pH 6,5 contendo EDTA 0,10 M. As amostras foram incubadas a 55º C durante 16 horas. Após incubação foram adicionados 500 µL de NaCL 4 M e, após agitação, o equivalente a 10% do volume total de ácido tricloroacético (TCA) 90%. O sobrenadante foi precipatado com etanol absoluto (3 vezes o volume) por 16 h a –20º C. O precipitado foi seco a vácuo e ressuspenso em 100 µL de água. Às amostras diluídas em água foi adicionado 1 mL do reagente DMMB seguido de suave agitação. A leitura foi feita em espectrofotômetro a 525 nm, dentro de 3 minutos da adição do DMBB. A curva padrão foi feita utilizando solução de condroitina sulfato SC (Aché Laboratórios Farmacêuticos).

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Casuística
Os dados antropométricos dos voluntários sadios que participaram do estudo estão resumidos na Tabela 1. Pode-se observar que a população de estudo é homogênea e os dois grupos são semelhantes.


Ensaio Clínico
Os voluntários foram observados durante a internação e especificamente argüidos sobre eventos adversos a cada 4 horas. Durante esse período, não foram observados eventos adversos. Após 7 dias da alta hospitalar, os voluntários retornaram para exames bioquímicos, ECG e exame clínico, quando receberam alta do estudo.
Cinética Plasmática
Figura 1A mostra a média±SE dos resultados brutos dos dois grupos (incluindo a concentração endógena). Após administração oral, a concentração plasmática aumenta, atingindo o máximo após 2 horas (Tmáx), decrescendo até o mínimo após 8 horas da administração, tanto no grupo I quanto no grupo II. Segue-se um segundo pico, após 18 horas de administração, provavelmente devido à re-circulação êntero-hepática(19). A Figura 1B exibe a média±SE do resultado líquido, isto é, após desconto da concentração basal (endógena).


O Cmáx observado (acima da concentração basal) foi de 0,893± 0,093 µg/mL e 2,222±0,313 µg/mL e a AUC0-48h 10,803±0,965 µg-h/mL e 28,543±6,704 µg-h/mL (média ±SE), respectivamente para GI e GII. Após 18 horas de administração a concentração foi de 0,365±0,041 µg/mL e 0,974±0,198 µg/mL, GI e GII, respectivamente. ATabela 2 resume a média±SE dos parâmetros calculados desconsiderando a concentração plasmática basal (endógena).


A cinética de absorção do SC e do SG não é linear, como indicado pela relação entre os Cmáx e as AUC0-48h (2,389 e 2,642, respectivamente, Tabela 2). Essa relação se mantém no pico de 18 horas, resultante de recirculação êntero-hepática (2,668), o que reforça a evidência de que a etapa de absorção é limitante. Além disso, a meia-vida também é dependente da dose (16,931±1,902 h e 25,515±2,560 h, respectivamente para 1 e 4 cápsulas).

CONCLUSÃO
Os nossos resultados indicam que a dose única de até quatro cápsulas de 500 mg SC associada a 400 mg SG é bem tolerada e o perfil encontrado é consistente com administração a cada 12 horas.

AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Aché Laboratórios Farmacêuticos pelo patrocínio e apoio deste estudo e Dra. Mônica V. Marquezim Dra. em Ciências pela cuidadosa revisão dos resultados do estudo.

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Trabalho recebido em: 06/05/05 aprovado em 13/06/05


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