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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Retocolite ulcerativa (RCU): perfil evolutivo clínico endoscópico. Estudo retrospectivo



Ulcerative colitis: clinical and endoscopic profile. A retrospective study


Edson Jurado da SilvaI; Iara Vasconcellos SeixasII
IServiço de Coloproctologia do Hospital dos Servidores do Estado-RJ Ministério da Saúde, Serviço de Endoscopia Digestiva da Casa de Portugal RJ e clínica privada
IIServiço de Coloproctologia do Hospital dos Servidores do Estado-RJ Ministério da Saúde



RESUMO
OBJETIVO: Analisar o perfil da RCU.
CASUÍSTICA E MÉTODOS: Análise retrospectiva de pacientes acompanhados pelos autores de 1996 a 2006. Confrontamos topografia das lesões, colonoscopia / histopatologia com ênfase na displasia e CCR. Rastreamos displasia após 7 anos de doença. Teste t de Student foi usado para média e qui-quadrado para números absolutos. P< 0,05 significativo.
RESULTADOS: 127 pacientes, 40 homens e 87 mulheres. Média de idade 47±13 N=61 (48%) na pancolite e 45±15 na colite esquerda N=66 (52%) p> 0,05 para idade. Displasia em 9 (7%), 8 (6%) na pancolite p< 0,01. Dois (2%) em mucosa lisa e 7 (12,5%) em portadores de nodularidade e DALM (dysplasia associated lesion or mass) p< 0,05. Pseudopólipos N=55 (43%). CCR em 7 (5,5%). 13 colectomizados (10%), 3 por intratabilidade, 3 por megacólon tóxico, 1 por displasia com tumor na peça e 6 com CCR. CCR tinham mais de 12 anos de doença. Em 3 (2,3%) com doença ativa à histopatologia não foi detectado sangue macroscópico nas fezes.
CONCLUSÕES: Reafirmamos a necessidade de vigilância para displasia e CCR. Pancolite aumenta risco de displasia e CCR. A idade não interfere na extensão da doença. Sangue nas fezes é importante no diagnóstico.
Descritores: Colite, displasia, câncer, colonoscopia.

ABSTRACT
OBJECTIVES: Ulcerative colitis is a risk factor for colorectal cancer CRC. The aim of this study was to evaluate the profile of this disease.
METHODS: Retrospective data of patients with ulcerative colitis observed between 1996 and 2006 were analyzed for colonoscopic/histological findings. Colonoscopy surveillance started 7 years after disease onset. Student t test was used for means and chi-square to compare frequency. A p<0.05 was considered significant.
RESULTS: 127 patients were enrolled in this study, being 40 male and 87 female. Mean age was 47±13 years N=61 (48%) for pancolitis, 45±15 years N=66 (52%) for left side colitis p>0,05 for age. Dysplasia was present in 9 (7%) being 8 (6%) in pancolitis p<0,01. Among displastic patients 2 (2%) had it in flat mucosa and 7 (12,5%) in nodularity and DALM (dysplasia associated lesion or mass) p<0,05. Post-inflammatory polyps were seen in 55 (43%). CRC was diagnosed in 7 (5,5%). 13 (10%) underwent proctocolectomy, 3 for refractory disease, 3 for toxic megacolon, 1 for dysplasia with tumor diagnosed only at the surgical specimen and 6 for CRC. All of the CRC patients had disease for more than 12 years. Macroscopic blood on stools was seen in all but 3 (2%) with active disease by histology p<0,01.
CONCLUSIONS: Ulcerative colitis is a risk factor for dysplasia and CRC in longstanding extensive disease with abnormal looking mucosa at colonoscopic surveillance. Age does not interfere with extension of disease. Blood means active disease.
Key words: Colitis, dysplasia, cancer, colonoscopy.



INTRODUÇÃO
A RCU é importante pela sua cronicidade, morbidade e associação com o CCR (1, 2). Os fatores de risco para o desenvolvimento do CCR são: tempo e gravidade da doença, história familiar para CCR, associação com colangite esclerosante primária e a presença de displasia (3, 4, 5, 6, 7, 8).

OBJETIVO
Analisar o perfil clínico evolutivo da RCU com ênfase no acompanhamento colonoscópico.

PACIENTES E MÉTODOS
Análise retrospectiva de pacientes acompanhados pelos autores em clínica privada, Serviços de Endoscopia Digestiva da Casa de Portugal e de Coloproctologia do HSE- MS do Rio de Janeiro, no período de 1996 a 2006. Foram incluídas somente as formas típicas da doença. Confrontamos topografia das lesões, colonoscopia/histopatologia com ênfase no diagnóstico de displasia e do CCR. Rastreamos displasia após 7 anos do início ou do diagnóstico da doença. Teste t de Student foi usado para análise da média e desvio padrão, e qui-quadrado para estudo de números absolutos. P< que 0,05 foi considerado significativo.

RESULTADOS
Preencheram os parâmetros para este estudo 127 pacientes, sendo 87 do sexo feminino e 40 do sexo masculino. O mais jovem com 18 e o mais velho com 72 anos de idade na data da avaliação.
Tabela 1 mostra a idade em anos confrontada com a topografia ou estadiamento da doença.


Displasia foi detectada em 9 pacientes, perfazendo um total de 7% e a Tabela 2 mostra a sua distribuição em função do estadiamento topográfico da doença.


A displasia foi mais freqüente em mucosa não lisa, correspondendo a presença de pseudopólipos ou pólipos inflamatórios, nodularidade e DALM (dysplasia associated lesion or mass) como podemos observar na Tabela 3.


Detectamos a presença de pólipos inflamatórios, pseudopólipos, em 55 (43%) dos 127 acompanhados.
CCR foi encontrado em 7 pacientes (5,5%), todos observados em cólon proximal e em portadores de RCU com mais de 12 anos de evolução. Em um deles, a RCU foi diagnosticada na adolescência e o CCR apareceu após 21 anos de tratamento.
A idade nos portadores de CCR pode ser vista na Tabela 4.


O perfil do CCR na RCU pode ser evidenciado na Tabela 5, que mostra também as indicações de proctocolectomia N=13 (10 %) na amostra estudada.


Interessante salientar também, que a presença de sangue vivo visível nas fezes correspondeu à doença ativa histopatológica, como podemos observar na Tabela 6.


DISCUSSÃO
A presença de pancolite é importante na evolução e progressão da RCU e deverá ser topograficamente confirmada por estadiamento histopatológico (9). Neste contexto, a displasia foi mais freqüente em mucosa macroscopicamente doente, isto é, com nodularidade e DALM , como se pode observar nas TABELAS 2 e 3, fato consoante com a literatura especializada (10). Embora menos freqüente, a displasia poderá ser também detectada em mucosa lisa e aparentemente normal. Para aprimorarmos o índice de diagnóstico, devemos aumentar o número de fragmentos obtidos. Costumamos coletar cerca de 30 fragmentos. Eventualmente, usamos cromoscopia com índigo carmin à 0,4 % com aparelho de magnificação, embora na nossa experiência não percebamos vantagem, pois a presença de muco, nem sempre fácil de ser retirado, induz-nos a impressão de se tratar de pitts IV, que significa displasia com CCR invasivo. Parece existir consenso, quando concordamos, que conseguimos melhorar nosso desempenho diagnóstico aumentando o tempo do exame, isto é, trocamos o tempo dispendido no número elevado de biópsias em tempo maior no escrutínio detalhado da mucosa, procurando detalhes em anormalidade para com isso dirigir melhor o local das biópsias (11-12-13).
Nem sempre é fácil distinguir pseudopólipo de DALM e de adenoma. Adenoma costuma se manifestar como pólipo, que geralmente ocorre em mucosa macroscopicamente normal, e deverá ser retirado, sempre que for possível em peça única. O diagnóstico final será histopatológico. Sendo adenoma um epitélio displásico, como tal será rotulado e o tratamento através polipectomia com alça diatérmica está bem definido. DALM, achado característico de doença inflamatória crônica intestinal, sobretudo RCU, se encontra em área doente e às vezes se confunde com pólipo inflamatório ou pseudopólipo, com a diferença de que este não é neoplásico, exibe apenas processo inflamatório característico da RCU, enquanto aquele apresenta-se como lesão displásica elevada, confirmada histopatológicamente quando da sua retirada. DALM, portanto, se encontra em cólon doente, não raro com displasia observada também em outras áreas, multifocal, sendo importante fator na gênese do CCR na RCU e um dos fatores determinantes na indicação de proctocolectomia (14-15-16).
A pesquisa de displasia na RCU é muito importante e deverá ser procurada sempre que possível, em doença inativa, pois o epitélio em reparação pode ser confundido com o displásico. Epitélio displásico em mucosa lisa, menos freqüente, é passível de tratamento endoscópico através a mucosectomia (17). Não temos exemplo de epitélio displásico em mucosa lisa tratado por via endoscópica, até porque nestas circunstâncias só percebemos a presença de displasia quando recebemos o laudo histopatológico. Um de nossos pacientes apresentava displasia multifocal, inclusive em área nodular. Era portador de doença há 21 anos, com controle clínico difícil, e RCU iniciada no começo da adolescência, motivo pelo qual optou-se pela proctocolectomia. Na peça cirúrgica, na área nodular em cólon direito próximo ao ceco, foi diagnosticada a presença também de CCR não identificado macroscopicamente. A indicação cirúrgica neste cenário de displasia não é, no entanto, consenso (15-18-19). As nossas indicações cirúrgicas estão contempladas na TABELA 5.
A incidência de CCR na RCU vem diminuindo (20), provavelmente devido ao melhor aproveitamento do arsenal terapêutico. Tivemos 7 (5,5%) pacientes portadores de CCR, (TABELA 5) com média de idade 49±9, (TABELA 4), que está abaixo do esperado quando se trata do CCR esporádico. Embora faça parte da nossa rotina atual, não tivemos computado o histórico familiar com relação ao CCR na amostragem estudada.
A presença de sangue vivo nas fezes em portadores de RCU foi parâmetro estudado e é fundamental para seu diagnóstico, e a TABELA 6 confirma esta assertiva, quando mostra, que doença ativa confirmada por exame histopatológico, está associada a este achado em 97,6 % dos pacientes.
Temos por rotina avaliar nossos pacientes com o toque retal, pesquisando também o aspecto macroscópico das dejeções, pois como já foi descrito (21), o doente portador de RCU, seria um fronteiriço entre a normalidade psicológica e a esquizofrenia, e, portanto, esconderia ou negaria a doença, dificultando assim o diagnóstico. Tivemos oportunidade de confirmar esta afirmativa por várias vezes ao longo dos anos durante exame proctológico sem preparo do cólon, onde além do processo inflamatório difuso próprio da RCU encontramos apenas sangue em meio a poucas fezes líquidas, em alguém que refere somente apresentar diarréia sem sangue. Tenho há muitos anos por hábito, quando examino paciente do sexo masculino, com hematócrito abaixo de 30 e história de diarréia crônica, sem sangue, pensar como primeira hipótese o diagnóstico de RCU, que começa a se delinear após o toque, estando o dedo enluvado sujo de sangue.

CONCLUSÕES
1. Pancolite com a presença de mucosa não lisa, pseudopólipos, nodularidade e DALM, aumentam significativamente o risco de displasia e de CCR em portador de RCU.
2. Displasia, sobretudo multifocal, é fator determinante para a presença de CCR.
3. A idade não interfere na extensão ou estadiamento topográfico da doença.
4. Sangue vivo nas fezes é determinante no diagnóstico de RCU ativa e deverá ser procurado independente do relato histórico do paciente.

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 Endereço para correspondência:
Rua Rodolfo de Souza 105 - Vila Isabel
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, CEP: 20551-270
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E-mail: edsonjurado@alternex.com.br

Colonoscopia com polipectomia: Análise crítica de fatores de risco e complicações


Colonic snare Polipectomy: Critical analysis of risk factors and complications


Edson Jurado da SilvaI,II; Alexandre PelosiII; Gláucia FreitasII; Eleodoro AlmeidaI
IServiço de Coloproctologia do Hospital dos Servidores do Estado-RJ
IIServiço de Endoscopia Digestiva da Casa de Portugal-RJ



RESUMO
OBJETIVO: Analisar complicações de polipectomia com alça ditérmica em cólon.
PACIENTES E MÉTODOS: Estudo retrospectivo de polipectomias em colonoscopias realizadas em dois hospitais de 2001 a 2007. Teste t de Student foi usado para média, desvio padrão e qui-quadrado para números absolutos. P< que 0,05 foi considerado significativo.
RESULTADOS: Foram 1687 polipectomias em 8447 colonoscopias. Sangramento imediato em 24 (11,8%) em pólipos maiores do que 2 cm contra 1 (0,07%) em menores p<0,01. Somente 1, maior que 2 cm, (0,49%) necessitou de cirurgia para controle do sangramento p<0,01. Sangramento tardio em 7 (3,4%), todos maiores que 2 cm p<0,01. Perfuração em 6 (2.9%), todas em cólon direito. Não houve necessidade de cirurgia. A idade foi 59,8±6,7 para sangramento imediato, 60±9,8 para tardio e 63,8±16,3 para os que não sangraram p>0,05. Síndrome pós-polipectomia em 6 (0,35%). Ressecção fatiada somente em maiores que 2 cm, 89/116 (77%) sésseis e 11/87 (13%) pediculados p<0,01. Carcinoma invasivo em 40 adenomas maiores que 2 cm (19,7%).
CONCLUSÃO: Polipectomia com alça é segura, sangramento a complicação mais comum, relacionada ao tamanho da base. Perfuração vem a seguir. Ambas tem tratamento endoscópico prioritário.
Descritores: Cólon, colonoscopia, pólipo, polipectomia, complicação.

ABSTRACT
PURPOSE: The aim of this study was to evaluate adverse events from snare polypectomy.
METHODS: We retrospectively analysed the rate of complications of 1687 snare polypectomies carried out in 8447 colonoscopies between 2001 and 2007 at two Medical Institutions. Student t test was used for statistical analysis of mean and chi-square to compare absolute numbers. A significant p-value was defined as < 0,05.
RESULTS: Of the 1687 colonoscopic polypectomies 203 were performed in polyps larger than 2 cm in diameter ( range 2-10 cm ). In this group 24 (11,8%) had immediate bleeding, against 1 ( 0,07%) smaller than 2 cm p<0,01. Only one, larger than 2 cm, needed surgery to control bleeding episod p<0,01. Delayed bleeding occurred in 6 (0,35%).None required surgery. The age group for bleeding post-polypectomy did not differ, being 59,8±6,7 for immediate bleeding, 60±9,8 for delayed and 63,8±16,3 for no bleeding p>0,05.Post-polypectomy syndrome occurred in 6 patients (0,35%). In polyps larger than 2 cm, piecemeal resection was performed more often in sessile than in pedunculated ones 89/116 ( 77%) versus 11/87 (13%) p<0,01. Invasive carcinoma was present in 40 adenoma larger than 2 cm (19,7%).
CONCLUSION: Snare polypectomy is safe procedure, being bleeding the most common complication, related with polyp size mainly its base, treated most of the time endoscopically. Perforation being the next, treated too without surgery.
Key words: Colon, Colooscopy, Polyp, Polypectomy, Complication.



INTRODUÇÃO
Adenoma é precursor do câncer colorretal1-2 e a sua remoção serve como prevenção3,4,5,6. A intenção deste estudo é de avaliar os efeitos adversos da polipectomia realizada com alça diatérmica.

PACIENTES E MÉTODOS
Analisamos de forma retrospectiva 1687 polipectomias com alça diatérmica realizadas em 8447 colonoscopias em duas instituições médicas no período de 2001 a 2007. Duzentos e três pólipos eram maiores do que 2 cm de diâmetro. Teste t de Student foi utilizado para análise de média e desvio padrão e qui-quadrado para números absolutos. P < que 0,05 foi considerado significante. As grandes lesões sésseis foram abordadas por técnica combinada, isto é, polipectomia convencional com alça diatérmica complementada por mucosectomia para retirada completa e segura das margens. Não abordamos neste estudo ressecções de lesões planas ou plana-elevadas por mucosectomia.

RESULTADOS
Em 1687 polipectomias, 203 foram para pólipos maiores do que 2 cm, considerados grandes, sendo que o maior deles tinha10 cm de diâmetro.
tabela 1 mostra a incidência de sangramento imediato quando comparamos o tamanho dos pólipos.


Sangramento tardio, aquele que ocorreu após 24 h do procedimento pode ser visto na tabela 2.


Somente um paciente que sangrou necessitou de tratamento cirúrgico, todos os demais, quer tenham tido sangramento imediato ou tardio, tiveram tratamento endoscópico eficaz e o único operado tinha pólipo maior do que 2 cm de diâmetro.
Em 1687 polipectomias com alça diatérmica, ocorreram perfuração em 6, todas em pólipos localizados em ceco e cólon ascendente, sendo o perfil dos pólipos descritos na tabela 3. Todas as perfurações tiveram conduta conservadora.


Síndrome pós polipectomia também ocorreu em pólipo grande e é apresentada na tabela 4.


Nos pólipos maiores do que 2 cm de diâmetro a polipectomia fatiada, ou em piecemeal, foi mais freqüente nos sésseis do que nos pediculados, e isto pode ser visto na Tabela 4. Os pólipos menores do que 2 cm tiveram polipectomia em peça única.
As idades dos pacientes que apresentaram sangramento pós polipectomia estão apresentadas na tabela 5.


Complicação inusitada ocorreu em uma paciente (0,05%), correspondendo a fratura não percebida da alça de polipectomia, acarretando fixação da cesta, basket, no pólipo ainda fixo, contornado facilmente com o uso de um segundo aparelho com corte do pedículo íntegro com auxílio do papilótomo de Huibregtse, introduzido pelo canal de instrumentação do segundo endoscópio, na realidade um esofagogastroduodenoscópio.
A presença de adenocarcinoma invasivo em adenoma ocorreu em 40 pólipos (19,7%), todos maiores que 2 cm de diâmetro.

DISCUSSÃO
Os pólipos de cólon provenientes da mucosa, podem ser classificados quanto ao seu aspecto macroscópico em pediculados e sésseis e em função do tamanho em grandes, maiores do que 2 cm e gigantes, quando acima de 3 cm de diâmetro7,8,9. Tivemos 203 que chamamos de grandes, com tamanho de 2 a 10 cm de diâmetro. Os pólipos menores do que 2 cm de diâmetro foram todos ressecados em peça única, porém os grandes, tiveram boa parcela deles ressecados em piecemeal, fatiados, como podemos ver na Tabela 5. Experiência semelhante é vista por outros autores10,11. Diante de pólipo pediculado gigante, fazemos o possível para ressecá-lo em peça única, colocando a sua base em posição tal que a negociação da alça com relação a extremidade cefálica se faça com perfeição, cuidando para evitar que fique presa apenas parte da extremidade cefálica do mesmo ou eventualmente parte do próprio cólon figuras 12 e 3. Nos pólipos sésseis ou de base larga, sobretudo nos gigantes, a retirada inteira é bem mais problemática. As vezes não conseguimos se quer identificar a base com segurança. Analisamos sempre a extremidade cefálica, sua textura, consistência, a presença de úlcera e se o aspecto não for francamente favorável a adenocarcinoma, optamos pela realização de macrobiópsia com alça diatérmica, bem melhor do que avaliação de lesão vegetante vilosa por simples biópsias com pinças convencionais. Em função do aspecto vivenciado no momento deste procedimento, já que durante a macrobiópsia, muitas vezes a base fica visível e portanto se julgarmos factível a possível retirada da lesão, damos continuidade a realização da polipectomia fatiada. Sempre complementada por técnica conjugada, isto é, a combinação com mucosectomia para retirada completa e segura das margens da lesão, como podemos ver nasfiguras 45678 e 9. Se no controle endoscópico encontramos lesão residual e for benigna, tornamos a ressecar, porém agora usando a técnica da mucosectomia figuras 101112 e 13.


























A incidência de adenocarcinoma em adenoma é função do tamanho da lesão e foi encontrada em pólipos com diâmetro acima de 10 mm7,12,13. Na casuística deste trabalho, ocorreram em 40 pólipos (19,7%), todos com mais de 2 cm em diâmetro.
As principais complicações em polipectomia com alça diatérmica são sangramento, perfuração e dor abdominal14,15 e estão associadas ao tamanho do pólipo7,16,17,18,19,20 e são aqui demonstradas nas Tabelas 1,23 e 4. O tratamento destas complicações, em colonoscopia terapêutica, costuma ser por via endoscópica para hemorragia e conservador, não cirúrgico, para perfuração21-22. Todos os nossos sangramentos, com exceção de um (0,05%) tiveram tratamento endoscópico, enquanto as perfurações, que ocorreram em ceco e cólon ascendente, tiveram todas tratamento conservador, com alta hospitalar em torno de 5 dias.
A idade dos pacientes submetidos a colonoscopia com polipectomia com alça diatérmica não teve qualquer participação nas complicações analisadas como podemos ver na tabela 6. Não fizemos tratamento do pedículo antes de polipectomia.


CONCLUSÕES
Polipectomia com alça diatérmica é procedimento seguro, sendo sangramento a complicação mais freqüente, relacionado ao tamanho da base do pólipo e geralmente acessível a tratamento endoscópico. Perfuração vindo a seguir, tendo tratamento conservador como primeira opção.

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 Endereço para correspondência:
EDSON JURADO DA SILVA
Rua Rodolfo de Souza, 105
Vila Isabel, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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New method of treating colonic angiodysplasia

Novo método para tratamento da angiodisplasia de cólon



Antônio Hilário Alves Freitas - TSBCPI; Derival Nelmo dos SantosI; Cássia de Melo TodeschiI; Sérgio Aparecido VitalI; Kanthya Arreguy de Sena BorgesI; Patrícia Ribeiro de BaboII
IOficiais Médicos do Serviço de Endoscopia Digestiva
II
Médica Residente do Serviço de Endoscopia Digestiva



RESUMO
A utilização da colonoscopia como método de diagnóstico e tratamento possibilitou avanços na abordagem da angiodisplasia de cólon, anomalia vascular responsável por um terço das hemorragias gastrointestinais baixas. Trata-se de paciente com 65 anos, insuficiência renal crônica dialítica e coronariopata grave, apresentando episódios de hematoquezia volumosa ao iniciar uso de agregantes plaquetários, necessitando múltiplas hemotransfusões. Colonoscopia diagnosticou lesões vasculares no ceco, onde existe grande risco de perfuração durante intervenções terapêuticas. Há descrições na literatura do uso de agentes hemostáticos tais como plasma de Argônio e vasoconstrictores, aplicados separadamente. Foi realizado tratamento endoscópico das angiodisplasias com aplicação de Argônio, após elevação das lesões com soro fisiológico, e pela primeira vez descrita no Brasil, acrescentado vasoconstrictor à solução.
Descritores: Colonoscopia. Angiodisplasia. Cólon. Argônio.

ABSTRACT
The utilization of colonoscopy as a diagnostic and treatment tool allowed for advances in the approach of colonic angiodysplasia. This entity is responsible for one third of the cases of lower gastrointestinal bleeding. We discuss a 65 year old patient who suffered from coronary heart disease and chronic renal insufficiency that required dialysis. This patient developed massive hematochezia after starting the use of platelet aggregation inhibitors and required multiple transfusions. The colonoscopy identified vascular lesions in the cecum, where exist a high risk of perforation during therapeutics interventions. There are descriptions in medical literature of the use of hemostatic agents such as argon plasma coagulation and vasoconstrictors used separately. The angiodysplasia was treated endoscopically by the application of argon plasma laser after elevating the lesions with saline and, described for the first time in Brazil, adding vasoconstrictor to the saline solution.
Key words: Colonoscopy; Angiodysplasia; Colon; Argon.



INTRODUÇÃO
As anomalias vasculares de cólon são causas freqüentes de hemorragia digestiva baixa1.
A colonoscopia utilizada como método terapêutico vem alcançando bons resultados tanto em neoplasias, quanto nos sangramentos do trato gastrointestinal2.
O caso descrito é de um paciente com 65 anos de idade, comorbidades graves, apresentando episódios de hematoquezia volumosa ao iniciar uso de antiagregantes plaquetários. Colonoscopia diagnosticou lesões vasculares aracneiformes com sinais de sangramento, localizadas no ceco.
O tratamento endoscópico das anomalias vasculares do cólon, com hemostasia utilizando soluções (soro fisiológico, esclerosantes) ou métodos térmicos (cautérios, Argônio) já foi descrito anteriormente no Brasil. No presente trabalho, foi adicionado vasoconstrictor à solução no intuito de estender o tempo de elevação das lesões e aumentar a segurança durante a aplicação do Argônio (primeiro relato nacional desta associação de agentes hemostáticos no intestino grosso).

RELATO DE CASO
Trata-se de paciente com 65 anos, sexo masculino, tabagista, hipertenso, portador de insuficiência renal crônica dialítica e coronariopatia grave.
A possibilidade de transplante renal somente poderia ser avaliada após realização de angioplastia coronariana. No entanto, apresentava episódios de hematoquezia volumosa ao iniciar uso de antiagregantes plaquetários, essenciais após intervenções hemodinâmicas.
Internado no Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais com quadro de hematoquezia volumosa e anemia. A endoscopia digestiva alta sem alterações. O exame proctológico com retossigmoidoscopia mostrou grande volume de sangue no reto. A colonoscopia diagnosticou lesões angiodisplásicas no ceco. Visando terapêutica futura da coronariopatia e o conseqüente uso de antiagregantes plaquetários, o paciente foi encaminhado para terapêutica das lesões vasculares do cólon.
Foi realizado tratamento endoscópico de duas angiodisplasias localizadas no ceco, elevando-as com solução fisiológica acrescida de vasoconstrictor (adrenalina 1:200.000), 3 a 5 ml injetados com catéter endoscópico, adjacente às anomalias, e a seguir, empregado plasma de Argônio (ARGON 4 - WEM Equipamentos Elétricos LTDA - Ribeirão Preto / S.P.) utilizando corrente de 40 W e fluxo de gás de 3 L, em pulsos repetidos de 1 segundo de duração, até completa fulguração dos vasos.
Ato sem intercorrências, paciente apresentando boa evolução, recebendo alta hospitalar no dia seguinte, sem manifestação clínica ou laboratorial de ressangramento e com melhora da anemia durante os 90 dias subseqüentes, momento desta publicação.

DISCUSSÃO
As anomalias vasculares do cólon são causas freqüentes de sangramento gastrointestinal, responsáveis por um terço das hemorragias gastrointestinais baixas 1. Predominam na população entre 60-70 anos de idade e acometem igualmente ambos os sexos. Constitui achado incidental na maioria dos casos, e apenas merecem ser tratadas quando maiores que 8 mm e/ou apresentarem sinais de sangramento. Quando são causas de sangramento e não recebem tratamento, 85% ressangram nos próximos 20 meses 2. Em sua grande maioria localizam-se nos segmentos proximais do cólon, e situam-se na camada submucosa. Em pacientes com insuficiência renal, é a principal causa de sangramento intestinal baixo recorrente 3.
A colonoscopia é o melhor método para diagnóstico de anomalias vasculares de cólon. O avanço na terapêutica endoscópica possibilitou abordagem da angiodisplasia intestinal. Vários métodos têm sido utilizados para hemostasia, tais como: injeção de soluções na submucosa (soro fisiológico, esclerosantes, vasoconstrictores); e métodos térmicos (cautérios monopolar e bipolar, gás Argônio) 4, 5, 6, 7, 8, 9.
A predominância das lesões no cólon direito significa risco maior de complicações no tratamento das anomalias vasculares. A parede do intestino neste segmento é muito fina e perfura-se mais facilmente, principalmente quando se utiliza método térmico para alcançar a camada submucosa que requer aplicação de maior quantidade de energia.
Anteriormente eram utilizadas soluções esclerosantes e vasoconstrictores injetados junto às lesões, obtendo-se sucesso, mas com grande índice de recorrência. Com a incorporação do Argônio a partir da década de 90, tornou-se o método de escolha para o tratamento das anomalias vasculares do sistema digestivo 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16.
O plasma de Argônio, por não ser método de contato direto, tem sido o muito utilizado no tratamento de lesões do trato gastrointestinal (esôfago de Barret, varizes, pólipos). Nas patologias gastroesofágicas apresenta-se como alternativa segura, já que tais segmentos possuem parede muito espessa, com risco menor de perfuração, apesar de alguns casos descritos 16. No intestino grosso, principalmente em cólon direito, utiliza-se como artifício a confecção de uma bolha de solução fisiológica junto à lesão vascular para aplicação do Argônio (Figura 1).


Trabalhos experimentais em suínos mostram que as lesões térmicas da camada muscular circular do intestino grosso caem de 90% para 10%, e da camada longitudinal de 50% para 0%, quando se utiliza a bolha de solução salina antes da aplicação do Argônio 17.
O método aplicado neste trabalho foi descrito por um grupo de autores do Reino Unido, mas é inédito no Brasil 18. Até o momento, o gás Argônio era aplicado diretamente na lesão ou fazia-se a bolha com solução fisiológica. A inovação vem com a associação de soro fisiológico e vasoconstrictor (solução de adrenalina 1:200.000) aplicados na submucosa. O principal benefício é que o efeito somatório do vasoconstrictor aumenta o tempo de permanência da bolha e impede o sangramento durante a utilização do Argônio, que pode então ser aplicado com maior precisão (Figura 2).


Conclui-se que esta associação tática é factível, possui ampla aplicação prática, e pode ser somada ao arsenal do especialista que realiza a colonoscopia terapêutica.

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 Endereço para correspondência: ANTÔNIO HILÁRIO ALVES FREITAS
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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O papel da ecoendoscopia no diagnóstico das neoplasias císticas primárias do pâncreas

*

Usefulness of echoendoscopy in the diagnosis of primary cystic neoplasms of the pancreas


Simone GuaraldiI; Evandro SáII; Sérgio RomanoIII; Antonio Carlos Pires CarvalhoIV
IMestre do Departamento de Radiologia da UFRJ, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva – Sobed, "Attestation de Formation Spécialisée Approfondie" (A.F.S.A.) em Ecoendoscopia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Mediterrâneo, França
IIMembro Titular da Sobed, "Fellowship" em Endoscopia Digestiva pelo Keio Hospital, Japão
IIIMembro Titular da Sociedade Brasileira de Patologia
IVProfessor Adjunto-Doutor do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da UFRJ



RESUMO
O diagnóstico das lesões císticas pancreáticas pelos métodos de imagem, especialmente as de pequeno tamanho, é cada vez mais freqüente. Em alguns casos, ele representa um dilema em relação à terapêutica, podendo ser pseudocistos inflamatórios, neoplasias primárias ou secundárias. Para a decisão terapêutica, é necessário definir se a neoplasia é benigna, maligna ou potencialmente maligna. Hoje, a ecoendoscopia é considerada o exame padrão-ouro para a investigação do pâncreas, fornecendo dados sobre a morfologia destas lesões e possibilitando, por meio da punção guiada em tempo real, a colheita de material para avaliação citológica e dos marcadores tumorais. Este procedimento é considerado seguro e eficiente e apresenta taxas de sensibilidade e especificidade altas e de morbidade e de complicações baixas. No diagnóstico das lesões mucinosas do pâncreas, os fatores preditivos mais significativos para o diagnóstico diferencial são a presença de septos, os nódulos murais e as alterações parenquimatosas, para o qual as taxas de sensibilidade, especificidade e grau de exatidão são, respectivamente, 94%, 85% e 88%. Os autores têm por objetivo revisar as principais neoplasias císticas primárias do pâncreas, enfatizando a aplicação da ecoendoscopia no diagnóstico definitivo dessas neoplasias.
Unitermos: Ecoendoscopia; Ultra-sonografia endoscópica; Endossonografia; Neoplasia cística do pâncreas.

ABSTRACT
Pancreatic cystic lesions, particularly small lesions, are more easily diagnosed nowadays with the use of imaging methods. In some cases, the diagnosis represents a challenge to establish the treatment, as it can range from inflammatory pseudocysts to primary or metastatic cystic neoplasms. In order to choose the treatment, it is necessary to determine if the lesion is benign, borderline, or malignant. Currently, echoendoscopy is considered the gold standard procedure for pancreatic evaluation as it clearly shows the morphology of the lesion, and also allows the acquisition of pancreatic material for cytological and tumor markers studies using fine needle aspiration biopsy. This procedure is considered safe and efficient with high rates of sensibility and specificity and low rates of complications and morbidity. The presence of septa, mural nodules and irregularities in the parenchyma are the most significant predictive factors for the differential diagnosis of mucinous pancreatic-cystic lesions for which sensibility, specificity and accuracy rates are 94%, 85% and 88%, respectively. The aim of the authors in this study is to review the major primary-cystic-pancreatic neoplasms with emphasis in the application of echoendoscopy for the definite diagnosis of these lesions.
Key words: Echoendoscopy; Endoscopic ultrasound; Endosonography; Pancreatic cystic neoplasm.



INTRODUÇÃO
A descoberta de uma lesão cística do pâncreas pelos métodos de imagem, especialmente as de pequeno tamanho, é uma situação cada vez mais freqüente na prática clínica, e representa, em alguns casos, um dilema em relação à conduta terapêutica a ser seguida.
As lesões císticas do pâncreas compreendem os pseudocistos inflamatórios e as neoplasias císticas em 80% a 90% e 10% a 15% dos casos, respectivamente(1,2). As neoplasias císticas podem ser subdivididas em dois grupos de tumores: os císticos primários e os com degeneração cística secundária. No primeiro grupo estão as neoplasias epiteliais e incluem o cistadenoma seroso, o cistadenoma mucinoso, a neoplasia intraductal mucinosa papilífera, a neoplasia epitelial pseudopapilar sólida e as neoplasias mesenquimais (linfangiomas e teratomas). Os tumores com degeneração cística secundária incluem as neoplasias exócrinas pancreáticas sólidas (adenocarcinoma ductal) e as endócrinas (tumores das células das ilhotas). Outras lesões císticas do pâncreas incluem o cisto solitário, a policistose pancreática (síndrome de von Hippel-Lindau), a metástase cística e o cisto hidático.
As neoplasias císticas são lesões que, por definição, não se comunicam com o ducto pancreático principal e apresentam revestimento epitelial característico. Estas lesões constituem cerca de 1% de todas as neoplasias pancreáticas(3) e incluem principalmente os cistadenomas mucinosos e os cistadenomas serosos, representando, respectivamente, 45% e 32% das lesões císticas do pâncreas. Embora não seja considerada uma lesão cística propriamente dita, por apresentar imagem semelhante à esta, a neoplasia intraductal mucinosa papilífera é estudada nesta categoria.
O aprimoramento tecnológico contínuo dos métodos de imagem como a ultra-sonografia transabdominal (UST), a tomografia computadorizada (TC), a TC helicoidal (TCH), a colangiopancreatografia por ressonância magnética (CPRM) e a ecoendoscopia (EE) têm permitido identificar, numa fase subclínica e de forma mais freqüente, lesões pancreáticas pequenas, quando a maioria dos pacientes é assintomática e não relata história prévia ou presente de doença pancreática.
Apesar da evolução tecnológica, existem lesões que apresentam imagens ultra-sonográficas convencionais e tomográficas com aspectos variáveis, sendo, muitas vezes, difícil a definição diagnóstica. O cistadenoma seroso unilocular macrocístico tem imagem radiológica semelhante ao pseudocisto e ao cistadenoma mucinoso, constituindo um dos exemplos de situações clínicas difíceis para o diagnóstico diferencial exclusivamente por método de imagem.
Este artigo tem por objetivo fazer uma revisão sobre as principais neoplasias císticas primárias do pâncreas, com ênfase na aplicação da EE no diagnóstico definitivo destas lesões. As neoplasias intraductais mucinosas papilíferas, por seu aspecto muito semelhante às lesões císticas, também são descritas.

ECOENDOSCOPIA – NOÇÕES BÁSICAS
A EE é o método de investigação que combina a endoscopia digestiva ao ultra-som e produz, por meio de um transdutor de alta freqüência situado na extremidade do endoscópio, imagens de alta resolução. Ela é classificada, segundo o método de escaneamento utilizado, em radial ou linear, e segundo a indicação clínica, em diagnóstica ou terapêutica. As indicações clínicas diagnósticas são divididas em três categorias principais: anormalidades subepiteliais (também conhecidas como "submucosas"), estadiamento de neoplasias e avaliação de doenças biliopancreáticas. As indicações terapêuticas incluem, entre outros, procedimentos como a drenagem de pseudocisto pancreático e a neurólise do tronco celíaco (para a dor de origem neoplásica).
O pâncreas é bem visualizado por ambas as técnicas, radial ou linear, devido à situação anatômica e pela aposição direta do transdutor na parede gástrica e duodenal imediatamente acima ou ao lado dele. A EE permite o estudo detalhado do parênquima e ducto pancreáticos em toda a extensão da glândula, sem a interposição de gás ou gordura abdominal. Existe boa evidência científica de que a EE pode identificar lesões não detectadas anteriormente e, com isso, esclarecer alterações identificadas por outros métodos de imagem como a TC e a RM, sendo hoje, uma vez descartada previamente a presença de doença a distância, considerada padrão-ouro para avaliação deste órgão.
A técnica linear, também conhecida como setorial, possibilita a realização de procedimentos complementares invasivos e, entre estes, a punção por agulha fina guiada em tempo real (EE-PAAF), a qual permite a aquisição de material líquido, celular ou tecidual para análise laboratorial e citológica. Tanto a EE diagnóstica quanto os procedimentos intervencionistas terapêuticos são considerados métodos seguros(4,5), com taxas altas de sensibilidade, especificidade e eficácia, respectivamente, de 92%, 93% e 92%(5). Em todas as situações clínicas mencionadas, a EE possibilita o fornecimento de informações relevantes que "pesam" na decisão terapêutica dos pacientes. Como vantagens, a EE-PAAF permite, de forma direta e com menor risco de complicação, o diagnóstico de lesões infracentimétricas e minimiza o risco de disseminação de células malignas, uma vez que o trajeto da agulha normalmente está incluído no procedimento de ressecção, caso esta seja a indicação terapêutica do paciente. A EE-PAAF está contra-indicada quando a informação fornecida por ela não contribui para a decisão terapêutica do paciente e quando vasos sanguíneos são visualizados interpostos no trajeto de punção. O distúrbio de coagulação é contra-indicação relativa, pois o trauma secundário à técnica de punção é pequeno, sendo esta, portanto, uma das alternativas para diagnóstico neste grupo de pacientes.
De modo geral, as complicações associadas aos procedimentos de EE intervencionista incidem em 0,3% a 2,0%(6). Nos procedimentos de EE-PAAF relacionados às lesões císticas pancreáticas, esta taxa pode chegar a 14%, sendo esta justificada pelo tipo de lesão que, por sua vez, oferece ambiente mais propenso à complicação local (por exemplo: sangramento intracístico pós-punção). As principais complicações descritas são perfuração, que é secundária à manipulação endoscópica propriamente dita e é operador-dependente; sangramento, que é minimizado pela aplicação do sinal Doppler no trajeto projetado de punção; infecção secundária à passagem pela luz gastroduodenal, prevenida ou minimizada pela administração de antibiótico em esquema profilático (por exemplo: cefalotina, 2 g endovenosos uma hora antes da punção); pancreatite secundária ao trauma parenquimatoso, tratada na maioria dos casos com medidas conservadoras.

AVALIAÇÃO ECOENDOSCÓPICA DO PÂNCREAS
Na avaliação ecoendoscópica das lesões císticas do pâncreas devemos responder inicialmente três perguntas:
1. A lesão é intrapancreática?
2. A lesão é um pseudocisto ou uma neoplasia cística?
3. A lesão é benigna, maligna ou potencialmente maligna?
Os pseudocistos são lesões secundárias à pancreatite aguda ou crônica. Podem ser de retenção, no caso de pancreatite crônica, ou surgir como elemento a montante de uma lesão tumoral subclínica ou ainda ser necróticos, pós-evento de pancreatite aguda. À parte, existem os cistos distróficos que ocorrem em pâncreas ectópico duodenal e correspondem aos remanescentes císticos decorrentes de fenômenos inflamatórios incomuns (5%) nas pancreatites crônicas alcoólicas(7).
A diferenciação entre cistos benignos, malignos e pré-malignos é importante porque altera o tratamento destas lesões. Lesões benignas assintomáticas não requerem tratamento, enquanto lesões malignas ou de potencial maligno, na ausência de contra-indicação clínica, devem ser ressecadas cirurgicamente. Tomando a imagem como foco, Ahmad et al.(8) demonstraram baixa taxa de concordância (k = 0,24) para o diagnóstico diferencial entre lesões neoplásicas e não-neoplásicas entre oito ecoendoscopistas experientes quando a compararam com o resultado histopatológico posterior da peça cirúrgica. Catalano et al.(9) ressaltaram que nenhuma característica ecoendoscópica isolada distinguiu a lesão benigna da maligna em 102 pacientes estudados. Dessa forma, apesar da EE ser destacada como elemento valioso para estas respostas, o diagnóstico com base apenas na interpretação das imagens adquiridas apresenta resultados controversos.
O diagnóstico diferencial das lesões císticas do pâncreas com base apenas na interpretação da imagem radiológica é, portanto, possível. Mas, a semelhança de algumas de suas imagens e mesmo a presença de elementos morfológicos incomuns o tornam difícil, a exemplo do que se observa no cistadenoma seroso macrocístico.

AVALIAÇÃO CITOLÓGICA E LABORATORIAL DO PÂNCREAS
O esclarecimento pelo diagnóstico citológico pode ser feito por meio da colheita de material pela punção por EE e análise citológica. O volume de material líquido para análise depende do tamanho destas lesões. Portanto, o volume pequeno pode constituir um fator limitante para o diagnóstico definitivo da lesão. Por outro lado, a presença de células glicogênio-positivo e a ausência de mucina são diagnósticos de cistadenoma seroso de pâncreas(10).
Neste ponto, a EE-PAAF tem sido considerada como etapa representativa na direção do diagnóstico citológico da lesão, uma vez que apresenta morbidade e taxa de complicação baixas.
O material recolhido pela EE-PAAF — líquido e microbiópsia — é preparado de forma convencional para análise laboratorial e citológica. A análise laboratorial do líquido pancreático inclui a dosagem de amilase, lipase, viscosidade líquida, de diferentes marcadores tumorais (CEA, CA19.9, CA72.4, CA15.3, mucina M1), e mais recentemente, a pesquisa de Ki-ras. A análise destes fluidos tem sido objeto de interesse crescente para estudos e parece desempenhar papel na decisão terapêutica destes pacientes, colaborando para o diagnóstico diferencial entre lesões com diagnóstico citológico duvidoso e potencial maligno indefinido. No entanto, seu valor prático ainda requer mais estudos e confirmação, embora já exista tabela com valores de corte para os diferentes tipos de lesões císticas (Tabela 1)(11). Catalano et al.(9) demonstraram que o diagnóstico diferencial de neoplasias císticas pancreáticas foi fortalecido pela análise do conteúdo líquido do cisto. Tomando por base concentração elevada de antígeno carcinoembrionário (CEA > 300 ng/ml) e da viscosidade líquida (> 1,6), os autores foram capazes de distinguir eficazmente a neoplasia cística mucinosa da serosa e do pseudocisto inflamatório em 102 pacientes. O CEA acima de 1.200 permitiu a distinção das lesões mucinosas não-malignizadas dos cistadenocarcinomas. Em um outro estudo(12), a associação da análise citológica com os marcadores tumorais (CEA > 400 ng/ml e Ca19.9 > 50.000 U/ml) identificou 80% dos casos de lesões mucinosas.


Porém, mesmo reconhecendo que a EE e a EE-PAAF representam avanços reais para o estudo das lesões pancreáticas, ainda cerca de um terço das lesões císticas permanece sem o diagnóstico definido. Técnicas atuais de investigação, como a citologia e a determinação das taxas de amilase, lipase e marcadores tumorais, eventualmente, ainda não são suficientemente discriminativos. Nestes casos, a análise genética e a expressão protéica dos elementos que compõem estas lesões podem trazer informações adicionais e, por conseguinte, representar um avanço a mais.

NEOPLASIA CÍSTICA SEROSA
Os tumores pancreáticos císticos serosos são neoplasias císticas compostas por células epiteliais cuboidais benignas e representam cerca de 1% a 2% dos tumores exócrinos pancreáticos(13). A etiologia e a patogênese são desconhecidas e é rara a transformação maligna destas lesões. O seu diagnóstico é feito em torno da sétima década de vida, em geral secundário à investigação de sintomas pouco específicos como a epigastralgia, ou pela origem de sintomas compressivos abdominais(7), e acometem mais freqüentemente as mulheres que os homens (3:2). Localizam-se predominantemente na cabeça pancreática (40%), medem em torno de 15 a 20 cm no momento do diagnóstico e são ricamente vascularizadas. Pela baixa probabilidade de transformação maligna, até hoje apenas oito casos foram relatados na literatura, e seu tratamento consiste no acompanhamento clínico(14,15). A cirurgia é reservada para os casos sintomáticos, sendo, portanto, o prognóstico dos pacientes excelente.
Morfologicamente, os cistadenomas serosos são caracteristicamente microcísticos e multiloculares (Figura 1). O aspecto ecográfico típico é de massa tumoral hipoecóica, heterogênea, com limites bem definidos, composta por vários compartimentos de tamanho milimétrico com conteúdo anecóico, sem "débris" e com reforço posterior. Os compartimentos são separados por septos finos e regulares, o que dá à lesão um aspecto global tipo "colméia". A EE é muito útil no estudo destas lesões por seu alto poder de resolução, sendo possível demonstrá-las detalhadamente. Eventualmente, podem apresentar-se como lesões macrocísticas e raramente apresentam estruturas internas. Em cerca de 30% dos casos apresentam uma porção central de fibrose ou calcificação, descrita como "cicatriz central"(7,16). Em geral, o ducto pancreático principal não está envolvido no processo ou está obstruído pela lesão serosa. Assim, três formas são descritas por ordem decrescente de freqüência: o cistadenoma microcístico, a forma mista (micro e macrocistos) e o cistadenoma macrocístico (os cistos medem em geral mais que 2 cm cada).


A TC deve ser realizada como método complementar e contribui para o diagnóstico das lesões macrocísticas e mistas, ao contrário das lesões macrocísticas, cujas imagens não são específicas. A lesão microcística, antes da injeção do meio de contraste, se apresenta como lesão hipodensa bem limitada com área de calcificação central, já descrita anteriormente. Após a infusão, ocorre exacerbação dos septos finos, relembrando o aspecto tipo colméia mencionada acima. Embora tomando apenas por base a interpretação da imagem radiológica o diagnóstico diferencial das lesões císticas do pâncreas seja possível, a semelhança entre algumas das imagens adquiridas e mesmo a presença de elementos morfológicos incomuns o tornam difícil, a exemplo do que se observa no cistadenoma seroso macrocístico.
Neste caso ou quando há dúvida diagnóstica, a EE-PAAF está indicada, pois permite o diagnóstico citológico. Estas lesões são circundadas por epitélio estratificado, rico em glicogênio (Figura 2). O volume do aspirado é fator importante para a sua qualificação e depende do tamanho da lesão. Portanto, volume pequeno pode ser um fator limitante para o seu diagnóstico definitivo. Por outro lado, a presença de células glicogênio-positivas e a ausência de mucina são diagnósticos de cistadenoma seroso de pâncreas(10). A presença de mucina ou "débris" no interior destas lesões é extremamente incomum, e uma vez diagnosticada deve levar à suspeita de cistadenoma mucinoso e não seroso.


NEOPLASIA CÍSTICA MUCINOSA
Os tumores císticos mucinosos do pâncreas são neoplasias epiteliais císticas compostas por células colunares produtoras de mucina circundadas por estroma tipo ovariano e que não se comunicam com o ducto pancreático principal. As neoplasias císticas pancreáticas, hepáticas e do retroperitônio são semelhantes. Na etiologia destas lesões considera-se possível a derivação do componente estromal primordial ovariano, argumento fundamentado, entre outros, na morfologia, tendência à luteinização e na presença de células tipo-hilares observadas nestas lesões. A hipótese atual é de que o estroma ovariano ectópico incorporado no pâncreas durante a embriogênese pode produzir hormônios e fatores de crescimento induzindo o epitélio circunjacente a proliferar e formar tumores císticos(17). Considerando que a gônada primordial esquerda e o pâncreas dorsal estão lado a lado durante a quarta e quinta semanas do desenvolvimento intra-uterino, esta hipótese poderia explicar a predileção dessas lesões pelo segmento corpo-caudal do pâncreas (70% a 90%).
Acometem mais freqüentemente as mulheres que os homens (6:1), na faixa etária entre 40 e 50 anos. De acordo com o grau de displasia epitelial são classificadas como adenoma, "borderline" (displasia de baixo grau) ou carcinoma não-invasivo ou invasivo. Embora mais de 500 casos já tenham sido registrados na literatura, são considerados como lesões raras, representando cerca de 2% a 5% dos tumores pancreáticos exócrinos(18). Seu tamanho é muito variável, podendo medir de 1 a 20 cm, sendo as lesões menores que 3 cm mais freqüentemente benignas e as maiores que 8 cm, em geral, malignas. Portanto, o correto diagnóstico dessas lesões é fundamental, uma vez que o prognóstico está diretamente relacionado com o grau de atipia celular, sendo excelente para os tumores não-invasivos completamente ressecados(17).
Morfologicamente, os cistadenomas mucinosos são caracteristicamente macrocísticos, sendo raramente microcístico, uni ou multiloculares (Figura 3). Em geral, estas lesões são uniloculares, anecóicas com conteúdo líquido espesso e "débris", as paredes são relativamente finas e bem individualizadas do parênquima pancreático e freqüentemente existem áreas internas de espessamento parietal que, às vezes, formam projeções intraluminares. A presença de espessamento ou irregularidade da parede do cisto deve levar à suspeição de malignidade(19). Pode haver, em 15% dos casos, áreas de calcificações parietais, as quais são visualizadas como estruturas hiperecogênicas arciformes(7).


A TC mostra lesão hipodensa bem limitada, em geral arredondada, ressaltando as calcificações periféricas, quando presentes. Por outro lado, antes da injeção do meio de contraste e especialmente nas lesões pequenas, não é visível o conteúdo viscoso com "débris". Entretanto, as projeções intraluminares são facilmente visualizadas nas lesões de maior tamanho(7).
O diagnóstico diferencial dessas lesões é importante e, por ordem de freqüência, consideramos primeiro o pseudocisto pancreático. O erro diagnóstico neste caso leva à realização inadequada de derivações cistojejunais, drenagem percutânea ou acompanhamento clínico. Pode, ainda, um cistadenoma seroso macrocístico ser confundido como mucinoso e ser ressecado sem indicação clínica. A presença de células inflamatórias circunjacentes pode complicar ainda mais o diagnóstico correto dessas lesões(7). Portanto, estas são algumas das razões que explicam a realização da EE-PAAF para o diagnóstico correto delas.
A punção dos cistadenomas guiada em tempo real por ecoendoscopia é relativamente simples e segura. A agulha é posicionada no centro da lesão e o conteúdo líquido é completamente aspirado. Porém, cuidadoso exame do parênquima circunjacente é necessário para a exclusão de lesões a jusante e concomitantes à formação cística. Quando existem áreas de espessamento ou áreas sólidas hipoecóicas, estas devem ser incluídas nos movimentos da punção, pela maior probabilidade de haver células informativas nesta região, aumentando assim a qualidade celular do aspirado. O material líquido contido nestas lesões é em geral viscoso, o que pode representar um problema no momento da aspiração, pois a agulha pode se tornar obstruída ou o tempo para aspirar toda a lesão pode ser longo. Neste caso, o uso de agulha com calibre maior (19 G) pode ajudar na colheita do material. Sangramento intracístico é incomum, principalmente se a lesão for previamente estudada pelo sinal Doppler. O esvaziamento completo da lesão colabora para a prevenção da infecção do cistadenoma como resultado da EE-PAAF e sempre deve ser tentado. Por outro lado, a repetição da punção pode aumentar o risco de complicações.
A avaliação citológica consiste na procura de células epiteliais colunares produtoras de mucina e da própria mucina (Figura 4). Para melhorar a qualidade do material aspirado, é importante evitar ao máximo a contaminação do material com células gástricas ou duodenais no aspirado no momento da passagem da agulha pela parede gástrica ou duodenal. A presença de células gástricas e/ou duodenais pode resultar em citologia falso-positiva para células mucinosas. Sperti et al.(20), estudando a utilidade da análise sérica e intracística das enzimas e marcadores tumorais, observaram que a citologia desse material apresentou taxas de sensibilidade e especificidade de 48% e 100%, respectivamente. Quando a lesão se trata de cistadenocarcinoma, as células epiteliais malignas são visualizadas mais facilmente, particularmente quando existe uma lesão sólida no interior da lesão cística e esta foi traspassada pela agulha de punção(21).


NEOPLASIA INTRADUCTAL MUCINOSA PAPILÍFERA
A neoplasia intraductal mucinosa papilífera, antes confundida com as neoplasias císticas mucinosas, origina-se no ducto pancreático principal ou nos seus ramos principais e forma projeções papiliformes que crescem em direção à luz ductal, levando à dilatação intraductal pseudocística, uma vez que não é lesão propriamente cística. O termo neoplasia intraductal mucinosa papilífera foi proposto por Warshaw et al. em 1997, quando estes demonstraram que a ectasia ductal mucinosa e a neoplasia intraductal mucinosa papilífera eram nomes diferentes para a mesma entidade(22). O componente epitelial papilífero, o grau de produção de mucina, da dilatação ductal cística e da invasão locorregional é variável. Outros nomes para a mesma lesão incluem papilomatose do pâncreas, adenomatose dos canais pancreáticos, doença de Itaï ou tumor ductoectático produtor de mucina, tumor mucinoso intraductal, ectasia ductal mucinosa, tumor intraductal hipersecretor de mucina, e o mais inadequado de todos, cistadenocarcinoma intraductal, que não deve ser usado.
A baixa incidência e a identificação imprecisa das neoplasias intraductais mucinosas papilíferas têm mascarado o reconhecimento dos fatores etiológicos. Fukushima e Mukai descrevem que a maioria de seus pacientes era fumante(23). No entanto, não existe associação consistente destas lesões com outras lesões neoplásicas pancreáticas(17).
Até o momento, a incidência das neoplasias intraductais mucinosas papilíferas é estimada em 1% a 3% das neoplasias exócrinas pancreáticas, ou menor que 1 a cada 100.000 habitantes/ano(13). A maioria destas lesões ocorre no ducto pancreático principal e seus ramos na cabeça pancreática (60% a 70%)(7,24,25). A origem multicêntrica é suspeitada pela recorrência na glândula pancreática remanescente após a cirurgia(26). População com faixa etária ampla (30 a 94 anos) pode apresentar neoplasia intraductal mucinosa papilífera, entretanto, a idade média para o diagnóstico está entre a sexta e sétima décadas de vida(27). Homens são mais acometidos que mulheres (3:1)(7,28). Estas lesões são classificadas em benignas, "borderline" e malignas não-invasivas ou invasivas. Embora estejam sendo mais descritas, sua incidência, ainda desconhecida, é atribuída ao avanço tecnológico, ao progresso no seu reconhecimento e à recente padronização para sua classificação.
A apresentação clínica destas lesões é variável, podendo ser o paciente assintomático ou oligossintomático e ter o diagnóstico feito incidentalmente pelo achado de dilatação do ducto pancreático por outro método de imagem, ou apresentar sintomas objetivos como dor epigástrica, perda de peso, diabetes e icterícia(29–31). No entanto, a apresentação inicial mais comum é o quadro de pancreatite aguda de origem indeterminada (40%)(7). Com o passar dos anos, o diagnóstico é mais freqüente pela recorrência dos eventos de pancreatites, que são de intensidade leve a moderada, raramente graves. As taxas de amilase e lipase sanguíneas estão freqüentemente elevadas. A EE e a colangiopancretografia endoscópica retrógrada podem ajudar no diagnóstico pré-operatório. A biópsia endoscópica ou EE-PAAF permitem o diagnóstico citológico, entretanto, é fundamental a avaliação de toda a peça cirúrgica após a ressecção para a determinação do grau de displasia de toda a lesão. Estas lesões são potencialmente malignas. Palazzo et al. relatam achados de 40%, 10% a 20%, e 30% a 40% de lesões invasivas, displasia grave (carcinoma in situ) e hiperplasia ou displasia mínima a moderada, respectivamente(7). O estudo dos marcadores tumorais CEA e Ca19.9 são insensíveis(28).
As neoplasias intraductais mucinosas papilíferas têm sido confundidas com os cistadenomas mucinosos porque ambos apresentam aspecto cístico e têm componente celular semelhante. Todavia, são entidades diferentes e podem ser individualizadas facilmente porque, ao contrário das neoplasias intraductais mucinosas papilíferas, os cistadenomas mucinosos ocorrem tipicamente em mulheres, na quinta ou sexta décadas de vida, localizam-se predominantemente no corpo ou cauda pancreáticos, apresentam parede espessa e não se comunicam com o ducto pancreático.
Radiologicamente são descritas três formas: o tipo ducto principal, o tipo ducto secundário (o mais frequente, 40%) e o tipo misto, que compromete tanto o ducto principal quanto o ducto secundário. Na UST e na TC estas lesões apresentam aspecto típico: lesão cística uni ou multiloculada, localizada em geral na cabeça pancreática, com contorno nítido e associada a dilatação do canal pancreático principal. A colangiopancreatografia endoscópica retrógrada tem sido considerada o exame de referência para a definição diagnóstica. Na abordagem inicial deste procedimento, a visualização da papila de Vater com orifício dilatado (40% a 50%), pelo qual sai secreção mucóide, é patognomônica desta afecção(7). A pancreatografia com falhas de enchimento com aparência tipo cística e com conteúdo móvel é considerada também preditiva desta lesão. Todavia, a conclusão diagnóstica pode ser dificultada pelas semelhanças com o pancreatograma da pancreatite crônica, o que inclui calcificações focais, dilatação ductal focal, irregularidades ductais e ductos secundários anormais. Além disso, a abundante quantidade de mucina intraductal e intracística pode impedir a visualização correta dos ductos secundários em até 12% dos pacientes(32,33). E, embora a abordagem endoscópica convencional permita aspirar material líquido do ducto, ela não é capaz de detectar as lesões císticas ou tumorais no interior do parênquima que geralmente acompanham estas lesões(34).
A EE apresenta resultados semelhantes aos da pancreatografia e superiores aos da UST, tendo a vantagem de associar a visualização da papila de Vater (Figura 5) com o estudo das formações císticas intraparenquimatosas e a avaliação da glândula como um todo, tornando assim possível o estudo de toda a árvore pancreática em um único procedimento. Permite também detectar a dilatação de canais secundários ou a presença de lesões focais hipoecóicas sugestivas de tumor intraparenquimatoso não diagnosticado previamente. Dessa forma, é possível, além de examinar a lesão pela imagem detalhada, puncionar diretamente a lesão num mesmo procedimento para diagnóstico citológico. Portanto, na ecoendoscopia são pesquisados não só o aspecto da lesão propriamente dita, mas sua relação com os ductos pancreáticos principal e secundários. O aspecto global sugere um "cacho de uva" (Figura 6). As neoplasias intraductais mucinosas papilíferas são caracterizadas como formações tipo císticas com parede externa fina, sem septos, representando os ductos dilatados (Figura 7) contendo material espesso com "débris". Nestas lesões podem ser identificados nódulos murais ou massas sólidas hipoecóicas concomitantes (Figura 8). As lesões císticas associadas às neoplasias intraductais mucinosas papilíferas apresentam aspectos morfológicos diversos, o que eventualmente pode simular cistadenomas micro ou macrocísticos. Considerando que a principal limitação da EE no diagnóstico das neoplasias intraductais mucinosas papilíferas é a sua inabilidade para diferenciar entre áreas malignas de áreas inflamatórias, a aplicação da EE-PAAF tem colaborado positivamente para aumentar a especificidade dos achados ecoendoscópicos(35). Na EE-PAAF, o volume líquido deve ser o maior possível com a finalidade de recolher material suficiente para interpretação citológica. A análise do aspirado demonstra material celular semelhante aos dos cistadenomas mucinosos.








A associação da EE com a pancreatografia retrógrada trabalha em conjunto, apresentando precisão diagnóstica pouco acima de 80%(7). Na impossibilidade de se realizar a EE, a CPRM pode contribuir para o estudo dessas lesões.
Hara et al.(36) avaliaram a utilidade da pancreatoscopia peroral e da EE intraductal em 60 casos de neoplasias intraductais mucinosas papilíferas confirmados histologicamente. Segundo eles, a combinação das duas técnicas foi muito efetiva para o diagnóstico diferencial entre lesões benignas e malignas. Esta informação é particularmente importante na avaliação das neoplasias intraductais mucinosas papilíferas, cuja taxa de sobrevida acumulada de três anos de 95% pode ser conseguida se o manuseio do paciente for correto.
O prognóstico destas lesões é excelente para os tumores adenomatosos ou "borderline", com taxa de sobrevida de 100% em três a cinco anos. O tratamento destas lesões depende do diagnóstico da extensão longitudinal da lesão (extensão ao longo do ducto pancreático), sendo fundamental a avaliação peroperatória da lesão.

OUTRAS LESÕES CÍSTICAS RARAS
Outras entidades têm sido descritas como neoplasias císticas primárias do pâncreas, estando aí incluídos os linfangiomas císticos, os leiomiossarcomas, os cistos dermóides (teratomas) e os schwannomas. Em cada um destes grupos de lesões, pouco menos de 25 casos foram publicados até hoje. O tratamento cirúrgico é recomendado devido ao potencial maligno dessas lesões.
O linfangioma pode ocorrer em pacientes assintomáticos ou com dor abdominal. A massa apresenta aspecto uni ou multiloculado e o diagnóstico é confirmado pela EE-PAAF ou pela ressecção cirúrgica.
Os teratomas císticos são tumores extremamente raros, podem conter tecido ósseo, dente ou cabelo e causam sintomas de compressão à medida que crescem. A ressecção é recomendada(37).
As lesões metastáticas císticas são raras e podem ser decorrentes de neoplasias malignas do pulmão, pele (melanoma), mama, ovário, cólon, estômago e tireóide. Na TC são identificados três padrões diferentes: massas solitárias, lesões multinodulares e comprometimento difuso da glândula sem sinal focal(38).

CONCLUSÃO
O diagnóstico da neoplasia cística do pâncreas depende da combinação dos dados clínicos com as informações fornecidas pelos métodos de imagem. Estes, inicialmente restritos à UST, hoje incluem a TC — principalmente a TC helicoidal —, a EE e a colangiopancreatografia endoscópica retrógrada, a qual, progressivamente, vem sendo substituída pela CPRM. A tendência atual, quando não há contra-indicação técnica à sua execução (por exemplo: vaso interposto no trajeto da punção), é avaliar a lesão por meio da EE e puncioná-la com o objetivo de colher material líquido e microbiópsia para avaliação citológica e laboratorial, a fim de se aumentar as chances de se identificar, o mais precocemente possível, os pacientes com lesões potencialmente malignas, os quais se beneficiarão pelo tratamento cirúrgico.
A EE, por permitir analisar de forma detalhada a lesão cística do pâncreas, sua arquitetura interna e parede externa, se há comunicação ou não com o ducto principal, se há ou não elementos predisponentes à complicação em caso de punção (por exemplo: vasos sanguíneos interpostos) e por apresentar porcentagens altas de grau de exatidão — 82% a 91%, 94% a 97% e 92% a 96% para as lesões com até 2 cm, 4 cm e 6 cm de tamanho, respectivamente — vem sendo apontada como padrão-ouro na estratégia de identificação e no estadiamento destas lesões. A identificação de septos, nódulos murais e alterações parenquimatosas constituem os fatores preditivos mais significativos no diagnóstico das lesões císticas do pâncreas, principalmente para sua diferenciação das lesões mucinosas, apresentando taxas de sensibilidade, especificidade e grau de exatidão de 94%, 85% e 88%, respectivamente(34,39).

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 Endereço para correspondência:
Dra. Simone Guaraldi
Rua Visconde de Pirajá, 259/702, Ipanema
Rio de Janeiro, RJ, 22410-001
E-mail: s.guaraldi@ecoendoscopia.com