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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Exercício físico espontâneo de rua: como são controladas a duração, freqüência e intensidade

Exercício físico espontâneo de rua: como são controladas a duração, freqüência e intensidade

Spontaneous outdoor physical exercise: how duration, frequency and intensity are controlled
 

Michele da Silva CoelhoI; Osni Jacó da SilvaII
IGraduada em Educação Física pela UFSC
IIMédico, Especialista em Medicina Desportiva, Graduado em Educação Física, Professor Adjunto II do Departamento de Educação Física da UFSC, membro do NUCiDH - Núcleo de Cineantropometria e Desenvolvimento Humano



RESUMO
A massificação da prática de exercícios físicos é um dos maiores progressos em termos de saúde pública nestes últimos anos. Entretanto, restam dúvidas quanto à efetividade dessas atividades feitas de forma espontânea e, principalmente, quanto aos exageros que podem ser prejudiciais à saúde. O objetivo deste estudo foi investigar se, e como, os praticantes de exercícios físicos nas ruas de Florianópolis-SC prescrevem e controlam as sessões com relação aos critérios de duração, freqüência e intensidade. Foram escolhidos, acidentalmente, 100 indivíduos de ambos os sexos, que praticavam exercícios físicos na avenida Beira-Mar Norte, aos quais foi aplicado um questionário que buscava investigar o nível de informação sobre a duração, a freqüência e a intensidade das sessões. O tratamento dos dados foi realizado por meio de estatística descritiva. Os resultados mostraram que mais da metade dos indivíduos - 56,2% - que praticam exercícios por conta própria tem a noção de que algum controle deve ser exercido. Mas a grande maioria - 98% - descreveu métodos incorretos de controle, ainda que 44,3% tenham declarado exercitar-se para manter a saúde e 8,9% terem dito que fazem isso por indicação médica. Ou seja, há boas possibilidades de que seus objetivos não estejam sendo atingidos em sua plenitude. Conclui-se que muito há para ser feito. Não basta convencer a população de que praticar exercícios é bom para a saúde. É necessário propiciar mais informações sobre quanto e como fazê-los. Esse papel deve ser desempenhado por profissionais da área da Saúde e da Educação Física.
Palavras-chave: Condicionamento físico. Exercício físico. Aptidão física. Promoção da saúde. Saúde.

ABSTRACT
Massive practice of physical exercises is one of the greatest progresses in terms of public health in recent years. However, doubts exist as to the effectiveness of these activities which are performed spontaneously. Most doubts are related to the possibility of overpracticing, which can be harmful. The purpose of this study was to investigate if, and how, physical exercises practitioners, in the street of Florianópolis-SC, prescribe and control the sessions concerning the criteria of duration, frequency and intensity. 100 individuals of both genders, who practiced physical exercises on Av. Beira Mar Norte, were chosen at random. A questionnaire was applied to those individuals the aim of which was to investigate the level of information about the duration, frequency and intensity of the sessions. Descriptive statistics was used to treat the data. Results showed that more than half of the individuals - 56.2% - who practice exercises by themselves, have the notion that some control must be done. But, the majority - 98.0% - described incorrect methods of control, although 44.3% have said that they exercise to keep a good health, and 8.9% have said that they practice due to medical indication. In other words, chances are that their goals have not been thoroughly achieved. Conclusion is that there is much to be done. It is not enough to convince the population that practicing exercises is good for the health. It is necessary to provide more information about how much exercise is needed and how it should be done. This role must be played by professionals of the Health and Physical Education areas.
Key words: Physical conditioning. Physical exercise. Physical fitness. Health promotion. Health.



INTRODUÇÃO
Um dos maiores progressos em termos de saúde pública nestes últimos anos tem sido a massificação da prática, cada vez mais consciente, do exercício físico regular, é o que afirma Cooper1.
Definimos o exercício físico, para efeitos deste estudo, conforme Caspersen et al.2, como toda atividade física planejada, estruturada e repetitiva que tem por objetivo melhorar e manter a aptidão física.
Okuma3 ressalta que, nos dias de hoje, os exercícios físicos se manifestam como um fenômeno social, predominantemente urbano. As novas manifestações para essa prática refletem um comportamento verdadeiramente modificado em relação a outras épocas.
Para Siedentop4, alguns indicadores confirmam essa mudança: a utilização crescente de parques, vias públicas e campos para a prática de exercícios e outras atividades físicas.
Nos últimos anos, o reconhecimento das vantagens da prática de exercícios físicos regulares na melhoria da qualidade de vida vem despertando enorme atenção quanto à complexa relação entre seus níveis e os índices da chamada aptidão física e o estado de saúde das pessoas5.
O Colégio Americano de Medicina Esportiva6 recomenda a prática de exercícios físicos aeróbicos, entre 15 e 60 minutos, de três a cinco vezes por semana e com intensidade de 65% a 90% da freqüência cardíaca máxima ou 50% a 85% do VO2 máx., com a finalidade de promover alterações benéficas para a saúde.
Todavia, nossa observação, não sistemática, tem constatado que grande parte dos indivíduos se exercita sem levar em consideração qualquer desses aspectos.

OBJETIVOS
Identificar se, e como, as pessoas prescrevem e controlam suas sessões de exercícios quanto à duração, freqüência e intensidade.

METODOLOGIA
Foram selecionados, acidentalmente, 100 indivíduos, de ambos os sexos, que praticavam exercícios físicos na avenida Beira-Mar Norte, Florianópolis-SC, e que se dispuseram a participar da pesquisa.
Foi utilizado um questionário com perguntas que buscavam investigar o nível de informação sobre a duração, a freqüência e a intensidade das sessões e outros dados para melhor caracterização da amostra.
A coleta dos dados foi realizada nos meses de abril e maio/97 nos períodos da manhã e ao anoitecer.
O tratamento dos resultados foi realizado através da estatística descritiva.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A distribuição segundo a faixa etária foi a seguinte: 14 a 24 anos, 19%; 25 a 35 anos, 32%; 36 a 46 anos, 22%; 47 a 57 anos, 26%; e acima de 58 anos, 1%. De acordo com o sexo, a amostra estava assim distribuída: masculino, 34% e feminino, 66%.
Com relação ao nível de instrução, encontramos o seguinte: 1º grau completo, 4%; 1º grau incompleto, 2%; 2º grau completo, 28%; 2º grau incompleto, 9%; 3º grau completo, 41%; e 3º grau incompleto, 16%, o que revelou bom nível instrucional da amostra.
Perguntados sobre os motivos que os levavam a praticar exercícios, obtivemos a seguinte situação: manutenção da saúde, 44,3%; lazer, 24,6%; perda de peso, 17,8%; indicação médica, 8,9%; e outros motivos, 4,4%. O total é superior a 100 nesse e em outros resultados devido ao fato de alguns terem escolhido mais de uma opção.
Sobre o tipo de exercício praticado com mais assiduidade, encontramos que 58% preferem a caminhada, 18,7% o ciclismo, 10,5% a corrida e 13% outras modalidades.
Pode-se observar, na tabela 1, que 58% se exercitam entre 15 e 60 minutos, o que é correto. Entretanto, há um número expressivo que se exercita por tempo mais longo do que o recomendado, o que, segundo o Colégio Americano de Medicina Esportiva6, poderá acarretar danos, principalmente ao aparelho cardiovascular desses indivíduos.


Em relação à freqüência das sessões (tabela 2), pode-se notar que 52% das pessoas praticam de três a cinco vezes por semana, o que é correto; 32%, uma a duas vezes por semana. Esses são considerados os "atletas de final de semana", prática que pode ser danosa, especialmente se a intensidade for elevada, conforme definem Silva & Silva7. Por outro lado, 16% praticam de seis a sete vezes por semana. Nesse sentido, os mesmos autores destacam que o ideal para praticar exercícios é de três a cinco vezes por semana e que freqüências menores do que essas não trazem benefícios, do ponto de vista cardiovascular, significativos à saúde do praticante; ao contrário, podem ser um risco para os praticantes, especialmente aqueles que se exercitam apenas nos finais de semana e com intensidades elevadas. Por outro lado, freqüência acima de cinco vezes por semana, em altas intensidades, muitas vezes é acompanhada de alto índice de lesões do aparelho locomotor, além de não favorecer a aderência e, portanto, também é contra-indicada.


Portanto, temos aí uma situação em que boa parte dos indivíduos que buscam melhoras na saúde - 44,3% - ou por indicação médica - 8,9% - pode não obtê-los porque se está exercitando abaixo, ou acima, da freqüência ideal e, assim, correndo mais riscos.
Com relação ao controle da intensidade, podemos perceber na tabela 3 que 56,2% dizem adotar algum tipo de controle. Disseram utilizar "outra forma" de controle 8,6%; entretanto, quando pedimos para descrevê-la, percebemos que na realidade não se tratava de formas de controle da intensidade. Também chama atenção o fato de 35,2% declararem simplesmente não estar preocupados com isso.


Sabe-se que intensidades acima do recomendado podem ser o ponto de partida para lesões do aparelho cardiovascular, bem como intensidades abaixo do mínimo recomendado não promovem alterações benéficas nos fatores de risco, principalmente para as doenças cardiovasculares.
Se os dados que aparecem na tabela 3 já eram preocupantes, ficaram ainda mais, quando na seqüência fizemos a seguinte pergunta: Se você controla, qual a intensidade que você adota? Os resultados estão na tabela 4.


Os dados demonstram que uma grande maioria, apesar de entender que é importante o controle da intensidade, não sabe como fazê-lo. Apenas dois dos quatro que disseram controlar a intensidade pela FC o faziam corretamente. Nenhuma das "outras formas" citadas era realizada corretamente. Na realidade, os pesquisados não sabiam como fazê-lo.

CONCLUSÕES
A prática de exercícios espontâneos nas ruas manifesta-se como um fenômeno social, predominantemente urbano. É visível o crescimento dessa prática, basta observar a grande utilização de parques e vias públicas.
Entretanto, alguns princípios básicos da prescrição e controle do exercício ainda não estão bem divulgados. Boa parte dos indivíduos que se exercita por conta própria tem a noção de que algum controle deve ser exercido. Isso se comprovou quando grande parcela dos entrevistados neste estudo - 56,2% - disse controlar a intensidade de alguma forma. Mas, quando perguntamos de que maneira esse controle era feito, a grande maioria - 98% - descreveu métodos incorretos. Isso veio confirmar nossa suspeita de que grande parte dos indivíduos se exercita sem levar em consideração qualquer critério de controle.
Observe-se que o nível instrucional dos pesquisados foi bastante alto, 3º grau completo e incompleto somaram 57%. Isso nos leva a concluir que, tendo havido uma ampla campanha que convenceu muitas pessoas a praticar exercícios, não aconteceu, paralelamente, um aprendizado mais detalhado sobre a prescrição. Isso pode ser perigoso, especialmente para aqueles casos, bastante freqüentes, de volumes e intensidades muito altos. Um claro exemplo dessa preocupação pode ser evidenciado através da constatação de que 42% dos indivíduos declararam exercitar-se mais de 60 minutos por sessão, volume certamente acima das recomendações de exercício como forma de promover melhorias de saúde. Outro exemplo foi a declaração de 32% que praticam apenas uma ou duas vezes por semana. Essas situações comprovadamente expõem os praticantes a maiores riscos.
Pode-se concluir que muito ainda deve ser feito. Primeiro, desvelar essas mazelas e entendê-las. Segundo, partir para outro estágio: não basta convencer que exercícios físicos são benéficos, é necessário "massificar" mais informações, papel que deve ser cumprido pelos profissionais da Educação Física, pois os profissionais da Saúde em sua grande maioria não sabem como fazê-lo.

REFERÊNCIAS
1. Cooper KH. O programa aeróbico para o bem-estar total: Exercícios - dietas, equilíbrio emocional. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.         [ Links ]
2. Caspersen CJ, Powell KE, Christenson GM. Physical activity, exercise, and physical fitness: definitions and distinctions for health-related research. Public Health Reports 1985;100:2.         [ Links ]
3. Okuma SS. A prática do exercício físico e sua relação com a publicidade de televisão. Rev Paul Educ Fis. Escola de Educação Física USP 1992;6: 29-36.         [ Links ]
4. Siedentop D. Physical education: introductory analysis. 2nd ed. Dubuque, Iowa: Wm. C. Brown, 1980.         [ Links ]
5. Guedes DP & Guedes JRP. Exercício físico, aptidão física e saúde. Rev Bras Exerc Fis Sau 1995;1:18-35.         [ Links ]
6. Colégio Americano de Medicina Esportiva. Guia para teste de esforço e prescrição de exercício. Rio de Janeiro: Medsi, 1987.         [ Links ]
7. Silva OJ, Silva TJC. Exercício e saúde: fatos e mitos. Florianópolis: Editora da UFSC, 1995.         [ Links ]


 Endereço para correspondência: Osni Jacó da Silva
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Desportos
Cidade Universitária - Trindade
88049-900 - Florianópolis, SC
Tel. (048) 331-9364 - Fax: (048) 331-9927
E-mail: osni@cds.ufsc.br

Efeito do treinamento concorrente e destreinamento sobre o biomarcador anti-inflamatório e níveis de condicionamento físico em crianças obesas



Saeid FazelifarI; Khosrow EbrahimII; Vaghinak SarkisianIII
IDepartamento de Educação Física, Ministério de Educação, Amol, Irã
IIDepartamento de Esportes e Fisiologia do Exercício, Faculdade de Educação Física e Ciência do Esporte, Universidade Shahid Beheshti, Tehran, Irã
IIIL. Orbeli Instituto de Fisiologia, NAS da Armênia, Yerevan, Armênia

 

RESUMO
OBJETIVO: Examinar o efeito de 12 semanas de (3 dias/sem) de treinamento concorrente e 4 semanas de destreinamento nas concentrações séricas de adiponectina e níveis de condicionamento físico em meninos obesos sem intervenção dietética.
MÉTODOS: vinte e quatro meninos saudáveis, 11-13 anos de idade com índice de massa corporal > 28 participaram voluntariamente do estudo. Estes foram divididos em dois grupos, experimental (n= 12) e controle (n=12).
RESULTADOS: Concentrações de adiponectina após 12 semanas tiveram declínio significativo em ambos os grupos em comparação com o nível basal (p < 0,05). VO2 pico, flexibilidade, força, endurance de abdominais e agilidade aumentaram significativamente no grupo experimental comparado com o grupo controle (p < 0.05). Foi evidenciado que após destreinamento de 4 semanas, a adiponectina sérica não se alterou significativamente no grupo experimental e que condicionamento físico benéfico foi gradualmente diminuído.
CONCLUSÃO: Nossos resultados sugerem que os efeitos benéficos do exercício físico no condicionamento são temporários. Uma vez que o processo de adaptação é reversível, parece que as concentrações de adiponectina foram inevitavelmente afetadas pelas alterações morfológicas e hormonais que ocorreram durante a puberdade em meninos.
Palavras-chave: treinamento de endurance, adiponectina, condicionamento físico, crianças obesas.



INTRODUÇÃO
A incidência de obesidade tem crescido em países desenvolvidos e em desenvolvimento e tal fato não pode ser atribuído somente a fatores genéticos uma vez que os genes humanos não se modificaram ultimamente1. Atividades físicas habituais entre humanos são características complexas que são determinadas pela interação de fatores biológicos e psicossociais assim como o ambiente físico2. Entre os jovens, a atividade física desempenha um papel importante no crescimento, maturação e desenvolvimento normais. Na verdade, atividade físicaé um conceito central no campo da ciência do exercício pediátrico2. Existe uma real preocupação de que excessos de peso corporal bem como ausência de atividade física regular ou falta de condicionamento físico estejam associados com riscos de diabetes tipo 2, hipertensão e outras doenças crônicas em indivíduos progressivamente mais jovens, incluindo crianças e adolescentes, e possa levar à morbidade recorrente, qualidade de vida ruim e morte prematura4. Exercício regular reduz o risco de doenças metabólicas crônicas e cardiorrespiratórias uma vez que o exercício causa efeitos anti-inflamatórios; sendo assim, a atividade física regular por longos períodos pode proteger o corpo contra o desenvolvimento de doenças crônicas4. Sabe-se que os adipócitos secretam um grupo diverso de proteínas chamadas adipocitocinas, as quais participam em diferentes funções biológicas incluindo imunidade, sensibilidade à insulina, apetite, angiogênese, metabolismo de lipídeos, função vascular e inflamação5. A adiponectina é considerada uma adipocitocina anti-inflamatória com a capacidade de reduzir vários marcadores inflamatórios6. Ela tem atraído bastante atenção ultimamente devido a seus efeitos anti-inflamatórios, antidiabéticos e antiaterogênicos. Níveis baixos séricos de adiponectina são relacionados com obesidade7. Os níveis de adiponectina aumentam com obesidade8. Comparativamente com outras adipocinas, a expressão de adiponectina aparece reduzida em tecidos adiposos de camundongos e humanos obesos9.
Os efeitos anti-inflamatórios do exercício regular podem ser mediados através da redução de massa de gordura visceral (com subsequente liberação decrescente de adipocinas) e indução de ambiente anti-inflamatório com cada série de exercício4. Diferentes métodos de treinamento são comumente utilizados para a melhora de condicionamento físico e saúde. Os métodos de treinamento incluem: treinamento aeróbico, treinamento resistido, treinamento intervalado, treinamento em circuito etc.
O treinamento concorrente tem sido estudado por novos métodos para reduzir taxas de obesidade. Este termo é utilizado para caracterizar o método pelo qual exercícios aeróbicos e de força são executados na mesma sessão de treinamento10. Treinamento de endurance (resistência), treinamento de força e a combinação de treinamento de endurance e força apresentam influência positiva no condicionamento físico e metabólico11. Primeiramente avaliamos as variáveis de um programa de treinamento físico e depois um programa de treinamento concorrente foi confeccionado. Tendo o segundo por base, definimos volume, intensidade, duração, monitoramento de intensidade, veracidade do exercício, dentre outros. A intensidade, duração e volume de treinamentos concorrentes foram gradualmente e aumentaram progressivamente dependendo das habilidades das crianças, as quais foram supervisionadas por um professor de educação física.
O efeito de um treinamento físico sobre as concentrações de adiponectina atualmente é controverso. Existem alguns relatos de que o exercício pode levar a aumento dos níveis de adiponectina12,13, enquanto outros não apresentaram nenhuma alteração nas concentrações de adiponectina14,15. Pouco se sabe sobre as alterações dos níveis de adiponectina durante a puberdade e menos informação ainda se tem sobre o papel do destreinamento após treinamento físico no condicionamento físico assim como dos níveis de adiponectina no plasma sanguíneo de crianças obesas. Não se sabe claramente o quanto os efeitos benéficos do treinamento físico após destreinamento permanecem. É importante ressaltar novas informações nessa área e alertar os profissionais para o problema.
Assim, o principal objetivo deste estudo foi examinar o efeito de 12 semanas (3 dias/semana) de treinamento concorrente seguido de quatro semanas de destreinamento nas concentrações de adiponectina e níveis de condicionamento físico em meninos obesos sem intervenção dietética.

METODOLOGIA
Amostra
Este estudo foi semiexperimental. Vinte e quatro meninos saudáveis (idade entre 11 e 13 anos) com índice de massa corporal (IMC) > 28 pertencentes a uma escola local (Taleb – Amoli) participaram voluntariamente do estudo. Altura e peso dos participantes foram medidos por procedimentos padrão (com roupa íntima, mas sem calçados) com uma Seca 220 (22089 Hamburgo, Alemanha). O IMC foi calculado como peso em quilos dividido pela altura em metros quadrados [kg/m2]16. As crianças não se exercitaram previamente ou tiveram qualquer participação anterior em programas de perda de peso (pelo menos durante os últimos três meses), nem tinham nenhuma história de doenças cardiovasculares, diabetes ou outros problemas médicos. Além disso, os sujeitos não fumavam e não faziam uso de medicamentos. Obesidade foi definida de acordo com a sugestão de Cole et al.17. Após a coleta de amostras sanguíneas, a composição corporal foi avaliada dentro da primeira semana anterior ao início do programa de treinamento físico de 12 semanas; as crianças obesas foram então dividas aleatoriamente em dois grupos, experimental (n = 12) e controle (n = 12). O grupo experimental recebeu um treinamento concorrente de 12 semanas (3 dias/semana) e o grupo controle não recebeu nenhum treinamento físico durante o período do estudo, mas foi testado antes e depois das 12 semanas (foi pedido aos sujeitos controle que não alterassem suas atividades normais diárias).
Ao fim do treinamento concorrente de 12 semanas, foi solicitado que o grupo experimental retornasse a seu estilo de vida diário pelas próximas quatro semanas sem nenhum treinamento (fase de destreinamento). Ao fim do destreinamento, os meninos foram convidados a participar dos testes mencionados anteriormente.
Foi solicitado que as crianças obesas evitassem qualquer exercício além do necessário para o estudo. Antes do treinamento, os pais dos alunos obesos foram convidados a coletar todas as informações sobre o estudo. Tanto quanto as crianças, seus pais foram totalmente informados sobre a natureza e objetivo do estudo e, após isso, foi obtido o consentimento informado escrito. Os procedimentos seguidos estavam de acordo com os padrões éticos do comitê responsável sobre experimentação com seres humanos e com a Declaração de Helsinki de 1975, como revisada em 1983, e o estudo foi aprovado pelo Comitê Ético em Pesquisa (FWA00017681).

COLETA DE DADOS
Antropometria
As composições corporais foram analisadas pelo Analisador de Composição Corporal InBody 220 para todas as crianças obesas em condições iguais. Análise de composição corporal é uma das informações mais importantes do teste InBody. InBody 220 mede diretamente bioimpedância de cada parte do corpo permitindo que a corrente e voltagem atravessem o corpo através de oito eletrodos (precisão aprovada com o valor de coeficiente de correlação próximo a 98%).
Teste sanguíneo e medidas de condicionamento físico
O teste sanguíneo foi executado pela manhã após as crianças obesas terem feito jejum de 12-14 horas. Amostras de sangue de jejum foram coletadas em três estágios (basal, após 12 semanas de treinamento concorrente e quatro semanas de destreinamento) de cada amostra para medida da adiponectina. Os sujeitos não executaram nenhum exercício por 48 horas antes da coleta de sangue. O plasma foi separado e armazenado a −80ºC para posterior análise. Níveis de adiponectina foram analisados pelo método ELISA. Condicionamento cardiorrespiratório foi avaliado como o pico de consumo de oxigênio (VOpico) medido pelo teste de Coureton18. A flexibilidade da coluna lombar e músculos isquiotibiais foi medida pelo teste de sentar e alcançar19. O teste de abdominais mede a força muscular abdominal, endurance e flexores de quadril20. O teste de agilidade de Illinois foi utilizado para avaliar agilidade de corrida21.
Elaboração do treinamento concorrente
As variáveis do programa de treinamento físico foram avaliadas e, com base nelas, o programa de treinamento concorrente foi elaborado.
Intensidade de treinamento: A intensidade de treinamento é uma das variáveis mais importantes na elaboração de programas de treinamento resistido22. A intensidade do treinamento resistido foi baseada no exercício máximo repetido anterior. A intensidade do treinamento de endurance foi baseada na frequência cardíaca máxima (FCmax) estimada por: 220 - idade. Estes treinamentos começaram com 50 a 60% de FCmax nas primeiras duas semanas do programa para garantir que os participantes desenvolvessem um senso de sucesso e autoestima positivo ao início do programa23. Posteriormente, a intensidade do treinamento de endurance foi aumentada em 5% a cada duas semanas e, como resultado, na 12ª semana a frequência cardíaca (FC) aumentou até 80-85% da FCmax. Durante as sessões de treinamento de endurance, a FC foi continuamente monitorada com um monitor de FC (Polar, RS100th cardio running). A zona de FC alvo foi definida por um professor de educação física para cada sessão. Além disso, com a ajuda de um alarme de zona-alvo, os sujeitos puderam ter certeza de que o exercício estava com a intensidade correta. Quando a zona-alvo dos limites de frequência cardíaca era ativada, a unidade de pulso soava um alarme quando havia limites acima ou abaixo de seus limites. Os sujeitos receberam instruções sobre o uso dos relógios Polar durante a sessão de treinamento físico.
Volume de treinamento: O volume de treinamento se refere à quantidade total de trabalho que é executado em uma sessão de treinamento24. O volume de treinamento resistido foi calculado pelo número de séries x repetição x peso dos sujeitos. Para as duas primeiras semanas, o tempo de corrida foi de 10 min e então foi aumentado em dois minutos semanalmente. Assim, na 12ª semana o tempo de corrida alcançou 30 min. Nas primeiras quatro semanas, o tempo para subir e descer as escadas foi de seis min (2 séries x 3 min =6 min); para as segundas quatro semanas 1 min para cada série (2 séries x 4 min = 8 min) e para as últimas quatro semanas uma série a mais (3 séries x 4 min = 12 min) foi adicionada.
Intervalos entre séries e estações: Intervalos foram de 1 min e 3 min para as séries e para as estações, respectivamente, assim como de 5 min entre treinamento resistido e de endurance. Intervalos de recuperação foram de 3 min para a estação de endurance e séries de subir degrau. A recuperação ativa ocorreu entre os treinamentos.
Velocidade de repetição: Os iniciantes tiveram que aprender a executar cada exercício adequadamente e levemente. Recomenda-se que crianças obesas não treinadas executem exercício de maneira controlada e a uma velocidade moderada24.
Frequência de treinamento: A frequência de treinamento concorrente foi de 3 dias/semana em dias não consecutivos, para permitir recuperação adequada entre as sessões.
Treinamentos concorrentes foram executados sob a supervisão de um professor de educação física. Cada sessão consistia de uma sessão de aquecimento de 7 min com ênfase em flexibilidade bem como um período de 7 min de relaxamento (tabela 1).


ANÁLISE ESTATÍSTICA
ANOVA e posterior análise post-hoc de Tukey foi utilizada para avaliar o efeito do treinamento concorrente entre basal, após 12 semanas de treinamento concorrente (12 sem) e após quatro semanas de destreinamento no grupo experimental. Para o grupo controle, um teste t pareado simples foi utilizado para comparar valores obtidos no valor basal e 12 sem. Um teste t independente foi utilizado para analisar diferenças entre médias de variáveis para os grupos experimental e controle antes e após 12 semanas. O nível de significância foi estabelecido a p < 0,05. Todas as estatísticas utilizaram o programa estatístico SPSS versão 16/00. Todos os dados foram expressos como médias ± DP.

RESULTADOS
Amostras sanguíneas não puderam ser obtidas no grupo controle após destreinamento porque esses sujeitos foram excluídos da análise. Não existiram diferenças basais entre os grupos experimental e controle para nenhuma das variáveis descritivas medidas (tabela 2).


Teste t de amostra independente (tabela 2) revelou que após 12 semanas de treinamento concorrente, condicionamento cardiorrespiratório, flexibilidade de músculos da coluna lombar e isquiotibiais, força eendurance de abdominais e flexores de quadril e agilidade de corrida aumentaram significativamente no grupo experimental em comparação com o grupo controle (p< 0,05). O mesmo teste evidenciou que após 12 semanas de treinamentos concorrentes não foram encontradas diferenças para os níveis de adiponectina no grupo experimental em comparação com o grupo controle (p< 0,05). O teste t pareado mostrou que em ambos os grupos experimental e controle a concentração de
adiponectina diminuiu significativamente ao longo das 12 semanas (p< 0,05). O mesmo teste evidenciou que no grupo controle capacidade cardiorrespiratória, flexibilidade de músculos da coluna lombar e isquiotibiais, força eendurance dos abdominais e flexores de quadril e agilidade de corrida não apresentaram alteração ao longo de 12 semanas (p< 0,05). Teste ANOVA para três diferentes períodos (antes do treinamento, 12 semanas de treinamento e quatro semanas de destreinamento) revelaram diferenças significativas entre adiponectina, flexibilidade, abdominais, agilidade e VO2 pico no grupo experimental (p< 0,05). Contudo, a análise entre os dados para pré e pós-treinamento bem como os dados para quatro semanas de destreinamento evidenciaram que a adiponectina apresentou-se significativamente diminuída no grupo experimental após 12 semanas de treinamento comparado com o estágio pré-treinamento (p< 0,05). Pudemos observar que ao fim da 16ª semana (seguindo quatro semanas de destreinamento) os níveis de adiponectina não foram significativamente alterados no grupo de treinamento (p< 0,05). O mesmo teste revelou que o condicionamento cardiorrespiratório, flexibilidade de músculos da coluna lombar e isquiotibiais, força e endurance dos abdominais e flexores de quadril e agilidade de corrida aumentaram significativamente no grupo experimental após 12 semanas de treinamentos concorrentes (p< 0,05). Após quatro semanas de destreinamento, agilidade de corrida e VO2picodiminuíram significativamente no grupo experimental e permaneceram no mesmo nível até o fim das avaliações (p< 0,05).

DISCUSSÃO
O achado mais importante no presente estudo foi que o treinamento concorrente de 12 semanas (3 d/sem) melhorou condicionamento físico, enquanto não afetou os níveis de adiponectina circulante no grupo experimental. Após quatro semanas de destreinamento, adiponectina sérica não se alterou significativamente no grupo de treinamento, mas o condicionamento físico benéfico foi gradualmente diminuído. Infância e adolescência são períodos cruciais da vida, já que modificações dramáticas fisiológicas e psicológicas acontecem nesses anos25. Vários estudos foram feitos com crianças obesas26-29; esses estudos revelam que programas de treinamento físico melhoram o condicionamento físico e a condição de saúde.
Estes resultados sugerem que, em crianças obesas, um programa de treinamento concorrente de 12 semanas melhora o condicionamento cardiorrespiratório – 8% (VO2pico), flexibilidade de músculos de coluna lombar e isquiotibiais – 45%, força e endurance de abdominais e flexores de quadril – 76% e agilidade de corrida – 7%. Sem dúvida, participação regular em programas de treinamento físico é benéfica para níveis de condicionamento, saúde em crianças e adolescentes, mas um desafio maior ainda não é claro: por quanto tempo os efeitos benéficos do treinamento físico continuam após destreinamento. O presente estudo é pioneiro em avaliar o efeito de quatro semanas de destreinamento após 12 semanas de treinamento concorrente nos níveis de condicionamento físico e alterações nas concentrações de adiponectina em crianças obesas.
Neste estudo, ao fim de um treinamento concorrente de 12 semanas, foi pedido que os participantes do grupo experimental retornassem para seu estilo de vida anterior pelas próximas quatro semanas sem qualquer treinamento (fase de destreinamento). De acordo com os resultados, o condicionamento cardiorrespiratório (VO2pico) (figura 1), flexibilidade de músculos de coluna lombar e isquiotibiais, força e endurance de abdominais e flexores de quadril e agilidade de corrida ao fim da 16ª semana (seguindo de quatro semanas de destreinamento) reverteram e diminuíram.


Um achado interessante do presente estudo foi que após o treinamento concorrente de 12 semanas, a adaptação de força e endurance dos abdominais e flexores de quadril e flexibilidade de músculos de coluna lombar e isquiotibiais rapidamente aumentou, mas após quatro semanas de destreinamento essas variáveis gradualmente se reverteram. Comparativamente, a adaptação do condicionamento cardiorrespiratório e agilidade de corrida rapidamente se reverteram após quatro semanas de destreinamento.
Nossos resultados demonstraram que os treinamentos resistido e de endurance não apresentaram efeitos negativos para melhorar força e endurance nem exerceram quaisquer efeitos negativos na flexibilidade e agilidade em crianças obesas.
Revisões recentes sobre efeitos anti-inflamatórios do exercício se focaram em três possíveis mecanismos: a redução de massa de gordura visceral, produção aumentada, liberação de citocinas anti-inflamatórias derivadas de músculos esqueléticos contráteis (chamados de miocinas) e expressão reduzida de receptores Toll-like(TLRs) nos monócitos e macrófagos4. Exercício agudo de curto prazo (< 60 min), exercício de longo prazo (> 60 min) e adiponectina – Ferguson et al.14 investigaram os efeitos agudos do exercício de pedalar na adiponectina em homens e mulheres saudáveis. O sujeito pedalou a 65% de VO2max por 60 min. A adiponectina não se alterou com o exercício nem em homens nem em mulheres. Em outro estudo, 10 sujeitos completaram exercício por duas horas a 50% de VO2max em condições de jejum e não jejum e amostras de plasma e biópsias de músculo foram obtidas durante o protocolo30. Os investigadores não relataram alterações nos níveis de adiponectina plasmáticos em resposta ao teste nem em expressão de receptores 1 e 2 de adiponectina do músculo, sendo diferente entre experimentos.
Exercício de curto prazo (< 60 min) – Nove sujeitos com sobrepeso executaram exercício submáximo por 45 min (65% de VO2max). A concentração de adiponectina foi medida antes do exercício e imediatamente 24 e 48 h após o exercício. Os autores mencionaram que não houve alterações significativas na adiponectina com o tempo. Os resultados deste estudo indicaram que um exercício aeróbico submáximo não resultou em alterações significativas em adiponectina até 48 h pós-exercício em sujeitos com sobrepeso31.
Exercício de longo prazo (> 60 min) – O efeito do exercício de pedalar (60 min a 65% de VO2max) na resposta de adiponectina em homens e mulheres saudáveis foi estudado mostrando que pós-exercício em homens ou mulheres não mostrou alterações em concentrações de adiponectina ou leptina. Foi concluído que exercício agudo não afetou as concentrações de adiponectina nos dois sexos31. Em geral, esses estudos revelaram que exercícios agudos, de curto e de longo prazo, não afetaram as concentrações de adiponectina. Em contraste, Saunders et al.13 reportaram que tanto exercício aeróbico agudo e de curto prazo (~1 semana) resultaram em aumento significativo nos níveis plasmáticos de adiponectina em homens obesos abdominalmente inativos, o que é independente da intensidade de exercício.
Treinamento de curto prazo (< 12 semanas) e adiponectina – Kelly et al.5 relataram que treinamento físico de oito semanas (4 d/sem) consistindo de exercício de pedalar estático em crianças com sobrepeso não melhorou o perfil de adiponectina na ausência de perda de peso. O efeito de 10 semanas de treinamento aeróbico nas concentrações de adiponectina foi investigado em mulheres jovens e de meia-idade. Após o programa de treinamento, as concentrações de séricas de adiponectina foram aumentadas em ambos os grupos31.
Treinamento de longo prazo (> 12 semanas) – Moghadasi et al.12 investigaram a adiponectina mRNA e concentrações plasmáticas em homens de mais idade com sobrepeso e obesos após treinamento físico de 12 semanas de alta intensidade (4 d/sem) com 75-80% do consumo máximo de oxigênio individual por 45 min e após uma semana de destreinamento. Os resultados mostraram que as concentrações plasmáticas de adiponectina aumentaram após o treinamento no grupo experimental comparado com o grupo controle (p< 0,05). Após uma semana de destreinamento, as variáveis não apresentaram alterações significativas no grupo de treinamento. Nassisa et al.32 mostraram que a concentração de adiponectina não se alterou após o treinamento de exercício aeróbico após 12 semanas (3 d/sem) em meninas com sobrepeso e obesas (idade – 13 anos). Contrário a isso, Donoso et al.33 relataram aumento nos níveis de adiponectina circulante durante toda a puberdade em bailarinas. Em adolescentes com sobrepeso e obesos seguindo 12 semanas de um programa de treinamento aeróbico, adiponectina sérica, interleukin (IL)-6 e proteína C reativa (PCR) permaneceram inalterados9. Em um outro estudo, 12 sujeitos masculinos obesos foram investigados antes e após três meses de treinamento dinâmico de força. Após o treinamento, peso corporal total, adiponectina, IL-6 e TNF-αpermaneceram inalterados34. Os últimos estudos mostram resultados misturados sobre efeitos do treinamento físico nas concentrações de adiponectina. Infelizmente, os mecanismos pertencentes a esses dados controversos ainda não estão esclarecidos. Acredita-se que as diferenças entre os resultados podem ser devidas à aplicação de diferentes metodologias, resultados de dados e várias intensidades, volume, duração dos treinamentos ou podem ser afetadas por alterações morfológicas e hormonais que ocorrem após diferentes tipos de programas de treinamento.
Os resultados de nosso estudo (figura 2) indicam que, após 12 semanas, os níveis de adiponectina diminuíram significativamente em ambos os grupos, experimental (29%) e controle (25%). Além disso, após quatro semanas de destreinamento, o processo de redução de adiponectina ainda continuou. Uma queda transitória do nível de adiponectina foi encontrada em meninos com idade entre 10 e 12 ou mais jovens, mas não em meninas. A queda púbere dos níveis de adiponectina em meninos coincide com um aumento marcante na concentração de testosterona. Uma correlação negativa entre níveis de testosterona e concentrações de adiponectina foi também verificada em meninos. Alguns autores reportaram uma queda transitória do nível de adiponectina durante a puberdade masculina, o qual se relaciona com aumento no nível de testosterona em meninos35. Um declínio transitório associado à puberdade dos níveis de adiponectina em meninos a qual é associada ao aumento nos níveis de testosterona foi relatado em crianças de Taiwan com idade entre 6-18 anos8. Em nosso estudo, declínio de adiponectina em meninos durante a puberdade pode ser devido a aumento nos níveis de testosterona, mesmo com exercício regular. Destacando a importância da cuidadosa atenção a fatores biológicos (e.g. hereditariedade, sexo, adiposidade, puberdade etc), parece que os fatores de puberdade devem ser considerados para a avaliação do impacto do treinamento físico em meninos obesos.


CONCLUSÃO
Um programa de treinamento concorrente e seu gradual ganho sob a supervisão de um professor de educação física em crianças obesas pode levar a benefícios funcionais e de saúde. Aparentemente, os efeitos positivos do treinamento físico são temporários, mas o processo de adaptação é reversível. As adaptações de força e flexibilidade muscular reduziram após quatro semanas de destreinamento em uma taxa muito mais lenta do que condicionamento cardiorrespiratório (VO2pico) e agilidade em crianças obesas. Nossos resultados demonstraram que treinamentos resistidos e de endurance não apresentam efeitos negativos para a melhora de força e endurance e não exercem efeito negativo na flexibilidade e agilidade em crianças obesas. O treinamento de endurance e resistido são duas modalidades comuns de treinamento físico. Os resultados mostram que o treinamento concorrente, que é a combinação entre treinamento de endurance e resistido, pode resultar em adaptações específicas para ambos os tipos de exercício. Parece que as concentrações de adiponectina foram inevitavelmente afetadas por alterações morfológicas e hormonais que ocorrem durante a puberdade em meninos, dadas as potenciais conexões entre alterações de neuroendócrino e composição corporal durante a puberdade e o declínio em atividade física durante esse período. Recomendamos que investigações multidisciplinares futuras em crianças sejam encorajadas para fornecer um melhor entendimento sobre a base biológica e fisiológica da atividade física durante a puberdade. Devemos mencionar a necessidade de futuras pesquisas para claramente demonstrar os mecanismos diretos e indiretos moleculares pelos quais exercício físico influencia o perfil biológico e condição física em crianças obesas. Não existe dúvida de que exercício regular é benéfico para a saúde, mas é um grande desafio encorajar a população em geral para que se engaje em treinamento físico. É imperativo que mais atenção seja dada para a promoção de condicionamento físico durante a infância, adolescência e vida adulta.
Stepanyan pela colaboração. Gostaríamos também de agradecer às crianças voluntárias que participaram deste estudo e pela cooperação de seus pais.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Ebrahim Nemati, Mohammad Varamini e Harutyun

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 Correspondência:
Departamento de Educação Física, Ministério da Educação
Amol, Irã
sorena1740@yahoo.com

Análise de dois treinamentos com diferentes durações de pausa entre séries baseadas em normativas previstas para a hipertrofia muscular em indivíduos treinados


Análisis de dos entrenamientos con diferentes duraciones de pausa entre las series basadas en normas previstas para la hipertrofia muscular en individuos entrenados
 

Fernando Vitor Lima; Mauro Heleno Chagas; Erica Fischer Fernandes Corradi; Gisele Freire da Silva; Brenda Bebiano de Souza; Luiz Antônio Moreira Júnior
Laboratório do Treinamento em Musculação (LAMUSC). Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO). Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil



RESUMO
Os programas de treinamento na musculação são comumente prescritos baseando-se em normativas de carga de treinamento sugeridas pela literatura. Dentre as normativas, a prescrição da duração da pausa tem variado normalmente de um a três minutos. Comparações entre intervalos de pausa de um e três minutos mostram diferenças significativas na resposta hormonal, metabólica e no desempenho. Existe carência de estudos que mostram se diferentes pausas são suficientes para a realização das outras normativas previstas para o treinamento da hipertrofia e se um acréscimo de 30 segundos possibilita melhor recuperação. O objetivo deste estudo foi analisar a realização de dois treinamentos baseados em normativas previstas para a hipertrofia muscular e diferenciadas pelas pausas de 90 e 120 segundos entre séries, no exercício supino executado na barra guiada. Participaram 26 voluntários do sexo masculino, treinados em musculação. Foram realizadas quatro sessões de testes em quatro dias. Após a realização dos procedimentos de familiarização e do teste de 1RM, o grupo realizou o exercício no supino guiado à intensidade de 70% de 1RM em quatro séries com o objetivo de alcançar 12 repetições por série, com pausas de 90 ou 120 segundos distribuídas aleatoriamente em diferentes dias. Não foi verificada diferença significativa no número de repetições nas séries quando comparado o desempenho obtido pelos sujeitos nas duas pausas. Independente da duração da pausa (90 ou 120 segundos) foi observada queda do rendimento no decorrer da realização das séries, caracterizada pela redução significativa no número de repetições realizado. Os resultados mostraram limitação da aplicação das normativas previstas para o treinamento da hipertrofia muscular em indivíduos treinados. Além disso, pode não haver diferenças no desempenho com a alteração da pausa entre séries de 90 para 120 segundos.
Palavras-chave: Musculação. Fadiga. Pausa. Força.

RESUMEN
Los programas de entrenamiento en musculación son comúnmente prescritos basándose en normas de carga de entrenamiento sugeridas por la literatura. Entre las normas, la prescripción de la duración de la pausa ha variado normalmente de uno a tres minutos. Comparaciones entre los intervalos de pausa de uno y tres minutos muestran diferencias significativas en la respuesta hormonal, metabólica y en el desempeño. Existen pocos estudios que muestren si diferentes pausas son suficientes para la realización de las otras normas previstas para el entrenamiento de la hipertrofia y si un aumento de 30 segundos posibilita una mejor recuperación. El objetivo de este estudio ha sido analizar la realización de dos entrenamientos basados en normas previstas para la hipertrofia muscular y diferenciadas por las pausas de 90 y 120 segundos entre las series, en el ejercicio supino ejecutado en la barra guiada. Participaron 26 voluntarios del sexo masculino, entrenados en musculación. Fueron realizadas cuatro sesiones de tests durante cuatro días. Después de la realización de los procedimientos de familiarización y del test de 1RM, el grupo realizó el ejercicio en el supino guiado a una intensidad de 70% de 1RM en 4 series con el objetivo de alcanzar 12 repeticiones por serie, con pausas de 90 o 120 segundos distribuidas aleatoriamente en diferentes días. No se verificó alguna diferencia significativa en el número de repeticiones en las series cuando se compararon al desempeño obtenido por los individuos en las dos pausas. Independiente de la duración de la pausa (90 o 120 seg.) se observó que hay una baja en el rendimiento en el transcurso de la realización de las series, caracterizado por la reducción significativa en el número de repeticiones realizado. Los resultados mostraron una limitación en la aplicación de las normas previstas para el entrenamiento de la hipertrofia muscular en individuos entrenados. Además de eso, puede ser que no haya diferencias en el desempeño al alterar las pausas entre las series de 90 para 120 segundos.
Palabras-clave: Musculación. Fadiga. Pausa. Fuerza.



INTRODUÇÃO
A prescrição do treinamento de força na musculação deve levar em consideração os diferentes componentes da carga de treinamento e as variáveis estruturais que podem influenciá-los(1). Para o treinamento de força visando à hipertrofia muscular vêm sendo sugeridos diferentes valores para os componentes da carga. Volumes variando entre quatro e seis séries de oito a 20 repetições, com pausas de dois a três minutos entre séries e intensidades de 60% a 85% de uma repetição máxima (1RM) são freqüentemente citados(2,3). Cargas de treinamento caracterizadas por uma a três séries, com oito a 12 repetições, intensidades de 70 a 85% de 1RM e pausas entre um e dois minutos correspondem às recomendações para o treinamento da hipertrofia muscular com indivíduos novatos/intermediários(4). Para indivíduos avançados são sugeridas de três a seis séries, uma a 12 repetições entre 70 e 100% de 1RM com pausas entre dois e três minutos, respectivamente(4). Em geral, espera-se que os indivíduos submetidos a essas normativas de treinamento consigam alcançar adaptações morfológicas significativas, ou seja, hipertrofia muscular. Muito comumente, os programas de treinamento na musculação são prescritos baseando-se nessas normativas, sem o devido controle da sua aplicabilidade para diferentes indivíduos. Nesse sentido, é importante investigar a possibilidade de pessoas treinadas utilizarem essas normativas sugeridas pela literatura em seus programas de treinamento para a hipertrofia muscular.
A pausa representa uma variável importante na elaboração do programa de treinamento(4,5), podendo exercer influência direta nas adaptações fisiológicas e no desempenho do indivíduo. Estudos demonstraram que diferentes intensidades e durações de pausa do treinamento podem alterar significativamente respostas hormonais(6,7), cardiovasculares(8) e metabólicas(9,10).
Nos estudos realizados por Kraemer et al.(6,7) foram utilizadas pausas de um e três minutos entre séries em protocolos de oito exercícios para homens e mulheres. As concentrações de lactato sanguíneo foram significativamente maiores para a pausa de um minuto em relação à de três minutos. Outros pesquisadores examinaram o efeito das pausas de um, três e cinco minutos sobre a concentração de lactato sanguíneo depois de cada série(10). Nesse estudo, os sujeitos executaram 10 séries, com seis repetições por série, na intensidade de 70% de uma repetição máxima (1RM) no exercício supino. Os resultados indicaram que depois da quarta série houve aumento significativamente maior na concentração de lactato sanguíneo para a condição com um minuto de pausa comparada com as de três e cinco minutos. Além disso, com a pausa de um minuto, somente quatro dos 10 voluntários completaram as 10 séries, indicando que essa duração de pausa afetou o volume de treinamento prescrito.
De acordo com essas pesquisas, espera-se que grandes diferenças nos períodos de pausa entre as séries (um, três e cinco minutos) influenciem distintamente as respostas hormonais, metabólicas e a carga de treinamento. Contudo, informações sobre menores diferenças entre durações de pausa na carga de treinamento não têm sido relatadas na literatura. Pausas de 90 a 120 segundos têm sido classificadas e prescritas como um período moderado de recuperação e comum para muitos programas de treinamento de força(11). Há carência de estudos que mostrem se essas diferentes pausas (90 e 120 segundos) são suficientes para a realização das outras normativas previstas para o treinamento da hipertrofia e se um acréscimo de 30 segundos possibilita melhor recuperação do indivíduo.
O objetivo deste estudo foi analisar a realização de dois treinamentos baseados em normativas previstas para a hipertrofia muscular e diferenciadas pelas pausas de 90 e 120 segundos entre séries, no exercício supino.

MÉTODOS
Amostra
Participaram da pesquisa 26 voluntários do sexo masculino, treinados em musculação, que não possuíam histórico de lesão musculotendinosa ou articular no ombro, cotovelo e punho. Os indivíduos apresentaram média de idade de 24,4 ± 4,0 anos, massa corporal de 75,6 ± 9,0kg e estatura de 174,4 ± 6,6cm. As médias da freqüência semanal e do tempo total de treinamento foram de 3,8 ± 0,9 dias e 55,7 ± 44,6 meses, respectivamente. Foram considerados treinados aqueles que conseguiram realizar uma repetição no exercício supino com o peso equivalente ao de sua massa corporal(12) e que praticavam a musculação regularmente havia, no mínimo, seis meses(4), sendo esses os critérios de inclusão. Os voluntários foram informados sobre os objetivos e procedimentos do estudo e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. O projeto foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade Federal de Minas Gerais (Parecer nº ETIC 338/03).
Instrumentos e padronização da execução
Para a realização do exercício utilizou-se uma barra guiada de 20kg da marca Master e um banco reto. Uma haste de metal indicava o limite superior de deslocamento da barra e um anteparo de borracha (12 x 6,7 x 2cm) posicionado no peito, o limite inferior. A empunhadura, a altura máxima atingida pela barra, a posição da cabeça no banco, a posição do aparelho e do banco no chão foram controladas para padronizar a posterior reprodução do posicionamento dos voluntários. O treinamento foi filmado com uma filmadora da marca Sony mini DV modelo DX 2000 para análise da execução das repetições. Foram utilizadas anilhas diversas cujos pesos foram aferidos em uma balança Filizola, utilizada para mensurar a massa corporal dos voluntários.
Procedimentos
Foram realizadas quatro sessões de testes em quatro dias diferentes. Recomendou-se que os voluntários não realizassem nenhuma atividade de força que envolvesse as musculaturas peitoral maior, deltóide anterior e tríceps braquial 24 horas antes de cada sessão de teste. Na primeira sessão de testes, depois da assinatura do termo de consentimento, a estatura e a massa corporal dos voluntários foram mensuradas. Em seguida, os indivíduos passaram por uma sessão de familiarização para a padronização das posições individuais e foram submetidos ao teste de 1RM visando selecionar os voluntários que atendiam aos critérios de inclusão. Sugeriu-se que os voluntários mantivessem a rotina de atividade preparatória para evitar que mudanças nessa rotina influenciassem negativamente o desempenho deles. Esse procedimento foi mantido durante todo o experimento. Na segunda sessão de testes, foi realizado o teste de 1RM para a determinação da força máxima e do peso correspondente a 70% de 1RM. O teste seguiu os seguintes critérios: número máximo de seis tentativas(13) (4,1 ± 0,77 realizadas), duração da pausa entre três e cinco minutos(14) e progressão do peso baseada nos dados do teste de 1RM da sessão de familiarização.
Nas outras duas sessões de teste, o grupo realizou o exercício no supino guiado à intensidade de 70% de 1RM em quatro séries, com o objetivo de alcançar 12 repetições por série, com pausas constantes de 90 e 120 segundos. Na primeira dessas duas sessões de testes, a metade dos indivíduos era alocada aleatoriamente no grupo da pausa de 90 ou 120 segundos, invertendo-se o grupo na segunda sessão de testes. O intervalo mínimo de dois e máximo de quatro dias foi estabelecido entre as sessões de teste.
As repetições foram desconsideradas nas seguintes situações: amplitude incompleta por duas repetições seguidas (não encostar na haste metálica e/ou no anteparo no peito); tempo de transição superior a dois segundos entre as fases concêntrica e excêntrica de cada repetição; retirada do corpo do voluntário do banco durante a execução (desencostar a coluna lombar ou os glúteos). Esses critérios foram novamente controlados pela análise da filmagem para a validação dos dados coletados e não foi verificada nenhuma irregularidade.
Análise estatística
Para verificar as diferenças nos valores médios do número de repetições para o peso correspondente a 70% de 1RM nas pausas entre 90 e 120 segundos (fator 1 – pausas) nas quatro séries executadas (fator 2 séries), realizou-se uma análise de variância two-way com medidas repetidas. Para identificar onde se encontram as diferenças, foi aplicado o teste post-hoc de Scheffé. O procedimento estatístico foi realizado com base no programa Statistica 5.0. Foi adotado neste estudo nível de significância de p < 0,05.

RESULTADOS
A análise descritiva referente ao teste de 1RM e ao peso correspondente a 70% de 1RM está apresentada natabela 1.


A média e o desvio-padrão do número de repetições realizado em cada uma das quatro séries para as pausas de 90 e 120 segundos estão referidos na tabela 2. O teste post-hoc de Scheffé mostrou que para ambas as pausas o número de repetições diminuiu significativamente na segunda, terceira e quarta séries, se comparadas com o número de repetições alcançado na série precedente.


Na comparação do número de repetições executadas em cada uma das quatro séries entre as pausas de 90 e 120 segundos, não foi encontrada diferença significativa (figura 1).


DISCUSSÃO
O protocolo experimental adotado neste estudo constou de quatro séries, 12 repetições por série, intensidade de 70% de 1RM e pausas de 90 e 120 segundos entre as séries. Essas normativas são citadas por diversos autores para o treinamento da força com ênfase na hipertrofia muscular. Um número entre oito e 12 repetições por série tem sido sugerido para o aumento da massa muscular(5) e de três a seis séries para ganhos de força significativos(15). Alguns pesquisadores afirmam que a hipertrofia pode ocorrer em treinamento com volume de oito a 20 repetições por série para um total de três a cinco séries por exercício(2,16). Com relação ao tempo de pausa, tem sido recomendado de dois a três minutos para programas visando à hipertrofia muscular(2), enquanto outros autores sugerem que as pausas deveriam permanecer entre um e três minutos(4,5). De acordo com as normativas previstas, uma pausa de 120 segundos tem sido citada, por quase todos autores mencionados, como suficiente para promover a recuperação necessária entre as séries.
Os resultados desta pesquisa indicaram que os voluntários, apesar de treinados em musculação, não conseguiram realizar as quatro séries de 12 repetições com nenhuma das durações de pausa – 90 e 120 segundos. Foi verificada diminuição estatisticamente significativa no número de repetições a partir da segunda série para ambas as pausas, mostrando que intervalos de 90 e 120 segundos não foram suficientes para a recuperação dos indivíduos.
Segundo Sahlin e Ren(17), o desempenho de força é recuperado em dois minutos, aproximadamente. Dessa forma, a pausa de 120 segundos deveria ser suficiente para recuperar parcial ou totalmente as reservas energéticas do sistema ATP-CP. No entanto, os indivíduos entraram em processo de fadiga, caracterizada pela queda do desempenho, independentemente da pausa.
Ainda são escassas as informações sobre a especificidade do metabolismo durante atividades típicas do treinamento na musculação(18). No decorrer da realização de uma atividade intensa e de curta duração, várias reações fisiológicas poderiam contribuir para o processo de fadiga em diferentes momentos da atividade. Lambert e Flynn(18) relataram que a fadiga relacionada a uma série de exercícios (10 repetições) realizada até o ponto de "falha momentânea" é possivelmente causada pela baixa concentração de fosfocreatina. Na opinião desses autores, a acidose intramuscular parece ser a razão predominante para a fadiga na terceira série do exercício executado até o ponto de "falha momentânea", mesmo existindo uma recuperação adequada (de um a três minutos) entre as séries. Contudo, os autores mencionam que é difícil determinar a(s) causa(s) da fadiga muscular durante esse tipo de exercício, pois alterações em alguns substratos e metabólitos relacionados com a fadiga ocorrem coincidentemente com modificações de outros. Por exemplo, durante exercícios de alta intensidade, o acúmulo de íons hidrogênio (H+) é acompanhado por aumento nas concentrações de amônia (NH3) e fosfato inorgânico (Pi). Esses metabólitos influenciam diferentes mecanismos que podem contribuir para diminuição da força muscular(19) e, conseqüentemente, do desempenho físico. Em um estudo foi reportado que três séries de flexão de cotovelo a 80% de 1RM realizada até o ponto de "falha" muscular resultou em diminuição de 24% na concentração de glicogênio muscular(20). Esse resultado indica que a disponibilidade de glicogênio pode não ser o principal mecanismo de fadiga, considerando o protocolo experimental desse estudo.
Na comparação do número médio de repetições por série não foi verificada diferença estatisticamente significativa entre as duas pausas nas quatro séries realizadas. Esse resultado mostrou que os efeitos dos mecanismos de fadiga no desempenho em cada série não foram atenuados com o acréscimo de 30 segundos na duração da pausa. Em decorrência da alta demanda fisiológica do protocolo de treinamento adotado, espera-se acúmulo significativo de metabólitos(19,21) que interfere negativamente no mecanismo contrátil, o que dificulta a produção de força pelas fibras musculares e contribui para processo de fadiga similar nas duas condições experimentais.
O intervalo de dois a quatro dias entre as sessões, o fato de estar sendo realizado apenas um exercício com uma carga de treinamento submáxima e de se tratar de indivíduos treinados em musculação eliminam a possibilidade de os resultados estarem sendo influenciados por fadiga residual das sessões de treinamento. Além disso, uma possível interferência do efeito de treinamento provocado pela seqüência de sessões de teste não é esperada pelo fato de o intervalo entre as sessões ser insuficiente para alterar o desempenho de indivíduos treinados. Como metade dos indivíduos começou com a pausa de 90 segundos e a outra com 120 segundos, se houve efeito de treinamento, ele foi balanceado, exercendo a mesma influência em ambos os resultados.
Com base nos dados desta pesquisa, é necessário relativizar a expectativa generalizada quanto à realização das normativas de treinamento. Estudos têm mostrado que a realização de determinado número de repetições para percentuais de 1RM preestabelecidos pode ser influenciada pelo tipo de exercício, gênero e nível de treinamento do indivíduo(22-25).
Neste estudo, fatores relacionados à especificidade da amplitude de movimento e do exercício podem ter contribuído para a não-realização das normativas previstas. O controle da amplitude de movimento durante as repetições e o fato de os indivíduos testados não treinarem o exercício supino na barra guiada podem ter contribuído para aumentar a dificuldade da tarefa. A necessidade de manutenção da amplitude máxima em todas as repetições poderia resultar em maior custo energético, dada a maior duração do estímulo de treinamento. Além disso, os voluntários não vinham treinando esse exercício em barra guiada, o que representou uma tarefa motora com padrão de movimento modificado (especificidade biomecânica) que poderia ter influenciado negativamente o desempenho de força.
Os resultados desta pesquisa suportam uma importante crítica em relação à elaboração dos programas de treinamento em musculação que se propõem estar baseados nas normativas previstas na literatura. No presente estudo, nenhum dos indivíduos treinados em musculação foi capaz de realizar o treinamento em um único exercício dentro das normativas previstas, que são sugeridas por diferentes autores(2,16). Vale ressaltar que o presente estudo limitou-se a investigar determinados valores para os componentes da carga de treinamento (quatro séries, 12 repetições, 70% de 1RM), o que não permite afirmar que, caso esses valores fossem outros, ainda dentro das normativas existentes na literatura para hipertrofia muscular, os indivíduos também não conseguiriam realizar o treinamento. Além disso, deve ser considerado que os programas de treinamento sempre são constituídos de vários exercícios, o que tornaria ainda mais difícil a aplicação dessas normativas para o treinamento. A prescrição de cargas de treinamento deve ser considerada com cuidado, para que não sejam geradas expectativas uniformizadas em relação aos parâmetros de desempenho, conduzindo a avaliações não realistas do processo de treinamento.

CONCLUSÃO
Os resultados desta pesquisa mostraram que não foi possível realizar nenhum dos dois treinamentos baseados nas normativas previstas na literatura para o treinamento da hipertrofia muscular, pois verificou-se queda significativa do rendimento caracterizada pela redução do número de repetições no decorrer das séries. Além disso, a diferença de 30 segundos na duração da pausa não resultou em diferença estatisticamente significativa no número de repetições realizado pelos indivíduos.
Dessa forma, os profissionais devem estar atentos ao fato de que as normativas podem não estar ao alcance de grande parcela dos praticantes de musculação.

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 Endereço para correspondência: Prof. Ms. Fernando Vitor Lima
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