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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pesquisa de sangue oculto nas fezes e correlação com alterações nas colonoscopias



Faecal occult blood test and it's correlation with colonoscopic results


Francisco Luis AltenburgI; Maria de Lourdes Pessole Biondo-SimõesII; Aline SantiagoIII
IMembro Titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, Mestrando em Cirurgia na Universidade Católica do Paraná, Curitiba, Paraná. Preceptor de Residência Médica em Cirurgia Geral e Coloproctologia do Hospital Municipal São José e Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, Joinville, Santa Catarina
IIDoutora em Técnicas Operatórias e Cirurgia Experimental, Mestre em Morfologia , Professora Titular Da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Professora Adjunta da Universidade Federal do Paraná
IIIResidente de Coloproctolgia do Hospital Municipal São José, Joinville, Santa Catarina



RESUMO
INTRODUÇÃO: Diante do número significativo de casos de câncer colo-retal métodos de rastreamento tornam-se necessários. A pesquisa de sangue oculto (PSO) e tida como apropriada para grandes populações consideradas de baixo risco..
OBJETIVO: Determinar a incidência de lesões neoplásicas ou pré-neoplásicas em pacientes com PSO positivos ou negativos, e correlacionar com os achados da colonoscopia.
MÉTODOS: 67 pacientes foram submetidos à colonoscopia e PSO. As indicações para os exames foram: dor abdominal, alteração do hábito intestinal, e história familiar de câncer colo-retal.
RESULTADOS: 37 pacientes tinham PSO negativa e 30 PSO positiva. Vinte e duas colonoscopias foram normais. As colonoscopias revelaram : pólipos, retocolite ulcerativa, doença diverticular e um tumor. A sensibilidade foi de 46,7%, especificidade de 59,1%, valor preditivo positivo de 70% e negativo de 35,1%. Considerando apenas as lesões malignas ou com potencial , a sensibilidade foi de 76,5%, a especificidade de 66%, o valor preditivo positivo de 43,3% e o negativo de 89,2%.
CONCLUSÕES: Há necessidade de rastreamento a partir dos 40 anos. A pesquisa de sangue oculto nas fezes, pelo seu baixo custo e caráter não invasivo, apesar da baixa sensibilidade e especificidade, é um bom método para rastreamento de populações consideradas de baixo risco.
Descritores: sangue oculto, neoplasia colorretais, colonoscopia, prevenção secundária, pólipos intestinais.

ABSTRACT
Methods of screening of colorectal cancer are necessaries, because the increasing number of new cases. The faecal occult test(fobt) is considered good for populations with low risk. The goal of this paper is to determine the incidence of neoplasic or pre neoplasic lesions in patients with fobt positive or negatives and correlate with the results of the colonoscopies. Sixtie seven patients were submited to colonocopies and fobt.the main indications were abddominal pain, familial history of cancer and modification of bowel habits. Thirty seven patients had negatives fobt and thirty positives.twenty two colonoscopies were normal. Others findings were polyps, ulcerative colitis, diverticular disease and one tumor. Sensitivity was 46.7% and specificity 59.1%. Positive predictive values were 70% and negative 35.1%. Considering only malignant or pre malignant lesions the sensitivity was 76.5% and specificity 66%, positive predictive values were 43.3% and negative 89.2%. In conclusion the faecal occult blood test for his low cost and non invasive is a good method of screening after forty years of age.
Key words: occult blood, intestinal neoplasm, intestinal polyps, secondary prevention, colonoscopy.



INTRODUÇÃO
O câncer colo-retal é o quinto câncer mais diagnosticado no Brasil, e no sudeste do país ocupa o segundo lugar sendo a quarta causa mais importante de mortes por câncer no país1.
É o quarto mais freqüente no mundo e o segundo nos países desenvolvidos. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) relatou, no ano de 2006, incidência de câncer colo-retal de 12,36 novos casos para cada 100.000 homens, e de 14,73 para cada 100.000 mulheres. Este número foi diferente nas regiões e estados brasileiros. Mostrou-se baixo na região norte, especialmente no estado do Amapá, onde a incidência foi de 0,95 casos para cada 100.000 homens e 1,38 para cada 100.000 mulheres. Apareceu como o terceiro mais freqüente na região sul. O estado do Rio Grande do Sul foi o que apresentou a maior incidência brasileira com 27,68 novos casos para cada 100.000 homens e 28,07 para cada 100.000 mulheres2.
Os sintomas do câncer colo-retal, na maioria dos pacientes, surgem quando a doença está avançada, demandando maiores custos de tratamento e altas taxas de morbidade e mortalidade. Considerando a crescente incidência desta doença, o diagnóstico precoce dela e mesmo de doenças predisponentes se torna importante. Programas de detecção são caros e limitantes para o sistema de saúde do Brasil.
A Sociedade Brasileira de Coloproctologia juntamente com o Instituto Nacional de Câncer, o Colégio Brasileiro dos Cirurgiões e outras sociedades médicas recomendam que indivíduos de baixo risco, a partir de 50 anos, realizem, anualmente, a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a retossigmoidoscopia, repetindo-a a cada cinco anos. A partir dos 60 anos, está indicada a colonoscopia ou o enema opaco a cada 10 anos1. A Sociedade Americana de Coloproctologia, no entanto, recomenda iniciar o rastreamento a partir dos 40 anos e a colonoscopia a partir dos 50 anos3. A pesquisa de sangue oculto positiva, implica na realização de colonoscopia.
A população de maior risco inclui indivíduos maiores de 50 anos, com história pessoal ou familiar de pólipos e/ou câncer de intestino, retocolite ulcerativa, doença de Crohn e câncer de mama, ovário ou útero. Este grupo deve iniciar o rastreamento aos 40 anos, incluindo a colonoscopia1.
A pesquisa de sangue oculto (PSO) nas fezes surgiu como alternativa para o rastreamento do câncer colo-retal em pacientes sem fatores de risco. Este teste se sustenta no princípio de que os carcinomas do cólon sangram e que esta hemorragia oculta pode ser identificada pela PSO, que é um exame facilmente disponível. A pesquisa de sangue oculto consiste na identificação de hemoglobina nas fezes, podendo ser realizado pelos métodos: teste da o-tolidina (tradicional) e o teste imunológico, que detectam especificamente a hemoglobina humana4.
O teste da o-tolidina ou guaiaco foi desenvolvido por Van Deen, em 1864, e utilizado por Boas, em 1901, para pesquisa de sangramento gástrico. Passou a ser utilizado, em 1967, para monitoramento doméstico de sangue oculto nas fezes5. Baseia-se na atividade pseudoperoxidase que a porção da hemoglobina exerce, causando a oxidação de um composto fenólico (ácido alfa-guaiacônico) pela ação do peróxido de hidrogênio da solução de desenvolvimento, formando uma estrutura quinona. Esta reação química torna-se visível pelo aparecimento da cor azul ou azul esverdeada, dentro de 30 segundos, se sangue estiver presente nas fezes6.
No Brasil, muitos laboratórios utilizam o reativo de Meyer para o processo descrito acima. Esta mistura, quando adicionada de água oxigenada, adquire coloração avermelhada na presença de hemoglobina. As diferentes variações da coloração avermelhada são classificadas em positivas de uma a quatro cruzes.
Apesar da introdução da aglutinação de látex imunoquímico por Adams et al., em 1974, da imunodifusão radial simples por Songster et al., em 1980 e da hemaglutinação passiva reversa por Solto et al. em 1984, que levaram a métodos mais sensíveis para detectar baixas concentrações de hemoglobina humana nas fezes, o método permanece deficiente e sofre várias influências. A utilização de certos alimentos, drogas, vitaminas e outras substâncias antes e durante o período de coleta da amostra alteram o resultado podendo fornecer resultado falso positivo ou falso negativo, necessitando que o paciente faça dieta específica por 3 a 4 dias antes de realizar o teste5,6.
Estudos mostram que os resultados do teste são positivos somente em cerca de 50 a 65% dos pacientes com câncer colo-retal e em 25 a 40% em pacientes com pólipos5,7.
O teste imunológico ou teste de imunocromatografia de captura, desenvolvido em 1995, utiliza anticorpos monoclonais e policlonais para possibilitar a detecção de amostras com níveis tão baixos quanto 0,05 ul/ml em 5 minutos. Esta reação imunológica elimina a necessidade de dieta alimentar antes da coleta, assim como as interferências de hemoglobinas de outras espécies, realidades para os testes utilizando guáiaco6. A coleta da amostra não deve ser realizada durante ou dentro de três dias de um período menstrual, nem em paciente com queixa de hematoquezia ou com hematuria. Nestas situações os resultados do teste podem ser falso-positivos. Pacientes em uso de aspirina ou álcool devem suspender o uso uma semana antes da realização do exame5. Os testes imunológicos, por não necessitarem de dieta prévia e serem específicos para a hemoglobina humana, são citados na literatura como os de melhor sensibilidade (75%) e especificidade (40 a 50%)8.
Woo et al. empregando o teste imunoquímico para a pesquisa de sangue oculto, encontraram sensibilidade de 58,3%, especificidade de 76,3% e valor preditivo positivo de 27,9%, para o câncer colo-retal e ademonas9.
Levi et al. fizeram um estudo comparando a pesquisa feita com guáiaco e com a imunoquímica. A sensibilidade do guáiaco foi de 75% e o mesmo para a imunoquímica. A especificidade do teste feito com o guáiaco foi de 34% e a com a imunoquímica foi de 94%. O valor preditivo positivo do guáiaco foi de 12% contra 60% com o teste feito pela imunoquímica10.
Vê-se, portanto que existem discordâncias quanto ao poder de rastreamento destes testes. Além disso, segundo Morikawa et al. a sensibilidade não só é baixa como é diferente conforme a localização da lesão, quanto mais distal mais elevada e quanto mais proximal mais baixa11.
No nosso país, tanto o Ministério da Saúde quanto o Instituto Nacional do Câncer têm preconizado o rastreamento das populações com mais de 50 anos com o uso da pesquisa de sangue oculto, ficando a busca endoscópica limitada aos pacientes com sangue positivo2. A busca ativa endoscópica, preconizada acima dos 50 anos, por ter custo mais elevado, acaba sendo privilégio de minorias.

OBJETIVO
Avaliar a incidência de lesões neoplásicas e pré neoplásicas em pacientes com PSO positiva ou negativa, e em pacientes sintomáticos submetidos à colonoscopia.

MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal no qual se analisam os resultados de colonoscopia e de pesquisa de sangue oculto em pacientes sintomáticos. Foram incluídos no estudo 67 pacientes com indicação de colonoscopia, de janeiro de 2006 a abril de 2007. Eram 43 mulheres e 24 homens com média de idade de 52 e 53 anos respectivamente. O paciente mais jovem tinha 23 anos e o mais velho 81 anos. Nenhum paciente tinha realizado este exame anteriormente e todos foram realizados por um único examinador. Foram analisados os pacientes, as indicações clínicas dos exames , o resultados das colonoscopias e a relação dos achados de lesões neoplásicas e pré neoplásicas com a PSO.
Os resultados, forneceram a sensibilidade, a especificidade, o valor preditivo positivo e o valor preditivo negativo, com intervalo de confiança de 95%.

RESULTADOS
A pesquisa de sangue oculto revelou-se negativa em 37 pacientes e positiva em 30 deles.
As indicações para as colonoscopias foram: dor abdominal, alterações do hábito intestinal (diarréia ou constipação), familiares de primeiro grau com antecedentes de câncer colo-retal, história de sangramento anterior ou a combinação destes sintomas. Todos os pacientes realizaram previamente a pesquisa para sangue oculto pelo método imunológico.
Todas as colonoscopias alcançaram o ceco(23) ou o íleo(44)? Vinte e duas colonoscopias foram normais (31,83%) e 45 colonoscopias positivas (68,17%). Os diagnósticos foram: pólipos, doença diverticular, pólipos associados à doença diverticular, retocolite ulcerativa, tumores e outras. A relação de pólipos, retocolite e tumores com a PSO positiva ou negativa está listada na tabela 1.
Foram encontrados pólipos em 27 pacientes (40,30%). Onze deles em pacientes com PSO positiva (59,26%)e 16 (40,74%) em pacientes com PSO negativa.. Além de pólipos foi encontrado um tumor( adenocarcinoma) de ceco e quatro pacientes com retocolite ulcerativa.
A sensibilidade da PSO neste estudo foi de 46,7% (Intervalo de confiança de 32,1% a 61, 2% com IC de 95%), a especificidade de 59,1% ( Intervalo de confiança de 38,5% a 79,6% com IC de 95%), a acurácia de 50,7% (Intervalo de confiança de 38,8% a 62,7% com IC de 95%), valor preditivo positivo de 70% (Intervalo de confiança de 53,6% a 86,4% com IC de 95%) e valor preditivo negativo de 35,1% (Intervalo de confiança de 19,8% a 50,5% com IC de 95%) (Tabela 2).


Das 27 colonoscopias com polipectomia, 12 revelaram-se no exame anátomo-patológico como adenomas tubulares ou túbulo-vilosos, e as 15 restantes como pólipos inflamatórios ou hiperplásticos. Houve ainda quatro retocolites ulcerativas e um tumor. Considerando-se colonoscopias positivas as que revelaram adenoma e/ou adenocarcinoma e retocolite ulcerativas, a relação com a PSO positiva, a sensibilidade se eleva para 76,5% (IC 95%, 56,3 a 96,6), a especificidade para 66% (IC 95%, 52,9 a 79,1), o valor preditivo positivo para 43,3% (IC 95%, 25,6% a 61,1%) e valor preditivo negativo de 89,2% (IC 95%, 79,2 a 99,2) (Tabela 3).


DISCUSSÃO
O câncer colo-retal tem mostrado uma curva ascendente de incidência, nos países desenvolvidos. No Brasil este perfil se repete, basta observar que enquanto na região norte ocupa o quinto lugar nas causas de mortalidade, na região sudeste e na sul ocupa respectivamente a segunda e a terceira colocações2.
Quase a totalidade dos doentes busca atendimento quando já apresenta sintomas. Sabe-se que esta classe de tumores tem desenvolvimento silencioso, com sintomas apenas nas fases avançadas da doença, quando o tratamento radical nem sempre é possível, acarretando altas taxas de morbi-mortalidade.
Estudos realizados, em países desenvolvidos têm mostrado que o rastreamento de tumores, permite a detecção precoce deles e a diminuição da taxa de mortalidade. Assim nos Estados Unidos a redução da mortalidade foi de 14,5 para 9,1 para 100.000 habitantes1.
Estudos recentes têm utilizado a pesquisa de sangue oculto nas fezes como forma de screening e acompanhamento de pacientes sem fatores de risco para câncer colo-retal3,7,9. Os fatos demonstram que o exame anual de pesquisa de sangue oculto nas fezes pode diminuir em até 16% a mortalidade por câncer colo-retal12.
Apesar do exame com o guáiaco sofrer influência de fatores como a dieta e o uso de medicações, permanece como um método acessível, barato, não invasivo e sem diferenças significativas em relação à especificidade, quando comparado ao teste imunológico. As alterações de sensibilidade do método são devido ao aumento do número de falsos positivos12. Estes falsos positivos implicam em exames dispendiosos ao sistema de saúde, porém não diminuem as possibilidades do diagnóstico precoce de câncer (o que acontece com falsos negativos), porém o custo não é proibitivo e deve ser estimulado como exame de rastreamento. Neste estudo a pesquisa de sangue oculto foi realizada pelo método imunoquímico. Portanto não sofrendo influência do tipo de dieta.
Todos os 17 pacientes com lesões malignas ou com potencial para malignidade, deste estudo, apresentavam idade acima dos 40 anos. Dois deles abaixo dos 50 anos. Estes dados reforçam as orientações da literatura para que o rastreamento se faça a partir dos 40 anos1,3.
No grupo de pacientes com PSO positiva, apenas 7 pacientes eram assintomáticos, sendo que 72% destes pacientes apresentaram alterações nas colonoscopias. Quando avaliados os pacientes sintomáticos, constatou-se que 73% apresentavam alterações nos exames de colonoscopia e a queixa mais prevalente foi a dor ou o desconforto abdominal.
Os pacientes com PSO negativa com colonoscopia normal foram 33%. A presença de pólipos representou o maior número de alterações encontradas nos exames(14 pacientes). A doença diverticular também foi representativa com 11 pacientes, ou seja 33% das alterações encontradas.
Os pacientes que apresentaram pólipos foram re-avaliados em busca de queixas, e constatou-se que do grupo de pacientes com PSO positiva, apenas um era assintomático, dois tinham antecedentes familiares de câncer e os outros queixas de sangramento baixo, dor abdominal e/ou anemia. Os pacientes com pólipos, com PSO negativa tiveram como principal queixa a dor abdominal, e dois pacientes tinham antecedentes familiares de câncer colo-retal.
Existem vários meios de se fazer o rastreamento do câncer colo-retal e das doenças predisponentes. O enema opaco pode ser utilizado. É descrito com sensibilidade de 50 a 75% e especificidade de 80 a 85%. Entretanto, a sensibilidade diminui sensivelmente quando as lesões são menores do que um centímetro13. A tomografia computadorizada colonográfica tem sensibilidade de 90%, porém também para esta modalidade de exame existe a dificuldade para a visualização de lesões menores do que um centímetro14.
A literatura mostra a pesquisa de sangue oculto com sensibilidade que varia entre 45 e 75%, especificidade de 35 a 94% e valores preditivos positivos entre 28 e 60%9-11. Neste estudo observou-se sensibilidade de 46,7%, especificidade de 59,1%, valor preditivo positivo de 70% e negativo de 35,1%. Se entretanto, se considerar apenas as lesões neoplásicas ou com potencialidade para tal a sensibilidade atinge 76,5%. Estes dados demonstram que é possível identificar verdadeiros positivos em 76,5% dos examinados, e que a chance de um paciente com PSO positiva apresentar algum tipo de lesão com ou sem potencial para malignidade chega a 70%. Estes dados justificam seu uso em populações de baixo risco.
Embora a colonoscopia seja o exame padrão-ouro para o diagnóstico, considerando o baixo custo da pesquisa de sangue oculto nas fezes e o fato do exame não ser invasivo, este método pode ser tido como bom para o rastreamento do câncer colo-retal14,15.
O uso da PSO em indicações absolutas da colonoscopia é desnecessário, como por exemplo em pacientes com sangramento intermitente nos quais as doenças orificiais estejam ausentes, ou pacientes com antecedentes familiares de primeiro grau com câncer colo-retal, porém a PSO pode ser solicitada como exame preventivo a partir de 40 anos em pacientes assintomáticos e sem risco para o câncer colo-retal, ou mesmo em populações aonde o exame da colonoscopia é inviável.

CONCLUSÃO
A pesquisa de sangue oculto nas fezes, pelo seu baixo custo e caráter não invasivo, apesar da baixa sensibilidade e especificidade, é um bom método para rastreamento de populações consideradas de baixo risco.

REFERÊNCIAS
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 Endereço para correspondência:
Francisco Luis Altenburg
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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Concurso público: “estudar para aprovar” e “estudar para saber”‏

Ao iludir nossa capacidade para perceber o gigantesco abismo que há entre estudar para saber e estudar para aprovar, acabamos por olvidar que nada do que é realmente importante se aprende em pouco tempo, de forma passiva, rápida, “mastigada” e com impaciência.
“Lo que un hombre puede ser, debe serlo”. (A. H. Maslow)
Estudar é, sem lugar a dúvidas, um processo que implica grande esforço mental. Requer uma atividade cerebral custosa em tempo e também em consumo de energia, e a energia é um recurso limitado. Não se produz de forma automática, senão que exige atenção, motivação, determinação e empenho intelectual: pensar resulta caro. Por outro lado, a relevância atribuída à informação que se quer aprender é crucial. Tanto assim que quanto maiores são as exigências cognitivas derivadas da necessidade de aprender alguma informação, maior parece ser sua importância e dificuldade.
Daí que nos habituamos à (arraigada e entranhada) suposição de que uma informação relevante e difícil só pode ser adequadamente compreendida e assimilada quando é ensinada e/ou vem reforçada por alguma autoridade social. Um claro exemplo é o prestígio dos cursinhos preparatórios para concursos, cujo método básico e central de ensino (e na maioria das vezes único para a “transmissão do saber”), em uma época em que a virtude do esforço pessoal está lamentavelmente em declive, são as chamadas “aulas magistrais”.
Toda uma indústria que, com seus ideólogos, gurus, predicadores e defensores, parece destinada a magnificar, reafirmando nossa credulidade e manipulando nossas esperanças, a supersticiosa e perversa crença de que aprender consiste, fundamentalmente, em “tragar-se” os conhecimentos transmitidos pelo professor, a aceitar sem discussão as opiniões alheias, a pensar sem fatiga com a cabeça dos demais. Com razão disse Delgado Ocando sobre esse tipo de prática docente: “Al método catedrático [de tipo magistral] corresponde...la repetición papagayesca de lo que se dijo en la Cátedra. Pruebas de sentido crítico, de originalidad de pensamiento, de esfuerzo personal, de prontitud para resolver cuestiones nuevas...no se pueden exigir a quien durante mucho tiempo ha estado habituado a un tipo de formación precaria y deficiente, a un sistema de enseñanza memorístico y repetitivo”. (E. P. Haba) A regra é simples: quanto mais, melhor.

Provavelmente para muitos isso não constitua nenhum problema. Para quê, podemos perguntar, se o objetivo é memorizar, absorver ou engolir (sem mastigar e sem digerir) a maior quantidade de informação possível? Pois bem, as condições alienantes a que conduz este sistema já foram denunciadas desde muito tempo atrás. Nos encontramos aqui com uma mostra inequívoca do modelo de “educação bancária” a que tão atinadamente criticava Paulo Freire. Mas não somente isso: essa prática de ensino tem algo não só profundamente anti-pedagógico, senão também imoral, vicioso e alienante. Não se reconhece aqui – e o que é pior, se potencia e incentiva - a enorme distância que há entre estudar para saber e estudar para aprovar.
O que queremos dizer é que, em nossa opinião, o problema que produz as mais graves consequências é o descaso ou ignorância da extraordinária diferença que existe entre estas duas formas de estudar e que constitui a principal causa das misérias que permitem a subsistência de cursinhos que, despreocupados com o aprendizado significativo, parecem mais interessados pela (e dedicados à) aprovação: todo um conjunto de estratégias desenhadas e dirigidas a encher a memória e deixar o entendimento e o raciocínio vazios.
Ao iludir nossa capacidade para perceber o gigantesco abismo que há entre estudar para saber e estudar para aprovar, acabamos por olvidar que nada do que é realmente importante se aprende em pouco tempo, de forma passiva, rápida, “mastigada” e com impaciência. Desaprendemos que se aprende com esforço, discutindo, questionando, escrevendo e lendo obras de verdadeira qualidade intelectual que, com o tempo e a constância, vão modelando nossas estruturas cerebrais (nossas redes neuronais) sem dar-nos conta nem quando nem como, mas que resultam em novas exigências para o pensamento e em novas maneiras de organizar nossas idéias. Nos acostumamos a viver no mundo dos conteúdos mínimos, dos “livros de ocasião”[1], resumos e anotações, das informações inconexas e fragmentadas, do estudo desvinculado, desinteressado e irreflexivo. E já sabem o que diz o velho refrão: “quando a única ferramenta que tens é um martelo, tudo começa a se parecer com um prego”.
Referimo-nos ao seguinte: que estudar para concurso passou a ser algo meramente instrumental, um meio (ou um instrumento) “rápido” e “seguro” para auto-afirmação e consagração profissional, ascensão e estabilidade sócio-econômica, sem qualquer implicação com nossas atitudes pessoais e vitais, com nossa visão da vida e do mundo (B. Russell).  Esta perspectiva sobre a tarefa de estudar, que em um primeiro momento parece louvável, correta e necessária, tem, contudo, um lado escuro. Não é suficiente e, ademais, é nefasta, na medida em que termina indicando o seguinte: tudo o que estudamos é algo externo a nossa pessoa, é simplesmente um utensílio para assegurar-nos a subsistência; nossos estudos não são e nem constituem nosso “eu”.
Dito de outro modo, somos algo distinto do estudado, aquilo que enfrentamos como inimigo, ou no melhor dos casos, como amigo ingrato. É unicamente um instrumento, como uma muleta que nos ajuda a caminhar melhor, mas que se encontra fora do nosso ser: não faz parte e nem integra nossa substância. É algo esquisito, estranho a nossa pessoa. Por esta via, qualquer aprendizado se constitui em (e é vivido como) uma faticidade alheia, em um opus alienum à existência de quem aprende e sobre o qual não tem nenhum controle. É algo que eu faço unicamente por necessidade, que cultivo recorrendo a um apego romântico ao “sacrifício” ou a um “sofrimento” justificado: um mal necessário. Vida e estudo, vida e formação, são, assim, coisas diferentes; vetores que não se tocam, pontes que não se entrecruzam.
Portanto, o estudar para aprovar implica não somente em converter a tarefa de estudar em uma atividade hostil, senão também em concebê-la como algo que existe fora do indivíduo e com a qual há que enfrentar-se. Esta forma de estudo, que M. Salas denomina de “concepção instrumental do saber”, ignora claramente que o estudo não é uma entidade que se encontra  “out there”, em algum lugar fora do indivíduo, senão que é sua própria vida, sua personalidade, sua existência; que a separação ou dicotomia entre o que se “é” e o que se “faz” é a principal forma de alienação. (K. Marx)
Idealmente, não se estuda para outro, senão para si mesmo. Para perceber, entender e viver melhor. Somos o resultado de nossos estudos, sua consumação, sua consequência, seu corolário. Quando estudamos para saber, não somente interiorizamos os novos conhecimentos, fazemos nosso o que aprendemos e convertemos em familiares o estudado, senão que também alcançamos, ao final do processo, a excelência que transmite uma profunda satisfação pessoal de domínio e a confiança necessária em nossas próprias capacidades e possibilidades intelectuais: “Isso eu já sei!”.
Um indivíduo que se cultiva em uma área de conhecimento humano acaba assumindo por completo o controle de sua formação e sua motivação. Em lugar de dedicar-se a aprender de memória o conteúdo das matérias, busca os conceitos, os fundamentos, os “porquês” e os princípios subjacentes às mesmas enquanto estuda. Revisa suas debilidades e dificuldades e as corrige até estar seguro de haver superado e compreendido completamente o tema estudado. Estuda porque quer aprender para saber e com um compromisso de eficácia e aperfeiçoamento pessoal, não somente para superar uma prova de concurso.    
A tarefa que desenvolve (estudar) passa a ser uma práxis vital, uma forma de viver, uma ética pessoal. Aprende a desfrutar daquilo que faz e a lograr uma personalidade autotélica: de um indivíduo capaz de estabelecer suas próprias metas e cuja vontade e disposição faz com que a atividade de estudar valha a pena fazê-la por si mesma, se valore por si mesma, independentemente de suas consequências[2]. É a plena convicção de estar desfrutando muito mais da atividade enquanto a realiza e aprendendo muito mais sobre o que estuda do que quando o faz de forma desapaixonada, descomprometida e/ou instrumental.
É deixar-se levar por uma corrente que concentra toda nossa atenção em um arrebato de energia harmônica, uma sensação de controle sobre nossas atividades e objetivos que eleva-nos por encima de nossas ansiedades e abulia e em que tudo sucede de forma serena, equilibrada e sem problemas. É valorar e sentir entusiasmo por formar parte do processo daquilo que se está fazendo, independentemente de qual seja o resultado desejado. É a inefável sensação de assumir o esforço e a dedicação como uma força positiva e construtiva, e não como uma enorme e pesada carga. Um tipo de conhecimento que, transformando-nos, convertemos em “substância própria” (Epicteto).
Se um indivíduo estuda realmente porque deseja saber, se entende o que quer e quer o que faz, se tem esse objetivo que considera como próprio e ao que quer dedicar-se por si mesmo e não somente por seu valor instrumental, então esse estudo passa a ser parte integral de sua personalidade, a ser sua própria pessoa, sem correr o risco de perder-se nos desvarios de uma mente vagabunda. E todo o conhecimento adquirido - o qual não é possível sem esforço, sem perseverança e, sobretudo, sem interesse e motivação -, uma vez incorporado dentro de um marco geral de valores pessoais, não somente não será olvidado ou descartado do horizonte de quem o possui, senão que seguramente afetará e influirá os mecanismos cerebrais que definem em essência quem somos e quem seremos.
Enfim, que a experiência de estudar para saber, recuperando a tradição do cultivo de si mesmo, exercendo nossas melhores capacidades autotélicas e dando o melhor de nós mesmos para chegar a ser o melhor que podemos chegar a ser, é a maneira mais poderosa para lograr a autonomia do espírito a que se referia Kant e para fazer com que o conhecimento obtido adquira um sentido verdadeiramente transcendente: não somente uma manifestação do que somos capazes de aprender e saber, senão de tudo aquilo que devemos esforçar-nos por chegar a aprender e saber.
É, dito em poucas palavras, a única forma de estudo que dinamiza, enobrece e enriquece o autoconhecimento, a firmeza do espírito, a integridade pessoal e o domínio de si mesmo, “que es donde reside verdaderamente la virtud”. (Montaigne)

BIBLIOGRAFIA MÍNIMA

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Notas

[1] É notável a proliferação de “gigantescos” livros jurídicos (especialmente para concursos) com escassa ou quase nenhuma discussão teórica de fundo ou de obras dedicadas a anotações e/ou comentários de textos de lei (e jurisprudências) de uso mais frequente. Na fina observação de Mártires Coelho (1997), nesses “livros de ocasião, cujo peso vai aumentando a cada nova edição, em publicações que se sucedem a espaços de tempo sempre menores – na capa muitos chegam a advertir, honestamente, até que mês do ano estão atualizadas as suas anotações -...” os “textos de circunstância (...) vão se transformando em páginas e páginas, a tal ponto numerosas, que mesmo os seus usuários habituais têm dificuldade crescente em localizar os dispositivos legais anotados” (e às vezes, inclusive, os próprios temas já estudados).
[2] A ação autotélica é uma atividade que compensa por si mesma a quem a realiza e que, por essa razão, proporciona inestimáveis retribuições internas: traz a recompensa em si mesma, nos próprios meios. O processo é o que conta, o caminho é a meta ou parte da meta ( e a meta é um estado mental). Um exemplo importante – ademais de clássico- é o do trabalho: o jovem Marx condenava a alienação do trabalho sob os regimes econômicos de propriedade privada precisamente porque impediam que fosse uma atividade autotélica.



Membro do Ministério Público do Trabalho aposentado. Pós-doutor em Teoría Social, Ética y Economia pela Universidade Pompeu Fabra/Barcelona (Espanha). Doutor em Filosofía Jurídica, Moral y Política pela Universidade de Barcelona (Espanha). Mestre em Ciências Jurídico-civilísticas pela Universidade de Coimbra (Portugal). Pós-doutorado e Research Scholar do Center for Evolutionary Psychology da University of California/Santa Barbara (EUA). Research Scholar da Faculty of Law/CAU- Christian-Albrechts-Universität zu Kiel (Alemanha). Especialista em Direito Público pela UFPa (Brasil). Pós-doutorado em Neurociencia Cognitiva – Universitat de les Illes Balears (Espanha). Professor Colaborador Honorífico (Livre Docente) e Investigador da Universitat de les Illes Balears (Espanha) em Cognición y Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB.