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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Qualidade de vida de indivíduos com diabetes mellitus e hipertensão acompanhados por uma equipe de saúde da família



Quality of life for diabetic and hypertensious individual accompanied by the family health team

La calidad de vida de los pacientes diabéticos y de los hipertensos que son acompañados por un equipo de salud de la familia


Sybelle de Souza Castro MiranziI; Francielle Silva FerreiraII; Helena Hemiko IwamotoIII; Gilberto de Araújo PereiraIV; Mário Alfredo Silveira MiranziV
IDoutora em Enfermagem em Saúde Pública. Professor Adjunto do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Minas Gerais, Brasil
IIMestre em Enfermagem em Saúde Pública. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade Talentos Humanos. Minas Gerais, Brasil
IIIDoutora em Enfermagem Fundamental. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem em Assistência Hospitalar da UFTM. Minas Gerais, Brasil
IVEstatístico. Professor Assistente do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da UFTM. Minas Gerais, Brasil
VDoutor em Saúde Coletiva. Professor Adjunto do Departamento de Medicina Social da UFTM. Minas Gerais, Brasil



RESUMO
Objetivou-se descrever o perfil epidemiológico e avaliar a qualidade de vida dos indivíduos com Diabetes mellitus e hipertensão arterial associados, acompanhados por uma equipe de Saúde da Família. Trata-se de um estudo observacional do tipo inquérito transversal. Os dados foram coletados no 1º semestre de 2006, através da ficha do HIPERDIA e por entrevistas utilizando-se o WHOQOL-bref. Para análise dos dados utilizou-se estatística descritiva e sintaxe do WHOQOL-bref no SPSS. Foram entrevistados 30 indivíduos, sendo 75% do tipo 2 e 25% do tipo 1. A média de idade foi de 56 anos, sendo a maioria com 1° grau incompleto (56,7%) e analfabetos (33,3%). Dentre eles, 80,6% faziam uso de medicamentos; 19,4% tinham hábito de fumar, 27,8% não praticavam exercícios físicos e 47,2% eram obesos. Os participantes apresentaram uma avaliação positiva para a qualidade de vida geral e para os domínios: relações sociais, físico, psicológico e meio ambiente, diferentemente do esperado.
Palavras-chave: Qualidade de vida. Diabetes mellitus. Hipertensão. Saúde da família.

ABSTRACT
The present work aimed to describe the epidemiologic profile and evaluate the quality of life among individuals suffering from Diabetes mellitus and hypertension, accompanied by a Family Health team. It is a monitorial study of transversal investigation. Descriptive statistics and WHOQOL-bref syntax were used for data analysis. The data was collected by HIPERDIA cards, as well as by interviews to make use the WHOQOL-bref. Thirty people with associative hypertension and diabetes, 75% type 2 and 25% type 1, were interviewed. The average age was 56 years old, with the majority not having completed grade school (56.7%) and illiterate (33.3%). The majority (80.6%) of those interviewed use medications, 19.4% smoked regularly, 27.8% didn't exercise, and 47.2% were obese. The individuals presented in general a positive evaluation of their overall life quality and for the domains: social relationships, physical, psychological, and environment, completely opposite that expected.
Keywords: Quality of life. Diabetes mellitus. Hypertension. Family health.

RESUMEN
El objetivo de este estudio fue describir el perfil epidemiológico y evaluar la calidad de vida de los individuos conDiabetes mellitus e hipertensión que son acompañados por un equipo de salud de la familia. Es un estudio de observación del tipo investigación transversal. Para el análisis de los datos se utilizó la estadística descriptiva y la sintaxis del WHOQOL-bref. Los datos fueron recolectados en el primer semestre de 2006, a través de la ficha del HIPERDIA y por entrevistas, utilizándose para ello, el método WHOQOL-bref en el SPSS. Fueron entrevistadas treinta personas con hipertensión y diabetes, siendo 75% del tipo 2 y 25% del tipo 1. El promedio de edad era de 56 años, la mayoría de ellos con el primer nivel de enseñanza incompleto (un 56,7%), y analfabetos (un 33,3%). Del total, el 80,6% tomaba medicamentos; 19,4% tenía el habito de fumar; 27,8% no hacía ejercicios, y 47,2% eran obesos. Los participantes presentaron una evaluación positiva para los índices de calidad de vida general y para las categorías: relaciones sociales, estado físico, psicológico y medio ambiente, diferente de lo esperado.
Palabras clave: Calidad de vida. Diabetes mellitus. Hipertensión. Salud de la familia.



INTRODUÇÃO
Atualmente, pode-se observar que houve transformações quanto à incidência e à prevalência das doenças, bem como quanto às principais causas de morte. No Brasil, os altos índices de óbitos causados por doenças crônicas decorrem do estágio atual da transição demográfico/epidemiológica pela qual passa a população brasileira, resultando no envelhecimento populacional.1 Tais mudanças permitem que aspirem a uma vida mais longa, sem preocupação com limitações, incapacidades e dependências, próprias do envelhecimento.2
Dentre as doenças crônicas, a hipertensão arterial e o Diabetes mellitus são as mais comuns, cujo tratamento e controle exigem alterações de comportamento em relação à dieta, ingestão de medicamentos e o estilo de vida. Estas alterações podem comprometer a qualidade de vida, se não houver orientação adequada quanto ao tratamento ou o reconhecimento da importância das complicações que decorrem destas patologias.3
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o Diabetes mellitus como uma síndrome de etiologia múltipla, decorrente da falta de insulina e/ou incapacidade da insulina exercer adequadamente suas ações, caracterizada pela hipoglicemia crônica e alterações no metabolismo dos carboidratos, lipídeos e proteínas. Os sintomas característicos são: polidipsia, poliúria, borramento da visão e perda de peso.4
A hipertensão arterial é uma doença de natureza multifatorial, freqüentemente associada a alterações metabólicas e hormonais e fenômenos tróficos. É caracterizada pela elevação da pressão arterial, considerada como um dos principais fatores de risco cárdio e cerebrovasculares, e complicações renais. O número estimado de indivíduos com hipertensão no Brasil é de, aproximadamente, 18 milhões, sendo que, destes, apenas 30% estão controlados, aumentando assim o risco de acidente vascular cerebral, doenças renais e cardiovasculares.5 Por outro lado, as complicações resultantes do diagnóstico tardio da hipertensão ou da não adesão ao tratamento podem demandar em internações e custos hospitalares, constatados pelos dados apresentados no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS) do Ministério da Saúde (MS), ou seja, 17,6% das internações estão relacionados com a hipertensão e doenças hipertensivas, o que corresponde a 5,9% dos recursos pagos pelo SUS.5-6
A preocupação e a dificuldade em se conceituar o termo Qualidade de Vida (QV) surgiram desde meados da década de 70. Nos dias atuais não houve consenso entre os pesquisadores sobre a definição do termo. O crescente interesse em ampliar os conhecimentos sobre de qualidade de vida pode ser exemplificado pela edição do periódico Quality of Life Research, na década de 90, e do International Society of Quality of Life Research, o qual reúne pesquisas de diversas áreas do saber. As informações sobre QV têm sido utilizadas para avaliar a eficácia de determinados tratamentos de doenças, os agravos à saúde e o impacto físico e psicossocial.7-8 O Grupo de Qualidade de Vida da OMS define o termo QV como:"a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores em que vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações".9:13
Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, estando aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Está relacionada aos elementos que a sociedade considera como padrão de conforto e bem-estar, variando com a época, os valores, os espaços e as diferentes histórias, com foco na promoção da saúde.10 A Carta de Otawa, elaborada na I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde -1986, com representantes de 38 países, definiu a promoção da saúde como:"o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo e subjacente a este conceito, o documento assume que a saúde é o maior recurso para o desenvolvimento social, econômico e pessoal, assim como uma importante dimensão da qualidade de vida".10:147
Nos últimos anos, a Estratégia Saúde da Família, enquanto política pública nacional, tem se destacado como estratégia de reorganização da atenção básica, na lógica da vigilância à saúde, representando uma concepção de saúde centrada na promoção da QV, por meio dos seus principais objetivos que são: a prevenção, a promoção e a recuperação da saúde.12 Em muitos estados, o trabalho das Equipes de Saúde da Família (ESFs) permite o conhecimento da realidade social que acoberta as condições: sócio-econômica, alimentar, sanitária, bem como a estrutura familiar dos indivíduos com hipertensão e diabetes, facilitando a atuação da equipe, nos determinantes do processo saúde-doença. Além disto, o Programa detecta as dificuldades que impedem maior adesão ao tratamento e busca a formação de parcerias para disseminar a importância do cuidado aos pacientes e seus familiares. Estas atividades proporcionam o vínculo entre os pacientes e a ESF.
O Programa HIPERDIA soma-se às ações dos trabalhadores de saúde, e tem como proposta a prevenção de complicações decorrentes da não adesão ao tratamento anti-hipertensivo prescrito pelo médico. Quando este fato está relacionado à falta de recursos financeiros para aquisição de medicamentos, o Programa possibilita aos usuários cadastrados, o acesso a medicamentos de forma gratuita e o acompanhamento médico.
A primeira década do século XXI oferece um alto grau de sofisticação tecnológica ao monitoramento destas doenças. Portanto, para a garantia da QV, é importante investir na prevenção da hipertensão e do Diabetes mellitus, evitando agravos, hospitalização e conseqüentes gastos públicos.5 Neste contexto, para que as ESFs possam intervir de forma positiva, é preciso conhecer a percepção dos indivíduos em relação à própria QV.
Neste sentido, esta investigação tem como objetivo descrever o perfil epidemiológico e avaliar a QV de indivíduos com diabetes e hipertensão, acompanhadas pela ESF de um município do interior mineiro. Além disso, concentra-se na perspectiva de poder contribuir com as ESFs e os diferentes segmentos da comunidade, visando às futuras avaliações conjuntas, participação no planejamento e implementação das ações que possam, de forma efetiva, promover a melhoria da QV dos avaliados.

MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo observacional do tipo inquérito transversal. Utilizou-se uma amostra populacional do tipo conveniência, constituída por 30 indivíduos portadores de hipertensão arterial e de diabetes (associados), atendidos por uma ESF de um município do interior mineiro. Os critérios de inclusão foram: sujeitos de ambos os sexos; cadastrados no Programa HIPERDIA; com idade superior a 18 anos, em acompanhamento pela equipe; e portadores das duas patologias. Os critérios de exclusão foram: indivíduos em acompanhamento temporário ou em trânsito; procedentes de outras regiões, por motivo de viagem, trabalho, passeio e outros; e portadores de transtornos mentais.
Este estudo foi desenvolvido em duas etapas, ou seja, a primeira foi elaborada por meio de análise dos dados secundários, constantes na ficha de cadastro do HIPERDIA. A segunda, por meio da aplicação do World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-bref), instrumento da World Health Organization. Do total de 51 indivíduos cadastrados pelo programa, dois não preencheram os critérios de inclusão; quatro tinham se mudado; cinco não conseguiram responder o questionário; oito não foram encontrados nos respectivos domicílios por três visitas consecutivas; e dois não aceitaram participar da pesquisa.
Os dados foram coletados no primeiro semestre de 2006, com a aplicação do instrumento WHOQOL-bref. Os participantes foram contatados nos domicílios, e esclarecidos sobre: o preenchimento do questionário, a importância da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a garantia do sigilo e o anonimato das respostas, e também sobre eventuais dúvidas.
Para mensuração dos perfis clínico e sociodemográfico, foram utilizadas as seguintes variáveis: sexo, idade, procedência, estado civil, escolaridade, tabagismo, atividade física, dieta, tratamento medicamentoso, presença de complicações e antecedentes de doenças cardiovasculares, posteriormente registrados no formulário do HIPERDIA. Para a mensuração da QV utilizou-se o questionário WHOQOL-bref, que abrange os seguintes aspectos (domínios): físico, psicológico, das relações sociais e do meio ambiente.
Os dados foram gerenciados e analisados no software SPSS. Para as variáveis categóricas utilizou-se análise exploratória (descritiva) dos dados, a partir da apuração de freqüências simples e cruzadas, tanto em termos absolutos, quanto em percentuais; os resultados foram organizados em gráficos e tabelas. Para as variáveis numéricas calcularam-se medidas descritivas de centralidade (média, mediana e moda) e de dispersão (desvio padrão, coeficiente de variação, valores máximos e mínimos). Foi empregada, ainda, a sintaxe WHOQOL-bref no SPSS para avaliação dos escores do instrumento de QV e posteriores correlações, a partir do coeficiente de Pearson. Para avaliação dos escores foram recodificados os valores das questões três, quatro e 26, possibilitando que as questões ficassem com resultado final positivo. Ressalte-se que a mensuração da QV é proporcional ao escore, ou seja, quanto maior o valor do escore, melhor a QV.
O presente estudo acompanhou rigorosamente os preceitos constantes na Resolução Nº 196/96 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa,13 com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Protocolo Nº 695/ 2005.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na área de abrangência estudada, o perfil epidemiológico dos indivíduos com Diabetes mellitus e hipertensão caracterizou-se pelo predomínio do sexo feminino (66,7%), pois, no planeta, a população feminina é maior que a masculina, segundo dados mundiais.1 Este fato explica, em parte, a maior proporção de mulheres acometidas, e ainda que são diagnosticadas por procurarem mais freqüentemente os serviços de saúde. A idade dos indivíduos variou entre 44 e 77 anos, com média de 56 anos (± 8,48), estando pertinente com a literatura, onde alguns estudos têm demonstrado que o Diabetes mellitus e a hipertensão arterial têm maior prevalência em indivíduos acima de 35 anos.14-15
Quanto à escolaridade, 33,3% eram analfabetos e 56,7% tinham o 1° grau incompleto. Segundo o Informe de Atenção Básica-2001, a adesão ao tratamento tende a ser menor em indivíduos com baixa escolaridade, o que eleva a responsabilidade das ESFs em desenvolverem atividades educativas, com ênfase para o controle da doença e promoção da saúde.14 Do total de entrevistados, 53,3% eram casados; 20% viúvos; 13,3% viviam como casados/amasiados; e 10% eram solteiros. A OMS refere que o estado civil dos indivíduos influencia na dinâmica familiar e no auto-cuidado. Para os idosos, a composição familiar pode ser um fator decisivo pela falta de estímulo ao auto-cuidado e ao asilamento.16-17
Quanto à auto-percepção da saúde, 53,3% consideraram nem ruim, nem boa e 26,7% boa. A auto-percepção positiva da saúde possibilita maior envolvimento dos indivíduos em relação ao tratamento e ao controle da doença. Os dados coletados indicam que há necessidade da realização de estudos, que identifiquem os fatores responsáveis pela percepção negativa quanto à condição de saúde.
Todos os entrevistados apresentaram hipertensão arterial e Diabetes mellitus, sendo 75%, diabetes tipo 2 e 25%, diabetes tipo 1. Os principais fatores responsáveis pelo aumento da prevalência do diabetes tipo 2 são a alteração no estilo de vida e a esperança de vida, ao nascer, uma vez que suas características estão relacionadas a fatores hereditários, ao estilo de vida, e a manifestação após os 35 anos de idade.14
O hábito de fumar foi referido por 19,4% dos indivíduos; o sedentarismo, por 27,8% e a obesidade aferida em 47,2%. Estudo realizado entre 1997-2003, mostrou que há alta incidência do diabetes em indivíduos obesos ou com excesso de peso, o que vale ressaltar a importância do estímulo e orientação das ESF quanto ao desenvolvimento de ações que promovam atividade física e re-educação alimentar.18 O seguimento da dieta é a base do tratamento, contudo, constitui-se em um grande desafio para as ESFs, uma vez que a maioria dos indivíduos têm dificuldade para modificar hábitos alimentares.19 Outro desafio é reduzir o tabagismo e estimular a prática de atividade física.
Neste estudo, a presença de antecedentes de problemas cardiovasculares foi referida por 50,0% dos sujeitos, ou seja, 16,7% já sofreram infarto agudo do miocárdio; 13,9%, acidente vascular cerebral; 25%, outras complicações cardíacas e 5,6%, doença renal. Segundo o MS, a hipertensão arterial e o Diabetes mellitusrepresentam dois dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, que constituem a principal causa de morbi-mortalidade da população brasileira.5
A instituição do tratamento tem como objetivo o controle adequado da glicemia e a prevenção das complicações, principalmente as vasculares, que são mais comuns.15 Quanto ao regime de tratamento, 96,7% faziam acompanhamento ambulatorial e 3,3%, nenhum tratamento, estando somente cadastrados no HIPERDIA. Em relação ao tipo de tratamento, 80,6% realizavam o medicamentoso e 27,8% utilizavam insulina associada à dieta.
A Correlação de Pearson para a QV entre os domínios do WHOQOL-bref foi mais alta entre os domínios Físico e Meio ambiente (r=0,73; p<0,01) e Físico e Psicológico (r= 0,66; p<0,01). Dos quatro domínios, o que apresentou o maior escore médio foi o de Relações sociais (71,38), seguido pelo Físico (56,42) e pelo Psicológico (55,55). Isto demonstra que os aspectos relações sociais são os que contribuíram mais positivamente à QV dos entrevistados. O domínio que apresentou menor escore médio foi o de Meio ambiente (53,75).
Na questão 1, onde os indivíduos avaliaram a própria QV, 46,67% responderam de forma intermediária nem boa, nem ruim e 36,67%, boa. Na questão 2 - a qual mensurou a satisfação dos indivíduos em relação à própria saúde, 33,3% mostraram-se satisfeitos, e 30,0%, nem satisfeitos, nem insatisfeitos. Destaca-se o percentual de 20%, que avaliaram negativamente: insatisfeitos (Tabela 1).


Quanto à faceta, Relações pessoais, 46,67% responderam estarem satisfeitos, e 36,67%, muito satisfeitos. Diferente do esperado, apesar de estatisticamente significativo, as Relações pessoais apresentaram correlação fraca com a QV dos sujeitos (r=0,23; p<0,01). Em relação à faceta Atividade sexual, 43,33% responderam que estão satisfeitos. A correlação moderada foi estatisticamente significativa, no que diz respeito à atividade sexual, no contexto das relações sociais dos sujeitos (r=0,72; p<0,01). O maior escore do domínio foi suporte ou apoio social, onde 66,67% responderam estarem muito satisfeitos e 43,33% satisfeitos. A faceta, Relações pessoais, obteve o segundo maior escore médio do domínio. No entanto, foi a que apresentou menor correlação com o domínio as Relações sociais. Os dados mostram que todas as facetas apresentaram correlação positiva e estatisticamente significativas com o escore médio do domínio, sendo que foram as de atividade sexual (r=0,72; p<0,01) e suporte e apoio social (r=0,68; p<0,01) aquelas que tiveram maior influência sobre o escore médio do domínio. O maior escore médio foi para a faceta que avaliou a dependência de medicação ou tratamento, onde 60% dos indivíduos responderam serem bastante dependentes e outros 30%, mais ou menos dependentes, fator que conseqüentemente influencia, de forma negativa, a QV (Tabela 2).


A faceta Sono e repouso obteve o segundo maior escore médio, onde 50% dos indivíduos responderam que estão satisfeitos. Para a faceta Dor e desconforto, 36,67% dos indivíduos responderam que tinham bastante, 26,67% mais ou menos, e 26,67%, nada. A correlação entre cada questão do domínio Físico e escore médio do domínio mostra que a maioria das facetas apresentaram correlação positiva, estatisticamente significativa com o escore médio do domínio. As facetas que apresentaram maiores correlações, ou seja, as que mais influenciaram o escore médio do domínio foram, em ordem decrescente, as facetas: Capacidade para o trabalho (Q18), com r=0,82", e Dor e desconforto (Q03), com r=0,70 (Tabela 3).
No domínio Psicológico, as questões que apresentaram os maiores escores foram as referentes às facetas: auto-estima e imagem corporal e aparência. Em relação à primeira, 30% responderam estarem muito satisfeitos; 30% satisfeitos e 30% nem satisfeitos, nem insatisfeitos. Quanto à segunda, 36,67% responderam média satisfação e 30% escolheram completamente. A faceta que recebeu menor escore médio do domínio (37,50) foi a Q26, sobre a ocorrência de sentimentos negativos. Todas as facetas do domínio Psicológico apresentaram correlação positiva e estatisticamente significativas com o escore médio do domínio. A questão que obteve o maior valor de correlação foi a que avaliou a satisfação dos pacientes com eles mesmos (Q19) (r=0,79; p<0,01). Houve correlação positiva moderada entre o estado psicológico e a auto-estima, imagem corporal e aparência, espiritualidade, aspectos relacionados à memória e sentimentos positivos. Tal fato demonstra que estes aspectos são percebidos de forma positiva pela maioria dos entrevistados e contribuem favoravelmente para uma boa QV, com relação ao contexto psicológico (Tabela 4).
Ocorreu correlação positiva moderada entre a maioria dos aspectos relacionados ao meio ambiente e à QV dos indivíduos. Para o domínio Meio ambiente, as questões que apresentaram maiores escores médios foram referentes às facetas: ambiente no lar e cuidados de saúde e sociais. Na primeira, 50% dos indivíduos escolheram a resposta satisfeitos e 26,67%, muito satisfeitos. Na segunda, 43,33% responderam satisfeitos e 26,67%, muito satisfeitos. A correlação de cada questão com o escore médio do domínio sinaliza que todas as facetas apresentaram correlação positiva e estatisticamente significativa para o escore médio do domínio Meio ambiente, sendo que, as referentes às condições do local de residência (ambiente físico, poluição, ruído, trânsito, clima), com r=0,75, e oportunidade de adquirir informações, com r=0,72, foram as que mais tiveram influência (Tabela 5).
Quanto à QV, em uma escala de zero a 100, os valores para os domínios Relações sociais, Físico, Psicológico e Meio ambiente apresentaram valores acima de 50. Considera-se que esses valores expressam uma percepção positiva para a QV. O domínio Meio ambiente esteve bem próximo do valor médio, justificado, provavelmente, por ter sido realizado em áreas de maior vulnerabilidade social.

CONCLUSÃO
Os dados sociodemográficos indicados no Programa HIPERDIA revelaram maior participação de mulheres (66,7%), com média de idade de 56 anos; maior percentual de indivíduos com 1° grau incompleto (56,7%); e de analfabetos (33,3%). Os entrevistados apresentavam hipertensão e diabetes associados, sendo que 25% já tiveram problemas cardíacos e 50%, antecedentes de problemas cárdio-vasculares. A maioria (96,7%) era acompanhada pela ESF; 80,6% usavam medicamentos; 19,4% tinham hábito de fumar; 27,8% não praticavam exercícios físicos, e 47,2% eram obesos.
A avaliação da QV foi tida como positiva entre os entrevistados na maioria dos aspectos mensurados. O domínio Relações sociais obteve o maior escore médio entre os domínios de 71,4 (DP= 27,8), portanto, o que mais contribuiu com a boa QV. As facetas que mais colaboraram com a avaliação positiva da QV foram: suporte e apoio social - domínio Relações sociais; dependência de medicação ou tratamento - domínio Físico; auto-estima - domínio Psicológico, e ambiente no lar - domínio Meio ambiente. As facetas que menos contribuíram: atividade sexual - domínio Relações sociais; dor e desconforto - domínio Físico; sentimentos negativos - domínio Psicológico, e participação em/e oportunidades de recreação/lazer - domínio Meio ambiente.
A partir das experiências vivenciadas pelos pesquisadores na ESF, onde o cotidiano dos indivíduos portadores de hipertensão e de diabetes, residentes em áreas de maior vulnerabilidade destacavam-se pelas sucessivas queixas pessoais, foram empiricamente entendidas como dificuldades para o enfretamento da doença. Em linhas gerais, a hipótese inicial recaiu em baixa QV. No entanto, este estudo demonstrou uma avaliação satisfatória para a QV geral, principalmente, relacionada às Relações sociais.
Há que se destacar, que o trabalho que vem sendo desenvolvido pelas equipes do Programa de Saúde da Família, visando ao re-direcionamento do estilo de vida, devendo (ou) envolvendo o combate ao sedentarismo, ao tabagismo e à obesidade. Portanto, conhecer a QV dos indivíduos com hipertensão e diabetes significa um momento ímpar de compreensão, e remete novamente à importância do planejamento e da implementação de ações de responsabilidade das esferas governamentais, com embasamento em informações científicas, a serem desenvolvidas por meio de políticas públicas, que envolvam tanto a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos, quanto a valorização dos trabalhadores das ESF.

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 Endereço:
Sybelle de Souza Castro Miranzi
Rua Dr.Vasco de Andrade, 410
38017-200-Quinta da Boa Esperança, Uberaba, MG, Brasil.
E-mail: sybelle@mednet.com.br

domingo, 6 de abril de 2014

Práticas educativas em diabetes mellitus: compreendendo as competências dos profissionais da saúde




Laura SantosI; Heloísa de Carvalho TorresII
IMestre em Enfermagem. Enfermeira especialista em Saúde da Família. Minas Gerais, Brasil. E-mail: heloisa@enf.ufmg.br
IIDoutora em Ciências da Saúde. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da UFMG. Minas Gerais, Brasil. E-mail: heloisa@enf.ufmg.br



RESUMO
O objetivo desse estudo foi compreender as competências necessárias aos profissionais de saúde nas práticas educativas em Diabetes tipo 2 na Atenção Primária. Um total de dez profissionais de saúde inseridos em Unidades Básicas de Belo Horizonte-MG, participaram de entrevistas e grupos focais. Os achados foram organizados a partir da identificação das seguintes categorias: importância das práticas educativas; conhecimentos; habilidades; e atitudes. Este estudo mostra a importância de se reorientar as competências dos profissionais de saúde nas práticas educativas em diabetes, por meio de capacitação, de educação permanente e do fortalecimento do trabalho em equipe.
Descritores: Educação baseada em competências. Pessoal de saúde. Diabetes Mellitus. Comunicação em saúde.



INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus (DM) é uma doença crônica não transmissível de grande relevância para a saúde pública e para a sociedade. Por causar incapacidades funcionais e aposentadorias precoces, representa significativa perda econômica para o país. No Brasil, 12,4 milhões de pessoas são acometidas por DM no ano de 2011, e a previsão é que este número aumente para 19,6 milhões de pessoas até 2030. Dentre os tipos de DM, o tipo 2 compreende 90% dos agravos presentes no mundo e está intimamente relacionado com o excesso de peso e o sedentarismo.1
Nesta perspectiva as ações educativas para o autocuidado em DM, quando conduzidas por profissionais de saúde capacitados, com suas competências delineadas no processo de aprendizagem contribuem para o melhor controle metabólico do indivíduo, pois cabe àqueles a responsabilidade de produzir as condições favoráveis ao processo de aquisição de conhecimentos sobre o DM, que possam levar à mudança nos hábitos de vida e manejo da doença.2
A competência dos profissionais de saúde no processo educativo, em especial em DM, pode ser entendida como a capacidade que o profissional tem de realizar intervenção, além de saber agir com responsabilidade, de maneira reconhecida, implicando na mobilização de conhecimentos e habilidades, agregando, portanto, valor à organização e ao profissional.3 Pode ser descrita como "tomar iniciativa" e "assumir responsabilidade", por parte do indivíduo, nas diversas situações profissionais, caracterizando-se como um entendimento prático de situações, apoiado em conhecimentos adquiridos na trajetória profissional, passíveis de mudanças conforme se alteram as situações.4Além disso, também pode ser entendida como a capacidade de mobilizar outros atores para trabalharem na mesma situação, compartilhando as responsabilidades e implicações de suas ações. Pode, enfim, resultar de três fatores: o saber ou o conhecimento, o saber-fazer ou habilidades, e o saber-ser ou atitudes.5
Estudo6 identificou que os profissionais de saúde da Atenção Básica possuem dificuldades no entendimento da concepção de competência - o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes - nas atividades que desenvolvem enquanto Equipe de Saúde da Família, ainda que esta noção seja o elemento-chave para a atuação profissional, de acordo com a lógica dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Acrescente-se que poucos estudos têm sido realizados para entender as competências dos profissionais de saúde.
De forma complementar, autores7-8 afirmam que os profissionais de saúde reconhecem a importância do programa educativo no manejo do DM, porém, uma série de limitações para a implementação e continuidade do processo educativo são colocadas pelos profissionais de saúde, tais como: 1) o despreparo para a organização, planejamento e execução das práticas educativas, muitas vezes relacionados à não formação acadêmica na área de educação em saúde; 2) as relações interpessoais pouco efetivas; e 3) a falta de capacitação sobre DM. Estas questões trouxeram a exigência de reordenar as práticas educativas em DM, incluindo as competências de cada profissional e as metas de atuação nas ações educativas, de forma a estabelecer estratégias de promoção, prevenção e controle da doença.
Dessa forma, o presente trabalho se propõe a compreender as competências enumeradas pelos profissionais da atenção primária para as práticas educativas em DM.

MÉTODO
A pesquisa foi desenhada como um estudo de caso com abordagem qualitativa do tipo descritivo-exploratório.9-10O estudo foi desenvolvido e conduzido em quatro Unidades Básicas de Saúde da região leste de Belo Horizonte-MG, no período entre agosto e novembro de 2010. O critério de escolha dos locais de recrutamento foi baseado na facilidade de acesso, decorrente do vínculo com serviços universitários. Os profissionais de saúde foram incluídos no estudo por participarem do programa educativo em DM, assim como por apresentarem experiência e interesse por educação em saúde. Constituem, portanto, dez profissionais de saúde, com formação superior, com trabalho na atenção primária, particularmente envolvidos com o cuidado de indivíduos com DM, possuindo o objetivo de aprimorar e expandir o programa educativo.
A coleta das informações ocorreu em três etapas. A primeira foi através do preenchimento de uma ficha de identificação dos profissionais que continha questões sobre idade, gênero e formação profissional. A segunda, por meio de entrevistas semiestruturadas que foram previamente agendadas, conforme o interesse dos profissionais, e realizadas no local de trabalho. Os temas das questões abordavam a realização de atividades educativas pelos profissionais, as competências que esses identificavam, as facilidades e dificuldades para a realização das práticas, e os caminhos para o desenvolvimento de competências. Finalizando, foi realizado um grupo focal9, com a finalidade de obtenção de informações, a partir das discussões e reflexões entre dez profissionais de saúde, com duração de uma hora. Inicialmente utilizou-se de uma dinâmica de apresentação e aquecimento, na qual os participantes eram estimulados a falar de competências nas práticas educativas, a partir da leitura de um texto que retratava o enlace de uma fita de tecido, representando o trabalho em equipe e a construção das competências, direcionando para o foco do debate. Para realização dessas etapas utilizou-se instrumentos específicos propostos pelos pesquisadores.
Para fins de manutenção do anonimato, adotou-se na entrevista a numeração (E1, E2, E3, E4,..,E10), para a distinção dos participantes. O material foi registrado, sistematizado e categorizado para compor um banco de dados, considerando opiniões recorrentes e freqUentemente expressas, dissensos e consensos. Em seguida, realizou-se o processamento e a interpretação dos dados a partir do enfoque da análise temática em sua versão adaptada por Bardin, a partir da leitura exaustiva dos instrumentos, realizando-se três etapas: pré-análise, categorização e o tratamento das informações com as inferências e a interpretação11 .
Resultaram da análise do material as seguintes categorias principais: Importância das práticas educativas; conhecimentos; habilidades; e atitudes.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (MG), (Parecer 0024.0.410.203-09 A) tendo cumprido todas as exigências estabelecidas pela Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS
A participação dos profissionais de saúde favoreceu o conhecimento das competências necessárias para a organização e planejamento das práticas educativas para usuários com DM.
Esses atuavam nas áreas de enfermagem, nutrição, fisioterapia, medicina e farmácia. O tempo de serviço na rede básica variava entre nove meses e 26 anos, e a maioria era do sexo feminino. Todos os médicos e enfermeiros possuíam especialização na Estratégia de Saúde da Família; dos outros profissionais, apenas dois não possuíam algum tipo de especialização.
A partir do levantamento dos conhecimentos, habilidades e atitudes dos profissionais que realizam as práticas educativas em DM na atenção primária, apresentamos um quadro-síntese das competências profissionais necessárias para o desenvolvimento do estudo das práticas educativas.


Para a melhor compreensão do fenômeno estudado, os dados foram separados em categorias, descritas a seguir.
Importância das práticas educativas
Todos os profissionais entrevistados reconheceram a importância das práticas educativas, consideradas estratégicas para o controle e prevenção de agravos para os usuários com DM, como demonstrado nos depoimentos abaixo:
[...] temos que investir nos grupos. No grupo todo mundo troca idéias, interage mais do que se fosse individual(E1; E7).
[...] o grupo tem que ser importante para todos e um jeito bom é colocar todo mundo para pensar no grupo, os ACSs, as auxiliares e, às vezes, até os usuários podem dizer qual assunto eles querem aprender (E8).
Para o desenvolvimento das práticas educativas em DM, foram delineadas competências relacionadas aos conhecimentos, habilidades e atitudes.
Conhecimentos
Para os profissionais de saúde que atuam na realização das práticas educativas para usuários com DM, o conhecimento teórico sobre a fisiopatologia da doença, nutrição e a prática de atividades físicas foi primordial para conseguirem realizar essa atividade.
[...] precisamos estar preparados, treinados, ter conhecimento, para passar uma informação correta para o usuário sobre cuidados da doença, sobre alimentação, atividade física, medicamentos que fazem parte do cotidiano dele (E5); [...] precisa conhecer a população para entender as dificuldades que essa população tem para seguir as orientações que a gente passa (E1).
A maioria dos profissionais entrevistados reconhece a importância do conhecimento sobre planejamento e avaliação das práticas educativas e consideram que têm poucos conhecimentos sobre o tema, tal como apresentado nos seguintes depoimentos.
[...] muitas vezes o profissional que está atuando na saúde pública não tem formação didática para saber como realizar uma prática educativa (E1).
[...] nós, médicos, não temos muita prática nem formação para realizar grupos [...] a falta de formação é um dificultador para a realização de ações educativas (E7).
Aliados aos conhecimentos, as habilidades consolidam o saber-fazer do profissional. As práticas educativas para usuário com Diabetes tipo 2 exigem que os profissionais de saúde tenham habilidades para o planejamento, condução e avaliação.
Habilidades
As habilidades são necessárias para que o processo educativo aconteça de maneira eficiente, levando o público alvo a compreender as mudanças de hábito que favorecerão um melhor controle metabólico, assim aumentando a qualidade de vida.
O processo educativo em DM requer o envolvimento de profissionais de saúde com diferentes saberes. Sendo uma habilidade, o trabalho em equipe ocupa lugar de destaque nesse contexto, já que está diretamente relacionado à efetividade dessa atividade. Foi observado como um motivador no ambiente de trabalho.
[...] a gente tem que trabalhar em equipe e estudarmos juntos as práticas educativas [...] tem que ter cooperação, ajuda mútua (E3).
[...] um tem que suprir as dificuldades do outro na equipe, e o que for comum a gente tem que buscar ajuda das outras equipes, das escolas que aqui atuam e até de outros lugares [...] e essa ajuda mútua, nos motiva, porque não dá para ficar esperando as coisas acontecerem sozinhas (E2).
A habilidade da comunicação é citada em várias entrevistas como um dos principais fatores que levam à efetividade da prática educativa.
[...] ter habilidade de falar em público, domínio da fala [...] capacidade de persuasão (E7).
O saber ouvir é uma habilidade que os profissionais citam como sendo essencial para a realização das práticas educativas.
Tem que ter habilidade de ouvir os usuários e os profissionais (E4).
Outro aspecto levantado é a liderança. Esse tema foi captado principalmente na fala de enfermeiros.
[...] tem que ter liderança, porque se a gente não lidera, os grupos não são realizados (E2).
A avaliação da prática educativa é um instrumento para a tomada de decisão, buscando a melhoria da atividade e o fortalecimento do trabalho em equipe.
Atitudes
Atitude, no modelo de competências, pode ser entendida da maneira como o profissional age em determinada situação. As maneiras acolhedoras e gentis com as quais os profissionais de saúde se comportam perante os indivíduos que participam das práticas educativas em DM são vistas como facilitadores do processo.
[...] tem que ter empatia, ser calmo e tranquilo, ter atitude proativa, ter uma postura acolhedora, se não for assim, fica difícil conduzir o grupo [...] (E1; E3).
Para os entrevistados, a criatividade é vista como ferramenta no enfrentamento de entraves no trabalho de educação em saúde. Os profissionais tentam lidar de maneira criativa em diversas situações para que consigam atingir seus objetivos nas práticas educativas.
Criatividade. A gente tem que ser criativo [...] pois não temos nem local, nem material para realizar os grupos(E3; E9).
A flexibilidade é apresentada nos depoimentos como uma competência para a avaliação das práticas educativas, assim como característica do trabalho em equipe. Desse modo, flexibilidade, é uma condição indispensável para a prática multiprofissional.
[...] aceitar críticas do paciente, dos colegas e de si próprio. Quando notar que algo não deu certo, vamos mudar [...] ter essa autocrítica [...] devemos ter jogo de cintura, ser flexível (E4).
A capacidade de motivar, tanto os usuários quanto os membros das equipes, assim como uma postura positiva em relação ao trabalho a ser desenvolvido também são apontadas como enfrentamento a muitas dificuldades para a realização das práticas educativas.
[...] tem que saber motivar o usuário, usar maneiras de incentivá-lo a fazer o tratamento de forma correta(E2).

DISCUSSÃO
A utilização de práticas educativas como estratégia no tratamento do DM tem por objetivo melhorar o conhecimento do indivíduo sobre o DM e seu acompanhamento, assim como levar a hábitos de vida saudáveis, que melhorem a qualidade de vida, aumentando a sua autonomia perante a doença.
Uma característica dessas práticas é a possibilidade de unir pessoas com histórias parecidas, que compartilharão experiências, com a possibilidade de aprimorar o conhecimento, modificar as atitudes e habilidades que favorecerão a mudança de comportamento para a melhora do controle da doença e qualidade de vida.12-13 A escolha do tema para se desenvolver uma ação em saúde deve sempre estar baseada no sujeito portador de necessidades, sendo esse é um ser biopsicosocial. A avaliação dessas necessidades deve ir além do caráter epidemiológico, sendo social e subjetiva.14-15 No presente trabalho, os profissionais entrevistados reconhecem a importância das práticas educativas na condução do tratamento do DM, citando-as como estratégia eficaz no acompanhamento da doença, bem como alternativa para lidar com a crescente demanda de atendimentos individuais, ainda que alguns relatem dificuldades em relação ao planejamento, condução e avaliação desse processo.
O trabalho em equipe é visto como uma habilidade capaz de consolidar a estratégia de práticas educativas. Ele é uma necessidade contemporânea, mas o agrupamento de pessoas não garante práticas que reflitam esse trabalho. Essa prática vai além, com a criação de vínculos entres os componentes, que a partir de objetivos comuns constroem o processo de trabalho com compromisso ético e responsabilidade de seus componentes.16
Quando os profissionais envolvidos no processo de trabalho em equipe conseguem manter uma comunicação franca, respeitando as diferenças entre os membros e unindo-se em prol de um bem comum, esse acontece de maneira efetiva, e mudanças nos determinantes do processo saúde-doença são passíveis de acontecer. As práticas educativas em Diabetes são um desses cenários, nos quais as competências dos profissionais afloram e a união pode trazer resultados benéficos para os usuários, relacionados à melhoria do controle da doença e à satisfação dos profissionais.
Para os profissionais entrevistados, os conhecimentos teóricos sobre o DM e o seu tratamento estão bem consolidados; muitos, porém, reconhecem a pouca formação sobre o planejamento e que desenvolvem essa parte do processo de práticas educativas a partir dos conhecimentos empíricos que trazem profissionalmente, ou das poucas capacitações que tiveram oportunidade de participar.
A discussão e aprendizagem sobre as práticas educativas, sua forma de organização, são necessárias para que haja compreensão do trabalho e ampliação do olhar sobre o grupo, apesar de ainda serem escassas as referências teóricas e metodológicas.15
Entre as habilidades elencadas pelos profissionais, destaca-se a importância que os profissionais vêem no processo de comunicação entre a equipe e os usuários. A comunicação efetiva tem o objetivo de tornar a informação clara e acessível, contribuindo para o sucesso das práticas educativas, assim como levar à satisfação de todos os envolvidos. Essa habilidade pode ser usada como instrumento na identificação de problemas, ajudando na análise de situações encontradas e no direcionamento para as soluções. Desse modo, fortalecer o processo comunicativo é primordial nas ações em saúde, pois a troca de informações entre instituições, serviços e população é muito desejada.17
A liderança, enquanto habilidade, foi expressiva na fala de enfermeiros. Esses, por sua vez, historicamente, exercem esse papel na equipe, mas, de maneira sutil, infere-se que também podem estar desenvolvendo essa competência a partir das dificuldades ou desinteresses de outros membros da equipe em relação às práticas educativas em Diabetes. O verdadeiro líder não é aquele que está no cargo gerencial, mas aquele que influencia os demais profissionais, a ponto de conduzir o trabalho do grupo. Os enfermeiros podem, portanto, estar simplesmente assumindo mais uma atividade, na qual os seus colegas não têm interesse no momento.18
No cotidiano das práticas educativas, o enfermeiro tem a oportunidade de exercer todos os conhecimentos, habilidades e atitudes, de modo que consiga exercer e desenvolver suas características como líder. Porém, seria interessante que a liderança fosse compartilhada com outros membros da equipe, conforme diferentes situações, pois isso traria um ganho para a equipe e os usuários, já que diferentes maneiras de coordenar, tomar decisões, quando associadas à flexibilidade, levam a novos conhecimentos e novos caminhos de condução, ou ainda ao aumento do vínculo do usuário com os profissionais, à maior satisfação de todos, dada a participação mais ativa no processo de decisão do grupo.
A postura do profissional é determinante, portanto, para a efetividade de uma prática educativa para usuários com Diabetes tipo 2. A maneira como esse profissional recebe o indivíduo, ou seja, o acolhimento desse usuário, a sua criatividade na condução desse processo, assim como a flexibilidade, são atitudes que podem definir a condução da prática para que se torne efetiva.
Desse modo, o acolhimento pode ser entendido como uma postura, uma maneira de receber o usuário e direcionar o seu cuidado, na tentativa de dar uma melhor resposta às demandas de saúde que surgem do indivíduo. A valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde, o reconhecimento da co-responsabilização, assim como da necessidade de desenvolvimento de autonomia e protagonismo do indivíduo com Diabetes tipo 2, a partir do estabelecimento de vínculos solidários entre profissionais e usuários,19 demonstram o caminho para o desenvolvimento de atitudes profissionais para uma prática educativa prazerosa.
A criatividade, por sua vez, deve buscar e descobrir soluções para os problemas, já que profissionais que possuem esta competência trazem consigo as suas qualidades pessoais, seus valores.20 Nas práticas educativas em diabetes, essa característica é importante. O planejamento de um grupo de educação em saúde requer mais do que o conhecimento teórico sobre a doença. A criatividade vem se aliar a esse conhecimento e outras habilidades e atitudes na busca pela adequação do tema ao cotidiano dos envolvidos, assim como no enfrentamento dos dificultadores citados pelos profissionais. Estes entendem a sua importância e a utilizam cotidianamente, conforme ficou explícito nos depoimentos.
Outra atitude importante considerada pelos profissionais foi a flexibilidade, que se constitui como um processo de aprendizado e práticas constantes. Para que o profissional consiga aplicar a flexibilidade no ambiente de trabalho, ele deve conhecer profundamente a missão, o planejamento e os objetivos da empresa, assim como ter em mente seus próprios objetivos.21 Um profissional flexível tem a capacidade de buscar soluções diferentes para alcançar os objetivos propostos para as práticas educativas. Ele usa sua capacidade de mudanças, transformando os processos de trabalho, buscando aliados para implementação das mesmas, fortalecendo o trabalho em equipe.
Além disso, a motivação é apontada pelos profissionais como uma iniciativa para transpor as barreiras e dificultadores do trabalho em equipe e da coordenação das práticas educativas. Nas práticas educativas, o entusiasmo, a satisfação profissional, aliados a uma esfera de trabalho motivadora, são imprescindíveis para o sucesso dessa ação. O desenvolvimento da habilidade de motivar está relacionado aos profissionais que exercem a liderança, já que cabe a esse reconhecer e estimular as potencialidades de outros membros da equipe. A conquista de uma atmosfera motivadora pode ser trabalhada por toda a equipe no desenvolvimento das práticas educativas. Quando conseguem trabalhar em equipe, com apoio mútuo e busca pelo mesmo objetivo, a motivação aparece naturalmente, assim como os resultados positivos advindos da ação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante a identificação de competências dos profissionais, pudemos perceber a grande importância que esses dão às práticas educativas relacionadas ao DM. Reconhecem essa atividade como complemento da ação clínica, com enorme potencial enquanto apoio e propagador de mudanças requeridas nos estilos de vida.
É necessário que os profissionais da atenção básica conheçam/reconheçam as competências necessárias para o trabalho nas práticas educativas em DM. É importante a iniciativa de cada um, que muitas vezes desenvolve de maneira empírica sua função; porém, esses têm potencial para o desenvolvimento sistematizado de competências que tornariam o trabalho mais efetivo e, assim, satisfatório.
O desenvolvimento de todas as competências identificadas e estudadas nesse trabalho está relacionado ao trabalho em equipe e à necessidade de formação contínua dos profissionais. A identificação e o estudo das competências profissionais para as práticas educativas em DM permitiram-nos a possibilidade de perceber o amplo campo de debate envolvendo o tema, bem como a necessidade de mais estudos sobre o mesmo.

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 Correspondência:
Heloisa de Carvalho Torres
Departamento de Enfermagem Aplicada, Escola de Enfermagem, UFMG
Av. Alfredo Balena, 190 - Santa Efigênia
30130-100, Belo Horizonte, MG, Brasil
E-mail: heloisa@enf.ufmg.br
Recebido: 04 de maio de 2011
Aprovação: 09 de março de 2012


1 Artigo escrito a partir da dissertação - Competências dos profissionais de saúde nas práticas educativas em Diabetes Mellitus tipo 2 na Atenção Primária à Saúde, do Programa de Mestrado em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 2011. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.