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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Guerra Mundial

Mestrado em História (UFJF, 2013)
Graduação em História (UFJF, 2010)
Guerra Mundial é um conflito capaz de afetar todos os países de alguma maneira. Nunca houve de fato uma guerra com envolvimento militar de todos os países, mas o envolvimento de países de preponderância no planeta gera conseqüências econômicas e políticas que afetam a ordem geral.
conceito de “Guerra Mundial” é algo que carrega em si o estigma da contemporaneidade, a expressão é bem aplicada para os tempos de globalização. A humanidade já passou por inúmeras guerras, de pequena ou grande escala, desde a História Antiga até os dias atuais, mas os momentos da história humana determinaram a repercussão dos conflitos. É claro que toda guerra tem como consequência invariável os prejuízos humanos, econômicos, sociais e políticos, mas a dimensão que assumem está muito atrelada ao seu momento histórico.Resultado de imagem para Guerra Mundial
Na antiguidade grandes guerras ocorreram, mas por causa de condições militares mais precárias, assim como a própria condição humana, eram restritas a uma região de menor amplitude. Mesmo assim, ainda no final de tal período os grandes impérios se desenvolveram de tal forma que marcaram suas características expansionistas conquistando vastos territórios. Na Idade Média, por causa da fragmentação do Império Romano, os conflitos ocorriam especialmente entre regiões. A grande empreitada desse período talvez sejam as Cruzadas promovidas pela Igreja Católica. O embate entre cristãos e muçulmanos gerou uma nova marca de conflitos na Idade Média, levando os homens a atravessarem enormes territórios para combater seus inimigos.
Na Idade Moderna as condições militares se tornaram mais aprimoradas e a chegada na América fez com que o centro das relações econômicas mundiais mudasse para o Oceano Atlântico. O armamento evolui e a capacidade do homem de cruzar os oceanos também. A globalização que tem início nesse momento da história da humanidade fez com que as guerras na contemporaneidade afetassem a todos.
Em todos esses momentos foi especialmente o continente europeu que apareceu em destaque na história. É claro que em todos os outros continentes havia populações fazendo guerras, assim como ciência e cultura, mas o caráter eurocêntrico da história da humanidade determinou que as circunstâncias geradas neste continente tivessem seus reflexos nas demais civilizações de alguma maneira.

Primeira Guerra Mundial

No final do século XIX e no começo do século XX a Europa vivia um momento identificado como Belle Époque, por causa da grande modernização que se dava. Entretanto um clima pesado por conta da tardia unificação da Itália e da Alemanha, que entraram na corrida imperialista por colônias, pairava sobre a Europa. A tensão que se cria rompe em 1914 uma guerra com implicações sem precedentes na história da humanidade. A Europa toda é envolvida ou sente as consequências diretamente do conflito, além de territórios espalhados por outros continentes que eram colonizados por países europeus. O conflito coloca um fim no grande desenvolvimento que vinha ocorrendo na Europa e só se encerra em 1918. Após a guerra deu-se o nome para o grandioso conflito de Primeira Guerra Mundial, por causa das implicações que o acontecimento gerou em todos os continentes.

Segunda Guerra Mundial

As consequências da guerra foram enormes e ainda deixaram no ar o ambiente tenso que permitiria outro confronto de escala global alguns anos depois, a Segunda Guerra Mundial. Em 1939 uma nova guerra eclode como fruto das questões e instabilidades mal resolvidas no conflito anterior. Mas dessa vez a abrangência da guerra é maior ainda, os continentes todos tem participação maior. Em 1945 a guerra acaba em decorrência de uma nova tecnologia que deixaria a humanidade em estado de tensão para sempre, as armas nucleares. A capacidade destrutiva de uma bomba atômica deixou claro que se um novo conflito de escopo mundial envolvendo armamentos de tal tipo acontecesse a vida humana estaria fadada a desaparecer da face da terra.
Esses dois eventos do século XX foram denominados após seus encerramentos de Primeira e Segunda Guerra Mundial. Após a finalização desta última se estabeleceu um novo confronto, a Guerra Fria. Esta deparava o bloco capitalista no mundo, sob liderança dos Estados Unidos, e o bloco socialista, sob liderança da União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas (URSS). A denominação Guerra Fria se deu porque os dois principais vencedores da Segunda Guerra Mundial possuíam armamento muito aprimorado, que se colocados em prática poderia significar a destruição de ambos e de boa parte da humanidade, o que transferia a guerra de campos de batalha para conflitos ideológicos. Entretanto houve alguns conflitos em campo de batalha que tinham a participação ideológica dos Estados Unidos e da União Soviética.
Entre todos os conflitos existentes no decorrer da Guerra Fria (Guerra do Coréia, Revolução Húngara, Guerra de Suez e Guerra do Vietnã), o evento que chegou mais perto de gerar uma nova guerra mundial foi a Crise dos Mísseis de 1962. Na ocasião a União Soviética foi flagrada construindo silos nucleares em Cuba, na ilha da América Central ainda havia um conjunto de mísseis apontados para os Estados Unidos como retaliação pelos que foram implantados na Turquia apontados para a União Soviética. A situação causou grande instabilidade e tensão, uma vez que o armamento havia se aprimorado ainda mais e a possível eclosão de uma nova guerra mundial não perdoaria nenhum país.
Atualmente, após o fim da Guerra Fria, são as armas biológicas que causam medo à humanidade. Essas são capazes de dizimar grande quantidade de pessoas através de medidas simples. Mas a grande tensão existente atualmente se dá entre o mundo oriental e o ocidental. Acontece que a maior parte dos ataques gerados por orientais ocorre por atentados terroristas, o que é muito difícil de prever e pode acontecer em qualquer lugar do mundo e a qualquer momento. Mas países como Irã e Coréia do Norte insistem em construir seus armamentos nucleares e ampliar o quadro de tensão.
Arquivado em: História

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Pesquisadores descobrem que, em seus primeiros anos, pirâmides egípcias brilhavam

ReproduçãoReprodução

Se hoje, 2015, as pirâmides do Egito chamam atenção por sua beleza e complexidade, quando foram construídas elas eram ainda mais atraentes. Isso porque, por conta de um processo bastante complexo, as pirâmides brilhavam como o Sol.

Pesquisadores descobriram que logo que elas foram construídas, há cerca de 4 mil anos, os blocos de pedra eram manualmente — isso mesmo, um por um — polidos de pedra calcária. Esse material, além de proteger o bloco, fazia co que ele refletisse a luz solar.

“isso verdadeiramente deve ter adicionado a impressão de Gizé como sendo uma mágica cidade portuária, banhada pela luz solar, ou mesmo que existia uma forma éter na luz celestial”, afirma — bem poeticamente — o arqueólogo Marc Lehner em entreviista ao Smithsonian Channel.

No vídeo abaixo (áudio em inglês), produzido pelo Smithsonian, é possível ver todo o complexo processo pelo qual passavam os blocos de pedra usados na construção das pirâmides. Difícil de ser executado nos dias atuais, mostra como o povo egípcio, quatro milênios atrás, era extremamente desenvolvido.

Assista:

domingo, 29 de março de 2015

DITADURA MILITAR ????


 Por PAULO MARTINS - GAZETA DO PARANA
Está aí uma ditadura pior do que aquela que hoje insistem em apelidar de “ditadura militar”. Como nos dias de hoje, naquele período fui também um crítico. Não lembro de ter sido perseguido, como insistem em afirmar que era o hábito da época aqueles que, por falta de argumento para uma retórica razoável, apelam sem disfarces para o desvirtuado e corrosivo “ouvi dizer”. Que ditadura era aquela que me permitia votar ? Que nunca me proibiu de tomar uma cervejinha num desses bares da vida após as vinte e três horas ? Ou num restaurante de beira de estrada ? Que ditadura era aquela que (eu não fumo) nunca proibiu quem quer que seja de fumar ? Que ditadura era aquela que nunca usou cartão corporativo para as primeiras damas colocarem até botox no rosto ou para outros roubarem milhões de reais do povo brasileiro ?
 Vi, sim, perseguições, porém contra elementos de alta periculosidade à época, como o eram os Zés Dirceus, Zé Genoino, Dilma Rousseof – a Estela – Marco Aurélio Garcia, Diógenes, o assassino do Capitão Schandler, como os que colocaram bombas em lugares públicos, como aquela no aeroporto de Guararapes, cujo resultado foi a morte de gente inocente, ações de subversivos que desejavam implantar no Brasil um regime comunista, e para tal seguiam planos de formar nas selvas o que hoje, na Colômbia, chamam de FARCs. Que ditadura era aquela que permitia que a oposição combatesse o governo, como ocorria com deputados como Ulisses Guimarães, apenas para se citar um nome?
Que ditadura era aquela que jamais sequer pensou em proibir a população de usar armas para se defender, como hoje criminosamente pretendem ?
Que ditadura era aquela que em nome da democracia, jamais admitiu invasão de propriedades e jamais sustentou bandidos com cestas básicas em acampamentos e jamais impediu a policia de agir, como a ditadura de hoje ?
Que ditadura engraçada aquela que chegou a criar até partido de oposição! Curiosa essa democracia de agora, em comparação ao que chamam de “ditadura militar”, “democracia que permite que ladrões do dinheiro público continuem ocupando cadeiras no parlamento e cargos no governo e tolera até mesmo um presidente alegar que “não sabia”, para fugir de sua responsabilidade para com a causa pública. Que ditadura militar era aquela que jamais deu dinheiro de mão beijada para governantes comunistas, amigos de presidente, como ocorre com a ditadura de hoje e, contra a qual não nos permitem sequer contestação ?
Que ditadura era aquela que jamais proibiu a revelação das fuças de bandidos em foto e TV como ocorre na “democracia” de hoje, numa gritante e vergonhosa proteção do meliante, agressor da sociedade ?
Escuta telefônica, eis mais uma ação da “democracia” de hoje e proibida à época “daquela ditadura militar”. Ah...é verdade...Aquela ditadura proibia casamento de homem com homem, sexo explícito na TV alcançando crianças, proibia a pouca vergonha e não dava folga para corruptos que eram cassados quando prevaricavam, sem permitir que a sociedade fosse punida com a permanência no palco da corrupção dos delinqüentes, que hoje fazem CPIs para tapearam a sociedade e se escalam às mesmas como raposas cuidando do galinheiro. Caetano Veloso está quieto em relação a essa ditadura que hoje aí está. Apostasia de “seu ideal”?
À época lançou a música “É proibido proibir”. Hoje se cala. O que ajudou a promover, junto com Chico Buarque, Gilberto Gil e outros, está no poder. Que pelo menos altere o nome da música para os dias de hoje para: “É permitido proibir”. E que vá se catar.     

GRIFE 
Seis ônibus, com quarenta pessoas cada um, pararam num restaurante à beira de estrada, para almoço. 240 pessoas ficaram impedidas de tomar uma cervejinha. Eram os passageiros. Conceito de “imbecil” para essa medida lulista é elogio.

segunda-feira, 23 de março de 2015

A corrupção no Brasil antes da República

O Brasil ainda nem existia como país e já proliferavam o enriquecimento ilícito, o assalto ao patrimônio público e os favorecimentos indevidos

Corrupção financiou opulência no Brasil, como a vista em ilustração de Jean Baptiste Debret


Conforme a presidente Dilma Rousseff (PT) disse na última semana, a corrupção no Brasil é mesmo uma senhora idosa. Ainda que essa que hoje ocorre na Petrobras seja “uma mocinha”, conforme retrucou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Longe de isso eximir ou atenuar a culpa dos atuais corruptos, os casos de assalto ao patrimônio público estão documentados desde antes da República. Aliás, antes mesmo de o Brasil existir como País independente.

Desde os primórdios da exploração econômica na colônia, há registros de desvios e proveitos ilícitos envolvendo funcionários da Coroa portuguesa.

A corrupção envolvia favorecimento ao contrabando, mediante propinas, fraudes nas primeiras eleições, suborno, sonegação, favorecimento a aliados políticos.

Eram extraídos proveitos ilícitos desde as obras e serviços públicos até o tráfico de escravos, passando pela relação com a imprensa que nascia. O grande filão dos primeiros corruptos era a exploração do ouro. Mas até a hoje padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, foi alvo da ação fraudulenta.

Os casos mais escandalosos caiam na boca do povo e chegavam a virar chacota em versos populares. O hábito de transformar a roubalheira pública em piada também vem de longe.

PRÉ-HISTÓRIA DA CORRUPÇÃO BRASILEIRA

CONTRABANDO E PROPINA
No fim do século XVI, quando foi descoberta prata em Potosí, no alto da cordilheira dos Andes, na atual Bolívia, constituiu-se grande rota de contrabando de produtos e escravos, regada a gordas propinas. O caminho passava por Buenos Aires e Rio de Janeiro como entrepostos entre as minas e Angola – de onde vinham os negros escravizados. Nesse tempo, a União Ibérica deixou Portugal e Espanha sob o mesmo domínio, o que fez se diluírem as fronteiras entre as colônias sul-americanas. A linha de tráfico tinha os governadores na ponta de lança. A cadeia comercial enriqueceu as elites do Rio e de Buenos Aires.

FRAUDE ELEITORAL
Nos primórdios da colonização, havia eleições para representantes das câmaras. Só podiam votar proprietários de terras nas cidades. Mas, dava-se um jeitinho e acabava-se ampliando o colégio eleitoral, para garantir o direito a comerciantes e também donos de terra na zona rural. Por volta de 1624, chegou ao Rio de Janeiro o desembargador João de Sousa Cardenas. Tinha como alvo o inchaço na lista de eleitores. A limpa ameaçou o equilíbrio político carioca e pôs a elite política em polvorosa.

PRESSÃO, MONOPÓLIO E NEPOTISMO
Salvador Corrêa de Sá e Benevides ocupou alguns dos postos mais importantes do império português no século XVII. Mas, como membro da família Sá, sempre viu o Rio de Janeiro como feudo pessoal. Construiu riquezas por meio de um casamento no Paraguai, guerreou na África, participou das intrigas palacianas em Lisboa. Sem nunca tirar o olho do reduto local. Adepto do nepotismo, colocou tios, primos e filhos em todos os principais cargos da cidade. Foi acusado mais de uma vez de corrupção pela Câmara. Aliás, pressionou abertamente os membros para que lhe concedessem o monopólio da pesagem da Alfândega. Adquiriu também a concessão para erguer o armazém próximo. Teve assim o controle de toda a exportação. Alvo de revolta popular, chegou a ser preso, acusado de receber suborno de mercadores holandeses. Logo foi solto e, no fim do mesmo ano, reassumiu sua posição no importante conselho ultramarino do império português.

ASSASSINATO E LUCRO
O bandeirante Manuel da Borba Gato era acusado de assassinato de dom Rodrigo Castelo Branco, técnico castelhano enviado pela Coroa portuguesa ao Brasil na tentativa de encontrar ouro. Por essa razão, permaneceu 16 anos escondido nas matas e se tornou um dos maiores conhecedores das regiões de minas. O governador da Repartição Sul do Brasil, Artur de Sá e Meneses, soube que Borba Gato poderia levá-lo ao ouro. O bandeirante se comprometeu a mostrar onde havia metal precioso e recebeu o perdão pelo “suposto e imaginado crime”. Seria parte da longa tradição de perdão a criminosos que davam lucro ao governo.

FAVORECIMENTO
A relação entre Artur de Sá e Meneses e Borba Gato ainda renderia. O governador da Repartição Sul do Brasil tinha fama de corrupto. Em 1698, pretendia abrir caminho para ligar o Rio de Janeiro à recém-descoberta região das Minas de Ouro, atual Minas Gerais. O paulista Amador Bueno da Veiga fez uma proposta, recusada por ser considerada muito cara. Foi aceita, porém, a proposta apresentada por Garcia Rodrigues Pais Leme, filho do bandeirante Fernão Dias e cunhado de Borba Gato. Garcia Rodrigues tinha fama de sonegador e falso descobridor de lavras de ouro. Sá e Meneses justificou ao rei a preferência ao afirmar que Rodrigues se portara “com todo zelo e desinteresse”. Na verdade, a proposta foi mais cara. Acontece que o governador era praticamente sócio de Borba Gato. A estrada foi inaugurada incompleta em 1702. Só seria concluída em 1725, já com outros construtores. Mesmo assim, Garcia Rodrigues obteve da Coroa exclusividade na taxação sobre os negócios feitos pela rota e na exploração das travessias de rios em canoas. Foi nomeado ainda para diversos postos civis e militares e conquistou o título de fidalgo para os descendentes. Como recompensa, o governador recebeu de Borba Gato – encarregado por distribuir os pontos de exploração de ouro – algumas das melhores reservas. Em cinco anos, juntou 440 quilos do minério.

DESVIOS
O historiador Francisco Adolfo de Varnhagem, em História Geral do Brasil, estimou em cerca de 40% o volume de ouro desviado de forma ilegal do Brasil.

IMPRENSA E PODER
O primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense original, inaugurou também as relações promíscuas entre imprensa e governo. Era publicado em Londres para fugir da censura. Defendia a liberdade de expressão e ideias liberais. Mas, por acordo secreto, era subsidiado pela coroa portuguesa. Dom João ajudava financeiramente a publicação e garantia a compra de certo número de exemplares, como forma de evitar a radicalização das opiniões. O criador, Hipólito da Costa, passou a receber pensão anual do governo. Quando veio a independência, o Correio foi contra. Depois, porém, foi nomeado pelo imperador dom Pedro I agente diplomático do Brasil em Londres. Cargo que lhe garantia nova pensão estatal.

GESTÃO TEMERÁRIA
Quando a família real chegou ao Brasil, em 1808, foi criado o primeiro Banco do Brasil. Foi exemplo do compadrio instituído entre a Corte e a casta de privilegiados fazendeiros, negociantes e traficantes de escravos. Em uma década, o banco estava quebrado. Cerca de 80% correspondiam a dinheiro “podre”, sem lastro. Reflexo da prática de emprestar, sem garantias, a políticos, nobres e fazendeiros quebrados. E 90% dos saques eram feitos pela realeza. Quando a família real retornou a Lisboa, em 1821, raspou o que restava de precioso nos cofres. Em 1829, o banco foi liquidado. Seria recriado em 1853.

“CAIXINHA”
Durante a permanência de dom João no Brasil, difundiu-se a prática do pagamento de “caixinha” nas concorrências e remuneração por serviços públicos. Estima-se que era cobrada comissão de 17% para que os pagamentos públicos fossem realizados a quem prestava alguma forma de serviço estatal. Se não, os processos não andavam e os pagamentos não saiam. “a corrupção medrava escandalosa”, narrou o historiador Oliveira Lima.

ENRIQUECIMENTO 
ILÍCITO
Joaquim José de Azevedo foi o administrador das áreas de compras e dos estoques da casa real enquanto a Corte permaneceu no Brasil. Enriqueceu tão rápido e ficou com imagem tão atrelada à corrupção que foi impedido de desembarcar em Lisboa em 1821.

CRIME E RECOMPENSA
Bento Maria Targini era o comandante do erário real. De família de origem pobre, ganhou espaços. Passou a acumular poder e honrarias. E dinheiro. Ao final do período de dom João VI no Brasil, tinha uma das maiores casas do Rio de Janeiro. Chegou a ser preso e ter bens confiscados. Como Joaquim José de Azevedo, foi proibido de retornar a Portugal. Mas continuou a levar confortável vida no Brasil. E, também como ocorreu com Azevedo, ganhou título de barão e, a seguir, de visconde. O que motivou versos populares, reflexo da verve carioca: “Quem furta pouco é ladrão/Quem furta muito é barão/Quem mais furta e esconde/Passa de barão a visconde”.

NEM A SANTA ESCAPA
Nem a padroeira do Brasil escapou da corrupção. Entre a colônia e o Império, a devoção a Nossa Senhora Aparecida foi explorada e doações foram surrupiadas. Durante o Império, padres foram afastados pela Corte e civis foram nomeados para comandar a diocese e usufruir de poder político. Um dos mais vorazes foi Jerônimo Francisco Guimarães, que acumulou cargos de prefeito, esmoleiro — responsável por receber as doações — e administrador dos bens da diocese. Era famoso por desviar a arrecadação destinada à santa. Começou a operar no período colonial e só foi demitido no Império, por dom Pedro I. Mas a corrupção não parou. A rotatividade na tesouraria da diocese era enorme, fruto de indicações políticas. Sobre um deles, Antônio Theodósio, dizia-se roubar até a cera das velas que romeiros acendiam. Antes um humilde professor, deixou o cargo bastante rico. E houve ainda Joaquim Carlos Fragoso, que usou dinheiro dos fiéis para construir encanamentos que desviavam água da igreja. 

REFERÊNCIAS
1565 – ENQUANTO O BRASIL NASCIA, DE PEDRO DORIA, 2012, EDITORA 
NOVA FRONTEIRA
BOA VENTURA!, DE LUCAS FIGUEIREDO, 2011,
EDITORA RECORD
1808, DE LAURENTINO GOMES, 2007, EDITORA PLANETA



domingo, 27 de julho de 2014

1968: o curto ano de todos os desejos



1968: the short year of all desires


Daniel Aarão Reis Filho
Professor de História Contemporânea na UFF. Ex-combatente de 1968, mas não ainda de todo desativado



RESUMO
Como numa peça de teatro, o artigo apresenta os atores que estiveram em cena no ano de 1968, com suas propostas, ambições, ilusões e limites. Há, em primeiro lugar, uma interpretação polêmica do processo da ditadura militar no país, destacando-se a necessidade do estudo de seus nexos e laços com a sociedade brasileira, ao contrário das tendências correntes que insistem em mostrar seu isolamento, como se tivesse existido apenas graças à repressão. Em segundo lugar, discute-se a autonomia entre o movimento estudantil e as organizações revolucionárias que recorreram às ações armadas. Finalmente, em terceiro lugar, são apresentadas algumas referências críticas para o estudo da trajetória das esquerdas no Brasil. O texto sustenta que o ano de 1968, embora pleno de desejou, não só terminou, como foi curto.
Palavras-chave: movimento estudantil, revolução, esquerdas, ditadura.

ABSTRACT
As in a role play, this articles presents the actors who took part in the play in 1968 and their aims, ambitions, iluuions and limits as well. First of all, there is a polemic interpretation of the militar and dictatorial process in this country, in which is highlighted the necessity of a study of its conexions to the Brazilian society. This is a contrary study if compared to the contemporary trend which insist on showing its isolation as if it had only existed due to the political repression. Next, it is discussed the authonomy between the studant's movement and the revolutionary organizations who made use of weapons. Finally, some critical references are shown in order to provide information for a study of the left parties in Brazil. This text supports the idea that not only was short the year of 1968 but it is also finished, even though it was fullfilled with desire.
Keywords: student 's movement, revolution, left party, dictatorship.



Observemos o cenário, enquanto os atores se preparam para entrar em cena.
O país experimentava o quarto ano de ditadura, ainda na dúvida se tudo começara em 31 de março, data defendida pelas comemorações oficiais, ou se em 1° de abril, preferida pelos derrotados, que, sem armas, recorriam à arma da ironia para vexar a força então incontrastável dos vencedores.
Uma ditadura marcada por ambigüidades.
De um lado, a capacidade típica dos regimes ditatoriais: de prender e de arrebentar, como muito mais tarde, em arroubo antológico, diria um dos generais-presidentes. E também de fechar instituições - parlamentos e partidos -, ou de recriá-las - novos partidos. A fúria legislativa não se limitou a alterar leis e legislações - ampliando a duração de mandatos, definindo e redefinindo colégios eleitorais, elegibilidades e inelegibilidades. Chegou mesmo a plasmar uma nova Constituição, a de 1967, aprovada a toque de caixa e de clarins - com os tanques de prontidão, sempre ao sabor de acontecimentos e segundo interesses imediatos - o chamado casuísmo. E o poder de caçar e de cassar adversários e inimigos presumidos ou declarados. E de torturar, conforme denúncias que já começavam a espoucar desde 1965-1966.
A catadura feia das ditaduras.
De outro lado, a incapacidade de elaborar um discurso coerente alternativo à democracia, como souberam fazer com tanta consistência, no período entre as guerras mundiais, nazistas, fascistas e corporativistas, que não se constrangiam em desafiar abertamente os cânones estabelecidos e considerados sagrados pela tradições democráticas defendidas, cada qual, a seu modo, por socialistas e liberais.
Uma estranha fraqueza, a das ditaduras que não conseguem se assumir, que formalmente prestam reverência a valores que violentam na prática, e se curvam a princípios que desrespeitam, e se fazem conhecer por práticas que desconhecem.
Qual o significado desta sucessão de paradoxos? Distorções próprias de um país tipicamente tropical? Onde faz parte das tradições a inversão dos signos e dos conceitos criados em outras latitudes? Produzindo uma incompatibilidade esquizofrênica entre teoria e prática, entre discurso e ação?
Nada disso. Na verdade, ao contrário do que pensavam os antigos, aqui os elefantes decididamente não voam. As contradições da ditadura não residiam em nenhuma confusão mental, mas se radicavam nas realidades bem palpáveis do caráter heterogêneo da ampla frente de forças que derrubara o regime presidido por João Goulart.
Ali se reuniram a espada, a cruz, a propriedade e o dinheiro. E o medo, um medo muito grande, de que gentes indistintas pudessem cobrar força e virar o país e a sociedade de ponta-cabeça. Se a hipótese tinha base na realidade ou não, é uma outra questão. O fato é que o medo a tomava como provável, como iminente. Era preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa, para colocar aquelas gentes nos lugares que eram os seus, dos quais nunca deveriam ter saído e para os quais haveriam de voltar.
Em torno deste medo agruparam-se massas consideráveis que desfilaram cantando hinos patrióticos e religiosos, clamando pela proteção de Deus e da Família, e pela preservação da sua liberdade, que consideravam ameaçada.
Havia ali propostas de todo o tipo. Num extremo, os grupos duros e (im) puros, sinceros, porém radicais, como alguém, eufemisticamente, os chamaria mais tarde. Constituíram importante tropa de choque, mas como programa, desejavam apenas deter a história, em suma, reacionários, no sentido próprio da palavra. No outro pólo, grupos de estado-maior, comprometidos com políticas de modernização do país, cuja proposta era a de fazer o capitalismo brasileiro dar um salto para a frente, a ferro e fogo, se fosse o caso, mas dosando - o ferro e o fogo - na exata medida das necessidades. Propostas tão diferentes implicavam metodologias diferenciadas: uns só pensavam em reprimir a todos que se opusessem, outros inclinavam-se por propósitos mais seletivos, nem por isso menos impiedosos.
No miolo, entre os extremos, todo o tipo de nuanças: dos partidários de uma intervenção cirúrgica, mas rápida, com a volta, tão cedo quanto possível, ao status quo ante, desde que, naturalmente, a baderna houvesse sido controlada, e a canalha posta no seu lugar. Aos que sentiam prazer em não ver a luz no fim do túnel. Como os ratos, gostavam da escuridão e do terror, e do terror da escuridão. Para estes, de preferência, a exceção deveria tornar-se norma.
Assim formou-se uma frente, contraditória, heterogênea.
Foi o seu movimento, uma convergência objetiva de forças políticas e sociais - embora não faltassem, como é comum nestas situações, grupos e instituições com pretensões à superconsciência da história - e não um golpe,no estilo tradicional dos pronunciamientos latino-americanos, que derrubou Goulart. E o primeiro equívoco que os adversários cometeram foi não reconhecê-lo como tal. Imaginaram-no monolítico - quando era diverso - e simplesmente reacionário - gorila (nunca uma metáfora pudera ser tão infeliz) - quando tinha dentro de si perversas propostas de modernização acelerada - e conservadora.
Estas realidades contraditórias, embora não reconhecidas pelas forças de oposição, que, paradoxalmente, poderiam delas tirar o maior proveito, é que explicam as hesitações da ditadura. E constituem um cenário de brechas, por onde penetrarão as forças do questionamento, da reivindicação, da denúncia, da reforma e da revolução.
Montado o cenário, e já considerado o ator mais forte, a ditadura, que entrem os demais atores.
Em primeiro lugar, por uma razão que se tornará clara dentre em pouco, um ator secundário neste ano de 1968: os trabalhadores.
A ditadura foi, para eles, um desastre.
As organizações sindicais e políticas que lhes pertenciam ou/e que mereciam sua confiança, dissolvidas. As lideranças que respeitavam, em fuga, já no exílio, ou presas, em qualquer caso, neutralizadas. Um longo processo de aprendizado, subitamente negado. Não mais teriam direito àquelas lutas sindicais por reajustes salariais, ritmadas pelos dissídios coletivos, arbitradas pela Justiça do Trabalho. E às campanhas, às greves e às mobilizações, às vezes nem tão pacíficas, reprimidas, mas também freqüentemente toleradas ou mesmo, não raro, discretamente auxiliadas pelos governos. No futuro, não mais a corte dos políticos, as barganhas com os governos, as portas dos palácios e ministérios abertas, acolhedoras. O jogo familiar das concessões em troca de apoios, das verbas por votos.
Agora, prisões e perseguições. E uma nova legislação, restritiva, excludente: lei de greve (contra a greve), lei do arrocho salarial, revogação da estabilidade, anulação do poder normativo da Justiça do Trabalho, exclusão da gestão de verdadeiras cornucópias, como a Previdência Social.
O céu desabava na cabeça dos trabalhadores. O Estado, até então generoso e protetor, transformara-se em algoz. O pai, em carrasco. Embaralhamento e crise de referências.
Não foi possível resistir com eficiência. Os padrões de organização e luta, de lideranças e de discurso, não haviam preparado os trabalhadores para situações de enfrentamento. Reagiram à instauração da ditadura com a arma tradicional - a greve. O êxito dela foi um fracasso, pois esvaziou as cidades, paralisando as pessoas em casa e facilitando as manobras dos tanques.
A rearticulação foi difícil, penosa, molecular. Emergiu, afinal, tentando preservar as heranças tradicionais, o Movimento Inter-sindical Anti-arrocho, o MIA. Como se as lideranças não se dessem conta da eufonia da sigla - tristemente simbólica. Os trabalhadores apenas miavam sob o peso de uma derrota histórica.
Foi então que, de surpresa, em 1968, justamente, surgiu um movimento alternativo. Em Contagem e Osasco, protagonizou greves. No dia 1° de maio, em São Paulo, tomou e queimou o palanque das autoridades, onde se encontrava o governador Abreu Sodré, nomeado pela ditadura.
As forças mais radicais viram naquilo o anúncio de uma nova fase do movimento dos trabalhadores, sobretudo porque surgiam ali algumas características inovadoras: ao lado dos sindicatos, organizações por locais de trabalho. Uma coordenação clandestina. Lideranças jovens, sem nenhum vínculo com os partidos políticos tradicionais e com o Estado.
Para muitos, Osasco e Contagem tornaram-se palavras mágicas, anunciando enfrentamentos apocalípticos. Algumas assembléias estudantis chegaram a ouvir, eletrizadas, lideranças operárias solicitando apoio. Promoveram-se vendas de bônus, distribuição de panfletos em fábricas e pontos de ônibus, passeatas de solidariedade.
Mas a ditadura foi inflexível e destruiu com rapidez o movimento, no nascedouro. Criminalizou a luta sindical, decretou a ilegalidade das greves, anunciou o não pagamento dos dias parados, ameaçou com demissões maciças. E dissolveu os sindicatos, e prendeu as lideranças.
O ministro do trabalho de então, não gratuitamente um coronel, falou a voz das casernas - e das cavernas: Ou esta minoria (referia-se às lideranças sindicais) tem um dispositivo militar capaz de levar tudo de roldão, ou não tem. Se não o tem, espere para ver o que vai dar. Não o tinha, e quem levou tudo de roldão foi o governo. A prática da ditadura coerente com a fala do ministro.
Contagem e Osasco não foram signos precursores de uma nova colheita, não se desdobraram em novos movimentos, embora durante muitos anos tenham alimentado a polêmica, hoje resolvida, a respeito do que ali estava em jogo: se a última vaga dos anos 60 ou a primeira de um novo tempo. A rigor, não passaram de oásis em meio a um deserto. E como na natureza os oásis não fazem regredir o deserto, foram engolidos por este.
Por terem sido atores secundários, ou quase ausentes, um pouco parte do cenário, mais do que atores, a não importância dos trabalhadores se torna uma importante chave para a compreensão dos limites do que virá a seguir. Na verdade, a sua (não) participação conforma, juntamente com as ambigüidades e as contradições de uma ditadura que não ousava dizer o seu nome, e não tolerava ser chamada pelo nome, aspectos decisivos para compreensão da ação do ator principal, agora convidado a ocupar o seu lugar no ano de 1968 - o centro do palco.
Os estudantes e, pelo menos nos centros principais, os universitários. Pouco mais de 200 mil jovens, cerca de 0,5% da população do país, quase todos filhos da classe média.
Entretanto, para evitar equívocos e combater preconceitos, a respeito deste ator, principalmente porque se trata de nosso mais importante ator, é preciso formular algumas ressalvas antes de prosseguirmos.
O movimento não se limitou ao Rio de Janeiro e a São Paulo, nem foi conduzido apenas por universitários. No próprio Rio, aliás, a mobilização dos estudantes do Calabouço, tradicional restaurante aberto para estudantes pobres, basicamente secundaristas, foi, desde 1966, essencial para a compreensão da dinâmica - e da agressividade - dos estudantes cariocas. Em função, aliás, das lutas destes estudantes é que se deu o assassinato de Edson Luís de Lima Souto, um dos principais estopins que abriram a sucessão de manifestações e passeatas que agitaram o país em 1968.
Esta dimensão, a da participação dos estudantes secundaristas, é duplamente importante. Em si mesma, porque se trata de um setor específico, para o qual não se podem estender, sem mediações, as reflexões elaboradas a respeito dos universitários. E também porque os secundaristas desempenharam um papel decisivo em importantes capitais estaduais, como, por exemplo, Belo Horizonte, Goiânia, Fortaleza, Vitória, Salvador, Maceió etc. A rigor, a história destes centros ainda está muito mal contada - e compreendida. E foi a ação deles, no entanto, que conferiu ao movimento um caráter nacional.
Três outras ressalvas, para despojar nosso ator de outros falsos atributos:
Primo, os estudantes em geral, os estudantes universitários, em particular, não constituem um todo monolítico, infensos a divisões políticas. São atravessados pelas questões que agitam a sociedade, e que não podem ser reduzidas à problemática da origem de classe. Pode parecer banal, mas contraria boa parte dos estudos sobre o assunto que não se privam de se referir ao movimento estudantil como se fosse um todo, sem fraturas e contradições internas, com sua ação rigidamente limitada pelas condições sociais.
Secundo, os estudantes nem sempre desempenharam, e nem estão destinados a desempenhar, por um decreto insondável da Providência Divina, ou por uma misteriosa lei da História, um papel questionador, ou reformista, e muito menos revolucionário, na história do país, ou de qualquer lugar do mundo. Ao contrário, de acordo com as circunstâncias, têm assumido papéis conservadores e mesmo reacionários. Aliás, pouco antes da instauração da ditadura, em 1964, a direita liberal ganhara, no voto, o controle da União Metropolitana de Estudantes, entidade de coordenação estadual do movimento estudantil, o que se refletiria na agressiva ação de muitos estudantes que participaram ativamente da frente social e política que instaurou a ditadura.
Tertio, e finalmente, mas não menos importante, o movimento estudantil de 1968 não pode ser confundido com os partidos revolucionários e, particularmente, com as ações armadas então desfechadas, e que receberam, aliás, uma projeção nem um pouco desinteressada. O que não quer dizer que óbvias relações não tenham sido estabelecidas entre estudantes e partidos revolucionários. Mas é preciso evitar as interpretações simplistas que envolvem os movimentos sociais e as ações de vanguarda num todo único, negando a autonomia relativa de cada um, o que também, como sempre, não constitui exercício desinteressado.
Veremos se estas questões serão esclarecidas na seqüência do texto, onde se pretenderá analisar a trajetória do ator principal - os universitários - e seus coadjuvantes, embora, não raro, alimentando a pretensão de mentores: os intelectuais e os partidos revolucionários
Depois da vitória da ditadura, a direita liberal estudantil, forte em vários estados, como, por exemplo, entre outros, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, sobretudo nas universidades particulares, diante da truculência do novo regime e de seu ministro da Educação, Suplicy de Lacerda, entrou em refluxo, encolheu-se, até quase desaparecer como força política. Foi o único resultado eficaz da política da ditadura no meio universitário: paralisar e anular o potencial de ação dos aliados. À direita, só restou a ação mais radical, agrupada no Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e grupos afins. Tinham como programa, coerentes com a sigla, a caça aos adversários, o uso da força e a intimidação pura e simples.
Criou-se, assim, um horizonte favorável à emergência de orientações políticas de crítica e denúncia da ditadura.
Mas não foi um processo fácil nem rápido. Havia muitas feridas a lamber, e balanços críticos, e infindáveis autocríticas.
A rigor, a resistência dos universitários à instauração da ditadura fora débil. Poucos núcleos a ela se opuseram de forma decidida. Sem armas, foram rapidamente dispersados. Não adiantou, na ocasião, cantar o hino nacional, forma de luta tradicional utilizada para conter a repressão.
Restou a derrota. E os inquéritos policial-militares, dirigidos por oficiais estúpidos que faziam a delícia de estudantes e intelectuais, com a exposição de sua profunda ignorância sobre temas corriqueiros das ciências humanas, das artes e da cultura geral. Os derrotados, sem força, cobriam com a força do ridículo os vitoriosos. E o exercício os fez mais confiantes e atrevidos.
Iniciou-se uma resistência molecular.
Em público, vaias e protestos, pequenas passeatas. Em vários pontos do país, grupos destemidos faziam uma primeira semeadura de ousadia. Embora neutralizados e presos, ou tendo as manifestações dissolvidas a balas e a bombas de efeito moral, aquela gente, espetando espinhos no bicho, oferecia uma crítica e um exemplo.
A repercussão mediática era desproporcional aos acontecimentos. É que parte dos grandes jornais, que haviam participado intensa e ativamente da derrubada do regime constitucional anterior, voltava agora as costas à ditadura e aos projetos modernizantes, sobretudo à decisão de durar no tempo, atribuindo o comando direto do processo aos militares. Brechas e mais brechas na frente heterogênea, favorecendo o desenvolvimento das oposições. Ao ecoar grandiosamente na mídia, uma pequena ação puxava outras, estimulando tendências, despertando coragens.
O papel dos meios de comunicação nunca poderá ser subestimado na análise de 1968. Jornais ainda, mas já, e sobretudo, a televisão. Com as imagens, nacionais e internacionais, informando, sensibilizando, despertando. O planeta tornava-se uma aldeia global: os tiros dos soldados norte-americanos nas selvas do Vietnã ecoavam nas salas de jantar das cidades brasileiras, assim como as mulheres norte-americanas queimando sutiãs, e os negros queimando cidades, e os protestos dos estudantes franceses contra a repressão sexual, e as pernas das garotas londrinas com suas ousadas mini-saias, e os Beatles cabeludos com sua irreverência (hoje, face ao hard rock,como parecem tão bem comportados!) e os guardinhas vermelhos, no outro lado do mundo, agitando o livrinho vermelho do grande timoneiro. Eram barricadas por toda a parte: de tijolos e idéias, de sonhos, e propostas de aventuras, exprimindo um mal-estar difuso, mas palpável como a utopia quando ela parece ao alcance da mão.
Sob todos estes influxos, os universitários se reorganizaram. Na fronteira da legalidade com a ilegalidade, reconstituiu-se a rede de organizações estudantis de base, os diretórios acadêmicos, em cada escola ou faculdade, e os diretórios centrais, em cada universidade. No plano estadual e nacional, as Uniões Estaduais e a União Nacional dos Estudantes. Seus dirigentes, embora perseguidos, apareciam aqui e ali, em meio a comícios e passeatas, simbolizando a resistência e a luta. Por imposição da censura, os jornais, ignorando o ridículo, as chamavam de ex-UEEs e de ex-UNE, mas os estudantes as consideravam legítimas, e, aos gritos, quando podiam fazê-lo, afirmavam que, embora silenciadas, eram a nossa voz.
Mais embaixo, nos subterrâneos, processava-se a luta interna aos partidos revolucionários, as autonomeadasvanguardas. Antigas concepções desabaram, comprometendo lideranças consolidadas, agora presas ou em fuga.
Mas os debates teriam dificuldade em analisar, em profundidade, as bases sociais e históricas da derrota. Prevaleceu a caça aos bodes expiatórios e a crucificação dos culpados. As grandes vítimas foram o PCB e o PTB, responsabilizados, entre outros erros, por alianças demasiadamente amplas e por não terem preparado o enfrentamento. O resultado foi a desagregação. Comunistas e trabalhistas desfizeram-se em tendências e frações mutuamente hostis, estilhaçaram-se, projetando uma miríade de grupos, organizações, siglas. O que, de certo modo, reproduzia, entre as alternativas partidárias, a atomização presente na sociedade.
Tomaram então força concepções que primavam pela clareza - e pela simplicidade. O novo regime seria incapaz de abrir perspectivas para o país, estando condenado a uma só política - a repressão. Assim, e tendo em vista a desmoralização dos partidos tradicionais - reformistas populistas - o povo não tardaria a abrir os olhos, despertando das tradicionais ilusões. O Brasil estava num impasse - palavra então recorrente nos textos das esquerdas -, um barril de pólvora, prestes a explodir. Caberia aos novos partidos que surgiam mostrar o caminho, a fagulha que atearia fogo na seca pradaria (Mao Tsé-tung), o foco guerrilheiro que se espalharia como uma mancha de óleo (Régis Debray). Metáforas de luta armada, que se insinuava, sob o influxo da vitoriosa revolução cubana e da guerra popular no Vietnã, como a grande alternativa - a solução, para os problemas que atormentavam o país, o povo - e as esquerdas.
No quadro destas concepções, o movimento social dos estudantes era um peão num jogo mais complicado - o da revolução. Como, no entanto, era o mais ativo e articulado, era ali que se recrutavam militantes e dirigentes para os partidos revolucionários. E não era incomum ver estes últimos, apesar das pretensões a tudo vanguardear, serem arrastados pela dinâmica do movimento que muitos viam como pequeno-burguês. Mas nem por isso perdiam a ambição de reger e instrumentalizar os movimentos sociais. Neste sentido os partidos de vanguarda obedeciam à sua lógica intrínseca.
Entre estudantes e revolucionários, entre movimentos e partidos, simbiose e autonomia. Muitos analistas, e inclusive participantes da época, perderiam a capacidade de distinguir as nuanças entre o movimento social e os partidos revolucionários, num jogo sutil em que nem sempre os candidatos a mentores - os partidos - conseguiam impor seus pontos de vista iluminados às massas - o movimento social.
Num outro plano, penetrando pelas mesmas brechas, um outro ator também coadjuvante, mas igualmente ambicionando a função de mentor: os intelectuais - jornalistas, escritores, artistas, religiosos -, tomariam a primeira linha no protesto e na denúncia das ações da ditadura.
Os shows, os festivais de música popular, os manifestos de protesto, divulgariam temas e propostas que colocavam em questão o Brasil oficial, incentivando a crítica e a rebeldia, desenhando o perfil de uma intelectualidade inassimilada pelo discurso oficial. Um deles chegou a afirmar que era preciso abrir uma série de Vietnãs no campo de cultura (José Celso Martinez Correa). Entre estudantes e artistas - de todas as tendências - se criou uma comunidade de inclinações, de interesses e de gostos, onde se esboçou a formulação de novos valores, envolvendo não apenas a política e o poder, mas os costumes, as práticas cotidianas, as relações entre as pessoas - uma revolução que apenas se iniciava, e que prosseguiria para além, muito além, de 68.
Nos púlpitos, uma reviravolta. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que abençoara a instauração da ditadura, denunciava cada vez mais seus excessos. Inspirando-se no processo de atualização da Igreja (Concílio Vaticano II, Encíclicas de João XXIII e de Paulo VI, Conferência do Episcopado Latino-Americano/CELAM), uma corrente progressista destacou-se, apoiando e dando abrigo a estudantes e intelectuais.
Do centro do palco, onde se ativavam estudantes e intelectuais, aos subterrâneos, onde se discutiam os rumos da revolução brasileira, um intercâmbio permanente de energias, estimulando autônoma e reciprocamente, buscas, indagações e caminhos.
Semeando o ano de 1968.
O ano, a rigor, foi curto, durou um semestre. Fechado pelas grandes manifestações ocorridas no Rio de Janeiro, a dos Cem Mil e dos Cinqüenta Mil, em fins de junho e começos de julho. Passeatas, ocupações, protestos, comícios, lutas de rua, em todo o país, e sobretudo nas capitais dos Estados, mas não apenas nelas, também em cidades médias e pequenas, uma explosão de inconformismo e ousadia, apoiadas por uma imensa corrente de simpatia e solidariedade nas cidades, amplificada pela mídia descontente com o governo. Ao mesmo tempo, e paralelamente, o início das ações armadas: expropriações, bombas, o fantasma de uma guerrilha rural anunciada, embora nunca realizada.
A popularidade da rebeldia. Solta no ar, a frase de uma criança sintetiza a admiração sentida, num certo e breve momento, pelos estudantes: Depois das cenas bacanas que vi, acho os bang-bangs da TV muito chatos. Não quero mais ser mocinho, quero ser estudante. E contraria uma interpretação corrente - e simplória - que pretendeu - e pretende até hoje - reduzir aquele jogo de luzes à mera expressão de um arroubo, uma porra-louquice.
Na verdade, o movimento de 1968 ganhou consistência social porque soube aliar a crítica da ditadura à formulação de um programa de reivindicações que era a expressão da grande maioria. Tratava-se de uma abordagem nova, elaborada e afirmada ao longo do segundo semestre de 1967, sob liderança da União Estadual de Estudantes do Rio de Janeiro, a então UME, presidida por Vladimir Palmeira. Foi assim construído um amplo programa de reivindicações: mais verbas para a universidade, para os laboratórios e bibliotecas, para modernizar o equipamento de ensino e pesquisa e ampliar o acesso da população ao ensino universitário. Manutenção de uma política de assistência aos estudantes carentes - a luta do Calabouço seria aí um símbolo. Os estudantes também reivindicavam reformas nos currículos e uma pesquisa aberta às especificidades do país e de seus problemas.
As propostas surgiam, ou eram confirmadas, a partir de inúmeras assembléias, realizadas por baixo, em cada turma, em cada faculdade e universidade, até ser sintetizada pelos diretórios centrais e uniões estaduais e nacional.
Sem perder a perspectiva política mais geral, ancorava-se a mobilização no cotidiano. Daí a força do movimento: não se lutava apenas contra, mas por interesses tangíveis, concretos.
Contudo, as autoridades foram intransigentes. Temiam a contaminação daquele vírus. E recusaram o diálogo, porque os planos para o país previam uma brutal elevação do arbítrio - a manutenção e o aprofundamento do Estado de exceção. Nestas condições, do ponto de vista da ditadura, seria uma insensatez ceder e conceder.
Aconteceu o enfrentamento. O inventário das armas de cada contendor fala por si mesmo. Os estudantes apresentavam-se no campo de combate com sacos plásticos cheios d'água, pedras, paus, gelo, garrafas, vasos de flores, tampas de latrina, carimbos, cinzeiros, cadeiras, tijolos, bolas de gude, cortiça e umas pobres barricadas. Já a polícia usava fuzis, revólveres, baionetas, sabres, pistolas 45, cargas de cavalaria, bombas e granadas de gás lacrimogêneo.
Desigualdades deste tipo até podem ser vencidas, desde que se mobilize a inteira sociedade. Que pode aí levar à desagregação do aparelho repressivo. Mas não foi o caso. A sociedade não acompanhou. E as lideranças estudantis ficaram na contracorrente. Na contramão da história.
E, assim, encurtou-se o ano.
No segundo semestre ainda houve movimento. Mas já dominado pela espiral de repressão-protesto-mais repressão-ainda protestos. Sobressaltos, como as unhas nos dedos dos mortos: insistem em crescer, mas o corpo a que pertencem já não se pertence mais. A curva descendente de um movimento colhido pelo impasse. A curva ascendente de uma repressão que já não provoca indignação e ira, mas intimidação e medo.
Como numa corrida de revezamento, os partidos revolucionários, ator coadjuvante, fariam uma breve passagem pelo centro do palco. Mas era então um outro ano. Totalmente isolados, foram não menos rapidamente liquidados.
Desceu o pano. A derrota. Mais uma. A última daquele ciclo, iniciado em 1964.
Mas nas dobras da derrota, cintilações, que nos chegam até hoje.
A maior delas: aquelas pessoas tinham uma estranha autoconfiança. Acreditavam na própria capacidade de transformar a si mesmas e as suas condições de vida. Por contraste, por estranhamento, talvez advenha daí o interesse - e o fascínio - que a sociedade atual, dopada pelo conformismo, ainda sente por aquele ano e por aquela gente. Neste fascínio, latejará ainda o vírus de 1968? Ou se tratará de mera observação externa, como num zoológico, do outro lado das grades, sem risco de contaminação?
The answer, my friend, is blowing in the wind, the answer is blowing in de wind (Bob Dylan).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Debord, G. (1997) A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto.         [ Links ]
Cohn-Bendit, D. (1987) Nós, que amávamos tanto a revolução. São Paulo, Brasiliense.         [ Links ]
Gorender, J. (1987) Combate nas trevas. São Paulo, Ática.         [ Links ]
Reis Filho, D. A. (1991) A revolução faltou ao encontro. São Paulo, Brasiliense.         [ Links ]
Reis Filho, D. A. & Moraes, P. (1998) 1968, a paixão de uma utopia. Rio de Janeiro, Ed. Fund. Getulio Vargas.         [ Links ]
Ridenti, M. (1993) O fantasma da revolução brasileira. São Paulo, Unesp.         [ Links ]


Representações do golpe de 1964 e da ditadura na mídia - sentidos e silenciamentos na atribuição de papéis à imprensa, 1984-2004



Representations of the1964's coup and the dictatorship in the media - meanings and silences in the roles ascribed to press, 1984-2004


Flávia Biroli
Professora Adjunta do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Doutora em História pela Unicamp. Instituto de Ciências Humanas - IH. Campus Universitário Darcy Ribeiro. ICC - Ala Norte - Mesanino - sala B1-606 (minhocão norte). CEP: 70.910-900 Brasília - DF.fbiroli@terra.com.br



RESUMO
Este artigo discute representações sobre os papéis assumidos pela imprensa no golpe de 1964, na ditadura e na redemocratização, em textos publicados em jornais e revistas brasileiras entre 1984 e 2004. A análise demonstra como as significações atribuídas ao golpe e à ditadura nos textos jornalísticos sobrepõem-se a discursos que vinculam a prática jornalística à defesa da democracia, tendo por base uma oposição simplista entre liberdade de imprensa e ditadura. A associação entre crise, autoritarismo e um passado já encerrado permite a afirmação da democracia como realidade consensual, esvaziada das disputas e tensões que a caracterizam.
Palavras-chave: imprensa, golpe de 1964, democracia, ditadura

ABSTRACT
This study discuss the form of representation of the role played by Brazilian press in the coup of 1964's dictatorship and redemocratization, in texts that were published in Brazilian papers and magazines between 1984 and 2004. The analysis shows how the meanings assumed by the coup and the dictatorship in the texts are superposed to discourses that tie the practice of journalism to the defense of democracy, based on a reductionist oposition between freedom of the press and dictatorship. The association among crise, authoritarianism and the near past produces a comprehension of democracy as a consensual reality, with no disputes and tensions.
Keywords: press, 1964's coup, democracy, dictatorship



Este trabalho é parte de uma pesquisa sobre as representações do golpe de 1964 e da ditadura militar recente, na imprensa brasileira, nas últimas décadas. O material selecionado para a pesquisa, assim como a problemática destacada, permite uma série de análises, enfocando diferentes questões. Neste artigo, optamos por tratar apenas dos discursos que se referem à atuação da imprensa na crise, no golpe e/ou na ditadura militar recente.1
As seguintes questões orientam a discussão apresentada: como se cruzam as representações sobre a história recente do país e aquelas que são cultivadas pela própria imprensa sobre seu papel (papel do jornalismo, de jornais e de jornalistas) na sociedade? Quais as sobreposições entre as significações atribuídas ao golpe e à ditadura e aquelas que compõem um ethos para o jornalismo, vinculando-o de modo peculiar ao funcionamento da democracia? E ainda, como crise e golpe ganham sentido em uma temporalidade que delimita a compreensão do passado e assegura um lugar de relevância para a imprensa no presente?
1964, como se sabe, é um dos marcos relevantes na história recente do país. Na literatura acadêmica, aparece como ruptura ou momento de inflexão em análises que procuram, ao mesmo tempo, atribuir sentido ao fato e à crise que o engendrou.2 Trata-se de um evento significativo em um imaginário político que é constituído historicamente e que integra as significações sociais que "dão sentido" ao presente e àquilo que "somos".
Cornelius Castoriadis define as significações sociais não como algo que se constitui em relação a objetos e indivíduos a elas exteriores, mas como "as condições do representável e do factível", como "posição primeira, inaugural, irredutível do social-histórico e do imaginário social tal como se manifesta cada vez numa sociedade dada", que define, em cada sociedade, "o que é e o que não é, vale ou não vale, o que pode ser ou valer", dando unidade "à multidão indefinida e essencialmente aberta de indivíduos, de atos, de objetos, de funções, de instituições".3 Essas significações seriam, elas mesmas, temporalidade, no sentido de que não se poderia ter, de um lado, um conjunto de sentidos e, de outro, o tempo lógico-calendário em que esses sentidos se materializariam como história. Para o autor, o social-histórico é um modo de instituição da temporalidade. Assim, a análise de uma sociedade seria inseparável da descrição de sua temporalidade, de sua instituição como uma temporalidade própria.4
Não consideramos que 1964 seja um evento que, por si só, funda uma temporalidade. Consideramos, no entanto, que é um evento-chave na construção de sentidos para as últimas décadas e para a atualidade política, participando da composição da temporalidade que orienta o fazer e o representar social e político.
A mídia pode ser abordada ao menos de duas maneiras em relação a essa problemática: a) como instituição central aos processos de significação nas sociedades contemporâneas e, portanto, dentro da proposta de Castoriadis, como instituição (no sentido corrente) que é central aos movimentos de afirmação-alteração da instituição da sociedade (no sentido que lhe atribui o autor), e b) como ator na crise que engendra o golpe de 1964, na ditadura e no processo de democratização, de forma não-homogênea e não-determinada.

Imprensa e crise política
A relação entre a imprensa brasileira e a crise política que precedeu o golpe de 1964 nos parece importante para a análise dos discursos que, posteriormente, atribuem sentido ao passado recente. Podemos trabalhar com essa questão em pelo menos dois níveis, correlatos às duas maneiras de abordar a mídia que foram indicadas há pouco. Um deles diz respeito aos aspectos de maior duração e que extrapolam os limites da sociedade brasileira, isto é, ao papel assumido pela imprensa na contemporaneidade e às relações entre esse papel e formas de sociabilidade e valores políticos. Estaríamos, nesse caso, no campo das representações de maior duração, que, na esteira do que nos diz Castoriadis, constroem temporalidade e orientam o fazer e o representar social e político. O outro, por sua vez, diz respeito às peculiaridades da atuação da imprensa no Brasil, e especificamente às peculiaridades de sua atuação na crise que antecedeu o golpe, na ditadura e, posteriormente, no processo de redemocratização.
Os dois níveis só podem ser separados por meio de artifícios teórico-metodológicos que nos auxiliam na análise do problema. Fazemos, aqui, essa opção, tratando inicialmente do primeiro deles.
Vários autores, entre eles Gabriel Tarde e Alexis de Tocqueville, no século XIX, e Robert Darnton, Jürgen Habermas e Reinhart Koselleck, no século XX, já observaram as correlações entre os fundamentos do liberalismo e a construção material e simbólica do papel da imprensa a partir da modernidade, fundado sobre a centralidade que a "crítica" e a "opinião pública" assumem com o advento do iluminismo e da esfera pública burguesa.
Em Crítica e crise, o filósofo alemão Reinhart Koselleck analisa, em autores que compõem o pensamento iluminista, a relação que se estabelece entre a percepção da história como progresso e a visão que os intelectuais têm de seu papel e de sua ação no contexto da crise que marca a decomposição do regime absolutista, com suas formas materiais e simbólicas de legitimação. Algumas de suas hipóteses sobre a relação entre crítica, temporalidade e crise no pensamento iluminista parecem-nos particularmente interessantes para esta reflexão.
No processo histórico em que se estabelece a contestação da submissão da moral privada à autoridade do Estado, colocando em questão a divisão entre homem e cidadão que caracterizou o período absolutista, ganham relevância as noções de crítica, julgamento e opinião. A crítica se estabelece como o movimento da moral privada em direção à esfera pública, constituindo, paulatinamente, a legitimidade do ato de julgar as decisões do Estado. Dos súditos, cuja liberdade consistia na manutenção de seus julgamentos e valores em sigilo, passa-se ao cidadão como o portador dos valores que definem a autoridade pública.
Nesse caminho, complexo e não homogêneo, o segredo teria sido a chave por meio da qual se organizou a atividade crítica. Nas lojas maçônicas ou nos salões, a sensibilidade que nasceu da insatisfação com o regime absolutista protegeu-se do Estado pelo segredo, cuja função protetora "encontrava seu correlato espiritual na separação entre moral e política".5 A transição de uma liberdade interior moral para uma liberdade exterior política teria sido encoberta pelo segredo, não apenas para o Estado, mas também para aqueles que a viveram. Se foi por meio do segredo que a consciência privada pôde ampliar-se, foi também nesse movimento que se constituiu uma atividade crítica que se apresenta como fundada em juízos morais universais e em uma competência que deles nasceria para julgar, de fora, o domínio da política.
Desse modo,
a crítica política não reside somente no juízo moral enquanto tal. Está presente no momento em que se executa a separação entre uma instância moral e uma instância política, não só por submeter a política a um juízo severo, mas também, pelo contrário, por separar-se como uma instância que tem a faculdade de julgar o domínio da política. Esta separação já encerra a crítica ao Estado.6
Essa divisão, que é ao mesmo tempo pressuposto e conseqüência da crítica política tal como se constitui, sobretudo no século XVIII, está na base do pensamento liberal. O paradoxo destacado por Koselleck nos aparece, assim, como um dos nós desse mesmo pensamento: a composição de uma crítica política que se estabelece na medida em que nega seu caráter político, a materialização de uma crítica ao presente que constrói suas bases de legitimidade na medida em que obscurece seus liames com os conflitos presentes, situando no futuro o lócusde sentido da crítica e dos críticos.
A estrutura temporal da crítica corresponderia, assim, à noção de progresso. A obrigação do crítico seria em relação ao futuro. "A vinculação com o futuro, criada pelo próprio juiz racional", o teria emancipado para criticar o presente, "proporcionando ao executor da crítica, no presente, um espaço de absoluta liberdade".7 Segundo Koselleck, é esta vinculação com o futuro que, ao mesmo tempo, isenta os atores de sua responsabilidade política e encobre até o fim o fato de que existe crise política e que a crise, como tal, exige decisões políticas.
O autor explicita a relação entre crise e abertura/indeterminação:
Pertence à natureza da crise que uma decisão esteja pendente, mas ainda não tenha sido tomada. Também reside em sua natureza que a decisão a ser tomada permaneça em aberto. Portanto, a insegurança geral de uma situação crítica é atravessada pela certeza de que, sem que se saiba ao certo quando ou como, o fim do estado crítico se aproxima. A solução possível permanece incerta, mas o próprio fim, a transformação das circunstâncias vigentes – ameaçadora, temida ou desejada –, é certo. A crise invoca a pergunta ao futuro histórico.8
O estatuto paradoxal da crítica iluminista, porém, permite que, ao mesmo tempo, represente a crise como abertura, mas o faça em uma filosofia da história capaz de antecipar sua resolução como algo que se daria no plano moral, considerando-a, como tal, pré-determinada. Dizendo de outro modo, a "pergunta ao futuro" é feita apenas se e na medida em que se delimita ao leque de respostas possível em uma projeção homogênea do tempo, que procura dominar a alteridade que é constitutiva do social-histórico.
Voltando às palavras do autor,
a filosofia da história, mediante a qual o burguês antecipa o fim da crise, garantia que a decisão esperada expressava um juízo moral, pois 'a razão prática reinante', como dizia Kant, era capaz de fornecer a interpretação 'autêntica' da história – uma história como processo moralmente legal. Assim, a guerra civil foi invocada na medida em que seu desenlace já estava fixado. A crise, como crise política, permanecia encoberta.9
Ao dizer que a crise, como crise política, permanecia encoberta, Koselleck refere-se ao fato de que permanece encoberto o caráter indeterminado dos eventos humanos, que traz para o centro da complexidade dos eventos e crises as decisões tomadas pelos atores, sua ação em relação a um presente que não está definido e que não é uma etapa pré-significada de um tempo histórico homogêneo (do progresso ou da decadência).
A percepção do tempo histórico como tempo evolutivo-progressivo, situando a crise como uma espécie de intensificação do tempo em direção a um outro que é apenas o desdobramento do mesmo, faz com que a crítica se construa e se exerça apenas dentro dos limites que negam sua existência como crítica política. Se, inicialmente, a necessidade do segredo constrói essa representação, posteriormente, a construção de um lugar para o crítico no futuro delimita seus traços.
É central à análise de Koselleck a percepção de que a crítica e a desvinculação dos atores em relação ao tempo presente constituem uma mesma dinâmica. Nela, seria representada a superioridade de uma crítica que, de forada política e, como tal, do próprio presente, seria capaz de julgá-la e trazer à luz a verdade ocultada (pelo Estado, pela autoridade). A crise como instante de indeterminação seria, assim, ocultada pela crise vista como episódio de um desenvolvimento já previsto rumo ao futuro, que asseguraria ao crítico seu pertencimento aos "novos" tempos, na medida em que ele seria portador da ação que denuncia os obstáculos a uma verdade anunciada, localizada no futuro.
No âmbito deste trabalho, permitimo-nos relacionar a análise de
Koselleck à análise feita por Myriam Revault D'Allonnes sobre o "desaparecimento da política" como um lugar comum na representação das sociedades modernas e contemporâneas. Ou, como o entenderíamos seguindo Castoriadis, como um dos aspectos relevantes da significação social e da instituição das sociedades modernas ocidentais segundo valores e formas de sociabilidade peculiares.
Se, por um lado, D'Allonnes localiza essa problemática na conhecida contraposição entre "liberdade da política" e "liberdade para a política", que orientaria, com a dominância do primeiro pólo, as representações modernas sobre o político, por outro lado alerta para o fato de que a filosofia política não apresenta um caminho adequado para se pensar esse estatuto esvaziado do político na modernidade – e da ação humana nas formas modernas e contemporâneas de instituição da sociedade. O problema, nesse caso, estaria na divisão entre verdade e opinião; na incapacidade dos filósofos, destacada por Hannah Arendt, de "descer" ao mundo da cidade. O ponto que nos interessa diz respeito ao fato de que o "desaparecimento da política" estaria relacionado a uma vontade de dominar e a uma incapacidade essencial: "vontade de dominar a "fragilidade" das relações humanas e incapacidade de com ela se defrontar".10
Ao tratar da política, que entende subsumida, a partir da modernidade, à história ou à moral, indica uma problemática semelhante à de Koselleck. Para a autora, em uma interpretação calcada na de Hannah Arendt, a sobreposição de uma filosofia da história a uma filosofia política estaria relacionada a um desejo de remediar os embaraços e a imprevisibilidade da ação. Para tanto, a modernidade teria buscado "no conceito de 'processo' um remédio para a fragilidade do agir", teria substituído o agir pelo 'fazer', afirmando que os homens, mesmo sem o saber, mesmo sem o querer, 'fazem' a história".11 A crítica se dirige, explicitamente, a Hegel e Marx: neles, a filosofia da história englobaria a política, submetendo-a a um sentido – o sentido histórico do engrandecimento da razão, do direcionamento a uma história Total sob o signo da razão. A concepção hegeliana de história aboliria irremediavelmente a dimensão política do agir.
Como esclarece D'Allonnes, "não é a história como dimensão – ou como horizonte – da existência que coloca problemas à ação e à política, é a História como recapitulação e recoleção global de um Sentido. É a idéia de que há uma 'última palavra da história' que é seu julgamento final",12 em uma representação da história onde coincidiriam o resultado do devir e a realização da promessa. Está implícita nessa análise a concepção arendtiana de que a política se realiza como contingência, e não pode existir quando se abole, ou se procura abolir, a fragilidade que seria característica do agir político. Daí o foco na vinculação entre uma filosofia da história que procuraria abolir a contingência (seja naturalizando a política e fixando-a a partir de uma origem definida, seja submetendo-a a uma história que tem condições definidas e sentido esperado) e a noção de desaparecimento da política.

Dominar o tempo, garantir a eficácia do ethos
O recurso a essas reflexões se deve, especificamente, à hipótese de que existe uma correlação entre a noção iluminista de "crítica" (Koselleck),
o esvaziamento do político como dimensão da história (Koselleck e D'Allonnes) e a construção de um lugar neutro, apaziguado ou exterior aos conflitos, para a imprensa. Esse lugar, constitutivo do ethos assumido pelo jornalismo, implica na sobreposição de dois aspectos: um, supostamente técnico, refere-se à objetividade como valor, procedimento e forma de legitimação do trabalho e do discurso jornalístico; outro, reconhecido como político, refere-se ao liberalismo como um conjunto de valores não apenas associados à imprensa, mas que seriam sua condição de existência, marcando-se, entre outras coisas, por uma "defesa da liberdade de expressão que silencia sobre a relação intrínseca entre as formas de concentração de poder e as possibilidades e restrições ao exercício dessa liberdade". Ao longo do século XX, pode-se observar uma transposição, das referências à tradição liberal, para um conceito amplo (e de certo modo esvaziado) de democracia na construção de identidades e relevância para o jornalismo. De maneira correlata, a liberdade de expressão continuaria, predominantemente, a ser tematizada sem uma referência ao funcionamento das empresas jornalísticas, à concentração de recursos e poder que permite delimitar o que é "livremente" dito e publicizado.13
No período que delimita o objeto de análise dessa pesquisa, convivem de forma peculiar estratégias para a afirmação da objetividade e o recurso à democracia como "lugar comum", no sentido trabalhado por D'Allonnes, isto é, como clichê, como estereótipo, em formulações nas quais "o consenso é o correlato da imprecisão semântica e da diluição do conceito".14
Embora não seja objetivo deste trabalho tratar da atuação da imprensa brasileira na crise que antecedeu o golpe de 1964, mas discutir as representações recentes sobre o golpe e a ditadura nas páginas de jornais e revistas, é necessário indicar alguns aspectos relacionados àquela atuação.
Durante o chamado período democrático de 1945-64, a maior parte dos jornais e revistas da grande imprensa alinhou-se, em momentos-chave, a posicionamentos anti-getulistas que constituíram ações e opiniões golpistas. Isso pode ser observado durante os trabalhos da Constituinte de 1946, a campanha para as eleições de 1950, a CPI do jornal Última Hora (único jornal, entre os de maior circulação, ligado a Vargas durante todo o período), as semanas que antecederam o suicídio de Vargas, as eleições de 1955, e, sobretudo, o período entre a renúncia de Jânio Quadros e o golpe de 1964. Como se sabe, a polarização entre getulismo e anti-getulismo sobreviveu ao suicídio de Vargas e esteve relacionada a uma série de elementos que compuseram o debate e os conflitos políticos no período, e que não cabe aqui discutir. Quando o foco das críticas se voltou para Goulart, sobrepuseram-se anti-getulismo, anti-comunismo, resistência à centralidade cada vez maior dos sindicatos na política, resistência a mudanças sociais e à exposição ampliada de demandas dos trabalhadores; resistências, enfim, às transformações em curso, que poderiam reconfigurar os limites do debate público e da esfera política no Brasil. Os artigos publicados pelo jornalista e político udenista Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa naquele momento são, talvez, o exemplo mais forte dessas sobreposições.
É importante, para os objetivos deste trabalho, lembrar que os principais jornais do país posicionaram-se, naquele momento, a favor do afastamento de Goulart e, com ênfases e envolvimento diferenciados, a favor de um golpe que, ao afastá-lo, restauraria a "ordem" e protegeria o país da demagogia, do sindicalismo, do comunismo, da subversão dos valores, de uma suposta ditadura de esquerda. É importante, também, ressaltar que, se não era possível, então, compreender que o golpe se desdobraria em uma ditadura militar que duraria mais de 20 anos (a expectativa de muitos era de um retorno próximo a eleições que, expurgado o campo político, levariam ao poder seus candidatos), a aposta de que ele traria ganhos para algumas empresas e empresários da área de comunicação confirmou-se ao longo do regime (os casos da Rede Globo e do jornal Folha de S. Paulo são os mais conhecidos).
Em trabalho anterior,15 pudemos observar que muitos dos textos escritos após a intensificação do arbítrio e da violência, que caracterizaram desde o início a ditadura, recorrem a elisões que têm como efeito uma caracterização do jornalismo dos anos 50 como atividade democrática, em defesa da democracia, em estratégias de planificação que objetivam conservar um status de credibilidade para o jornalismo e para os grandes jornais nas décadas recentes, após o término do regime militar. Pouco ou nada se diz sobre a crise como momento não determinado, em que decisões e posições diferenciadas puderam ou poderiam ter sido assumidas.
Jornalistas ligados ao Correio da Manhã e a O Estado de S. Paulo, estudados de maneira mais atenta, descrevem esses jornais como combativos, vinculando a imprensa à derrocada do Estado Novo e ao clima de liberdade (pouco problematizada, já que delimitada por percepções liberais bastante estáveis) do período que se encerrou com o golpe de 1964, para então, em um salto significativo, vinculá-la ao combate à censura do pós-64, sobretudo a partir de 1968. O silêncio, crucial à construção da memória, deve-se ao envolvimento de jornais e jornalistas com a queda de governos (Vargas em 1954, João Goulart em 1964), em ligações mais ou menos estreitas com articulações golpistas (contra Vargas, Juscelino e Goulart) e com o elitismo autoritário da União Democrática Nacional (UDN). Silenciam, assim, sobre o fato de que as relações entre imprensa e política emtempos de democracia se caracterizaram, inúmeras vezes, por práticas negadoras de aspectos centrais à política democrática, como a não aceitação das opções contidas no voto, a não aceitação do confronto como constitutivo da política e das sociedades e, para fazer uma referência explícita às discussões em Koselleck e D'Allones, a não aceitação da indeterminação que constitui a política e a democracia.
O caderno comemorativo dos 125 anos do jornal O Estado de S. Paulo, publicado no ano 2000, é um exemplo significativo das construções de memória às quais acabo de me referir. O título do texto que expõe a trajetória do jornal, "O Estadão faz 125 anos, mas só conta 120. Erro de cálculo? Não, intervenção mesmo", refere-se aos cinco anos, entre 1940 e 1945, durante os quais o jornal esteve sob intervenção da ditadura de Vargas. No decorrer da ditadura do pós-64, e depois dela, o Estado procurou fixar uma imagem de agente favorável à democracia, construída por meio de afirmações e silêncios:
Em 1940, a ditadura Vargas, incomodada com a postura editorial do Estadão, invade sua sede e expulsa diretores e jornalistas. Durante 5 anos, o Estadão não foi o Estadão. Só a partir de 1945, novamente sob a direção da família Mesquita e tendo à frente Júlio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, o Estadão voltou a ser um jornal livre. E voltou a denunciar. Mas em 1971, com os militares no poder, censores são instalados nas redações dos jornais, vetando quaisquer notícias sobre prisões e protestos ou declarações contrárias ao regime ditatorial. Para fazer resistência, o Estadão usou uma arma bastante poderosa: a poesia. 660 trechos de Os Lusíadas, de Camões, foram usados no lugar das matérias censuradas. Era uma forma de mostrar aos leitores que alguma coisa estava errada. E de mostrar aos generais que era impossível fazer calar nossos jornalistas.
É particularmente significativo o salto da intervenção durante o Estado Novo e da liberalização, em 1945, quando o jornal retorna à família Mesquita, para o ano de 1971, quando o Estadão passa a sofrer censura sistemática do regime que Júlio de Mesquita Filho ajudara a criar. Aproximadamente 16 anos estão ausentes da narrativa.
São vários os elementos que constituem essa lacuna, relacionados aos movimentos da memória e à adesão à democracia como "lugar comum", nas décadas recentes. Seguem algumas hipóteses a respeito. Parece haver dois (ou mais) Vargas constituídos nas memórias predominantes. A um deles, o Vargas ditador, do Estado Novo, parece ser mais viável a oposição (apesar de este Vargas misturar-se ao das leis trabalhistas, trazido à memória de maneiras diversas). A um outro, ao Vargas que, eleito democraticamente em 1950, teria sido pressionado por forças oposicionistas, ou antipatrióticas, como foram definidas na carta-testamento, a oposição, mesmo que nas teias das histórias e memórias, é assunto delicado. No caso de Juscelino Kubitschek, um vencedor na memória política brasileira, associado a palavras-chave do circuito de valores do campo político presente, como desenvolvimento, crescimento e democracia, figurar na oposição se torna ainda mais complicado. A estes terrenos perigosos e escorregadios da experiência política brasileira e das lideranças consagradas pelo tempo é que o Estadão esquivou-se no texto comemorativo dos 125 anos. Esquivou-se também em relação ao início dos anos 60 e à articulação do golpe, na qual Júlio de Mesquita Filho teve um papel importante.16
Um dos pronunciamentos do então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, nos dias posteriores ao golpe, faz referência a essa atuação de Mesquita Filho, expondo percepções sobre a atuação de O Estado de S. Paulo e a biografia de seu diretor que seriam, posteriormente, cultivadas pelo jornal – devidamente lapidadas, como se discutirá mais adiante. Em seu pronunciamento à TV Rio, em 04/04/1964, Lacerda saúda Júlio de Mesquita Filho, que entra no palácio da Guanabara durante o pronunciamento:
Não haveria nada disto no Brasil se o dr. Júlio Mesquita, que perdeu o seu jornal, que perdeu anos de vida na prisão e no exílio (...) que teve tão grande parte de sua vida aperfeiçoada pelo sofrimento por amor ao Brasil, não haveria nada disso se novamente, com a mesma coragem daqueles tempos de mais jovem (...) ele não houvesse jogado, não só o que construiu, o seu grande jornal, que é talvez a maior universidade do Brasil, o Estado de São Paulo, se não jogasse tudo isto (...) num só esforço, o esforço de salvar os Brasileiros, a liberdade e a honra.17
Se em 1964, logo após o golpe, foi possível associar a atuação de Mesquita nos anos 60 à oposição do jornal ao Estado Novo, décadas depois, como se viu, o caderno comemorativo do jornal expõe a cisão entre as duas atuações, constituindo um silêncio que permite a projeção de um ethos homogêneo de defesa do liberalismo e da democracia, silenciando sobre crises das décadas de 50 e 60 e o golpe de 1964.
Dois dos textos que compõem a pesquisa atual, publicados no jornal O Estado de S. Paulo em 31/03/1994, como parte de um conjunto de matérias intitulado "30 anos depois...", referem-se à atuação do Estado e a Júlio de Mesquita Filho já nos marcos desse discurso repleto de lacunas relativas ao golpe.
Um deles, assinado por Oliveiros Ferreira,18 enfoca a censura sofrida pelo jornal como núcleo de uma narrativa que expõe a empresa, os Mesquita e os jornalistas em geral ora como vítimas da ditadura, ora como heróis de um combate em tempos difíceis. A crise, nesse caso, se constitui justamente nessa oposição entre censura e livre expressão, tendo, por isso mesmo, sua força, seus elementos trágicos, sua indeterminação esvaziados e controlados. A crise de fato, com seus muitos elementos vinculados aos conflitos acerca dos rumos que o país tomaria na década de 60 ou, posteriormente, durante o regime, é marginal ao discurso. Os destaques na matéria (linha fina e olho, como são chamados nas redações) confirmam o discurso assumido: "O arbítrio da censura contra o Estado foi uma luta da qual a Redação saiu vitoriosa" e "um tempo difícil e digno para todos nós".
Ao longo do texto, Ferreira fala da presença dos censores no jornal, a partir de 13 de dezembro de 1968, e das agressões e censuras sofridas pelos jornalistas, entre os quais inclui Júlio de Mesquita Filho e Júlio de Mesquita Neto: "foi uma época feita para os que sabiam jogar o jogo da guerra", "foi uma época em que se investigava tudo – e aí começou a ser demolido o braço empresarial do Estado e começaram as denúncias da miséria, do descalabro do meio ambiente, da situação dos índios". Os pólos censura versus liberdade de informação, que orientam o discurso, são, então, coroados pelo seguinte enunciado: "Foi uma luta em que triunfamos, nós da Redação".19
No âmbito do discurso assumido, uma vitória teria sido anunciada previamente, a da liberdade. O discurso se constitui por uma separação clara entre "dois lados", o da ditadura e o da liberdade – o jornalismo estaria, necessariamente, do lado da liberdade, como ator destacado na concretização daquilo que os tempos fatalmente trariam.
Logo abaixo do texto assinado por Oliveiros Ferreira, um outro, assinado por Paulo Francis, se propõe a falar sobre um "enigma" não explicado nas publicações sobre o golpe. Está presente nesse texto uma das temáticas importantes no material da presente pesquisa, a do golpe dentro do golpe, que aparece como uma defesa de Castelo Branco e daqueles que, a seu redor, teriam tentado conduzir o regime diferentemente, resistindo ao aprofundamento da repressão. As pressões da "linha dura", no entanto, teriam levado Castelo a extinguir os partidos (AI-2) e, especialmente, a estender seu mandato para um período de dois anos, não realizando as eleições presidenciais previstas para 1965. Esta seria uma das versões sobre a ditadura que, como sustenta Carlos Fico (2004a, p. 32), "por repetição, fixaram-se no senso comum como aceitas". A legenda da foto que está no centro da matéria é um exemplo claro da afirmação desse senso comum, que se constitui como memória: "Castelo, chefe do 'grupo da Sorbonne', tinha intenção de manter o regime democrático, mas perdeu espaço para a 'linha dura".20
Voltando a Francis, o "enigma" tratado no texto diz respeito ao fato de que dois dos poderosos civis que apoiaram o golpe, e tinham pretensões a se candidatarem às eleições, não tenham conseguido impedir que Castelo Branco obtivesse a aprovação do Congresso Nacional para a extensão de seu mandato. Os poderosos aos quais se refere são Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Segundo Francis, eles teriam força, na época, para manipular ao menos 50 votos no Congresso e impedir a vitória de Castelo, mas se omitiram. "Seus partidários da imprensa – diz – cobraram deles essa omissão. Nada disseram. Por que? Por que sabiam que era inútil resistir ao rolo compressor militar? Por que não quiseram enfrentar o risco de se declarar contra os vitoriosos de uniforme de 1964? Nunca se soube". E finaliza o texto, dizendo:
Se Carlos Lacerda, com a sua conhecida fúria polêmica e capacidade de articulação, e Magalhães Pinto, com a sua reconhecida destreza em manobras políticas, tivessem se oposto à extensão do mandato de Castelo Branco, talvez o Brasil de hoje fosse bastante diferente do que se tornou nos 30 anos, entre 1964 e 1994.21
Além dos silêncios que permitem a afirmação das intenções legalistas de Castelo, há outros, aqui, mais centrais ao tema deste artigo (o da participação da imprensa no golpe e das representações posteriores acerca dessa participação) e à sustentação do discurso assumido por Francis. Que "partidários da imprensa" cobraram de Lacerda e Magalhães Pinto uma outra posição, uma confrontação com Castelo?
Enunciado imediatamente abaixo de um texto em que Júlio de Mesquita Filho aparece como vítima e herói do embate entre ditadura e liberdade de expressão, o "enigma" apresenta muitas pistas que permitiriam solucioná-lo, entre elas o apoio de Mesquita à manutenção de Castelo no poder.22
Em carta datada de 12 de maio de 1964, dirigida a Carlos Lacerda e assinada pelo próprio Júlio de Mesquita Filho, o diretor do Estadão elogia a atuação de Lacerda na Europa, enviado para a divulgação da nova ordem que se constituíra com o golpe. Mesquita fala nas proporções assumidas pelo "nosso movimento", elogia Castelo Branco ("finalmente pusemos a mão numa personalidade de primeira ordem") e expressa seu apoio à intenção de Carlos Lacerda de suceder Castelo na presidência da República ("da sua eleição dependerá, segundo estou convencido, o resultado final do nosso movimento"). Mesquita expressa, no entanto, sua opinião de que a presidência de Castelo não deveria estender-se apenas até a data, estabelecida inicialmente, de outubro de 1965 – assunto ao qual Francis se referiu, no próprio jornal dos Mesquita, em 1994. Essa posição é relativamente conhecida: o mandato do primeiro presidente militar deveria ser prorrogado por três anos. O que chama a atenção é a maneira como a explicita, com a intenção de convencer Lacerda de que a prorrogação não comprometeria sua candidatura, como "líder incontestável da nova democracia". Suas palavras: "precisamos queimar até o último cartucho em defesa de uma oportunidade como a vitória de 31 de março, que não se repetirá nestes próximos cinqüenta anos".

Um lugar garantido para o jornalismo no presente
No material pesquisado, há poucas referências à participação de jornais e jornalistas no golpe. A maior parte das reportagens e artigos sobre a atuação da imprensa assume o discurso de que falávamos há pouco, ao tratar de O Estado de S. Paulo, opondo repressão à busca pela liberdade de expressão e informação. Em 1984, no material relativo aos 20 anos do golpe, e em 1985, no material relativo à campanha pelas diretas e à eleição do primeiro civil pelo Colégio Eleitoral após 21 anos de ditadura, nenhuma matéria explicita esse envolvimento. Em 1994, aFolha de S. Paulo o faz, ainda que em representações que não desestabilizam a polarização entre censura e liberdade de imprensa, ditadura e resistência. Em meio aos lugares comuns sobre o combate entre ditadura e imprensa e sobre a publicação de receitas de bolo em lugar de material jornalístico, afirmando que "a censura imposta à imprensa" era mais rígida quando se tratava de "defender o aparelho de segurança ou ocultar rachaduras no monolítico sistema instaurado pelo regime militar", o texto traz a seguinte passagem:
Otávio Frias Filho, atual diretor de Redação da Folha, diz que 'durante o período inicial, o regime militar teve apoio de praticamente toda a mídia. Seguiu-se um período intermediário, que coincidiu com o endurecimento do regime, em que algumas publicações, entre elas O Estado de S. Paulo, tiveram uma atitude de resistência. A Folha não tinha condições de levar adiante uma resistência desse tipo, mas teve uma participação realmente importante no terceiro período do regime militar, a partir do final do governo Médici e início do governo Geisel, quando o jornal contribuiu muito para a redemocratização.23
Nenhuma palavra sobre o que significa "não ter condições" ou sobre o apoio à repressão. Menos de um mês depois, uma reportagem sobre a campanha pelas diretas reforça o discurso anterior. "Folha apoiou primeiro" é o título do Box, no qual se lê não apenas que a Folha foi o primeiro veículo de imprensa a apoiar eleições diretas para a sucessão de Figueiredo, mas também que foi o que "se empenhou mais abertamente pela aprovação da emenda Dante de Oliveira", publicando vários editoriais nesse sentido e lançando "a idéia de se utilizar a cor amarela como a expressão do desejo de se votar para presidente".24
No material do ano de 2004, dois jornais tratariam explicitamente do apoio ao golpe (O Globo e, novamente, Folha de S. Paulo) e um deles (Jornal do Brasil) trataria do assunto indiretamente, por meio de uma entrevista com a historiadora Beatriz Kushnir.
O jornal O Globo é o que chega mais perto de uma ruptura ou deslocamento em relação aos discursos mais estáveis (censura versus liberdade de expressão). O título – Militares assumiram com apoio da imprensa – e a linha-fina – "Desde o começo do golpe a mídia teve uma relação amistosa com a ditadura" – abrem o texto, no qual se lê:
O traço mais forte da relação com o poder, em 21 anos de regime, não foi exatamente o de confronto, embora eles tenham existido em alguns momentos. Desde o início, marcado por um apoio unânime e entusiasmado, a chamada grande imprensa teve um convívio amistoso com os militares, razão pela qual até a censura prévia foi irregular e localizada no período.
A reportagem trata, inclusive, do apoio do Globo ao golpe. Transcreve trechos de editoriais, reproduz capas de alguns dos principais jornais no mês de abril de 1964, faz referências ao apoio da Folha ao regime já durante o governo Médici e transcreve um trecho do Dicionário Histórico-Biográfico da FGV em que O Globo é descrito como "o mais governista dos jornais". A discussão não se restringe a essa edição do jornal, estando presente também em outras edições nos meses de março e abril de 2004.
Nossa hipótese é de que esse posicionamento crítico se sustenta e é possível na medida em que se assume a existência de uma ruptura entre passado e presente, de uma ruptura entre autoritarismo e democracia que constituiria os modos de agir da mídia no presente. Assim, mesmo quando se assume que a polarização entre ditadura e imprensa não corresponde à complexidade desse processo e às ações de jornais e jornalistas, como nas matérias do jornal O Globo, há uma clara associação entre crise, autoritarismo e um passado já encerrado que se abriria para a democracia como realidade consensual. Daí a possibilidade de se assumir erros, expor o envolvimento com o regime: hoje, implícita ou explicitamente propõem os discursos, somos todos democratas e a imprensa assume seu papel.
Um artigo de Carlos Heitor Cony, publicado na Folha também em 2004, expõe justamente esse aspecto das representações predominantes. No artigo, fala, inicialmente, do apoio amplo ao golpe. O Correio da Manhã, onde trabalhava e onde foram publicados os famosos editoriais pedindo o afastamento de Jango, é caracterizado, no entanto, não por esse apoio, mas por ter sido o primeiro jornal a colocar-se contra "a maioria dominante que incluía militares, empresários, igreja e povo em geral. E a própria mídia". O mais interessante é que o artigo caminha de um "todos a favor do golpe", passando pelos primeiros atos de resistência, a um "todos contra o regime ditatorial". Quando o Correio passou, mais tarde, a denunciar a tortura, a violência e a "burrice" do "movimento" de 64, diz Cony, não ficou sozinho na denúncia crítica, "que logo se tornou aspiração de todos e pela qual tantos morreram".25
O jornal O Estado de S. Paulo, de maneira correlata ao caderno dos 125 anos, discutido antes, em nenhum momento menciona sua participação. Em 2004, como em 1994, o jornal tematiza a censura sofrida e destaca a atuação de Júlio de Mesquita Filho e a repressão contra o jornal. O marco inicial das narrativas não é 64, mas 68, quando o Estado passa a sofrer a censura do regime. No texto, 12 de dezembro de 1968 marca o início de "um dos piores períodos de censura à imprensa no país". Durante o governo Castelo Branco, a censura e a repressão teriam sido focadas em "jornais de tendência política mais à esquerda", mas teria prevalecido "uma certa liberdade": "na oficina do Estado, naquela madrugada [de 12/12/1968], até ela começava a desmoronar".26
Assim, predominantemente, as referências ao tema, em 1994 e 2004, oscilam, assim, entre a negação e o reconhecimento da participação da imprensa no golpe de 1964 e da complexidade de suas relações com o regime, mas sem romper com uma oposição simplista entre repressão e liberdade, que orienta sua inserção no presente. Há dois textos, apenas, que de maneiras diferenciadas ultrapassam a oposição simples entre ditadura/passado e democracia/presente.
Um deles é o artigo publicado em 1994 pelo jornalista Fernando Pedreira, no Jornal do Brasil. É menos interessante para a discussão feita neste trabalho, por não tocar na relação específica entre veículos de imprensa e a ditadura, ou nos limites estruturais à liberdade de expressão e à liberdade de informação, mas trata criticamente a liberdade que teria sido conquistada.
Trocamos a liberdade pela aparência da liberdade; pelo seu fantasma colorido. As pessoas se vestem como querem, mas se vestem todas com as mesmas roupas. Pensam o que querem, mas pensam todas as mesmas coisas. É uma 'liberdade' de massas, para as massas, regulada e administrada pelo marketing, pela mídia e pela moda.27
O outro é mais relevante para este trabalho. Foi publicado na revista Carta Capital e assinado por Aloysio Castelo de Carvalho, autor de tese de doutorado sobre a CPI do jornal Última Hora.28 Destoa do discurso predominante porque, ao expor a participação da imprensa no golpe, levanta hipóteses sobre as razões dessa participação, ao invés de apresentá-la como uma espécie de equívoco corrigido pelo tempo. Segundo a análise de Carvalho, jornais da grande imprensa teriam atuado na reestruturação do poder em 1964 como braço ideológico da burguesia, em associação com o capital internacional (o que alinha o autor à tese de René Armand Dreifuss, 1987). Ele problematiza, ainda, a projeção que posiciona a imprensa no "papel de autêntica representante da sociedade", valorizando a "imprensa privada como espaço público para direção do processo político", em detrimento de outras formas de representação e participação. Nesse sentido, segundo o jornalista, "a concepção liberal de valorizar o papel mediador da imprensa na crise das instituições representativas teve um conteúdo conservador".29
Aponta, pois, para uma análise que trata da atuação da imprensa superando a oposição simplista entre censura de Estado e liberdade, conferindo a essa atuação caráter político, ao mesmo tempo em que aponta para explicações de caráter estrutural. As perspectivas que constituem esse discurso, como foi dito, não obtiveram espaço em outros veículos e reportagens que compõem o material pesquisado.

Crítica e refúgio no passado
A maior parte das matérias que compõem nosso objeto de análise constrói-se na contraposição entre censura de Estado e luta em prol da liberdade de imprensa, ditadura e resistência. Além das discussões já citadas, são muitas as matérias que tratam da atuação de jornalistas individualmente, sem referência à posição das empresas para as quais trabalhavam, construindo-os como heróis de um tempo que se foi, politicamente ativos em um tempo de polaridades e conflitos dos quais o presente se teria esvaziado. Indicamos, nessas formulações, a convivência entre uma relação heroicizada com o passado e o esvaziamento do presente como tempo de conflitos, aberto a decisões e a formas de comprometimento.
O material é povoado por testemunhos de jornalistas sobre momentos de tensão associados à crise, ao golpe, à ditadura, ao exílio forçado. Diferentemente da questão anterior, a da participação das empresas no golpe e na ditadura, este aspecto do material aparece de maneira bastante homogênea em 84, 85, 94 e 2004.
Textos publicados pelo Correio Braziliense na edição de 31 de março de 1985, focados em depoimentos, compõem-se de representações bastante semelhantes, por exemplo, àquelas que constituem o caderno especial sobre o golpe publicado pelo Jornal do Brasil em 11/04/2004. Neste último, o artigo "Aventura em campo minado" relata a experiência de um jornalista do Última Hora em 31 de março de 1964, em busca de uma entrevista com o general Olímpio Mourão Filho, enquanto um outro, "A história pela lente de uma Rolleyflex", relata a experiência do jornalista Alberto Jacob, no Palácio da Guanabara, durante a noite de 1º de abril: "Como profissional, Alberto Jacob cumpriu sua função, documentando cada lance, cada fato. Como cidadão, revela, sentiu-se triste, profundamente triste por estar diante de um futuro incerto, ainda inatingível pelas lentes da sua Roleyflex".
Nos vários artigos, notas e reportagens publicados, baseados em testemunhos, não há qualquer discussão mais abrangente ou minimamente contextualizada sobre a as relações entre a imprensa e a queda de Jango, entre a imprensa e o regime. Em geral, a estrutura é: "fulano" esteve presente a tais "fatos", "beltrano" arriscou-se para conseguir informações durante a repressão exercida pelo regime.
A edição de 04/04/1984 da revista Isto é publicou 24 depoimentos sobre o golpe e a ditadura, dados por políticos, jornalistas, poetas, militares, artistas. São, em geral, críticos ao golpe e à ditadura, como os do jornalista Raul Ryff ("a revolução de 1964 inviabilizou o Brasil"), do poeta Carlos Drummond de Andrade ("A vida pública nesses vinte anos deteriorou-se (...) a revolução prejudicou todos os brasileiros (...) foi um grande erro histórico"), de Miguel Arraes ("eles elitizaram o país. Interromperam o avanço para a horizontalidade da renda (...) temem o reclamo das grandes massas marginalizadas"), do comediante Renato Aragão ("quero escolher o presidente do meu país e não deixam") e do jogador de futebol Sócrates ("nosso povo perdeu tudo").
Entre eles, chama a atenção o depoimento da mais jovem entre as "personagens" da matéria, um rapaz de 20 anos, nascido em 31 de março de 1964. O título, "Sem culpar ninguém", reflete o tom dos enunciados que compõem o depoimento publicado: "Não sei se todos esses governos foram chefiados por militares ou civis (...). Os militares são todos meio furados (...). Não creio que a Revolução tenha influído na minha vida" e, finalmente, "Não quero responsabilizar ninguém".30
Essa percepção, contrastante com o cultivo da imagem de engajamento – sobretudo dos próprios jornalistas – no passado recente, reapareceria em outros momentos. Em 1994, uma matéria publicada no jornal O Globo traz umbox assinado pelo jornalista Luciano Trigo, nascido em 1964 (informação que consta no final do texto), discutindo criticamente um suposto saudosismo de jovens que não viveram a ditadura e suas percepções sobre o presente e o passado recente. A partir de uma pergunta, que teria sido feita por um jovem em um encontro sobre a ditadura realizado na PUC-Rio, falando da "inveja" que sua geração sentia daqueles que viveram a ditadura, o jornalista levanta hipóteses para explicar esse saudosismo. Uma série de lugares comuns sobre o período constrói o discurso – uma riqueza impar da cultura brasileira, a definição de uma identidade coletiva pela confrontação com o "inimigo comum"; depois, uma crescente "alergia à política", acompanhada de uma crise econômica que teria levado toda uma geração a um "individualismo materialista" e a uma ausência de expressão artística autêntica.
A parte final do texto interessa particularmente a esta discussão, na medida em que expõe uma concepção esvaziada de democracia, muito presente nas representações que se constituem da contraposição simplista entre ditadura e democracia. Após levantar hipóteses para o "fascínio" dos jovens pelo passado recente, alerta para o risco de se viver "problemas e angústias de segunda mão" ou transformar "a ditadura em uma idade de outro", uma "Arcádia verde-oliva onde buscam refúgio os que num regime de liberdade não encontram pretextos para o marasmo cultural". A sentença, então, é dada:
A democracia pela qual se lutou está aí faz tempo. Não existe mais censura, a não ser a da falta de talento. Já é hora de parar de culpar a ditadura pela crise de criatividade e ousadia. Ou então admitir que neste país a cultura não se dá bem com a democracia.31
A ênfase na democracia conquistada é, sem dúvida, parte das representações sobre o passado presentes nos textos. Nesse caso, os silêncios em relação ao presente correspondem a representações homogêneas e esvaziadas sobre o passado recente.

Crítica e representação homogênea do tempo histórico
Estamos em uma democracia, chegamos a ela. A censura no passado é a liberdade no presente. Somos todos, afinal, democratas. Os meios de comunicação podem, agora, livres da censura, colaborar para a consolidação democrática. Essas afirmações compõem percepções centrais à construção de um ethos para a imprensa e os jornalistas no material pesquisado.
São exemplos importantes as publicações, no Correio Braziliense, em março de 1984, de discussões e artigos relacionados à mesa-redonda promovida pelo jornal para discutir telejornalismo e política, com a presença de Antonio Brito, então editor regional da Rede Globo, e Alexandre Garcia, na época editor regional da Rede Manchete. À transcrição do debate, o Correio adiciona artigos e reportagens escritos pela equipe do jornal e uma entrevista com Carlos Henrique Santos, então diretor de jornalismo do SBT.
Os problemas discutidos dizem respeito, sobretudo, às informações políticas (possibilidades e obstáculos), à relação entre telejornalismo e transição e às peculiaridades do jornalismo televisivo em relação ao radiofônico e ao impresso.
Um dos principais marcos dos discursos que compõem os debates consiste na afirmação de que não há mais censura por parte do Estado e, portanto, há liberdade de imprensa, uma vez que seriam quase inexistentes as restrições por parte das empresas. Alexandre Garcia afirma que "pode haver insinuação, mas não chega ao ponto de ser caracterizada como censura".
A TV Manchete hoje, desde que foi ao ar, não tem sentido restrições de espécie alguma para a sua cobertura. O que há são recomendações de ordem geral que mais dizem respeito à responsabilidade da TV do que outra coisa (...) Na cobertura política se evita fazer proselitismo das coisas. Trazer o comício para dentro da televisão, isso não. Existe uma campanha para eleições diretas, muito bem. Existe, há notícia e vamos noticiar. Agora, não vamos fazer proselitismo disso.32
Apesar de a postura ser ancorada em uma noção de objetividade que legitima o não-posicionamento ("não vamos fazer proselitismo disso" poder ser lido como não vamos nos posicionar em relação ao isso, vamos noticiar "os fatos"), a TV e o telejornalismo, especificamente, são vistos como parte de um processo amplo de politização. As pessoas estariam descobrindo que "existe lá um negócio chamado política que é o que dirige o País", "iniciando-se nessa confusão toda...", como diz Garcia.
Vale observar a grande ênfase no "novo", que convive, na matéria, com o silêncio em relação às relações entre as emissoras de TV, em especial a Rede Globo, e a ditadura. Os seguintes enunciados, proferidos por Brito, funcionam nesse sentido:
Se a gente tem um país novo, uma TV nova, a gente tem também, é óbvio, um público novo. (...) o público tem cada vez mais participação crítica: quer dizer, aumenta o número de pessoas que telefonam para elogiar, para criticar, para sugerir. Você tem cada vez mais pessoas interessadas em descobrir o Brasil, e ver o Brasil na TV, o Brasil nos meios de comunicação.33
Além dos aspectos já destacados, o discurso se constitui da oposição entre censura e livre expressão, repressão e conscientização, já indicada nos textos anteriores. O interesse crescente pelo telejornalismo, diagnosticado pelos jornalistas que fazem parte das reportagens, é vinculado à politização da população, que seria decorrente da abertura política. Pouco ou nada se diz sobre o assunto, no entanto, caracterizando, apenas, os meios de comunicação, e em especial a televisão, como agentes relevantes desse processo.
Carlos Henrique Santos, então editor do SBT em Brasília, é bastante enfático:
A última vez que tivemos livre imprensa no País, a TV era muito incipiente. Passados estes anos de arbítrio, de sufoco político, o processo (político) começou a se oxigenar e encontrou a televisão já num ponto importante e avançado de desenvolvimento. Hoje o que nós vivemos é a abertura em rede. Sempre se viveu no Brasil uma situação onde tudo era dado por um acordo de elites. E o que esta rede nacional permite é a horizontalização da informação: a democratização da informação do País que está sendo conquistada em todos os níveis e sobre todos os problemas. A partir do momento em que a informação é que possibilita a formação de uma consciência sobre tudo, a TV passa a ocupar um espaço de muita responsabilidade neste processo. Assim, fica mais difícil que tudo se resolva na cúpula, numa reunião de elites.34
Como se pode observar, o jornalismo (no caso, o televisivo) seria a grande "vedete" de um movimento de abertura, democratização, descoberta. Pode-se, assim, indicar, como parte dessas representações, a projeção de um lugar de destaque para os jornalistas como atores nesse processo, em uma progressão que esvazia os conflitos, limites e restrições que constituem não só a transição para a democracia, em sentido amplo, mas a atuação dos meios de comunicação de massa, mesmo com o enfraquecimento da censura de Estado. Talvez possamos ler a afirmação "a TV deve ter consciência de sua responsabilidade como veículo de massa" como "a TV deve ser a consciência" da democratização. É interessante, ainda, a correspondência entre informar-se e participar, traçada por Antonio Brito: "as pessoas estão buscando cada vez mais notícias e estão querendo cada vez mais participar (...) tem que haver um mercado da notícia e esse mercado só haverá se houver participação, pelo menos isso".
Formulações semelhantes sobre o papel do jornalismo fazem parte de uma reportagem publicada na revista Veja, também em 1984, a partir de uma pesquisa do Instituto Gallup sobre o nível de confiança nas instituições, com dados que revelariam um nível baixo de confiança na imprensa.
Na reportagem, a discussão sobre as razões para a baixa credibilidade se constitui de discursos fundados na oposição entre censura e livre expressão, associada à oposição entre manipulação e objetividade, neutralizando algumas possibilidades tímidas de uma discussão crítica sobre o funcionamento da mídia e as pressões e influências sofridas.35 Essa crítica é feita pontualmente, como nas declarações de Luís Inácio Lula da Silva ("os órgãos de comunicação ainda estão muito subordinados à questão econômica e à ideologia dos seus proprietários") e de Leonel Brizola (tudo é editado como convém ao órgão de imprensa, "a imprensa se tornou muito empresarial, desapareceram os jornais de opinião").
A revista, no entanto, assume o discurso da superação da censura, da manipulação e dos equívocos por meio do aprimoramento da imprensa, indicando, inclusive, que as percepções das pessoas que responderam à pesquisa estariam incompletas e distorcidas.36 Dedica vários parágrafos ao aprimoramento técnico e profissional, visto como fator importante rumo a uma menor "distorção" da realidade. "Libertada da censura em 1976", a imprensa poderia, então, exibir seu "vigor em defesa do bem comum e à custa de embates com o poder".37
A estrutura temporal da crítica, como na análise de Koselleck, parece corresponder à noção de progresso. Ancora-se, predominantemente, em um passado de embates – esvaziando a complexidade da crise que levou a 1964, na medida em que suprime conflitos e opções, apresentando as posições assumidas como "equívocos" superados por um processo supostamente homogêneo de abertura e democratização. Ancora-se, ainda, em um futuro delimitado por uma noção vaga de democracia, na medida em que o presente é representado como o contraponto da repressão. A democracia caracterizaria o momento "novo", materializando a superação dos obstáculos à liberdade e localizando a crise, definitivamente, no passado.
Sem assumir um paralelo entre os conflitos que marcaram o final do século XVIII e os que correspondem ao período pesquisado, que sabemos não existir, indicamos a existência de elementos comuns entre as representações que compõem o pensamento iluminista (aqui, de acordo com as análises de Koselleck) e representações de longa duração sobre a imprensa e o jornalismo que constituem os discursos no material analisado. Neles, essas representações nos remetem ao pensamento liberal clássico, a suas estruturas temporais e à relação entre progresso e razão, assumindo um funcionamento peculiar na construção de memórias sobre o passado recente e, sobretudo, de memórias e projeções sobre a atuação de jornais e jornalistas.
Como na análise de Koselleck, nas representações sobre o golpe e a ditadura aqui discutidas, a crítica política parece estabelecer-se na medida em que nega seu caráter político. Materializa-se como crítica apenas na medida em que obscurece seus liames com os conflitos presentes, situando ora no passado, ora no futuro o locus de sentido para a crítica. No caso específico do jornalismo, essas representações, associadas à valorização da isenção e de noções correlatas, isentam os atores de sua responsabilidade política e encobrem o fato de que a crise não é uma determinação localizada no passado e ligada a uma superação enunciada a priori pelos movimentos de uma história progressiva. Ao contrário, as decisões tomadas estendem-se sobre o presente e constituem seus conflitos, ainda que o "desfecho" não esteja claro, nem seja previsível.



* Uma versão anterior deste artigo foi discutida no 3º Congresso da Associação Latino-Americana de Ciência Política – Democracia e Desigualdades, ocorrido na Unicamp, em setembro de 2006.
1 O texto é parte de uma pesquisa mais ampla, que analisou textos escritos nos meses de março e abril de 1984, 1994 e 2004 (relacionados aos aniversários do golpe de 1964) e 1985 (relacionados à eleição do primeiro presidente civil, pelo Colégio Eleitoral). O material coletado consiste em 1314 matérias, das quais 72 foram agrupadas sob a temática "imprensa". Foram analisados os jornais O GloboFolha de S. PauloO Estado de S. PauloJornal do Brasil e Correio da Manhã e as revistas VejaÉpoca, Carta Capital e Isto É. Não teria sido possível sem o trabalho das alunas Anali Cristino Figueiredo, Michelle Fernandez e Samantha Albano Amorim (Pibic, CNPq) e Manoela Hartz.
2 Para um mapeamento das perspectivas predominantes nas ciências sociais e na história sobre o golpe e a ditadura recente, cf. FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2004 e DELGADO,         [ Links ] Lucília. 1964: temporalidade e interpretações. In: RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. (orgs.) O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois. Bauru: Edusc, 2004, p.15-28.         [ Links ]
3 CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p.412-13.         [ Links ]
4 CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade, p.243.         [ Links ]
5 KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise. Rio de Janeiro: Contraponto/Editora da UERJ, 1999, p.66.         [ Links ]
6 KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise, p.92.         [ Links ]
7 Para Koselleck, este seria o modus operandi da crítica mesmo quando o progresso não se apresenta como movimento ascendente, mas aponta para o futuro como destruição e decadência, o que observa por meio da análise do pensamento de Pierre Bayle. KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise, p.97.         [ Links ]
8 KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise, p.111.         [ Links ]
9 KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise, p.138.         [ Links ]
10 D'ALLONES, Myriam Revault. Le dépérissement de la politique: généalogie d'un lieu commun. Paris: Alto-Aubier, 1999, p.12-13.         [ Links ]
11 D'ALLONES, Myriam Revault. Le dépérissement de la politique: généalogie d'un lieu commun, p.142.         [ Links ]
12 D'ALLONES, Myriam Revault. Le dépérissement de la politique: généalogie d'un lieu commun, p.146.         [ Links ]
13 Para análises do tema a partir de debates das décadas de 1940-50, cf. BIROLI, Flávia. Liberdade de imprensa: margens e definições para a democracia durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-60). Revista Brasileira de História, São Paulo, v.24, n.47, p.213-240, 2004 e BIROLI,         [ Links ] Flávia. Técnicas de poder, disciplinas do olhar: aspectos da construção do 'jornalismo moderno' no Brasil. História, Unesp/Franca, São Paulo, v.26, n.2, p.118-143, 2007.         [ Links ]
14 D'ALLONES, Myriam Revault. Le dépérissement de la politique: généalogie d'un lieu commun, p.269. (tradução da autora)         [ Links ]
15 BIROLI, Flávia. Com a corrente – modernidade, democracia e seus sentidos no jornalismo brasileiro dos anos 1950. Campinas: Unicamp/IFCH, 2003 (História, tese de doutorado), 2003.         [ Links ]
16 A esse respeito, cf. BENEVIDES, Maria Vitória. A UDN e o udenismo: ambiguidades do Liberalismo brasileiro, 1945-1965. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981 e KUCINSKI,         [ Links ] Bernardo. Os cem anos de vida do jornalO Estado de S. Paulo: Liberal, conservador, antifascista. Opinião, p.4-5, 3 de Janeiro de 1975.         [ Links ]
17 Arquivo Carlos Lacerda, UnB. Pronunciamento do governador Carlos Lacerda através de uma cadeia de rádio e televisão (TV Rio e Rádio Roquette Pinto no comando da cadeia, 04/04/1964, p.16-17.
18 Oliveiros Ferreira, jornalista no Estado desde 1952, foi secretário de Redação a partir de 1967 e assumiu cargo de direção no jornal a partir de 1976.
19 FERREIRA, Oliveiros. Que jornal subversivo estávamos fazendo. O Estado de S. Paulo, p.X3, 31/03/1994.         [ Links ]
20 Para essa discussão, FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar.         [ Links ] Vale lembrar que os expurgos e a tortura tiveram início durante o governo de Castelo Branco, e com a sua conivência, foram decretados o AI-2, a Lei de Segurança Nacional, a Lei de Imprensa, para destacar algumas das medidas que definiram, desde então, o caráter repressivo e autoritário do regime. A hipótese que sustento, a partir da análise das representações presentes na imprensa, é que a "operação-salva-Castelo" é parte de esforços e estratégias para justificar a atuação de civis e militares que apoiaram o golpe e os primeiros anos da ditadura, tornando-se, depois, opositores ou mesmo vítimas do regime.
21 FRANCIS, Paulo. Grande enigma em torno de dois poderosos civis. O Estado de S. Paulo, p.X3, 31/03/1994.         [ Links ]
22 Em carta datada de 12/05/1964, Júlio de Mesquita Filho procura convencer Carlos Lacerda de que a presidência de Castelo não deveria estender-se apenas até outubro de 1965, deveria ser prorrogada por três anos. A Lacerda, "líder incontestável da nova democracia", diz: "precisamos queimar até o último cartucho em defesa de uma oportunidade como a vitória de 31 de março, que não se repetirá nestes próximos cinqüenta anos". Arquivo Carlos Lacerda, UnB.
23 Censores proibiam até noticiário sobre a epidemia de meningite. Folha de S. Paulo, Especial p.B-10. 27/03/1994.         [ Links ]
24 Folha apoiou primeiro. In: O Brasil nas ruas. Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, p.6, 24/04/1994.         [ Links ]
25 CONY, Carlos Heitor. 40 anos depois. Folha de S. Paulo, p.A2, 28/03/2004. (grifo da autora).         [ Links ]
26 É permitido proibir – A liberdade de imprensa sumiu, entre 68 e 75, e os jornais reagiram com receitas, poesia e outros truques. O Estado de S. Paulo, p.H8, 31/03/2004.         [ Links ]
27 PEDREIRA, Fernando. O funil da liberdade. Jornal do Brasil, p.11, 13/03/1994.         [ Links ]
28 CARVALHO, Aloysio Castelo de. A opinião pública e a CPI da Última Hora: o governo Vargas (1951-54). São Paulo: USP/FFLCH, 2000 (História, tese de doutorado).         [ Links ]
29 CARVALHO, Aloysio Castelo de. A imprensa golpista: o papel dos jornais cariocas da Rede da Democracia na queda de Jango. Carta Capital, 31/03/2004.         [ Links ]
30 A revolução revisitada. Isto É, 04/04/1984.         [ Links ]
31 Anos verde-oliva seduzem os jovens. In: Os vivos e os mortos de 64, O Globo, Segundo Caderno, p.1.         [ Links ]
32 Vivemos uma lua-de-mel com a abertura. Correio Braziliense, p.17-18, 27/03/1984.         [ Links ]
33 Vivemos uma lua-de-mel com a abertura. Correio Braziliense, p.17-18, 27/03/1984.         [ Links ]
34 É preciso consciência e responsabilidade. Correio Braziliense, p.24-25, 28/03/1984.         [ Links ]
35 Os entrevistados pelo Instituto Gallup acham que a imprensa é benevolente com os políticos ligados ao governo, com o próprio governo e também com as empresas (...) acreditam que os jornais ignoram ou atacam em demasia a polícia, os sindicatos, os políticos da oposição e os criminosos". Não se diz nada, no entanto, sobre as relações complexas entre imprensa e política, entre imprensa e poder econômico. A imprensa julgada, Veja, p.42, 11/04/1984.         [ Links ]
36 A partir da pesquisa, "resulta lógico supor que, para o brasileiro, a imprensa está mais perto dos fortes do que dos fracos. Pode ser uma visão incompleta, até mesmo distorcida, mas, sem dúvida, trata-se de uma má notícia". A imprensa julgada, Veja, p.50, 11/04/1984.         [ Links ]
37 A imprensa julgada, Veja, p.46, 11/04/1984.         [ Links ]