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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Transtorno do Sono no Idoso

O sono como entidade fisiológica tem fundamental importância na manutenção da homeostase. 


Já é tradicional a afirmação de que passamos dois terços de nossa vida dormindo mas, o que ninguém sabe exatamente, é quantas pessoas estão fora desse cálculo hipotético. Calcula-se, por baixo, que aproximadamente 14% das pessoas têm algum transtorno do sono.

Essas pessoas estarão passando muito menos ou muito mais que dois terços de sua vida dormindo e a insatisfação com a qualidade do sono aumenta com a idade. Estima-se que os transtornos do sono afetam em torno de 50% das pessoas com mais de 65 anos.

Um grande número de idosos apresenta alterações na qualidade do sono, principalmente as dificuldades em conciliar o sono (pegar no sono), sono entrecortado ou fragmentado, sono muito superficial. Nos idosos, o próprio ritmo circadiano sofre alterações e não são raros os casos de inversão do dia pela noite (acordado a noite e sonolento de dia). Uma das primeiras alterações que podem indicar a iminência de transtornos do sono é a alteração do horário de acordar (muito mais cedo na velhice).

Além de eventual sensação de cansaço durante o dia que segue a noite mal dormida, outros problemas musculares e articulares podem surgir com as alterações do sono. É o caso, por exemplo, das bursites, refluxo gastro-esofágico, tendinites, mialgias (dores musculares), cervicalgias (torcicolos), etc. Se esses problemas podem ser conseqüência de esforços posturais e posições mal acomodadas durante noites de Insônia, por outro lado, eles também acabam perturbando o sono das noites seguintes, fazendo assim uma espécie de círculo vicioso.

Os pacientes idosos portadores de demência também costumam apresentar distúrbios do ciclo sono-vigília, e esse distúrbio pode servir até como avaliação do grau de demência; quanto mais alterado for o ritmo sono-vigília, mais intensa a demência. O fato dos pacientes demenciados passarem as noites acordados tem como complicação, não exatamente a saúde do paciente, mas os transtornos que isso acaba produzindo nas pessoas que cuidam deles.

CLASSIFICAÇÃO DOS DISTÚRBIOS DO SONO
Entre as chamadas dissonias, parassonias, alterações associadas a medicamentos e substâncias, associadas a transtornos emocionais ,etc, existem aproximadamente 100 tipos de problemas do sono. Para nós a classificação pode ser bem mais simples, interessando mais os casos chamados de InsôniaHipersonia, parassonia e distúrbios dos movimentos noturnos.

INSÔNIA
Insônia pode ser definida como a dificuldade em conciliar e manter o sono. Inclui-se aqui (indevidamente?) também, os casos onde a pessoa julga que seu sono não está sendo suficiente. É bom lembrar que a Insônia, apesar de referida sempre como um estado isolado, normalmente é apenas um sintoma e não a doença em si.

Uma das classificações mais simples é quanto à parte do sono comprometida. Assim sendo, teríamos Insônia Inicial, quando a pessoa custa a pegar no sono, a InsôniaIntermediária, quando acorda durante a noite e a Insônia Final, quando acorda muito cedo.

Assim sendo, a Insônia pode ser tanto a dificuldade de iniciar o sono como de manter o sono ou mesmo a percepção de que o sono não foi reparador. Para alguns autores, o diagnóstico de Insônia exige que, além do dormir mal ou não dormir, exista também as perturbações do bem-estar no dia seguinte. Estas perturbações seriam: fadiga, cansaço fácil, ardência nos olhos, irritabilidade, ansiedade, fobias, incapacidade de concentrar-se, dificuldades de atenção e memória, mal-estar e sonolência.

Surpreendentemente, porém, alguns pacientes que relatam passar a noite em claro, dizem-se bem dispostos de dia. Tais pacientes não poderiam ser classificados como verdadeiros insones mas como pessoas com baixa necessidade de sono. Essas pessoas que dormem pouco não se queixam de Insônia e nem mesmo reconhecem a má qualidade do sono como um problema sério em suas vidas.

Em termos de gravidade podemos dizer que a Insônia "não mata mas maltrata". Isso quer dizer que a Insônia afeta mais o aspecto psíquico e social da vida do que ameaça o seu componente biológico. Idosos com Insônia tendem a ter mais acidentes.

Em relação aos dados estatísticos, podemos dizer que todos os grupos etários, raciais e socioeconômicos apresentam Insônia mas, de modo geral, são as mulheres que mais referem o problema, o qual aumenta com a idade e nas pessoas que vivem sós. O sintoma Insônia tem múltiplas causas que podem ser reunidas em seis grupos. As causas situacionais, as psiquiátricas, as clínicas, as disritmias circadianas, os fatores comportamentais e os distúrbios do sono primários.

CAUSAS FARMACOLÓGICAS DE INSÔNIA
As drogas consideradas metilxantinas, tais como a cafeína e a teofilina, as drogas simpatomiméticas como a efedrina, o álcool, os corticóides, as tiroxinas, alguns neurolépticos e antidepressivos, particularmente os modernos inibidores seletivos de recaptação da serotonina, todas elas têm grande potencial para causar a Insônia.


Substâncias causadoras de Insônia
substâncias
onde estão
álcoolBebidas, alguns xaropes
cafeínaBebidas, analgésicos, café, xaropes, antigripais, chocolate
teofilinaRemédios para bronquite, enfisema e asma
efedrinaDescongestionantes nasais, xaropes, antigripais
corticóidesAntinflamatórios e antialérgicos
neurolépticosSedativos
antidepressivosAntidepressivos
tiroxinasRemédios para tireóide e alguns para emagrecer
anorexígenosRemédios para perder peso


Uma das informações muito úteis aos clínicos, é em relação aos anti-histamínicos e tranqüilizantes diazepínicos (Valium®, Diempax®, Diazepam®, Lorax®, Dormonid®...) podem causar efeito paradoxal em idosos, ou seja, podem produzir mais Insônia ao invés de melhorá-la. Também o álcool, utilizado em pequenas doses por alguns idosos para induzir ao sono, pode ser uma das causas do sono fragmentado e de má qualidade.

CAUSAS MÉDICAS DE INSÔNIA
Em geral, qualquer doença crônica capaz de causar dor ou desconforto pode produzir alterações na qualidade do sono. Nos idosos, as causas clínicas mais freqüentemente relacionadas às alterações do sono são: dificuldades urinárias, doenças articulares, bursites, refluxo gastro-esofágico, dificuldades digestivas com flatulência e meteorismo, doença pulmonar crônica (bronquite, asma...).

Alguns desses quadros podem ser responsáveis pelo sono fragmentado e despertar no meio da noite. Atualmente fala-se muito da Síndrome da Apnéia Noturna como uma das condições mais associadas ao despertar no meio da noite e, conseqüentemente, deHipersonia no dia seguinte.

Entre as situações clínicas capazes de produzir Insônia, podemos esquematizá-las da seguinte forma:


Causas Médicas de insônia X Gravidade
Causa clínica
Insônia leve (%)
Insônia grave (%)
Depressão
Bronquite Crônica
Doença Prostática
Insuficiência Cardíaca
Dor Lombar
2,6
1,6
1,6
1,6
1,4
8,2
1,5
2,7
2,5
1,5


CAUSAS PSICOLÓGICAS DE INSÔNIA
O estado de tensão produzido por estresse, embora seja encontrado em qualquer idade, tem uma prevalência muito acentuada nos idosos. Motivos para alterações depressivas o idoso pode ter de sobra; morte de companheiros, perda do cônjuge, perda do espaço social, dificuldades financeiras, sentimentos de abandono por parte da família, limitações físicas próprias da idade, mudanças no status social, percepção da própria condição de saúde, etc.

As três situações psiquiátricas mais associadas à Insônia no idoso são, por ordem decrescente de freqüência: ansiedadedepressão e demência. Normalmente, salvo muitas exceções, a ansiedade é mais responsável pela Insônia inicial, ou dificuldade para conciliar o sono, e à Insônia intermediária, proporcionando o ato de levantar no meio da noite e não conseguir dormir mais.

depressão, por sua vez, estaria mais relacionada com a Insônia terminal, ou seja, pelos despertares muito cedo, ainda de madrugada. A depressão pode ainda causar aHipersonia, que é o ato de dormir demais. Na demência, ainda em seus estágios iniciais, pode haver inversão circadiana, quando o paciente troca o dia pela noite.

CAUSAS AMBIENTAIS DE INSÔNIA
Uma das maneiras mais fáceis de se "aprender" a ter Insônia é a opção de dormir tarde, ficar até de manhã vendo televisão, lendo ou qualque outra coisa. Esse tipo de Insôniaadquirida tem sido muito freqüente devido ao hábito das pessoas terem aparelhos de televisão no quarto.

Insônia Adquirida também atormenta profissionais com necessidade do trabalho em turnos noturnos, bem como os pilotos de avião, os quais podem ter dificuldades para criar uma rotina para o sono devido aos ajustes aos fusos horários.

HIPERSONIA
Alguns autores classificam como Hipersonia, um grupo diverso de condições que tem como principal queixa a Sonolência Excessiva Diurna. Outros preferem achar que aHipersonia é um transtorno que se manifesta pelo ato de dormir demais, ou seja, por passar dormindo a maior parte do tempo em que estaria acordado.

Normalmente a maioria das Hipersonias é secundária à Insônia noturna, quando então o paciente passa a dormir de dia o tempo que não dormiu à noite, portanto, não se trata deHipersonia primária. Outros casos de Hipersonias que não sejam secundárias à Insônia, podem ser conseqüência de hipotireoidismo, hipoglicemia, de má ventilação pulmonar nos bronquíticos crônicos e enfizematosos, ao uso de antihistamínicos (antialérgicos) ou tranqüilizantes, e a Insuficiência Cardíaca. Outros medicamentos também podem induzir à sonolência, como é o caso dos antiespasmódicos, antidepressivos, barbitúricos, etc.

APNÉIA DO SONO
Pessoas que tem o transtorno conhecido como Apnéia do Sono podem parar brevemente de respirar quando adormecidos, e tem vários despertares breves e repetidos ao longo da noite perturbados por essas crises. Este distúrbio freqüentemente se associa a roncos, que é a tradução sonora do estreitamento da via aérea durante a passagem do ar.

Quando o referido estreitamento da via aérea se torna mais severo, dá-se o fechamento desta, resultando em Apnéia. Assim sendo, a Apnéia é arbitrariamente definida como parada da respiração ou interrupção do fluxo aéreo por no mínimo durante 10 segundos.

A chamada Apnéia Noturna ou Apnéia do Sono é muito mais comum nos idosos que em outros grupos etários, e uma importante causa de hipersônia. A Apnéia Noturna se caracteriza por uma crise de roncos altos, repentina, que se repete ao longo da noite e cessa em mais ou menos 10 segundos. As crises acontecem mais quando a pessoa dorme de barriga para cima.

Apnéia do Sono parece estar relacionada ao excesso de sonolência durante o dia, adepressão, a dor de cabeça, e o prejuízo da memória da demência. O quadro de Apnéia do Sono está ainda relacionado a um aumento do risco de morte súbita dormindo.

PARASONIAS
As Parasonias são comportamentos incomuns apresentados pelo paciente dormindo. Normalmente esses comportamentos incomuns dizem respeito ao sonambulismo, mioclonias, fala noturna, pesadelos e confusão mental noturna. Alguns medicamentos agravam essas parasonias, como é o caso dos beta-bloqueadores que costumam provocar pesadelos, da cafeína, antidepressivos e álcool que podem produzir mioclonia (movimentos espasmódicos durante o sono).


Saber mais:
Transtornosdo Sono em DSM.IV
Laboratório do Sono

Tratamento Farmacológico da Insônia
Antes de se recomendar um medicamento, cujo objetivo seja exclusivamente fazer dormir, é indispensável verificar se existe alguma condição responsável pela Insônia e que mereça um tratamento anterior e prioritário.A depressão emocional, por exemplo, deve ter tratamento prioritário sobre a Insônia e, normalmente, esta cede depois de tratada aquela. O mesmo se diz da diabetes, do hipertireoidismo, das dores nas juntas, das lombalgias, etc.

Preferentemente o tratamento medicamentoso da Insônia deve ser temporário, até que se corrijam as causas que a originaram. A duração do tratamento deve ser definida em função da indicação e informada ao paciente. Trata-se de 2 a 5 dias em caso de Insôniaocasional (ex.: durante uma viagem) e de 2 a 3 semanas em caso de Insônia transitória (quando da ocorrência repentina de um incidente sério). O tratamento da Insônia crônica deve ser instituído somente após consulta a um especialista. Qualquer persistência de distúrbios do sono após um período de 6 semanas deve ser objeto de investigações adicionais.

Nos idosos, quando necessários, os medicamentos eleitos para induzir o sono devem ser aqueles com meia-vida curta, tomando-se o cuidado de verificar se os mesmos não estão tendo um efeito paradoxal, ou seja, se não estão deixando o paciente mais agitado ainda.

Uma vez que a Insônia é um distúrbio complexo, seu tratamento pode exigir múltiplas abordagens. Para as Insônias transitórias, que duram um ou dois dias, a solução mais prática são os hipnóticos. Atualmente, o uso de hipnóticos tornou-se bastante seguro mas, mesmo quando havia riscos, esses nunca afastaram os pacientes da tentação do sono instantâneo. Os laboratórios do sono procuram estabelecer por meio da história clínica e, às vezes, da polissonografia, as causas da Insônia e instituir tratamentos capazes de corrigi-las.

BENZODIAZEPÍNICOS
Os chamados benzodiazepínicos são classificados de acordo com a duração de sua ação (meia-vida). Nos idosos a meia vida desses medicamentos costuma ser maior, de tal forma que o flurazepam e o diazepam podem chegar a uma meia-vida de mais de 100 horas.

Tanto a sedação do dia seguinte, quanto os efeitos paradoxais (agitação) devem ser muito bem considerados. Tanto sedação do dia seguinte, quanto agitação do efeito paradoxal podem favorecer quedas nos idosos.

Para os idosos, o triazolam e o lorazepam (Lorax®, Mesmerin®) são preferíveis, apesar desse último ter probabilidade de desenvolver dependência. Nesses casos a relação custo-benefício deve ser considerada. Normalmente eles não têm efeito pardoxal e a meia-vida é menor. Particularmente em idosos o lorazepam é o benzodiazepínico com melhor ação hipnótica e ansiolítica. O midazolam (Dormire®, Dormonid®) é o benzodiazepínicos com menor meia-vida, entretanto, numa porcentagem de até 12% dos casos pode haver agitação paradoxal e/ou confusão mental noturna. Isso deve ser previsto e orientado para a família do paciente idoso.

Para pacientes suspeitos de portarem Apnéia do Sono, cujo diagnóstico pode ser suspeitado pelo roncar muito alto e em surtos, devem ser evitados os benzodiazepínicos em geral.

ANTI-HISTAMÍNICOS
Alguns antihistamínicos, como por exemplo, a difenidramina (antialérgico), cicloheptadina (Periatim®) ou a prometazina (Fenergam®) costumam ser usados como hipnóticos por profissionais que evitam benzodiazepínicos. Não se recomenda essa prática, tendo em vista os efeitos colaterais dos antihistamínicos, bem como a grande probabilidade do efeito paradoxal e agitação em idosos.

ANTIDEPRESSIVOS
Alguns antidepressivos tricíclicos, como é o caso da amitriptilina (Amytril®, Tryptanol®) podem ter um bom efeito hipnótico. Na realidade eles são preferíveis quando a eventual causa da Insônia possa estar sendo a depressão.

Nos idosos, entretanto, devemos estar atentos para os efeitos anti-colinérgicos desses medicamentos tricíclicos, tais como a constipação intestinal, a glossite por ressecamento de mucosas, excesso de sudorese, hipotensão e, principalmente em homens idosos, a retenção urinária ou prostatismo.

A nortriptilina (Pamelor®), também um antidepressivo tricíclico, tem menos efeitos anti-colinérgicos e pode induzir também ao sono. A dose capaz de induzir ao sono chega a ser até menor que a dose terapêutica para a depressão. Assim sendo, tendo em vista a ausência de possibilidade de dependência, muitas vezes é preferível induzir ao sono com antidepressivos que com tranqüilizantes.

Outros Sedativos
O zolpidem (Stilnox®) é um hipnótico não-benzodiazepínico e está indicado nos casos deInsônia (ocasional, transitória). O zolpidem atua principalmente sobre os distúrbios do sono e quando usado isoladamente, não se constitui em tratamento para nenhum outro problema psíquico, podendo mascarar outros sintomas emocionais.

Em pacientes idosos com mais de 65 anos recomenda-se que a dose inicial seja de 5 mg e que uma dose de 10 mg não seja ultrapassada. Estudos de farmacologia humana e animal não demonstraram quaisquer efeitos sobre os centros respiratórios, todavia, o uso do zolpidem em pacientes com insuficiência respiratória severa deve ser realizado com cautela, bem como nos portadores de Apnéia do Sono.

O zopiclone (Imovane®) também pertence a um novo grupo químico, farmacologicamente semelhante às benzodiazepinas. É um hipnótico que rapidamente induz o sono, além de mantê-lo dentro dos padrões normais durante a noite (melhora a qualidade de sono). O zopiclone possui uma meia-vida de eliminação curta, sendo rapidamente excretado, não havendo, pois, acúmulo do produto e de seus metabólitos. Nos estudos realizados, mostrou-se que zopiclone não causou dependência nos pacientes em que ele foi administrado.

Ballone GJ, Moura EC - Transtornos do Sono em Idosos, PsiqWeb, internet, disponível em www.psiqweb.med.br,  revisto em 2004.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Transtorno de ansiedade generalizada em idosos com oitenta anos ou mais


Generalized anxiety disorder in a population aged 80 years and older
Flávio MF Xaviera, Marcos PT Ferrazb, Clarissa M Trentia, Irani Argimona, Paulo H Bertolluccic, Dalva Poyarese Emílio H Moriguchia
aAssociação de Neuropsicologia do Idoso do Instituto de Geriatria e Gerontologia. Porto Alegre, RS, Brasil. bDepartamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM). São Paulo, SP, Brasil.cDepartamento de Neurologia da Unifesp/EPM. São Paulo, SP, Brasil. dDepartamento de Psicobiologia da Unifesp/EPM. São Paulo, SP, Brasil


DESCRITORES Transtornos da ansiedade, epidemiologia.#Qualidade de vida.# Sono.#Depressão.#Prevalência. Idoso de 80 anos ou mais. Saúde do idoso. Memória. ¾Depressão maior. Depressão menor.RESUMO
OBJETIVOS: Descrever a prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (TAG) em uma população de idosos residentes em uma comunidade e com idade acima de 80 anos e comparar os padrões de sono, a função cognitiva e a taxa de prevalência de outros diagnósticos psiquiátricos entre controles normais e sujeitos com TAG.
MÉTODOS:
Para o diagnóstico de TAG, foram utilizados os critérios do "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders" (DSM-IV). Selecionou-se uma amostra randômica e representativa de 77 sujeitos (35%), residentes em uma comunidade, entre todos os idosos com idade acima de 80 anos do município Veranópolis, RS. Os padrões de sono foram aferidos pelo índice de qualidade de sono de Pittsburgh e pelo diário sobre sono/vigília a ser preenchido ao longo de duas semanas. Cinco testes neuropsicológicos foram usados na avaliação cognitiva: teste das lembranças seletivas de Buschke-Fuld; lista de palavras da bateria CERAD (Consortium to Establish a Registry for Alzheimer's Disease); teste de fluência verbal e dois subtestes da escala de memória Wechsler.
RESULTADOS:
A prevalência estimada de TAG foi de 10,6%, cuja presença estava associada a uma maior ocorrência de depressão clinicamente diagnosticável, com um significativo maior número de sintomas depressivos, quando medidos pela escala de depressão geriátrica, e com uma maior ocorrência de depressão menor. Os padrões de sono e o funcionamento cognitivo, entre sujeitos com TAG, não estavam afetados. A gravidade das doenças físicas não variava entre sujeitos com TAG e os controles normais. A presença de TAG estava associada a um significativo pior padrão de qualidade de vida relativa à saúde.
CONCLUSÃO:
Em comparação com os estudos prévios, a prevalência de TAG é alta entre a população de idosos mais velhos. Esse transtorno ocorre em freqüente associação com a sintomatologia depressiva e também está associado a um pior padrão de qualidade de vida relativa à saúde.
KEYWORDS Anxiety disorders, epidemiology.#Quality of life.#Sleep.#Depression.#Prevalence. Aged, 80 and over. Aging health. Memory. ¾Major depression. Minor depression.ABSTRACT
OBJECTIVE: To describe the prevalence of generalized anxiety disorder (GAD) in a community-dwelling population aged 80 years and older. Also, to compare sleep patterns, cognitive function and prevalence rate of other psychiatric conditions between healthy controls and GAD subjects.
METHODS:
DSM-IV criteria were used to diagnose GAD. A representative random sample of 77 community-dwelling subjects (35%), aged 80 years or more from the rural southern county of Veranopolis, Brazil, was selected. Sleep patterns were assessed using the Pittsburgh Sleep Quality Index and a 2-week sleep/wake diary. Five neuropsychological tests (Buschke-Fuld Selective Reminding Test, CERAD word list, verbal fluency test, and two sub-tests of the Wechsler memory scale) were used for cognitive evaluation.
RESULTS:
The estimated GAD prevalence was 10.6 percent. GAD was associated with major depression, with a significant greater number of depressive symptoms as measured by the Geriatric Depression Scale and with a significant more frequent occurrence of minor depression. Sleeping patterns and cognition function among GAD subjects were not compromised. The severity of physical diseases was similar in both GAD subjects and healthy controls. GAD was associated with a significantly lower health-related quality of life.
CONCLUSIONS:
In comparison with previous studies, the prevalence of GAD is higher in the studied population. This disorder is frequently associated with both depressive symptoms and a lower health-related quality of life.


INTRODUÇÃO
Existem poucos estudos sobre a prevalência de transtorno de ansiedade generalizada (TAG) para populações acima de 65 anos. Schneider,16 buscando na literatura estudos de prevalência de TAG baseados em populações de idosos residentes em uma comunidade, identificou apenas três estudos. Neles, a taxa de prevalência de TAG entre idosos variava consideravelmente. No estudo nacional de uso de drogas psicoterapêuticas18 feito com 442 sujeitos com mais de 65 anos, foi encontrada uma prevalência de TAG (pela DSM-III) de 7,1% ao ano. Já Copeland et al4 encontraram em Londres e Nova York as prevalências de TAG entre idosos de 1,1% e de 0,7%, respectivamente. Estudando uma amostra de 890 sujeitos acima de 65 anos, Lindesay et al11 encontraram a prevalência de TAG de 3,7% entre os idosos entrevistados.
Nenhum desses trabalhos citados esteve especificamente atento à prevalência de transtorno de ansiedade generalizada na subamostra de idosos acima de 80 anos de idade. Entre os idosos acima dessa faixa etária, mais freqüentemente que entre os sexagenários, existem casos de sujeitos que os gerontólogos denominam de "frágeis". Essa fragilidade biopsicossocial traz um maior risco para quadros ansiosos? Como fica a memória e o sono de idosos da faixa mais velha, quando acometidos por transtorno de ansiedade? Seria a ansiedade desses sujeitos uma decorrência de um estado geral de saúde significativamente pior?
O presente estudo teve por objetivo: a) determinar a prevalência, nos últimos 12 meses, de TAG em uma população de sujeitos acima de 80 anos residentes em uma comunidade; b) estimar a freqüência de outros transtornos psiquiátricos entre controles e sujeitos com TAG; c) comparar os padrões de sono, a função cognitiva e o estado de saúde geral entre controles normais e sujeitos com transtorno de ansiedade generalizada; d) comparar os padrões de satisfação com a vida e de qualidade de vida entre idosos normais e com TAG.

MÉTODOS*
Amostra
De uma população de 219 sujeitos com mais de 80 anos, residentes no município de Veranópolis, Rio Grande do Sul, foi desenhada uma amostra randômica e representativa de 77 sujeitos. O cálculo do tamanho da amostra foi realizado por meio do pacote Epi Info versão 6.02. Para a escolha dos indivíduos a serem incluídos na amostra, foi utilizado o método de amostragem aleatória simples a partir do sorteio de 77 nomes de uma lista de 219 idosos acima de 80 anos, do município. Dos 77 indivíduos sorteados, 4 recusaram-se a participar do estudo. Outros 4 (5% ou 4/73) sujeitos apresentavam critérios da DSM-IV para demência e 2 para delirium. Um outro sujeito apresentou intensa ansiedade ao responder a entrevista e não pôde ser estudado. Assim, o grupo final estudado foi constituído de 66 sujeitos.
Coleta de dados
Os dados foram coletados por um médico geriatra, um médico psiquiatra e um psicólogo clínico. Cada pesquisador aplicou uma parte dos instrumentos, sendo a avaliação neuropsicológica desenvolvida pelo psicólogo, o exame geriátrico global pelo médico geriatra, e o preenchimento da Entrevista Clínica Estruturada (Structured Clinical Interview-SCID)6 para DSM-IV pelo médico psiquiatra. Cada entrevistado era avaliado por cada entrevistador em dias diferentes, com o objetivo de não tornar a entrevista cansativa para os sujeitos. Os que participaram do presente estudo deram seu consentimento informado.
Escalas e procedimentos
Saúde geral
Todos os sujeitos tiveram uma avaliação geriátrica global. Esta incluía: entrevista clínica, exame físico e neurológico e uma entrevista estruturada com perguntas específicas sobre a presença, a duração, os principais sintomas e as complicações de tratamento de doença pulmonar crônica, doença cardíaca, doença ateroesclerótica, diabetes mellitus, neoplasia maligna, doença osteoarticular e enfermidades dos órgãos dos sentidos. O índice "Cumulative Illness Rating Scale" (CIRS)12 foi utilizado para quantificar a comorbidade médica geral em ambos os grupos: grupo com TAG e o grupo sem este transtorno de ansiedade. O CIRS é um instrumento validado que quantifica as disfunções de seis sistemas orgânicos (cardiorrespiratório, gastrointestinal, genitourinário, musculoesquelético, psiconeurológico e sistema geral-endócrino) em uma escala de gravidade de 0-4 pontos.
Cognição
A percepção subjetiva do funcionamento da memória foi avaliada com base no Questionário de Queixas de Memória (MAC-Q),5 sendo que uma pontuação igual a 25 pontos ou maior que esse índice foi considerada indicativa de perda subjetiva de memória. O desempenho objetivo da memória foi avaliado fazendo-se uso de dois testes neuropsicológicos. O teste de evocação de Buschke9 foi utilizado, avaliando a memória e o aprendizado.O escore utilizado foi o número total de estímulos recordados (somatório das lembranças livres e das lembranças decorrentes do uso de pistas semânticas), sendo a pontuação máxima de 96 lembranças. Também foram incluídos as lembranças tardias e o número de estímulos dentre os 16 apresentados/recordados após 30 min. A memória verbal foi quantificada com o teste "Lista-de-palavras"13 da bateria neuropsicológica do CERAD (Consortium to Establish a Registry for Alzheimer's Disease), sendo o escore o número de palavras lembradas na evocação tardia do total de 10 palavras. Além da memória, outras funções cognitivas estudadas foram: atenção, habilidade verbal e função visoconstrutiva. Aplicaram-se os seguintes testes neuropsicológicos para esse estudo: atenção ¾ o subteste "Span de Números" da Escala de Inteligência de Adultos de Wechsler (WAIS),21 sendo o escore o valor "bruto", ou seja, o somatório do total de acertos da forma direta com o do total de acertos da forma inversa; habilidade verbal ¾ o teste da fluência verbal, categoria animais,2 sendo o escore o número total de nomes de animais produzido em um minuto e função visoconstrutiva; teste da reprodução visual de figuras da escala de memória de Wechsler20 segundo a adaptação de Russell´s,15 sendo a pontuação o número de componentes presentes no desenho tardio (após 10 min da apresentação da figura).
Também foram utilizados os instrumento miniexame do estado mental7 e a escala de severidade de sintomas demenciais "The Clinical Dementia Rating" (CDR),8 com o objetivo de quantificar o funcionamento cognitivo em um sentido mais amplo.
Sono
Para a identificação dos casos de insônia, foi formulada a seguinte questão aos sujeitos: "com referência ao mês anterior, você alguma vez teve um período de duas semanas ou mais, no qual tenha tido (a) dificuldade em iniciar o sono?, (b) dificuldade em manter-se dormindo?, (c) situação de acordar muito cedo pela manhã? ou (d) presença de sono não restaurador?". A questão foi formulada na forma de 4 perguntas separadas, sendo considerado com insônia o sujeito que tinha, pelo menos, uma das 4 situações acima positiva.
Cada sujeito ou seu cuidador mais próximo entre os iletrados completou um diário de padrões de sono durante duas semanas. A primeira seção do diário era respondida logo antes de ir para a cama e referia-se a atividades do dia, presença de sonolência diurna excessiva, bem como presença, duração e horário de cochilos diurnos. A segunda seção, a ser completada logo que o sujeito acordava pela manhã, referia-se ao horário de ida para a cama, duração do sono e de despertares. Essa seção também incluía escalas analógicas visuais, quando era perguntado ao sujeito sobre a qualidade do sono da noite, o humor e a disposição ao acordar. A opinião subjetiva sobre a "qualidade do sono" foi medida pelo índice de qualidade de sono de Pittsburgh,3 e a sonolência excessiva diurna, pela escala Epworth10 (versão modificada**).
Variáveis psiquiátricas
A avaliação psiquiátrica estruturada incluiu o uso da versão brasileira da SCID6 para DSM-IV. Com a aplicação desse instrumento, objetivou-se a identificação dos casos de transtorno de ansiedade generalizada, de episódio depressivo maior e de transtorno depressivo menor. A escala de depressão geriátrica (GDS)17 foi usada para mensurar sintomas depressivos.
Para a caracterização do padrão de consumo de fármacos da classe dos benzodiazepínicos, foram colocadas as seguintes questões aos sujeitos: "Você já tomou alguma coisa para dormir (na vida)?; O que tomou para dormir?; Já tomou remédio para dormir?; Qual remédio usou para dormir?; Freqüência que toma remédio para dormir (classificando-se entre: diariamente, entre três e seis vezes por semana, entre uma a duas vezes por semana, entre duas e três vezes por mês, uma vez por mês, menos de uma vez por mês, nunca, já tomou e não toma mais)? e "Tomou remédio para dormir ontem? Qual?". Além desse questionário, o uso de benzodiazepínicos também foi registrado no diário do sono de duas semanas. Os sujeitos denominados de consumidores de benzodiazepínicos, no presente estudo, foram os que faziam uso na freqüência de três até sete dias por semana, ao longo dos últimos 30 dias.
Os idosos também foram avaliados quanto à satisfação com a vida, fazendo uso do instrumento Índice de satisfação com a vida de Neugarten & Havighurst,14 e quanto à qualidade de vida, fazendo uso do instrumento "Medical outcomes study 36-item short-form" (SF36).19
Estatística
O teste qui-quadrado foi usado para identificar se existia associação entre presença de TAG e gênero. Também foi utilizado para identificar se existiam associações e presença de TAG com maior prevalência de comorbidades psiquiátricas, um maior uso de benzodiazepínicos ou uma maior presença de insônia.
O teste não paramétrico de Mann-Whitney foi usado para comparar o desempenho dos 7 idosos do grupo com TAG e o desempenho dos idosos do grupo-controle nas medidas de saúde geral, nas medidas dos testes neuropsicológicos da cognição, nas medidas do diário do sono e nas escalas de sono bem como nas escalas de satisfação com a vida e qualidade de vida. O intervalo de confiança foi de 95%, e os valores foram considerados significativos, quando o valor de p era £0,05.

RESULTADOS
A proporção de 36% de homens na amostra (24 homens) e de 64% de mulheres (42 mulheres) não diferia da proporção na população total de sujeitos acima de 80 anos no município, cuja população é de 37% do sexo masculino (81 homens) e 63% do sexo feminino (138 mulheres). O tempo médio de escolaridade era de 2,6 (±2,8) anos de estudo, sem diferença do tempo de escolaridade por gênero. Na amostra estudada, 25 sujeitos (38%) residiam na área rural do município, e 41 (62%), na área urbana.
Um percentual de 10,6% (7/66) apresentava critérios de DSM-IV para TAG. Todos os sujeitos com TAG eram do sexo feminino, porém não foi evidenciada distribuição diferenciada em associação com gênero (p=0,10). A idade média de sujeitos com TAG e de sujeitos sem TAG não diferia, sendo em média de 83 anos (desvio-padrão de ±1,7) para sujeitos com TAG e de 84 anos (dp±3,5) para sujeitos sem esse diagnóstico.
Quanto ao uso de bebida alcoólica, os idosos com TAG bebiam em média um dia por semana (dp±2,6), enquanto sujeitos afetivamente hígidos bebiam com freqüência mais significativa (p=0,03), em média, 3,6 dias por semana (dp±3,3). Já o uso diário de benzodiazepínicos não diferia entre sujeitos com e sem diagnóstico de TAG: enquanto 16% dos sujeitos com TAG faziam uso freqüente de benzodiazepínicos, um percentual de 14% dos controles tinha esse padrão de uso (p=1,0).
Os padrões de saúde geral, cognitivos, de sono, as comorbidades psiquiátricas, a satisfação com a vida e a qualidade de vida foram comparados e estão apresentados nas tabelas, em que o número de sujeitos no grupo-controle considerado não foi de 59 sujeitos sem TAG, e sim de 47 sujeitos. Para essas análises, foram excluídos 12 sujeitos em função do fato de 8 deles estarem no grupo sem TAG, mas fazerem uso de remédios benzodiazepínicos, e 4 deles não terem informações sobre o uso ou não de benzodiazepínicos. Como eventualmente esses sujeitos sem TAG poderiam estar assintomáticos da ansiedade devido ao remédio, foi opção excluí-los como grupo-controle.
Estado de saúde geral
Tabela 1 resume a comparação da saúde dos 7 idosos do grupo com TAG e dos 47 do grupo-controle. O estado de saúde geral pela escala CIRS dos idosos com TAG tendia a ser pior do que o estado daqueles sem qualquer sintomatologia de humor ansioso (p=0,005). Contudo, a escala CIRS, além dos itens para aferir enfermidades nos diferentes órgãos, também apresenta um subitem para presença de sintomas psiquiátricos. Quando sujeitos com TAG e sujeitos-controle foram comparados apenas nos itens de "saúde geral", isto é, excluindo o item de saúde emocional, a tendência dos sujeitos com TAG e controles a pontuar diferentemente na escala desaparecia. Assim, ao remover o subitem psiquiátrico, observou-se que sujeitos com TAG e controles não tinham diferenças (p=0,09) nos demais aspectos de seu estado de saúde geral, conforme pontuação pela CIRS. Os idosos com TAG consultaram médicos menos freqüentemente que os idosos-controle nos últimos 12 meses. Também havia uma tendência (p=0,06) para os com TAG terem estado menos dias doentes no último ano.


Cognição e memória
Conforme representado na Tabela 2, idosos que tinham TAG, quando comparados com os do grupo-controle, não apresentaram mais queixas de memória pelo questionário MAC-Q, nem pior desempenho cognitivo em nenhum dos testes neuropsicológicos aplicados e nem mesmo no miniexame do estado mental. Apenas no teste digit span, observou-se desempenho melhor de idosos com TAG do que entre os controles normais.


Sono
Na Tabela 3 estão representados os padrões do sono de idosos com transtorno de ansiedade generalizada. Significativamente os idosos com TAG, mais freqüentemente que os controles, queixavam-se de acordar muito cedo pela manhã e não conseguir voltar a dormir (p=0,045). Entre os 7 sujeitos com TAG, um fazia uso de benzodiazepínicos de maneira contínua. Refizeram-se as comparações dos padrões de sono, excluindo-se esse indivíduo, com o objetivo de observar as alterações do sono exclusivamente associadas à presença de ansiedade, sem o fator confundidor do uso de ansiolíticos. Essa segunda análise seguia sem diferenças significativas nos padrões de sono entre idosos com TAG e controles. Inclusive, a diferença estatística que era observada na queixa de insônia terminal desaparecia, o que, eventualmente, seja decorrente apenas de um número menor de sujeitos com TAG.


Comorbidade com síndromes depressivas
Na Tabela 4, estão representadas as freqüências de ocorrência de quadros de humor depressivo entre os 7 sujeitos com TAG e entre os 47 controles sem TAG e sem o uso de benzodiazepínicos. A presença de TAG estava associada a uma maior freqüência simultânea de diagnóstico de episódio depressivo maior, à maior freqüência de depressão menor e a um maior número de sintomas depressivos, quando medidos pela escala de sintomas depressivos GDS.


Satisfação com a vida e qualidade de vida
Tabela 5 compara a pontuação nos índices de satisfação com a vida (LSI) e de qualidade de vida relacionada à saúde (SF-36)19 de idosos com TAG e de idosos-controle. A presença de TAG associava-se à menor satisfação com a vida e aos piores padrões de qualidade de vida na maior parte dos domínios da escala SF-36.


DISCUSSÃO
A especificidade do presente estudo está relacionada à idade média elevada dos idosos avaliados. Entre esses sujeitos com mais de 80 anos, observou-se uma prevalência de TAG mais alta do que a identificada pelos três estudos revisados. Qualquer desses estudos incluía idosos de idade média não maior que 70 anos. Na comunidade estudada, entre os sujeitos com TAG da faixa acima de 80 anos, observou-se, em comparação com controles sem TAG, um estado de saúde geral equivalente, nenhuma diferença na função cognitiva, maior freqüência de insônia terminal sem outras dificuldades com o sono, freqüente comorbidade com síndromes depressivas, menor satisfação com a vida e pior padrão de qualidade de vida.
A prevalência encontrada é mais elevada do que os resultados de outros estudos de prevalência entre idosos. Não se pode determinar pela metodologia empregada o quanto essa taxa mais elevada está em associação com a idade mais avançada. Eventualmente, a comunidade estudada pode ter mais TAG que as demais citadas na literatura. Nesse sentido, estudando a prevalência de ansiedade entre adultos no Brasil, Almeida Filho1encontrou, em outra cidade do Rio Grande do Sul, prevalência de 9,6% para qualquer transtorno de ansiedade, maior do que em outros locais do Brasil.
A maior prevalência identificada no presente estudo pode estar influenciada pela presença de maior proporção de mulheres na população estudada. Almeida Filho1 também observou que a distribuição de ansiedade era diferenciada por gênero, sendo de 5,2% para homens e de 14,0% para mulheres. Como a longevidade da comunidade estudada é maior para mulheres do que para homens, o aumento da taxa de prevalência entre os octogenários poderia estar refletindo apenas a presença de maior proporção de mulheres a cada década, após os 60 anos.
A ansiedade observada entre os pacientes não estava associada a um pior estado de saúde geral. Curiosamente, os sujeitos com TAG haviam ido menos ao médico no ano anterior, o que, eventualmente, poderia refletir esquiva social. Uma inferência possível desse achado é supor que estudos de freqüência de TAG conduzidos em ambulatórios médicos poderiam diminuir a magnitude da prevalência desse transtorno entre idosos. A característica de maior número de queixas de trato gastrointestinal inferior entre os com TAG, se confirmada em outros estudos, poderia auxiliar o clínico geral a pensar em TAG diante de idosos com queixas intestinais.
Não houve diferenças importantes no desempenho cognitivo nem nos padrões de sono entre os idosos com TAG. Existe uma tradição na clínica de associar a queixa de insônia terminal com depressão e a de insônia inicial com ansiedade. Neste estudo, por outro lado, ansiedade esteve associada à insônia terminal. Contudo, dada a grande sobreposição vista de ansiedade com depressão, a queixa referida pelos ansiosos de acordarem mais cedo do que gostariam poderia ser tanto uma característica depressiva quanto ansiosa.
Apesar de não ser uma característica particular de idosos, a associação de TAG a todas as três situações de humor depressivo (depressão maior, depressão menor e número de sintomas depressivos) aponta a importância do clínico ter sempre em mente a freqüência das comorbidades em psiquiatria. O clínico deve estar atento ao atender idosos com ansiedade a eventuais quadros de humor depressivo nem sempre evidentes.
A satisfação com a vida e os padrões em diferentes domínios da qualidade de vida relacionada à saúde eram piores entre os com TAG. Entre os domínios avaliados pelos idosos com TAG como comprometidos, além da saúde geral, mental e dos aspectos físicos, observa-se também um pior escore no campo da vitalidade e dos aspectos sociais. Pode-se inferir que essa menor vitalidade e retraimento social, identificados nesse instrumento, estejam associados à menor busca de consultórios médicos, também vista entre os com TAG.
Chama a atenção que idosos com TAG não façam mais uso de álcool do que os sujeitos-controle, tendo sido, inclusive, observado um uso significativamente menos freqüente de álcool. Quanto ao uso de fármacos sedativo-hipnóticos, sujeitos com TAG não faziam uso diário de benzodiazepínicos com mais freqüência do que os controles.
Em conclusão, os dados apontam para uma ocorrência freqüente de TAG entre os muito idosos. Esses quadros de ansiedade não ocorriam em idosos com saúde geral pior, salvo pela particularidade deles apresentarem mais enfermidades intestinais. Cognição e sono, essencialmente, não diferiam entre controles e sujeitos com TAG, porém estes últimos tendiam a ter mais quadros depressivos associados. Os sintomas ansiosos associavam-se à menor satisfação com a vida e ao pior padrão de qualidade de vida, havendo menor consumo de álcool entre os com TAG.

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Correspondência para/Correspondence to:
Flávio Xavier
Associação de Neuropsicologia do Idoso do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUC/RS
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