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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Câncer colorretal sincrônico - relato de caso e revisão de literatura



Sychronous colorrectal câncer: a case report and literature review


Sérgio Murilo da Silva AndradeI; Fábio Lima PereiraII
IMédico residente em Cirurgia Geral pelo Hospital Universitário Alcides Carneiro, pertencente à Universidade Federal de Campina Grande
IIMédico, coloproctologista e professor da disciplina de Cirurgia Geral da Universidade Federal de Campina Grande - Paraiba - Brasil



RESUMO
Relatamos o caso de uma paciente com tumor maligno em cólon direito e neoplasia sincrônica de reto. Os objetivos deste estudo são discutir as vantagens da colonoscopia na detecção de tumores sincrônicos e avaliar os fatores prognósticos mais relevantes na sobrevida de doentes com câncer colorretal (CCR). Utilizamos como fonte de pesquisa, a coleta de dados em prontuário e busca em base de dados do Medline, Lilacs e Scielo. Concluímos que: 1) A colonoscopia oferece avaliação completa do cólon, com diagnóstico pré-operatório de tumores sincrônicos, o que muitas vezes interfere na conduta terapêutica e 2) Os fatores que mais interferem a sobrevida de pacientes com CCR são o estágio de Dukes, grau de diferenciação do tumor e extensão da ressecção cirúrgica.
Descritores: câncer; colorretal; sincrônico; colonoscopia; pólipos.

ABSTRACT
That is a case report of a patient with a cancer of right colon and synchronous neoplasia of rectum. The objectives of this study are to discuss advantages of colonoscopy in diagnosis of synchronous tumor and to discern about more relevant prognostic factors in long-term survival of patients with colorectal cancer (CRC). Our sources of research were patient's records and Medline, Lilacs and Scielo data base. We conclude that: 1) Colonoscopy allows complete evaluation of colon with pre-operative diagnose of synchronous tumors, what is important to surgical treatment most of all, and 2) The most important factors in survival of patients with CRC are Dukes' stage, degree of differentiation of tumor and extension of surgery resection.
Key words: cancer; colorrectal; synchronous; colonoscopy; polyp.



1. INTRODUÇÃO
Neoplasia maligna mais comum do tubo digestivo, o câncer colorretal (CCR) teve sua incidência aumentada nos últimos anos, principalmente em áreas consideradas de baixo risco (países em desenvolvimento). Vários fatores podem estar envolvidos, como o envelhecimento da população, sedentarismo e hábitos alimentares pouco saudáveis. Estima-se em cerca de meio milhão o número de óbitos por esta doença a cada ano, com tendência a queda na mortalidade nos últimos anos (1).
É a quarta neoplasia maligna mais comum no mundo (superada pelos tumores de pulmão, mama e próstata) e a segunda causa de morte por câncer nos Estados Unidos (2); (3). Nos homens, é o quarto tipo de câncer mais freqüente (depois de pulmão, estômago e próstata) e, no sexo feminino, é superado apenas pelos cânceres de mama e colo de útero. No Brasil, o CCR é a quinta neoplasia maligna mais diagnosticada (ocupando segundo lugar na região Sudeste) e a quarta causa de morte por câncer (4).
São condições hereditárias frequentemente associadas a CCR: a polipose adenomatosa familiar (PAF); o câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC), também denominada síndrome de Lynch; síndrome do carcinoma colorretal hereditário; polipose juvenil familiar; síndrome do adenoma plano e síndrome de Peutz-Jeghers (5).
Além dos fatores genéticos e ambientais, acredita-se que processos inflamatórios também possam estar envolvidos na gênese do CCR. Nesse sentido, destacam-se as doenças inflamatórias intestinais. Na doença de Crohn, o risco é menor do que na colite ulcerativa (estimado em mais de 40% após 25 anos de doença), porém maior do que o da população geral (5).
A incidência de CCR esporádico, ou seja, aquele não associado a fatores hereditários, parece aumentar com a idade, aparecendo mais frequentemente após a sexta década de vida, sendo que até 90% de todos os casos ocorrem em pacientes com mais de 50 anos (2); (6). A influência da idade no prognóstico, entretanto é controversa na literatura, podendo sofrer influências do estado de saúde do paciente, sendo que muitos estudos relatam maior sobrevida em indivíduos com menos de 40 anos (7); (8). O retossigmóide é o sítio primário em cerca de 65% dos casos em idosos (2).
Até 85% dos tumores malignos dos cólons ainda são diagnosticados tardiamente, em estádios avançados da doença em pacientes sintomáticos (9). Medidas de rastreio para identificação precoce tumor poderiam diminuir este número, principalmente em pacientes com alto risco, permitindo maiores chances de cura. São considerados indivíduos com risco mais elevado para desenvolvimento de CCR: idade acima de 50 anos, portadores de doença inflamatória intestinal, história pessoal ou familiar de tumores benignos ou malignos de cólon, bem como parente em primeiro grau com CCR sem defeito genético herdado (4); (10).
Nos últimos 50 anos, houve um aumento na freqüência de localização do CCR no cólon direito em relação ao cólon esquerdo, sigmóide e reto (5); (8). Essa constatação ressalta a importância do uso de métodos diagnósticos que envolvam todo o cólon e não apenas o retossigmóide (5).
Em estudo realizado no Brasil, foram encontradas freqüências de 22,8% para lesões em cólon direito, 40,6% para o cólon esquerdo e 36,6% no reto (8). Em geral, estas freqüências giram em torno de 20% para o cólon direito, 10% para o transverso, 10% em cólon esquerdo, 30% para sigmóide e outros 30% para o reto (3).
A realização inicial de biópsia por retossigmoidoscopia pode agilizar o diagnóstico, com 25 a 35% dos tumores sendo acessíveis para o retossigmoidoscópio rígido (11). No entanto, para uma avaliação mais completa do cólon, com elevada acurácia e inclusive com possibilidade de remoção de pequenos pólipos, o mais indicado é a realização de colonoscopia. São fatores limitantes seu custo mais elevado, necessidade de profissional experiente e tecnologia avançada, com raro risco de perfuração e sangramento (3).
O aspecto da lesão à retossigmoidoscopia ou colonoscopia é característico, com a borda distal de coloração vinhosa ou avermelhada, podendo tomar as formas ulcerada, anelar ou polipóide. A biópsia da lesão deve incluir tanto o centro como a periferia da lesão (9).
Exames laboratoriais podem ser importantes para avaliação das condições clínicas do paciente, como o hemograma para quantificação da anemia devida a sangramento intestinal crônico, ou no seguimento. Neste caso, são utilizados mais freqüentemente marcadores tumorais como o antígeno carcinoembrionário (CEA) e o CA 19-9, que são, na verdade, pouco específicos, alterando-se também em doenças inflamatórias, alcoolismo e tabagismo, existindo também tumores que não expressam antígenos. Logo, não servem para diagnóstico e sim para seguimento do paciente, com uma dosagem inicial na avaliação pré-operatória e mensurações periódicas no pós-tratamento. Enzimas hepáticas também são úteis na pesquisa de metástases para o fígado (9).
O enema opaco simples foi, por anos, o único meio diagnóstico para tumores não alcançados pelo toque retal ou pela retossigmoidoscopia rígida até que, em 1967, Welin descreveu o duplo contraste, com bário e ar (9).
Introduzida como exame auxiliar de grande importância no diagnóstico do CCR em 1967, a colonoscopia é considerada por muitos autores complementar ao enema opaco, tendo a grande vantagem em relação a este de permitir biópsia da lesão suspeita e estadiamento.
Pacientes com CCR, mesmo os de localização distal, precisam ser avaliados em todo o cólon (através de colonoscopia), pois, além de ter havido um aumento na incidência de tumores à direita em relação ao retossigmóide, existe a possibilidade de tumores sincrônicos (5); (9). Tumores são ditos sincrônicos quando se apresentam simultaneamente ao diagnóstico ou no ato operatório, descartando-se obviamente a possibilidade de lesões por contigüidade. Tumores metacrônicos são encontrados no seguimento dos pacientes já submetidos à ressecção cirúrgica, excluindo-se evidentemente a possibilidade de lesão não diagnosticada à época do diagnóstico (quando seria sincrônica) ou de recidiva do tumor operado. Pólipos sincrônicos ocorrem em até 18 a 27% dos casos. No caso de tumores malignos, essa freqüência é de 1,5 até 8% (9); (12). Neoplasias metacrônicas são encontradas no seguimento de até 0,6 a 8% dos pacientes (13).
Os avanços em termos de diagnóstico do CCR incluem ainda a ultra-sonografia endoscópica, cromoscopia e a colonoscopia virtual, com recursos de tomografia computadorizada, simulando uma colonoscopia verdadeira, com imagens tridimensionais. São ferramentas importantes inclusive para imediato estadiamento, mas seu custo elevado não permite sua realização na maioria dos centros diagnósticos (2); (3).
O CCR dissemina-se por contigüidade (invasão de tecidos vizinhos), implante no peritônio ou órgãos intra-abdominais e pelas vias linfática e hematogênica. Os principais órgãos envolvidos em metástases são o fígado (75%), pulmões (15%), ossos (5%) e sistema nervoso central (5%). O adenocarcinoma é o tipo histológico mais freqüente, encontrado em até 90 % dos casos (3).
O estadiamento tem implicações prognósticas , sendo as classificações mais utilizadas a de DUKES modificada em 1974 (por Gunderson e Sosin) e o sistema TNM, podendo-se usar também a de Astler e Coller (quadros 1, 2 e 3).






O tratamento do CCR ainda é eminentemente cirúrgico, com as terapias adjuvantes pouco alterando a mortalidade e contribuindo para melhora da qualidade de vida. A sobrevida global em cinco anos de pacientes submetidos a tratamento cirúrgico gira em torno de 50% (3). Há intenção curativa quando se promove a remoção completa do tumor primário, órgãos ou estruturas adjacentes comprometidos, com margem circunferencial e radial histologicamente livres (ressecção em bloco). Tratamento radio e quimioterápicos podem apresentar vantagens nos estádios II e III (3); (14).Os quadros 4 e 5 apresentam as diretrizes do National Cancer Institute – U.S. National Institutes of Health para tratamento do CCR.




O prognóstico do CCR está intimamente relacionado ao estádio da doença, chegando a 90% de chance de cura no estádio I, correspondente à categoria A de Dukes, e sendo menor que 5% para pacientes com tumores em estádio IV, ou categoria D de Dukes (6). No seguimento de tais pacientes, a colonoscopia seriada é imprescindível, dada a freqüência variável de adenomas e tumores sincrônicos e metacrônicos.
Este artigo se propõe a mostrar um relato de caso de adenocarcinomas sincrônicos de ceco e reto, uma ocorrência rara em se tratando de câncer colorretal. Serão discutidas as vantagens da colonoscopia em relação a métodos pouco invasivos de diagnóstico na detecção de tumores sincrônicos e aferidas as principais variáveis prognósticas do CCR para seguimento em longo prazo e risco de recorrência (em termos de recidiva tumoral ou aparecimento de lesões metacrônicas).

2. RELATO DO CASO
Paciente I.B.S., sexo feminino, branca, 64 anos, natural de Areia – PB e procedente de Remígio – PB, casada, aposentada e ex-cozinheira. Queixa de dor abdominal, em fossa ilíaca direita, de forte intensidade, contínua, em pontada, iniciada dois meses antes da consulta. Acompanhava mudança de hábito intestinal, que passou de evacuações diárias com fezes bem formadas a eliminações diarréicas (cerca de seis vezes ao dia) com muco e melena. Houve ainda crescimento de tumoração em topografia de fossa ilíaca direita, anorexia e perda de peso de cerca de 6kg no período.
Nos antecedentes pessoais encontramos relato de menopausa aos 55 anos, gesta VIII, para VII. Passado cirúrgico de colecistectomia há 3 anos e histerectomia total há 5 anos por tumor de endométrio, que se revelou à histologia como um adenocarcinoma pouco diferenciado. Realizou, além do tratamento cirúrgico, sessões de radioterapia e braquiterapia.
Alérgica ao piroxicam. Nega tabagismo e etilismo. Relato de dieta balanceada, com três refeições diárias. Conhece o triatomíneo e refere banhos de rio na infância. Nega diabetes melito e hipertensão arterial.
Ao exame físico apresentava-se em estado geral regular, emagrecida e normocorada. Ausculta cardiovascular normal. Abdome normotenso e com massa palpável em fossa ilíaca direita, dolorosa. Sinais de insuficiência venosa periférica em membros inferiores.
O exame proctológico revelava inspeção normal e palpação sem anormalidades. Ao toque retal, com esfíncter normotônico, evidenciava-se a presença de lesão vegetante em QAD iniciando-se na linha pectínea e se extendendo até cerca de 3 cm acima. A anuscopia confirmou lesão em QAD, não biopsiada devido à biópsia prévia por colonoscopia trazida pela paciente.
Submetida ao exame ultra-sonográfico em maio de 2005, foi evidenciado massa sólida heterogênea, medindo aproximadamente 8,0 x 7,0 x 7,6 cm, localizada em topografia de fossa ilíaca direita, podendo ser de origem intestinal ou ovariana, com fígado, rins, pâncreas e baço sem alterações.
A colonoscopia, trazida pela paciente, revelava uma lesão vegetante e estenosante, friável e sangrante, localizada provavelmente em ângulo hepá tico do cólon / cólon ascendente, além de divertículos hipotônicos de cólon transverso, polipose dos cólons, angiodisplasia de ângulo esplênico e pólipo Yamada III de canal anal (reto baixo), sendo biopsiados o tumor do cólon e o pólipo do reto baixo.
O histopatológico do tumor colônico não foi conclusivo, enquanto o pólipo do canal anal (reto baixo) evidenciava adenocarcinoma bem diferenciado infiltrante.
O hemograma pré-operatório (junho de 2005) não mostrava anemia nem sinais de infecção. O coagulograma e a bioquímica (glicemia de jejum, uréia, creatinina, proteínas totais e albumina) também estavam normais.
Os achados intra-operatórios foram de um volumoso tumor de ceco, gânglios para-aórticos livres e ausência de implantes peritoneais ou em fígado. O tumor invadia até a serosa, com infiltração de íleo terminal. Havia também tumoração em reto baixo, logo acima da linha pectínea (ver figuras 1 e 2).




A cirurgia com intenção curativa foi uma proctocolectomia total com ileostomia a Brooke em fossa ilíaca direita (ver figuras), sendo enviado material para análise histopatológica.
O exame anátomo-patológico revelou uma neoplasia localizada no ceco, medindo 5,0 x 4,0 cm, ulcero-infiltrativa, com perfuração macroscópica infiltrando tecidos moles pericólicos, e outra situada no reto, elevada, tipo placa, medindo 2,5 x 1,4 cm, com infiltração até a muscular própria e distando 3,6 cm da margem de ressecção cirúrgica (margem anal). Havia ainda, metástases para 2 linfonodos pericólicos de 10 isolados. Mucosa intestinal adjacente sem alterações histológicas significativas. Invasão neoplásica em parede de íleo terminal. Tratava-se de adenocarcinomas moderadamente diferenciados.
O estadiamento TNM para o tumor de ceco, portanto, foi T4N1M0 (estágio IIIB) ou C de Dukes. Para o tumor de reto, o estágio foi IIA (T3N0M0) ou B de Dukes.
O seguimento está sendo realizado a cada 3 meses com exames clínicos de rotina, solicitação do antígeno carcinoembrionário (CEA), hemograma e exames radiológicos de tórax e ultra-sonográficos de abdome a cada 6 meses. A paciente encontra-se ainda em protocolo de quimioterapia e acompanhamento com a oncologia.

3. MÉTODO
Foi realizada coleta de dados em prontuário da paciente durante seu acompanhamento na Fundação Assistencial da Paraíba (FAP), de maio a julho de 2005, correspondendo ao período pré e pós-operatório imediato, após assinatura do termo de consentimento específico.
A revisão de literatura específica utilizou a base de dados do Medline, Lilacs, Scielo e Pubmed, além de consulta a periódicos e livros-texto na área.
Este trabalho obteve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Alcides Carneiro – Campina Grande – PB.

4. DISCUSSÃO
4.1. Uso do método colonoscópico no diagnóstico do CCR
Introduzida em 1967 como exame complementar, a colonoscopia assumiu grande papel no diagnóstico das afecções colônicas, notadamente do câncer colorretal (CCR), possibilitando uma visão macroscópica em tempo real do cólon em toda a sua extensão.
Até então, o enema opaco e a retossigmoi-doscopia rígida eram os recursos mais utilizados para identificação de lesões suspeitas de CCR. Um complementava o outro, pois enquanto o primeiro mostrava todo o cólon, o segundo permitia uma visualização macroscópica, porquanto fosse segmentar, englobando apenas a porção distal do cólon (sigmóide) e reto. Assim, uma vez identificada lesão suspeita à retossigmoidoscopia rígida, a realização do enema opaco ajudava na busca por lesões sincrônicas, sugerindo algumas vezes a retirada de determinadas imagens suspeitas.
A ultra-sonografia e a tomografia computadorizada tiveram sempre valor limitado para identificação de doença nos cólons, servindo mais para auxiliar no estadiamento, detectando acometimento de órgãos ou estruturas vizinhas.
Algumas lesões, entretanto, poderiam passar despercebidas ao exame contrastado, como pequenos pólipos. A colonoscopia surge então com inúmeras vantagens, como a visualização endoscópica de todo o cólon e também do íleo terminal, identificação direta do tumor, realização de biópsia e o diagnóstico e ressecção de pólipos, bloqueando uma possível progressão para carcinoma, tornando-se mandatória sua realização no pré-operatório(2); (15); (16).
O uso de técnicas de ultra-sonografia e de tomografia computadorizada acopladas à colonoscopia permite ainda auxiliar no estadiamento, com imagens tridimensionais, quantificando a invasão tecidual do tumor, bem como o acometimento de estruturas vizinhas (2); (3).
Uma das mais importantes contribuições da colonoscopia para o diagnóstico do CCR é, sem dúvida, a identificação de lesões sincrônicas, sejam elas benignas (pólipos adenomatosos) ou malignas, como foi demonstrado neste relato de caso. Como definido anteriormente, tumores são ditos sincrônicos quando se apresentam simultaneamente ao diagnóstico ou no ato operatório, descartando-se obviamente a possibilidade de lesões por contigüidade (12). O CCR esporádico pode associar-se à presença de outros tumores malignos em 1,5 a 8% (em média 4%) dos casos e de pólipos adenomatosos sincrônicos numa freqüência de cerca de 25%, variando em geral de 18 a 27% dos casos (2); (9); (12). Variáveis como sexo masculino e a presença de pólipos à colonoscopia, já foram citadas como sinal de alerta para a possível existência de neoplasia maligna sincrônica (17). Lesões neoplásicas sincrônicas não identificadas no pré ou intra-operatório podem levar a tratamento cirúrgico inadequado, implicando em segunda intervenção com o tumor muitas vezes em estádio avançado, sem possibilidade de tratamento curativo (12). Os conceitos de sincronismo e metacronismo estão associados à hipótese de que todo o cólon está exposto ao fator (ou fatores) de risco que desencadearam o CCR, havendo, portanto, a possibilidade de coexistência de lesões em diferentes estágios de desenvolvimento tumoral no intestino grosso.
O caso clínico em questão é bastante ilustrativo do papel da colonoscopia na identificação de lesões sincrônicas, que podem inclusive modificar a proposta terapêutica. Em se confirmando a presença de neoplasias sincrônicas, preconiza-se a realização de colectomia total ou subtotal, desde que as condições clínicas do paciente permitam(12). A paciente em estudo foi submetida a uma proctocolectomia total com ileostomia, justamente porque apresentava concomitantemente lesões malignas no reto inferior e cólon ascendente, além da presença de polipose dos cólons. A lesão em canal anal(reto baixo) apresentava-se sob a forma de pólipo que, submetido a biópsia e exame histopatológico, revelou-se um adenocarcinoma bem diferenciado e infiltrante. O enema baritado não foi realizado, porém, mesmo que detectasse pólipo suspeito ou mesmo a polipose dos cólons, a biópsia só seria possível através de visualização endoscópica.
O aumento na freqüência de lesões malignas em cólon direito em relação ao retossigmóide ressalta a importância da utilização de métodos diagnósticos que envolvam todo o cólon (5); (8); (18). Estudo conduzido aqui no Brasil comparando as vantagens da realização de colonoscopia em relação à retossigmoidoscopia isolada revelou que 22,77% dos pacientes possuíam lesões isoladas (adenomas ou adenocarcinomas) em cólon direito (19). Outro estudo com 28 pacientes portadores de adenocarcinoma colorretal sincrônicos revelou que 32% das lesões encontravam-se em cólon direito, 32% em cólon esquerdo, 26% no reto e 10% no cólon transverso (12).
A paciente em questão apresentava lesões malignas sincrônicas em reto inferior e cólon direito, mais precisamente em ceco. Como o diagnóstico foi tardio, a lesão à direita tomou tal proporção, que foi identificada por exame ultra-sonográfico de abdome. Provavelmente, em fase mais precoce de sua doença ela possuísse apenas a neoplasia isolada de cólon direito e uma colonoscopia de rastreio realizada após os 50 anos, subsidiada por uma pesquisa de sangue oculto positiva como triagem, revelasse a lesão, possibilitando talvez um tratamento cirúrgico menos agressivo e com maior chance de cura.
Quanto à sensibilidade da colonoscopia em relação ao exame contrastado, encontramos que é necessária a sua realização após cerca de 40% dos enemas opacos, por preparo inadequado dos cólons (o que também dificulta a realização da colonoscopia) ou dúvidas em relação àquele exame. Pode haver, no entanto, similaridade em termos de sensibilidade entre o exame endoscópico dos cólons e o duplo contraste para a identificação de CCR em pacientes assintomáticos (2). Estudo conduzido na Argentina encontrou 42,8% de sensibilidade para a radiologia contrastada, 78,6% em se tratando de colonoscopia e 97% para colonoscopia associada à palpação intraoperatória (17).
Não podemos fazer uma comparação entre os achados endoscópicos e radiológicos contrastados em nosso caso clínico, pois a paciente não realizou enema opaco com duplo contraste.
Diminuição de sensibilidade da colonoscopia pode ocorrer em casos de preparo inadequado dos cólons (como na doença diverticular) ou em locais com dificuldade de acesso, como a região por trás das flexuras colônicas, por exemplo, quando completa visualização do cólon não é possível (2).
No seguimento de pacientes no pós-operatório de CCR, a colonoscopia também assume relevância, pela freqüência variável de lesões metacrônicas ou mesmo de recidiva tumoral. A maioria das recorrências, que aparecem em cerca de 50% dos pacientes com margens cirúrgicas macroscopicamente livres de doença, ocorrem nos primeiros 24 meses após a cirurgia (3). Foi encontrada uma freqüência de pólipos adenomatosos de 18% no seguimento de pacientes submetidos à ressecção de CCR, maior no cólon ascendente (já que o cólon esquerdo e retossigmóide em geral são ressecados) e nos primeiros dois anos de acompanhamento (20).
Assim, preconiza-se a realização de colonoscopia de 12 a 15 meses após a cirurgia de ressecção do tumor primário e, no seguimento, pelo menos a cada 24 meses, para detecção precoce de recidivas ou de tumores metacrônicos (21). A Sociedade Americana de Câncer, Colégio Americano de Gastrenterologia e a Sociedade Americana de Cirugiões Colorretais recomendam uma periodicidade de 3 a 5 anos para a realização de colonoscopia no seguimento de pacientes com CCR (2).
No caso específico de nossa paciente, a realização de acompanhamento colonoscópico é desnecessária, uma vez que ela foi submetida a proctocolectomia com ileostomia. Seu seguimento é feito a cada 3 meses com dosagem de antígeno carcinoembrionário (CEA) sérico, além de radiologia do tórax e ultra-sonografia abdominal para pesquisa de metástases e hemograma e bioquímica de rotina.
4.2. Fatores prognósticos no CCR
São considerados fatores independentes afetando a sobrevida de pacientes com CCR, a extensão da ressecção, o grau de diferenciação do tumor, a presença e número de linfonodos comprometidos e o estadiamento de Dukes(3); (7); (22).
4.2.1. Idade e sexo
Alguns autores atribuem maior sobrevida a pacientes mais jovens, provavelmente pela maior freqüência de doença localizada nestes casos (1). No entanto, há grande discordância na literatura sobre a influência da idade no prognóstico, com muitos autores acreditando que, na verdade, são as condições clínicas do paciente que alteram a mortalidade (7); (8) . Sobrevida de 5 anos em idosos gira em torno de 22,4 a 56% (22); (23). FARHOUD (2002) encontrou sobrevida de 5 anos em 72,7% dos pacientes com menos de 40 anos e de 62,3% na população entre 40 e 60 anos (8). Pacientes com CCR antes dos 40 anos, mais comumente são portadores de síndrome genética familiar com elevada penetrância (1).
A idade isoladamente, não foi fator de risco para mortalidade pós-operatória ou de sobrevida a longo-prazo em pacientes com mais de 75 anos. Fatores mais relacionados à mortalidade foram a perda ponderal, estádio de Dukes, extensão da ressecção e tipo de cirurgia (22). Variáveis fisiológicas, condições clínicas e estadiamento parecem contribuir mais que a idade na decisão de tratamento curativo ou conservador.
Quanto ao sexo, os maiores índices de sobrevivência têm sido relatados no gênero feminino, sendo que mulheres que nunca engravidaram parecem ter sobrevida semelhante à dos homens (8). Foram implicadas não somente causas hormonais como também anatômicas (pelve mais estreita no homem, promovendo maior relação com órgãos vizinhos e dificultando a extirpação do tumor) para explicar essa proteção em relação ao sexo feminino (8).
4.2.2. Estadiamento e variáveis macro e microscópicas
Grande parte dos pacientes são diagnosticados em fases avançadas da doença, o que empobrece o prognóstico, pois as chances de cura despencam em até 90% nos casos de estádio I ou categoria A de Dukes para menos de 5% em doentes em estádio IV ou categoria D de Dukes (5). O estadiamento no momento do diagnóstico é considerado por muitos autores o melhor indicador prognóstico (6).
O tamanho do tumor ao diagnóstico, entretanto, parece não influenciar no prognóstico para maioria dos estudos, fato relevante quando se considera a importância que a classificação TNM atribui a esta característica (8).
Variáveis microscópicas, como grau de diferenciação e tipo histológico do tumor, são de grande relevância prognóstica. Lesões bem diferenciadas cursam em geral com maiores taxas de sobrevida (3); (7). O adenocarcinoma mucinoso, em qualquer grau de diferenciação, é considerado fator localmente agressivo e de pior prognóstico (6). Quanto ao aspecto macroscópico, formações vegetantes ou exofíticas aumentam a sobrevida, provavelmente por evoluírem com menores taxas de metástases à distância e recidivas (8).
A paciente em estudo possuía adenocar-cinomas moderadamente diferenciados e com estágio C de Dukes para a neoplasia de ceco. É relatada uma sobrevida de 5 anos em 30 a 40% para pacientes neste estágio (3). O fato de ser lesão moderadamente diferenciada e do tipo ulcero-infiltrativo ao invés de vegetante empobrece ainda mais esse prognóstico.
No entanto, a ressecção neste caso é considerada completa, pois não havia margens comprometidas. A extensão da ressecção é considerada variável independente, interferindo na sobrevida (3); (22). Uma ressecção completa, portanto curativa, é indicativa de melhor prognóstico.
4.2.3. Localização do tumor
No Brasil, um estudo identificou freqüência de 22,8% de lesões situadas em cólon direito, 40,6% em cólon esquerdo e 36,6% no reto, sendo notável nos últimos anos um decréscimo para as neoplasias retais, enquanto cresce a taxa de tumores em cólon direito (8).
Há muitas controvérsias na literatura acerca do valor prognóstico do sítio da neoplasia (8). Muitos estudos revelam maiores taxas de sobrevida para tumores em cólon direito, com piora do prognóstico à medida que as lesões se situam mais distalmente (6); (24). Entretanto, algumas casuísticas revelam que a melhor sobrevida ocorre para tumores em cólon esquerdo (63,9%), seguida pelas lesões em cólon direito e reto (58,9 e 51,3%, respectivamente) (8). As lesões retais em geral são as de pior prognóstico, com taxas de sobrevida que variam de 62 a 66%, em detrimento de tumores colônicos, onde essas taxas encontram-se entre 74 e 77,5% em estudos mais recentes (8).
A lesão da paciente em questão em cólon direito poderia sugerir um prognóstico melhor, mas o tumor sincrônico retal é o que apresenta os piores índices de sobrevida.
4.2.4. Relação com outros tipos de câncer
Este é um fator que poderia ser extraído deste relato de caso específico, pois, na história clínica da paciente, identificamos um passado cirúrgico de histerectomia e tratamento radioterápico por tumor maligno de endométrio. É reconhecida a relação existente entre CCR e a maior incidência de outros tipos de adenocarcinoma, como o de mama, ovário, estômago e também de endométrio, característica da síndrome de Lynch II (um tipo de carcinoma colorretal hereditário não-polipóide), de herança autossômica dominante, predominância de tumores em cólon proximal e maior risco para lesões sincrônicas e metacrônicas (5). A média de idade para o diagnóstico, no entanto, é precoce (em média 44 anos), com a paciente em questão apresentando 59 anos à época do primeiro tumor (endométrio) e 64 anos para o CCR.
Mas o fato de a paciente ter história de adenocarcinoma de endométrio, tumor em cólon proximal (ceco) e lesões sincrônicas deve alertar para o aparecimento de outros tipos de tumor, exigindo seguimento mais rigoroso, com atenção para os sítios mais frequentemente envolvidos na síndrome de Lynch II. Ainda, parentes em primeiro grau constituem grupo de risco aumentado para CCR, devendo ser submetidos a medidas de rastreio para identificação precoce de tumor.

5. CONCLUSÕES
Conclui-se que a colonoscopia é o melhor método para o diagnóstico de lesões sincrônicas, sendo importante sua realização no pré-operatório para a programação cirúrgica do paciente com CCR, o que pode inclusive influenciar a sobrevida.
Além disso, os principais fatores prognósticos que influenciam a sobrevida de doentes com CCR são o estágio de Dukes, o grau de diferenciação do tumor e a extensão da ressecção cirúrgica. A idade não é fator isolado relevante, dependendo muito mais de variáveis clínicas.
A paciente em questão tem como indicativo de bom prognóstico a ressecção, considerada completa e com margem cirúrgica, mas o estágio de Dukes avançado do tumor de ceco e seu grau de diferenciação moderado são fatores que influenciam negativamente sua sobrevida em longo prazo.

REFERÊNCIAS
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 Endereço para correspondência:
SÉRGIO MURILO DA SILVA ANDRADE
COREME – Hospital Universitário Alcides Carneiro
Rua Carlos Chagas, s/n – Bairro São José
Campina Grande – PB.
E-mail: sergioandrademurilo@hotmail.com

A pesquisa de sangue oculto nas fezes associada a um questionário de sinais e sintomas na prevenção do câncer colo retal



Faecal occult blood (FOB) test associated with a questionaire of signs and symptoms in screening for colorectal cancer


Francisco Luis AltenburgI; Maria de Lourdes Pessole Biondo-SimõesII; Luis Carlos Von BahtenIII
IMestrando do Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da PUCPR, Coordenador do Serviço de Coloproctologia do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, Joinville, Santa Catarina
IIProfessora Titular de Metodologia da Pesquisa da PUCPR e Professora Adjunto IV do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Paraná. Membro da Sociedade Brasileira de Colo-Proctologia e Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC)
IIIProfessor Coordenador e Orientador do Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da PUCPR, Membro Titular do CBC



RESUMO
OBJETIVO: Determinar a eficácia de um programa de prevenção de Câncer Colo Retal (CCR) através do método da pesquisa de sangue oculto das fezes (PSO), e um questionário clínico (QSA).
MATERIAL E MÉTODO: Foi realizada uma triagem através do PSO e do QSA em indivíduos acima de 50 anos, oriundos de uma campanha de prevenção de CCR em Joinville, SC. 387 indivíduos aderiram à campanha e 93 foram excluídos.. Foram definidos 3 grupos: 1- PSO +, com 20 sujeitos, QSA +, com 38 sujeitos e PSO e QSA negativos com 21 sujeitos. Foi definida como colonoscopia positiva aquela que detectou adenomas.
RESULTADOS: O grupo 1 apresentou 22% de sensibilidade, 74% de especificidade, likelihood ratio positivo (LR) de 0, 9, acurácia de 56, 9, valor preditivo positivo (VPP) de 31,6 e negativo (VPN) de 64. O grupo 2 apresentou 71,4% de sensibilidade, 45,6 de especificidade, LR de 1,3, acurácia de 52,6, VPP de 32,6 e VPN de 81,3. O método apresentou 95,2% de sensibilidade, 63,2 de especificidade, LR de 2, 6, acurácia de 71, 8, VPP de 48.8 e VPN de 97.3. 
CONCLUSÃO:
 O método da PSO e QSA são complementares e efetivos como triagem em programas de prevenção de CCR.
Descritores: Neoplasias do Colon, Diagnóstico Colonoscopia, Anamnese, Promoção da Saúde.

ABSTRACT
The purpose of this study is to verify the efficacy of a strategy to screen colorectal cancer(CCR) and adenomas using the faecal occult blood test(PSO) and a questionnaire (QSA)based in signs and symptoms of CCR.
METHODS: A program of prevention was done, and the patients answered the QSA and did the PSO type imunocromatograph.
RESULTS: 387 people adhered do the program, 93 were excluded. Three groups were formed: 1: 20 persons, with PSO positive, 2:38 persons with QSA positive, and 3, with 21 persons with PSO and QSA negatives. Group 1 presented a sensibility of 22%, specificity of 74%, Likelihood ratio + of 0,9, accuracy of 56,9, Positive predictive value(VPP) of 31,6 and negative(VPN) of 64. Group 2 presented sensibility of 71,4%, 45,6% of specificity, Likelihood ratio + 1.3, accuracy of 52,6, VPP de 32,6 e VPN de 81,3. The QSA plus PSO method, presented a sensibility of 95,2%, 63,2 of specificity, accuracy of 71,8 ,Likelihood ratio of 2,6, VPP de 48,8 e VPN 81,3. In conclusion the method of PSO and QSA are complementary and seem effective in screening for CCR in preventive programs.
Key words: Colon Neoplasias, Colonoscopy, Diagnostic, Anamnesis, Health Foster



INTRODUÇÃO
O câncer colo-retal (CCR) representa uma das mais significantes e prevalentes causas de morte por câncer no dias atuais. Nos Estados Unidos e no Reino Unido é o terceiro tipo de câncer mais diagnosticado e a segunda causa de morte por câncer1.
No Brasil, para o ano de 2008, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) projetou 12.490 novos casos em homens e 14.500 novos casos em mulheres, ocupando a quarta e a terceira colocação respectivamente2.
Programas de prevenção têm-se mostrado efetivos na diminuição de mortalidade e incidência por câncer colo-retal, sendo recomendados por várias instituições proeminentes por todo o mundo3. Apesar disto, os índices de participação permanecem baixos, influenciando o custo efetividade dos programas1, 3.
A colonoscopia é o melhor exame preventivo, pois além de diagnosticar o CCR permite identificar e tratar pólipos, lesões precursoras da doença, sendo responsável pelo declínio da incidência do CCR, pós 1986, nos EUA4.
São necessários, porém métodos de triagem para a realização de colonoscopias, pois mesmo em países desenvolvidos não seria possível à realização de colonoscopias em todos os indivíduos acima de 50 anos, porém o custo benefício da diminuição de mortalidade pela detecção precoce das lesões precursoras (pólipos), ou os crescentes achados de CCR em fase inicial têm estimulado a realização destas triagens3.
A maioria dos programas de prevenção de CCR é baseada em triagens realizadas pela pesquisa de sangue oculto nas fezes. Recente revisão sistemática da Cochrane demonstrou que o rastreamento feito com a pesquisa de sangue oculto nas fezes reduziu o risco relativo para o CCR em 16%. A redução do risco relativo de morte por CCR foi de 15%. Já a redução do RR de morte em indivíduos de risco chegou a 25%1.
Recente metanálise reportou que a PSO não teve impacto na mortalidade, nem foi estatisticamente significante em relação às mortes por outras causas na população triada. A maioria dos estudos revelou alta porcentagem de falsos positivos. Para eles o impacto da PSO na mortalidade é incerto e sua eficácia no rastreamento do CCR necessita de reavaliação5.
Outra metanálise de revisão de mortalidade em grupos controlados de rastreamento de CCR, realizado com PSO mostrou redução de mortalidade de 14% em 10 anos. Entretanto, o acompanhamento a longo prazo não demonstrou proteção6.
Quando se analisa o custo efetividade de vários programas de prevenção verifica-se que a maioria deles inclui indivíduos com mais de cinqüenta anos, que apresentam risco aumentado para o CCR. A sigmoidoscopia flexível e a colonoscopia parecem ter o melhor custo efetividade. Este fato é devido ao conceito assumido de que praticamente todos os CCR, provêm de adenomas, que podem ser detectáveis7.
O segmento de indivíduos com potencial risco para CCR, durante 11 anos, rastreados pelo PSO, permitiu verificar que os programas de prevenção baseados neste exame permitiram diminuir a incidência da doença. Nos indivíduos que se recusaram a realizar o exame a incidência de CCR foi maior. É bem provável que entre os rastreados a incidência tenha sido maior pela realização de maior número de colonoscopias complementares. Neste estudo os autores utilizaram um questionário de rastreamento8.
No Reino Unido, questionários baseados em sintomas (WNS) têm sido utilizados para abreviar o tempo de espera para consultas com especialistas em cirurgia colo-retal (fast track referral)l. Vários estudos foram feitos e verificaram a efetividade deste sistema de referência e recomendaram a continuação do programa. Estudos que relatam a importância de se coletar dados em um programa de rastreamento de CCR como: sintomas, história familiar, pessoal e fatores de risco, comprovam que esta coleta de dados aumenta a adesão a programas de prevenção com a pesquisa de sangue oculto nas fezes9, 10.
A ideia de coletar informações de sintomas e antecedentes não é nova. Keddie e Hargreaves, em 1968, já reconheceram que não havia relação entre o início de sintomas e o estádio do CCR, e que a presença de sintomas sistêmicos eram comuns11. Outros estudos avaliam o tempo de evolução dos sintomas até a descoberta do CCR12, a presença de sintomas precoces nos indivíduos com adenomas e CCR, e a importância da história familiar nos programas de prevenção 13,14.
A hipótese de que a descoberta de lesões neoplásicas do cólon e reto poderia ser incrementada com um questionário abordando sinais, sintomas e antecedentes, entre nós, foi levantada a partir de um estudo piloto no qual se analisou os resultados de colonoscopias em indivíduos com PSO positivo e negativo. Aquele estudo revelou que a maioria dos indivíduos triados e com colonoscopia positiva já eram sintomáticos15.

OBJETIVO
O objetivo deste trabalho foi verificar a eficácia e acurácia da PSO associada a um questionário clínico (QSA), com enfoque em sintomas de alarme do CCR, como meio de triagem para o diagnóstico de neoplasias do cólon e reto.

MÉTODOS
O projeto que deu origem a este estudo obedeceu a Resolução do Conselho Nacional de Saúde 196/ 96 e foi avaliado e aprovado pela Comissão de Ética do Hospital Regional de Joinville, com o número 08009.
A população estudada foi proveniente de uma triagem realizada em uma campanha de prevenção do câncer do cólon e reto, em que foram atingidos por correspondência direta, fôlderes e por meios de comunicação, aproximadamente 10.000 pessoas acima dos 50 anos de idade, de ambos os sexos, usuárias de um plano de saúde local, que voluntariamente aderiram ao programa de prevenção.
A pesquisa clínica foi realizada nas instalações de um centro hospitalar (CHU), de um plano de saúde local. No período de 21 de novembro a 10 de dezembro de 2007 foi realizada a campanha de prevenção do CCR durante a qual foram preenchidos os questionários (QSA) e realizados os exames de PSO. Foram excluídos do estudo os sujeitos que já tinham realizado colonoscopia anteriormente.
O método da PSO utilizado foi o imunocromatográfico para todas as amostras examinadas.
O detalhamento do QSA está no anexo 1. Este foi considerado positivo para dois critérios:
1-quando da existência de antecedentes familiares, isto é, a presença de pelo menos um familiar, de primeiro grau, com CCR ou adenomas;
2-quando da existência de sintomas:
2a- específicos - Sangue misturado às fezes e/ ou alteração de hábito intestinal por mais de três meses para mais frequente, fezes finas e, ou perda de fezes (estes dois sintomas isolados determinavam um QSA positivo),
2b- não específicos - dor abdominal em hipogástrio por mais de três meses, anemia sem causa definida, astenia, dor retal e sensação de evacuação incompleta.
Nos casos de sintomas não específicos o QSA foi considerado positivo quando havia a associação de pelo menos dois sintomas.
A partir da análise do QSA e dos resultados da PSO foram definidos três grupos:
Grupo 1- Indivíduos com PSO positiva;
Grupo 2- Indivíduos com QSA positivo;
Grupos 3- Voluntários com PSO negativa e QSA negativo.
Foram realizadas colonoscopias nos pacientes dos três grupos que foram feitas nas instalações do CHU, sob sedação profunda, com acompanhamento de um anestesiologista. Para a sedação foi utilizado Propofol (1 µg/Kg), fentanil (1 µg/Kg) e Midazolan (1 a 2 MG/kg). Os endoscópios utilizados foram da marca Olympus®
. Foi definida como colonoscopia positiva aquelas que detectaram lesões neoplásicas do cólon e/ ou reto. Este exame foi utilizado como controle do PSO e do QSA.
Os dados foram colocados no programa de banco de dados Excel e analisados pelo programa de análise estatística 1.8 para Windows®, reconhecendose a sensibilidade, a especificidade, os valores preditivos positivo e negativo, o likelihood ratio e a acurácia dos exames nos grupos de estudo.

RESULTADOS
Aderiram ao estudo 387 indivíduos. Destes 93 foram retirados do estudo por apresentarem critérios de exclusão. Restaram para análise 294 indivíduos, 138 (46,93%) do sexo masculino e 156 do sexo feminino (53,03%). A média de idade foi 59,02 ± 14,42 anos. A idade mínima foi de 50 anos e a máxima foi de 90 anos. A idade, o peso e o índice de massa corpórea (IMC) em cada um dos grupos foram semelhantes, o que deu caráter homogêneo à amostra estudada.
Para uma população estimada de 10.000 nesta faixa etária, o grau de adesão ao programa foi de apenas 3,87%.
Após a análise do questionário estabeleceramse os participantes de cada grupo. No grupo 1 ficaram 20 indivíduos, no grupo 2 restaram 47 e no grupo 3, 21 participantes.
Foram realizadas 78 colonoscopias e todas alcançaram o íleo terminal. A distribuição dos sujeitos da pesquisa, e os resultados das colonoscopias estão descritos no organograma da figura 1.
Os resultados estão demonstrados na tabela 1.
Em relação ao grupo 3(QSA negativo e PSO negativo), foi diagnosticado um (1) único pólipo adenomatoso. Neste grupo a sensibilidade foi de 4,8% e a especificidade de 64,9%, valor preditivo positivo de 4,8% e negativo de 64,9%, com acurácia de 48,7%. Likelihood ratio para teste positivo de 0,1 e negativo de 1,5.

DISCUSSÃO
Na grande maioria dos casos de CCR os sintomas surgem quando a doença está avançada. Estes pacientes exigem maiores custos de tratamento e estão acompanhados de altas taxas de morbidade e mortalidade.
O câncer colo-retal (CCR) representa uma das mais significantes e prevalentes causas de morte por câncer no dias atuais. Nos Estados Unidos e no Reino Unido é o terceiro tipo de câncer mais diagnosticado, e a segunda causa de morte por câncer17. No Brasil, para o ano de 2008, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) projetou 12.490 novos casos em homens e 14.500 novos casos em mulheres, ocupando a quarta e a terceira colocação respectivamente18.
Considerando a crescente incidência desta doença, seu diagnóstico precoce e das doenças predisponentes se torna importante. Programas de detecção são caros e limitantes para o sistema de saúde do Brasil.
O rastreamento do CCR tem se mostrado eficiente tanto na detecção precoce dos tumores, como na prevenção destes tumores pelo tratamento das lesões com potencial para malignização, como os pólipos adenomatosos16.
A pesquisa de sangue oculto nas fezes tem sido usada para rastreamento e acompanhamento de pacientes sem fatores de risco para câncer colo-retal1, 6, 8,19-23. Os fatos demonstram que o exame anual de pesquisa de sangue oculto nas fezes pode diminuir em 16% a mortalidade por CCR22. Em um estudo publicado em 1993, os autores compararam o rastreamento anual com o bianual em uma população de 46.551 indivíduos com idade entre 50 e 80 anos, durante 13 anos. Relataram que a mortalidade por CCR nos acompanhados anualmente foi de 5,88: 1000 indivíduos, enquanto que nos acompanhados bianualmente foi de 8,33: 1000 indivíduos. Observaram que o rastreamento anual levou a diminuição de 33% da taxa de mortalidade24.
Um estudo publicado por Goodyear et al. no qual rastrearam indivíduos com idade entre 50 e 69 anos utilizando PSO, demonstrou 23% de redução na taxa de mortalidade por CCR. O dado importante deste estudo foi o diagnóstico de 49% dos pacientes sem sintomatologia o que permitiu o diagnóstico de tumores em fases iniciais25.
Ao se analisar a resposta ao programa de prevenção realizado, verificou-se um baixo índice de adesão (3,87%), confirmando a tendência de programas com adesão voluntária. Se considerarmos o alto custo da campanha pode-se pensar que o resultado não foi o esperado. Isto serve para que se tenha consciência de que se precisa trabalhar fortemente na mudança de conceito da população, precisa-se criar a cultura da prevenção. Segundo Trevena et al., em um estudo desenvolvido na Austrália com indivíduos com idade entre 50 e 74 anos, o nível cultural-educacional tem importante papel determinante na adesão dos indivíduos aos programas de rastreamento. Demonstraram que a adesão daqueles que tinham melhor formação chegou a 50%, e a 79,4% entre aqueles com formação universitária26.
A PSO (baseada no guáiaco e os testes imunológicos), a sigmoidoscopia flexível e a colonoscopia são recomendadas para o rastreamento. Segundo Sung et al. a PSO é a primeira escolha para os países com recursos limitados27.
Estudo recente revelou taxa de positividade da PSO de 2,4%. A identificação de neoplasia nestes indivíduos atingiu 22,92%. O emprego de testes imunoquímicos elevou a taxa de positividade para 5,5%, e a identificação de neoplasias nestes indivíduos alcançou 19,93%28. Um estudo desenvolvido na República Checa envolvendo 535.248 indivíduos demonstrou positividade da PSO de 6,4%29. Outro estudo realizado na Itália envolvendo 827.473 indivíduos revelou 5,8% de exames psitivos30. No estudo ora apresentado, apesar de se ter baixo percentual de aderência, a taxa de positividade seguiu a tendência descrita, com taxa de 6,8% de exames positivos.
A porcentagem de indivíduos com QSA positivo foi de 12, 95, sendo que destes 34% dos pacientes eram portadores de adenomas. Segundo Selvachandran et al. o questionário e o score numérico podem ter lugar na prática geral identificando indivíduos com substancial risco para o CCR9.
No presente levantamento verificou-se que o método de rastreamento pela PSO apresentou baixa sensibilidade (22%), com razoável especificidade (74%). O QSA, porém, apresentou sensibilidade de 71,4% com especificidade de 45.6%. Entretanto a combinação dos dois métodos levou para 95,2% a sensibilidade, e para 63.2% a especificidade, sendo que a acurácia melhorou em média para os métodos isolados de 52 para 71.8%,sendo que o likelihood ratio positivo foi de 2.6, o que representa que quando a colonoscopia é positiva há 2.6 x mais chance do método ser também positivo. Quando se associam os dois modos de rastreamento o valor preditivo positivo foi de 48,8%, entretanto o valor preditivo negativo chegou a 97,3%. Desta forma pacientes com PSO negativa e questionários negativos teriam 97,3% de chance de realmente não serem portadores de lesões neoplásicas. Observa-se que os métodos da PSO e do QSA são complementares melhorando todos os índices de eficácia analisados. Considerando as dificuldades econômicas dos países em desenvolvimento, a associação dos dois métodos poderia ser um bom método de rastreamento do CCR. Entretanto, estudos, no nosso meio, devem ser ampliados para poder oferecer maior segurança de efetividade nos programas de detecção precoce do CCR, além de ter caráter educativo em relação à divulgação dos sintomas e sinais, melhorando a taxa de adesão a estes programas.

CONCLUSÃO
A utilização da pesquisa de sangue oculto nas fezes combinada com o questionário de sinais e sintomas parece efetiva como método de rastreamento do câncer colo-retal em programas de prevenção além de ter caráter educativo em relação à divulgação dos sinais, sintomas e antecedentes mais frequentes.

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