Mostrando postagens com marcador CIENCIAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CIENCIAS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Ciência Pode Acabar?

Um dos principais marcos da cultura ocidental é o advento da ciência, que não só tem permitido o desenvolvimento das principais tecnologias da atualidade, mas também satisfaz aquela outra sede, tão  particularmente humana, a sede de conhecer. 


A compreensão do mundo material favorecida pelo método científico não tem comparação com qualquer outra
via de obtenção de conhecimentos. Um dos sustentáculos da atividade científica é precisamente um amplo compartilhamento de dados, conceitos, ideias, não só entre cientistas, mas também com o público em geral.

Imagine se um dia esse fluxo de conhecimentos cessasse. Como ficaríamos?

O tema já foi explorado sob diferentes ângulos, como, por exemplo, fez John Horgan em seu O fim da ciência – Uma discussão sobre os limites do conhecimento científico (Cia. das Letras, 1996). Neste livro, Horgan entrevista cientistas e intelectuais perguntando, entre outras coisas, se eles creem ter o conhecimento científico atingido um apogeu e, a partir de agora, não ser mais capaz de avançar significativamente, muito menos prover benefícios reais à humanidade. O conhecimento possível teria atingido um limite – já saberíamos tudo
que há para saber – por que a Natureza não teria muito mais coisas escondidas de nossos “sentidos ampliados pelas tecnologias”, que são as ferramentas da ciência empírica.

Essa ideia de um limite físico do conhecimento já foi postulada por alguns cientistas no final do século 19, mas bastou surgirem a relatividade, a mecânica quântica e a biologia molecular, por exemplo, para evidenciar o tamanho do equívoco.

Há, também, a perturbadora possibilidade de que o limite seja de natureza cognitiva, que limitações em nossa própria estrutura mental – como os conhecimentos a priori de causa e tempo, apontadas por Kant, por exemplo – acabem impedindo nossa compreensão do mundo a partir de certo nível de complexidade.

Embora essa ideia esteja longe de ser demonstrada, há quem proponha – num flerte com a ficção científica
– que, se nós não pudermos, máquinas inteligentes desenvolvidas por nós, poderiam. Só o tempo dirá.

Mas pode ser que os limites do conhecimento sejam atingidos muito antes de arranharmos esses hipotéticos obstáculos, e por razões bem mais mundanas: causas sociais.

Já Mario Bunge, físico e filósofo da ciência argentino, advertia que a ciência como a conhecemos pode desaparecer, e que até mesmo “já morreu várias vezes”, referindo-se ao ocaso da Grécia clássica – simbolizada pela segunda destruição da Biblioteca de Alexandria e ascensão do pragmatismo romano −
e ao interregno vivido pela ciência italiana sob o fascismo.

Mas não é necessário invocar situações tão dramáticas. O Nobel em física de Stanford, Robert B. Laughlin, formulou uma crítica que surpreendeu a muitos em seu livro de 2008, The crime of reason and the closing of the scientific mind (“O Crime da Razão – O fim da mentalidade científica”, ainda sem tradução aqui).

Laughlin descreve o atual quadro de crescentes restrições no acesso ao conhecimento pelo grande público
e mesmo pela comunidade científica em função de legislações de proteção comercial, patenteamentos abusivos, profusão de processos judiciários sobre propriedade intelectual e a onipresença da propaganda comercial.

A alegação soa um tanto contraintuitiva para quem vive em meio à era da internet, onde tudo parece estar ao alcance de todos, mas Laughlin constrói bem seu caso, em um estilo leve e bem embasado: na internet, a escalada comercial cria tanto ruído que é cada vez mais difícil encontrar informações realmente valiosas (exceto mediante pagamento); na pesquisa científica, estudos relevantes são bloqueados por demandas
judiciais patentárias, ao passo que nos Estados Unidos chega a ser arriscado ter ou dar acesso, mesmo que acidentalmente, a conhecimentos tidos como “perigosos”.

A Suprema Corte americana, mesmo após decidir que princípios matemáticos e leis da Natureza não podiam ser patenteados, acabou autorizando o patenteamento de programas de computador e de trechos do código genético humano: a crise de legitimidade vivida pelo atual sistema de propriedade intelectual, infelizmente,
também se dá longe dos olhos do público.

Se Laughlin estiver certo, existe um conflito fundamental entre as necessidades de segurança e prosperidade econômica em nossa sociedade, por um lado, e o direito humano de conhecer e aprender – fruto dessa necessidade que nos distingue, como humanos, dos outros animais. O futuro do conhecimento
científico depende de sua resolução.

O bom é que, enquanto os limites físico e cognitivo são externos e pouco podemos fazer para superá-los, a limitação social é de origem humana, logo comporta soluções, ainda que difíceis.

Precisou um Prêmio Nobel para dar voz a essa preocupação sem cair no lodaçal das “teorias conspiratórias”. Ainda há tempo para reverter essa tendência, deixando definitivamente para trás esses tempos que Laughlin, com ironia, denominou de era da amnésia 

domingo, 1 de novembro de 2015

Ciência Cognitiva na Sala de Aula

A maioria dos professores concordaria que é importante que os alunos se lembrem do que leem. Mas uma das coisas mais comuns em escolas e faculdades é vê-los debruçados sobre livros, marca-textos na mão, destacando passagens pertinentes – que geralmente acabam incluindo a maior parte da página. No final do semestre eles se preparam para as provas, voltando aos livros e relendo os blocos amarelos do texto.

Pesquisas mostraram que destacar e reler textos estão entre as maneiras menos eficazes de os alunos se lembrarem do conteúdo que leram. Uma técnica muito melhor é fazer uma dinâmica em grupo. Em um estudo, alunos que leram determinado texto uma vez e tentaram lembrá-lo em três ocasiões tiveram notas 50% maiores nas provas que alunos que leram um texto e depois o releram três vezes. E ainda assim muitos professores insistem em encorajar – ou pelo menos em não desencorajar – as técnicas que a ciência provou ineficazes.

Esse é apenas um sintoma do fracasso geral de integrar o conhecimento científico na escola. Muitas ideias comuns sobre educação desafiam princípios de cognição e aprendizagem. Um erro comum, por exemplo, é pensar que o ensino de conteúdo é menos importante que o de habilidades de pensamento crítico ou estratégias de resolução de problemas. Pesquisadores sabem há muito que crianças devem aprender as conexões entre letras e sons e que se beneficiam mais quando essa instrução é planejada e explícita. Mas alguns programas de leitura, mesmo os usados em grandes distritos escolares, só ensinam isso se o professor considerar necessário.

É fácil dizer que os professores devem se esforçar mais para acompanhar a ciência, mas ensinar já é uma profissão muito trabalhosa. E é difícil para um não especialista separar pesquisas científicas da avalanche de falação e pseudociência. Vendedores de panaceias caras e supostamente baseadas em pesquisas científicas fazem lobby de produtos que podem ter validade científica mas ainda não foram profundamente testados. Teorias de aprendizagem matemática, por exemplo, sugerem que jogos de tabuleiro lineares (mas não circulares) aumentam a prontidão matemática em pré-escolares, mas a ideia precisa de testes em grande escala.
Como os educadores devem saber quais práticas adotar? Uma instituição que consulte pesquisas e as resuma poderia resolver o problema. A medicina fornece um precedente: médicos praticantes não têm tempo para se manter atualizados com as dezenas de milhares de artigos de pesquisa publicados anualmente, capaz de sugerir uma mudança de tratamento. Em vez disso, eles confiam em sumários respeitáveis de pesquisas, publicados todo ano, que concluem se as evidências acumuladas apoiam mudanças na prática médica. Professores não têm nada semelhante a essas revisões competentes: eles estão por conta própria.

O Departamento de Educação dos Estados Unidos (DOE, em inglês) tentou, no passado, levar rigor científico ao ensino. A câmara What Works, criada em 2002 pelo Instituto de Ciências Educacionais do DOE, avalia currículos, programas e materiais de sala de aula, mas seus padrões são estritos e professores não têm participação no processo de verificação, tampouco na avaliação – e isso é crucial. Cientistas podem analisar pesquisas, mas professores entendem de educação. O propósito dessa instituição seria o de produzir informações que possam ser usadas para modelar ensino e aprendizagem.

É importante também que ideias fornecidas por uma instituição venham da ciência básica. Muitos professores precisam perder as noções de que crianças têm “estilos de aprendizagem” diferentes e que cérebro de menino é melhor em atividades espaciais que o de menina. Pode-se dizer que o trabalho de levar informações científicas precisas sobre cognição e aprendizagem a professores seja responsabilidade de faculdades de educação, estados, distritos e organizações profissionais de professores, mas essas instituições mostraram pouco interesse na função. Um conselho nacional de revisão neutro seria a resposta mais simples e rápida para um problema que é um grande obstáculo para a melhoria em muitas escolas.

À venda: seu nome em uma prestigiada publicação científica

Por Charles Seife

Klaus Kayser tem publicado periódicos científicos eletrônicos há tanto tempo, que ainda se lembra quando os enviava a assinantes em disquetes.

Seus 19 anos de experiência o deixaram perfeitamente ciente do problema de fraudes científicas. Em sua opinião, ele toma medidas extraordinárias para proteger a publicação que edita atualmente: Diagnostic Pathology.

Para impedir que autores tentem fazer passar imagens de microscópio copiadas da internet como se fossem suas próprias, ele exige que eles também lhe enviem as lâminas de vidro originais (junto com os artigos).

Mas, apesar de sua vigilância, sinais de possíveis más condutas em pesquisas se infiltraram em alguns artigos publicados em Diagnostic Pathology.

Seis dos 14 artigos da edição de maio de 2014, por exemplo, contêm suspeitas repetições de frases e outras irregularidades. Quando a Scientific American alertou Kayser, ele aparentemente não estava ciente do problema. “Ninguém me disse isso”, defendeu-se. “Sou muito grato a vocês”.

Diagnostic Pathology, de propriedade da editora Springer, é considerada uma publicação científica respeitável. Sob o comando de Kayser, seu “fator de impacto”, uma medida grosseira da reputação de uma publicação especializada, baseada no número de vezes que um artigo é citado na literatura científica publicada, é 2,411, o que a coloca solidamente nos 25% superiores de todas as publicações científicas monitoradas pela Thomson Reuters em sua publicação Journal Citation Reports; e ocupa o 27º lugar do total de 76 periódicos de patologia classificados.
A publicação de Kayser não está sozinha.

Nos últimos anos, sinais semelhantes de trapaças, ou desonestidade, na literatura revisada por pares surgiram em várias edições do universo de publicações científicas, inclusive nas pertencentes a potências editoriais como a Wiley, Public Library of Science, Taylor & Francis e o Nature Publishing Group (que publica aScientific American).

A aparente fraude está ocorrendo à medida que o mundo de publicações e pesquisas especializadas passa por rápidas mudanças.

Cientistas, para os quais artigos publicados são o caminho para promoções, estabilidade de emprego/cargo ou via de apoio para subvenções, estão competindo mais acirradamente que nunca para conseguir a inclusão de seus artigos em periódicos revisados por pares.

Embora publicações científicas estejam proliferando na internet, a oferta ainda é incapaz de acompanhar a incessante demanda por veículos (outlets) científicos respeitáveis.

A preocupação é que essa pressão possa levar à desonestidade, à fraude.

Os artigos duvidosos não são fáceis de detectar. Tomados individualmente cada trabalho de pesquisa parece legítimo. Mas em uma investigação realizada pelaScientific American, que analisou a linguagem empregada em mais de 100 artigos científicos, foram encontradas evidências de alguns padrões preocupantes — sinais do que parece ser uma tentativa de burlar o sistema de revisão por pares em escala industrial.

Um dos artigos publicados na edição de maio de 2014 de Diagnostic Pathology, por exemplo, superficialmente parece ser uma típica metanálise da literatura revisada por pares. Seus autores, oito cientistas da Universidade Médica de Guangxi, na China, avaliam se diferentes variações em um gene conhecido como XPCpodem ser associadas a câncer gástrico. Eles não encontram nenhuma ligação desse tipo e admitem que seu artigo não é a palavra final sobre o assunto:

“No entanto, é necessário conduzir amplos estudos de amostras, utilizando métodos padronizados imparciais de genotipagem, amostras homogêneas de pacientes com câncer gástrico, e controles bem estabelecidos (com condições muito parecidas). Além disso, interações gene-gene e gene-ambiente também deveriam ser consideradas na análise. Estudos desse tipo, que levam em conta esses fatores, talvez possam levar futuramente à nossa melhor e mais abrangente compreensão da associação entre os polimorfismos XPC e o risco de câncer gástrico”.

Essa é uma conclusão perfeitamente normal para um artigo perfeitamente comum. Não é nada que devesse disparar quaisquer sinais de alarme.

Mas compare-o com um trabalho publicado vários anos antes em European Journal of Human Genetics (de propriedade do Nature Publishing Group), uma metanálise sobre se variações em um gene conhecido como CDH1 poderiam ser associadas ao câncer de próstata (CPa) e encontrará o seguinte comentário:

“No entanto, é necessário conduzir amplos ensaios utilizando métodos padronizados imparciais, pacientes homogêneos com PCa e controles bem combinados, com avaliação “cega” (desconhecendo) dos dados. Além disso, interações gene-gene e gene-ambiente também deveriam ser consideradas na análise. Estudos desse tipo, que levam em conta esses fatores, talvez possam levar futuramente à nossa melhor e mais abrangente compreensão da associação entre o polimorfismo CDH1—160 C/A e o risco de CPa”.

O palavreado é praticamente idêntico, inclusive a estranha frase “levar futuramente à nossa melhor e mais abrangente compreensão”. As únicas diferenças substanciais são os genes específicos (CDH1 em vez de XPC) e a doença (câncer gástrico em vez de PCa).

Esse não é um simples caso de plágio. Muitas equipes de pesquisas aparentemente independentes andaram plagiando a mesma passagem.

Um artigo publicado em PLoS ONE talvez possa levar futuramente à “nossa melhor e mais abrangente compreensão” da associação entre mutações no geneXRCC1 e o risco de câncer de tireóide.

Outro trabalho, publicado em International Journal of Cancer (publicada pela Wiley) pode acabar levando à “nossa melhor e mais abrangente compreensão” da associação entre mutações no gene XPA e o risco de câncer... e assim por diante.

Às vezes há pequenas variações na redação, mas em mais de uma dezena de artigos encontramos uma linguagem quase idêntica com diferentes genes e doenças aparentemente inseridos no parágrafo em questão; como uma versão surreal de Mad Libs, um modelo de jogo de palavras inventado na década de 50, no qual os participantes preenchem lacunas com termos ausentes em uma dada passagem.

Scientific American encontrou outros exemplos de pesquisas do tipo “preencha as lacunas”.

Uma busca da frase “excluído devido à óbvia irrelevância” recuperou mais de uma dezena de artigos de vários tipos, todos, exceto um, escritos por cientistas da China.

A formulação “utilizando uma forma padronizada, dados de estudos publicados” também produz mais de uma dezena de artigos de pesquisa, todos da China. O chamado gráfico de dispersão em funil, funil invertido ou “árvore de natal” (funnel plot, em inglês) de “Begger” detecta dezenas de casos, todos procedentes da China.

“Esse sistema de verificação é particularmente revelador. Não existe uma coisa como um funil de Begger.“Ele simplesmente não existe. Essa é a questão”, salienta Guillaume Filion, um biólogo no Centro para Regulação Genômica em Barcelona, na Espanha (pdf).

Dois estatísticos — Colin Begg e Matthias Egger — inventaram, cada um, testes e ferramentas para avaliar o viés de uma publicação e procurar preconceitos que se infiltramem metanálises. O“funil de Begger” parece ser um híbrido acidental da fusão dos dois nomes.

 

Filion detectou a proliferação de testes “de Begger” por acaso.

Enquanto procurava por tendências em artigos em publicações científicas médicas, ele encontrou artigos que tinham títulos quase idênticos, escolhas similares de gráficos e os mesmos erros peculiares, como o “funil de Begger”.

Ele presume que os trabalhos vieram da mesma fonte, embora tenham sido ostensivamente escritos por diferentes grupos de autores. “É difícil imaginar que 28 pessoas inventassem independentemente o nome de um teste estatístico”, argumenta Filion. “É por isso que ficamos muito chocados”.

Uma rápida busca na internet revela serviços que oferecem, por uma taxa, organizar a autoria de trabalhos a serem publicados em veículos revisados por pares. Eles parecem atender a pesquisadores que procuram uma maneira rápida [e desonesta] para serem publicados em um periódico científico de prestígio internacional.

Em novembro, a Scientific American pediu a um repórter que fala mandarim, a língua oficial da China, que contatasse a MedChina, que oferece dezenas de contratos/acordos de “temas científicos para venda” e “transferência de artigos” para publicações científicas.

Posando como uma pessoa interessada em comprar uma autoria científica, o repórter conversou com um representante da entidade, que lhe explicou que os artigos já estavam mais ou menos aceitos para publicação em periódicos especializados revisados por pares. Aparentemente, tudo o que precisava ser feito era um pouco de trabalho de edição e revisão.

O preço, por sua vez, dependia, em parte, do fator de impacto da publicação-alvo e de se o artigo era experimental ou metanalítico.

Nesse caso, o representante da MedChina ofereceu a autoria de uma metanálise que associava uma proteína ao câncer de tireóide papilar destinada a ser publicada em um periódico com fator de impacto de 3,353. O custo: 93 mil renmimbis (RMB, a moeda oficial da China) equivalentes a cerca de US$ 15 mil.

O veículo mais provável pretendido para o artigo mediado pela MedChina é a publicação Clinical Endocrinology; um de cinco periódicos científicos com fator de impacto de 3,353 e o mais próximo do assunto descrito.

“Obviamente, essa é uma questão de grande preocupação”, admite John Bevan, um editor sênior da publicação. “Estou alarmado ao pensar que isso está acontecendo e inundando o mercado”.

Aproximadamente duas semanas depois de ter sido contatado pela Scientific American,  Bevan confirmou que um artigo de aspecto suspeito sobre biomarcadores para câncer de tireóide papilar, que teve o acréscimo de um autor durante o processo de revisões, foi identificado e rejeitado.

Grande parte do financiamento para esses trabalhos suspeitos vem do governo chinês.

Dos primeiros 100 artigos identificados pela Scientific American, 24 haviam recebido financiamento da Fundação Nacional de Ciência Natural da China (NSFC, na sigla em inglês), uma agência governamental de financiamento equivalente a Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos. Outros 17 reconheceram que obtiveram subvenções de outras fontes do governo.

Yang Wei, presidente da NSFC, confirmou que os 24 trabalhos suspeitos identificados pela Scientific American foram posteriormente encaminhados ao Birô de Disciplina, Inspeção, Supervisão e Auditoria da Fundação (pdf), que investiga várias centenas de alegações de má conduta a cada ano.

“Dezenas de ações disciplinares têm sido tomadas pela NSFC anualmente por má conduta em pesquisas, embora casos de ghostwriting (artigos assinados por “escritores-fantasmas”, em tradução literal) sejam menos comuns”, informou Yang por e-mail.

No ano passado, uma das ações disciplinares da entidade envolveu um cientista que comprou uma proposta de financiamento de um site na internet. Yang salienta que a NSFC toma medidas para combater má conduta, o que inclui a recente instalação de uma “verificação de similaridade” para detectar possíveis plágios em propostas para financiamentos.

(No ano em que o sistema entrou on-line a verificação encontrou várias centenas de casos de “similaridades consideráveis” em um total de cerca de 150 mil solicitações de verbas, informou Yang.) Mas quando se trata de “fábricas de artigos acadêmicos não temos muita experiência e certamente ficaremos felizes em ouvir suas sugestões”, admitiu ele.

Alguns editores só estão se inteirando agora do problema das “fábricas de artigos” chinesas.

“Eu não estava ciente de que havia um mercado para autorias por aí”, reconhece Jigisha Patel, diretor editorial associado da BioMed Central para integridade de pesquisa. Agora que a editora de publicações científicas (de propriedade da Springer e publicadora da Diagnostic Pathology) foi alertada para o problema, “podemos investigar isso e lidar com isso”, garante Patel.

Duas semanas após ter sido contatada pela Scientific American, a BioMed Central anunciou que havia identificado cerca de 50 manuscritos que tinham sido avaliados por pares revisores falsos. A editora declarou ao Retraction Watch blog [um blog que monitora retratações acadêmicas] que “uma terceira parte pode estar envolvida, e influenciando o processo de revisão por pares”. É possível que esses manuscritos tenham vindo de fábricas de artigos.

Scientific American conseguiu verificar os títulos e autores de cerca de meia dúzia deles. Todos parecem muito similares em estilo e assunto a outras metanálises escritas por fábricas de artigos, e todos eram de grupos de autores chineses.

Outras editoras começaram a combater o fluxo de materiais duvidosos.

Damian Pattinson, diretor editorial da PLoS ONE, informa que a publicação instituiu salvaguardas em abril passado. “Toda metanálise que recebemos tem que passar por uma verificação editorial específica... “que força autores a fornecerem informações adicionais, inclusive uma justificativa do porquê eles realizaram o estudo, em primeiro lugar”, explica.

“Como resultado disso, a proporção de artigos que de fato são encaminhados a revisores caiu cerca de 90%. Portanto, estamos muito cientes desse problema”.

Ainda assim, a lista compilada pela Scientific American contém quatro artigos suspeitos que foram publicados em PLoS ONE depois que as salvaguardas foram instituídas, e a autoria de um próximo artigo da PLoS ONE foi colocada à venda pela MedChina, enquanto o material estava sendo escrito.

Quando perguntamos a Pattinson sobre esses artigos, ele respondeu: “Corrigiremos e retrataremos artigos se houver qualquer indicação de má conduta. A questão é um problema, do qual estamos muito cientes”.

A BMC, Public Library of Science e outras editoras utilizam software de verificação de plágio para tentar reduzir fraudes. Mas software nem sempre resolve esse problema em particular em publicações científicas, adverte Patel, acrescentando: “fábricas de artigos acrescem mais uma camada de complexidade ao problema. Isso é muito preocupante”.

No momento, editoras estão travando uma batalha contra a corrente, muito difícil. “Sem informação privilegiada (de insiders) é muito difícil policiar isso”, queixa-se John Bevan da Clinical Endocrinology.

A publicação e sua editora, a Wiley, estão tentando fechar brechas no processo editorial para detectar mudanças tardias suspeitas em autorias e outras irregularidades. “É preciso aceitar que pessoas estão submetendo trabalhos em boa fé e honestidade”, argumenta Bevan.

Essa é, de fato, a ameaça essencial.

Agora que várias empresas descobriram como ganhar dinheiro em cima da má conduta científica, essa suposição de honestidade está correndo o risco de se tornar um anacronismo.

“Todo o sistema de revisão por pares funciona na base da confiança”, salienta Damian Pattinson, e acrescenta que, se é questionada, o sistema tem dificuldade para lidar com isso.

“Temos um problema aqui”, admite Guillaume Filion. Ele acredita que o dilúvio está apenas começando. “Há tanta pressão e tanto dinheiro em jogo que veremos todos os tipos de excessos no futuro”.

Reportagem adicional por Paris Liu.

A lista citada da Scientific American contém 100 artigos publicados que parecem ter as características de ciência do tipo “preencha as lacunas”.

A inclusão nela não implica que qualquer dado trabalho tenha sido escrito por uma fábrica de artigos, nem implica que seja definitivamente um plágio. Mas, em vista do padrão de redação e das similaridades desses materiais com outros publicados previamente, acreditamos que eles são dignos de escrutínio por seus editores. >>Ver a lista [em inglês].

Há muito mais artigos suspeitos por aí; e muitos mais são publicados todos os dias. Esses simplesmente são os 100 primeiros que encontramos.

Leituras adicionais (em inglês):

Filion, Guillaume. "A flurry of copycats on PubMed."

Oransky, Ivan. "Publisher discovers 50 manuscripts involving fake peer reviewers."

Ioannidis J.P.A., Chang C. Q., Lam T. K., Schully S. D., Khoury M. J. "The Geometric Increase in Meta-Analyses from China in the Genomic Era.PLoS ONE 8(6): e65602. doi:10.1371/journal.pone.0065602

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Chimpanzés são capazes de cozinhar, diz pesquisa de Harvard


Primatas, no entanto, não controlam fogo e acham que, se esperarem, outro animal roubará sua comida; estudo dá novas pistas sobre evolução do ser humano.

Pallab GhoshRepórter de ciência da BBC News
 Pesquisa avaliou, entre outras coisas, se chimpanzés preferiam comida cozida à crua  (Foto: BBC)Pesquisa avaliou, entre outras coisas, se chimpanzés preferiam comida cozida à crua (Foto: BBC)
Uma pesquisa da Universidade de Harvard afirma que chimpanzés possuem a maior parte das habilidades necessárias para cozinhar.
Isso sugere que a habilidade de cozinhar pode ter aparecido em ancestrais dos humanos há milhões de anos.
A conclusão também indica que humanos podem ter desenvolvido a habilidade de cozinhar logo depois de aprender a controlar o fogo.
O estudo foi divulgado em uma publicação científica da Royal Society.
Por mais surpreendente que isso pareça, até cozinhar um ovo requer habilidades mentais avançadas. Enquanto outros animais tendem a começar a comer qualquer comida que encontrem ou cacem imediatamente, humanos podem armazenar e cozinhar sua comida mesmo quando estão com fome, porque sabem que, se esperarem, comerão algo muito melhor.
Aparentemente, nossa habilidade de ficar com água na boca com a perspectiva de uma refeição deliciosa e bem preparada requer uma dose de imaginação similar a de produzir arte, desenvolver linguagem e criar tecnologias que nos fazem unicamente humanos.
Masterchef símio
E quando desenvolvemos essa habilidade pela primeira vez? Para descobrir, Felix Warneken, da Universidade de Harvard, conduziu um "Masterchef" (conhecido programa de TV em que três chefs competem entre si) de símios em que fez uma séries de testes com chimpanzés para ver se eles tinham a capacidade de cozinhar.
Obviamente, chimpanzés não sabem cozinhar. Ou seja, não fazia sentido dar a eles uma sacola cheias de compras e jogá-los em uma cozinha com panelas - apesar de a ideia soar interessante.
 Animação gráfica mostra homem pré-histórico; descoberta do fogo teria permitido que homem começasse a cozinhar imediatamente  (Foto: Thinkstock)Animação gráfica mostra homem pré-histórico; descoberta do fogo teria permitido que homem começasse a cozinhar imediatamente (Foto: Thinkstock)
Em vez disso, Warneken fez uma série de experimentos para testar as habilidades cognitivas individuais que os chimpanzés precisavam para poder cozinhar. Ele analisou se eles preferiam comida cozinha a crua, se eles conseguiam esperar até a comida ser feita e se eles depositavam sua comida crua em uma caixa que os cientistas trocavam por comida cozida.
Eles foram aprovados em todos os testes.
Mas então por que os chimpanzés não cozinham? Não conseguir controlar o fogo é uma das razões. Segundo Warneken, outro motivo é que cozinhar requer o que ele descreve como "habilidades sociais" que chimpanzés não têm.
Ao falar em habilidades sociais, ele não se refere a boas maneiras à mesa ou à falta de jogo de cintura para conversar em um jantar. Ele se refere à incapacidade dos símios em confiar que outros membros de seu grupo social não roubarão a comida enquanto eles estão se preparando para levá-la ao fogo.
Engolir uma comida assim que você a obtém é a forma mais fácil de mantê-la a salvo.
De acordo com Warneken, esses experimentos mostram que a maioria das habilidades mentais necessárias para cozinhar estavam nos ancestrais dos seres humanos há cerca de 5 a 7 milhões de anos, então tudo que foi necessário para que a culinária surgisse foi a capacidade de controlar o fogo e a habilidade de acreditar que outras pessoas não iriam roubar comida assim que virássemos de costas.
"Confiança foi um fator importante para que cozinhar se tornasse uma prática em um grupo social."
O objetivo do estudo era investigar uma teoria controversa que afirma que cozinhar ajudou o cérebro humano a crescer. A ideia, do primatologista Richard Wrangham, também de Harvard, é que cozinhar permitiu que nossos ancestrais consumissem mais proteínas, o que os ajudou a desenvolver seus cérebros.
Os resultados indicam que os primeiros humanos tinham tudo para poder cozinhar quando aprenderam a controlar o fogo e dessa forma, segundo Warneken, sustentam as ideias de Wrangham.
"Para essa hipótese funcionar, os humanos teriam que ter adotado a prática de cozinhar bem cedo em sua evolução", disse ele.
Especialistas em evolução humana dizem que acharam interessante o fato de chimpanzés e humanos compartilharem diversas habilidades psicológicas essenciais para cozinhar, mas acreditam que o estudo não acrescenta novas informações à história humana.
Digestão
"Cozinhar foi um marco importante para os humanos em termos de fazer a carne ser mais facilmente digerida e neutralizar patologias e toxinas", diz Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres.
"Também foi importante por seu papel social, mas a maior prova da capacidade humana de fazer fogo só aparece nos últimos 400 mil anos."
O professor do University College London Fred Spoor, que estuda evolução humana, disse que o ser humano só começou a cozinhar há cerca de 300 mil ou 400 mil anos.
"Isso é tarde se você considerar os 7 milhões de anos da evolução humana. Falando francamente, quem se importa com o fato de os primeiros seres humanos terem gostado da ideia de comida cozida? Talvez eles gostassem de comer carcaças de animais naturalmente cozidas se eles tivessem ficado presos em um incêndio na savana, mas isso não é cozinhar."
E quanto à ideia de que cozinhar levou a cérebros maiores?
"Cérebros significativamente maiores surgiram há cerca de 1,5 milhão de anos, e o maior salto foi há cerca de 500 mil anos", diz Spoor.
"Dessa forma, comer carne provavelmente tornou isso possível, mas ainda não se sabe se cozinhar teve um papel há 1,5 milhão de anos, porque há poucas ou nenhuma prova disso atualmente."

segunda-feira, 23 de março de 2015

Por que o olho humano tem uma configuração “errada”

More 65mm Wankery
Até recentemente, os cientistas achavam que a configuração do olho humano não fazia sentido: era como se as células da retina estivessem do “lado errado”, com a luz viajando através de uma massa de neurônios antes de atingir as células de detecção de luz.
Uma nova pesquisa descobriu que esta estrutura intrigante, embora pareça ineficiente à primeira vista, tem uma função de aumento de visão notável.
  • A estrutura
A retina é a parte sensível à luz do olho, que reveste o interior do globo ocular. A parte de trás da retina contém cones para a percepção das cores vermelha, verde e azul. Espalhados entre os cones estão os bastonetes, que são muito mais sensíveis à luz do que os cones, mas que são daltônicos.
Antes de chegar aos cones e bastonetes, a luz deve atravessar toda a espessura da retina, com suas camadas de neurônios e núcleos celulares. Esses neurônios processam a informação da imagem e a transmitem para o cérebro, mas até recentemente não estava claro por que essas células se encontravam na frente dos cones e bastonetes, e não atrás delas.
  • Este é um quebra-cabeça de longa data, uma vez que essa mesma estrutura, de neurônios antes de detectores de luz, existe em todos os vertebrados, mostrando estabilidade evolutiva.

O papel dessas células

Pesquisadores alemães descobriram que as células gliais, que também abrangem a profundidade da retina e se conectam aos cones, tem um atributo interessante. Estas células são essenciais para o metabolismo, mas também são mais densas do que as outras células da retina. Na retina transparente, esta densidade mais elevada (e índice de refração correspondente) significa que as células da glia podem guiar a luz, assim como cabos de fibra óptica.
  • Em vista disso, cientistas do Instituto de Tecnologia de Israel construíram um modelo da retina, e mostraram que as células gliais ajudam a aumentar a clareza da visão humana.
Eles também notaram que as cores que melhor passaram pelas células gliais são o verde e vermelho, que o olho precisa mais para a visão diurna. O olho normalmente recebe muito azul e, portanto, tem menos cones sensíveis a essa cor.

A prova experimental

O resultado surpreendente da simulação precisava de uma prova experimental. Assim, colegas da Escola de Medicina Technion, do Instituto de Tecnologia de Israel, testaram como a luz atravessa as retinas de porquinhos-da-índia. Como seres humanos, esses animais são ativos durante o dia e sua estrutura de retina tem sido bem caracterizada.
  • O resultado foi fácil de notar: em cada camada da retina, a luz não era espalhada uniformemente, mas concentrada em alguns pontos. Estes pontos eram continuados de camada para camada, criando assim colunas alongadas de luz, conduzida da entrada da retina até os cones na camada de detecção.
A luz foi concentrada nestas colunas até dez vezes em comparação com a intensidade média.
Ainda mais interessante foi o fato de que as cores que foram melhor guiadas pelas células gliais emparelharam muito bem com as cores dos cones. Os cones não são tão sensíveis quanto os bastonetes, de forma que a luz adicional permitiu-lhes funcionar melhor – mesmo sob níveis baixos de luz. Enquanto isso, a luz mais azul, que não foi bem capturada nas células gliais, era espalhada pelos bastonetes na sua vizinhança.

Sendo assim…

As descobertas significam que a retina foi otimizada para que os tamanhos e densidades de células gliais “se encaixem” com as cores que o olho humano é sensível. Essa otimização é tal que a visão de cores durante o dia é reforçada, enquanto a visão da noite não é prejudicada.
O efeito também funciona melhor quando a pupila é contraída em alta iluminação, aumentando ainda mais a clareza da nossa visão. [Science20]