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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

PERSPECTIVAS PROFISSIONAIS E ATUAÇÃO DO GRADUADO EM HISTÓRIA


O historiador estuda o passado humano em seus vários aspectos: economia, sociedade, cultura, ideias e cotidiano. Ele investiga e interpreta criticamente os acontecimentos, buscando resgatar a memória da humanidade e ampliar a compreensão da condição humana. Seu trabalho se baseia, principalmente, na pesquisa de documentos, como manuscritos, impressos, gravações, filmes, objetos, jornais e fotos. Depois de selecionar, classificar e relacionar as informações levantadas em bibliotecas, arquivos, entrevistas ou estudos arqueológicos, o bacharel faz a datação do fato ou do objeto, confere sua autenticidade e analisa sua importância e seu significado para a compreensão do encadeamento dos acontecimentos históricos. Com licenciatura, o graduado está apto a dar aulas em escolas de Ensino Fundamental e Médio.
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Fique de Olho

AMÉRICA LATINA É FOCO DE CURSOS
A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR), oferece cursos centrados nas questões da América Latina, caso de História e Ciências Sociais. Estudantes brasileiros e de outros países da região estudam as particularidades do espaço geográfico e social das diferentes sociedades latino-americanas.

O que você pode fazer

Autoria e consultoria Produzir e avaliar material didático para editoras ou instituições de ensino. Assessorar a produção de novelas, vídeos e filmes de um determinado período histórico.
Ensino Lecionar história geral ou do Brasil para os ensinos Fundamental, Médio ou cursos pré-vestibulares. Com pós-graduação, dar aulas na educação superior.
Memória empresarial Pesquisar a história de empresas e instituições em geral para apresentá-la em livros, artigos ou reportagens.
Pesquisa Investigar temas específicos em arquivos, institutos de pesquisa e universidades para produzir teses, livros e artigos.
Documentação e preservação Selecionar, identificar e organizar documentos históricos para o acervo de museus – públicos e privados – e de centros de documentação. Identificar obras que farão parte de uma exposição permanente ou temporária. Atuar em órgãos de preservação do patrimônio arquitetônico e histórico.

Mercado de Trabalho

As perspectivas para este bacharel são positivas. Isso porque o Congresso Nacional está perto de aprovar a regulamentação da profissão de historiador. O diploma de História será exigido para concursos públicos em museus e arquivos históricos. Será criado também um mercado mais bem definido para pesquisa no âmbito de ONGs e empresas. O licenciado encontra vagas em escolas de todo o país, especialmente na rede pública do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste. Em ONGs que cuidam do resgate da memória de personagens ou eventos, instituições públicas de preservação do patrimônio, arquivos e museus, o profissional também é contratado para prestar consultoria, trabalhar na organização de acervos, em pesquisa documental e na preservação do patrimônio cultural. Um mercado em crescimento é o de produções cinematográficas de época e de roteiros para documentários. Essa demanda vem crescendo em razão da lei que obriga as emissoras de TV por assinatura a exibir conteúdo nacional em sua programação. Há boas perspectivas também em cidades históricas. Tem aumentado ainda a busca por historiadores que organizem arquivos pessoais ou empresariais, reconstruam a história de famílias e empresas, e prestem consultoria em campanhas eleitorais.

Curso

A maior parte dos cursos de História é de licenciatura e inclui disciplinas pedagógicas, ao lado das específicas. Estas abordam a história tanto por períodos (pré-história, história antiga, medieval ou contemporânea) quanto por regiões, como Brasil, Europa ou Ásia. Há também temas específicos da pesquisa em história, como metodologia, teoria da história, história demográfica, história política ou história da ciência. Muita dedicação à leitura e participação em palestras e seminários fazem parte do cotidiano do graduando. Estágio e trabalho de conclusão de curso são obrigatórios. Atenção: a UFPR oferece um curso focado em memória e imagem; a Unila (PR), em América Latina; e a Universidade Candido Mendes (RJ) e a UFCA (CE), em patrimônio histórico.
Duração média: 4 anos.
Outro nome: Est. Soc. (hist.).

Legenda:
Estrelas da Avaliação do Guia do Estudante
★★★★★ - Excelente
★★★★ – Muito bom
★★★ - Bom
CPC – Conceito Preliminar de Curso ① ② ③ ④ ⑤ 
O CPC é o indicador do Ministério da Educação que mede a qualidade dos cursos. Ele varia de 1 (menor valor) a 5 (maior valor). Ele está informado na ficha do curso para todas as graduações que tinham esse indicador disponível (fonte: site do Inep, anos 2014, 2013 e 2012). 
Cifrões – Referem-se às faixas de preço da mensalidade:
$ - Até 500,00 reais
$$ - De 500,01 a 750,00 reais
$$$ - De 750,01 reais a 1.000,00 reais
$$$$ - De 1.000,01 a 1.500,00 reais
$$$$$ - Acima de 1.500,01 reais
n/i - Valor não informado

Você pensa que o curso de História é só para quem quer ser professor? Apesar dessa crença ser muito comum, ela não está correta. Quem faz o curso de História tem muitas opções de carreira para seguir.
História é o campo do conhecimento que estuda o passado humano em seus vários aspectos: economia, sociedade, cultura, ideias e cotidiano. O historiador investiga e interpreta criticamente os acontecimentos, buscando resgatara memória da humanidade e ampliar a compreensão da condição humana.
Confira o que o formando em História pode fazer:
– Autoria e consultoria: produzir e avaliar material didático para o ensino presencial e à distância para editoras ou instituições de ensino
– Consultoria: atuar nas áreas de produção de vídeo e peças de teatro e de turismo histórico;
– Ensino: lecionar história geral ou do Brasil para os ensinos fundamental, médio ou cursos pré-vestibulares. Com graduação, dar aulas na educação superior;
– Memória empresarial: pesquisar a história das empresas e instituições e apresenta-la em livros, artigos ou reportagens
– Pesquisa: investigar temas específicos em arquivos, institutos de pesquisa e universidades para produzir teses, livros e artigo
RIO - Você, provavelmente, já o viu em algum telejornal comentando assuntos que vão desde a história do Brasil à política externa. Professor titular de história moderna e contemporânea da UFRJ, com doutorado em história social pela Universidade de Berlim/UFF e pós-doutorado pela Universidade Técnica de Berlim/USP, Francisco Carlos Teixeira é uma das principais referências no meio e garante que os formados no curso têm áreas de atuação que vão muito além da sala de aula. No entanto, não hesita em afirmar que não conhece melhor profissão que a de professor, apesar das disparidades entre os ensinos básico e superior. Vote aqui na profissão do próximo Voz da Experiência
- Não há alunos na pós-graduação sem bolsa, cujo valor é quase o dobro do salário de um professor do ensino básico do estado. O problema é a má gestão da educação, como ficou visível no episódio da fraude do Enem - aponta o professor.
Em entrevista à Megazine, Teixeira respondeu a algumas das mais de 50 perguntas enviadas pelos leitores ao site do GLOBO. Como é a graduação em História? (Fabio Lopes)
FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA: Na maioria das universidades, como UFRJ e UFF, que têm os dois melhores departamentos de História do Rio, há duas formações: o bacharelado, que é um curso específico em História e nas ciências afins, com disciplinas de sociologia, política, antropologia e economia; e a licenciatura, que é um curso de formação profissional, cujo conteúdo fundamental é formado por disciplinas ligadas a ensino e didática. O bacharel está habilitado para um mercado mais diversificado e para o ensino superior. A licenciatura habilita para o ensino básico.Além de dar aulas, em quais áreas o profissional de história pode atuar? (Leandro Santos)
TEIXEIRA: Temos pesquisadores, técnicos, consultores em cinema, TV, óperas, teatro e até em barracões de escola de samba. O mercado é muito segmentado entre a pesquisa, o ensino e a consultoria. Há várias áreas em que os historiadores desempenham papéis importantes: museus, bibliotecas, arquivos, revistas científicas e especializadas e até em empresas de propaganda e marketing.Quais as linhas de pesquisa em expansão? (Marina Brandão)
TEIXEIRA: Estão entre a história social e a da cultura, que não têm uma fronteira muito definida. Há grande concentração de programas sobre a história do Brasil, predominando o período republicano, que tem uma grande participação na maioria dos livros, trabalhos e teses, com temas como sindicalismo, movimento operário e partidos políticos. Há uma demanda da sociedade para que haja pessoas trabalhando com história da América Latina e da América do Sul. Hoje o Brasil tem projeção nesse cenário, e há um déficit grande no estudo da relação do país com os vizinhos. Que órgãos públicos costumam realizar concursos direcionados a historiadores? (Jasmine da Silva)?
TEIXEIRA: Vários órgãos fazem concurso para pesquisador: Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, arquivos estaduais, bibliotecas municipais e Exército. Nestes, eles são contratados como técnicos, já que não existe uma carreira de historiador regulamentada. Aplica-se ao historiador o mesmo patamar de profissionais de biblioteconomia, arquivologia ou informática.
Como está o mercado de trabalho? (Cláudio Silva)
TEIXEIRA: Não falta emprego. Existem concursos nas universidades públicas de todo o país para professores. Como temos uma rede escolar deficitária, nos municípios sempre há a incorporação de novos professores. Mas temos um problema de remuneração, pois o projeto $pelo governo federal estabelecendo piso mínimo para os professores no município e no estado não foi aprovado. Isso obriga o professor a ter mais de uma vinculação profissional. Estabelecer o piso mínimo e fazer com que ele seja o professor de uma única escola são desafios fundamentais. Em empresas, o trabalho é marcado pelo livre mercado, pela prestação de serviço e por consultoria e é muito bem remunerado. Há mercado fora do país? (Luiza Cavalcanti)?
TEIXEIRA: A partir de um momento da carreira, começamos a viajar muito, temos chance de fazer cursos no exterior. É comum sermos chamados para dar aulas em universidades estrangeiras como visitantes. Mas o sistema de ensino e trabalho é muito diferente. As pessoas têm de ter cuidado, pois, quando saem do país, perdem os vínculos e as garantias daqui.
Saiba masi sobre o curso
CURSO: Tanto bacharelado quanto licenciatura levam quatro anos. O estágio supervisionado é obrigatório na licenciatura.
MERCADO: Em expansão para quem segue a licenciatura, nos ensinos básico e superior. Res$para os bacharéis, sobretudo os que não têm pós-graduação.
REMUNERAÇÃO: Professor da rede pública ganha de R$ 800 a R$ 1.500. Pesquisador iniciante ganha até R$ 2 mil. Professor com doutorado, até R$ 5 mil.

1. SOBRE O CURSO

Historiador


Utilizando documentos e dados, o historiador dedica-se à compreensão do contexto, à interpretação e análise do passado de indivíduos, grupos, movimentos sociais, instituições, regiões, países em diversas áreas – cultura, arte, economia, política, entre outras. Atua no desenvolvimento de pesquisa, na produção e difusão do conhecimento histórico, tomando como referência as várias dimensões dos sujeitos ao longo da história e os parâmetros de cada época, sob as diferentes concepções teóricas e metodológicas.

Principais áreas de atuação    


- Memória empresarial
- Assessoria histórica
- Preservação do patrimônio histórico
- Levantamento de dados e produção de textos em editoras
- Consultoria para produções artísticas e culturais

TOPO

2. ENSINO

Número de faculdades62
Melhores cursosUniversidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Cruzeiro do Sul (SP), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Vagas disponíveis por ano3.139
Duração do curso4 anos
Candidatos13.571
Candidatos/vaga4,32
Formandos por ano1.075
TOPO

3. ESTÁGIO

Estágio obrigatório?    


Só para os estudantes de licenciatura, que vão dar aulas na Educação Básica.

Quem recruta estagiários  

 
- Escolas.
- Museus.
- Centros de documentação de empresas.
- Arquivos históricos.
- Institutos de pesquisa

Melhor época do ano para procurar estágio    


Para as escolas, no início do ano letivo. Para outras instituições, o ano todo.

Momento ideal para iniciar estágio    


- A partir do terceiro ano, no caso do bacharelado.
- Na licenciatura, no último ano de curso.

Atividades do estágio


Em escolas:
- Acompanhamento das aulas de um professor titular.
- Auxílio em  tarefas como produção de exercícios, planejamento de aulas, avaliações.
- Sugestão de materiais didáticos.
- Se escola autorizar, participação em reuniões, conselhos de classe.

Em museus e centros de memória:


- Catalogação e arquivo de documentos e peças de acervo.
- Inventário de patrimônio e acervo.
- Trabalhos de pesquisa.TOPO

4. MERCADO

Profissionais no mercado    


Não há dados disponíveis.

Exigências para atuar na profissão    


- Ter curso superior de licenciatura em História para atuação na Educação Básica.
- Ter diploma de bacharelado em História para atuação como historiador.

Regulamentação 

   
Não há

Ganho inicial (média mensal)    


- De R$ 980 (20 horas semanais) a R$ 1,8 mil (40 horas semanais) na rede pública de ensino.
- Em escolas particulares, no Ensino Médio, de R$ 1 mil a  R$ 3,6 mil.
- Professor doutor em universidade pública federal: R$ 6 mil.

Ganho escalão intermediário (média mensal)    


- Em universidades públicas: de R$ 8 mil a R$ 9 mil.


Ganho no auge (média mensal)    


Em universidades públicas, como professor titular:  R$ 15 mil.


Atividades do início de carreira


- Na área de ensino, aulas na Educação Básica ou no Ensino Superior.
- Em outras instituições, basicamente as mesmas do período de estágio.


Evolução da profissão    


- No ensino, o historiador pode seguir dois caminhos: a Educação Básica e a Educação Superior. Na Educação Básica pública, segue a carreira da rede ou sistema de ensino onde está inserido. Na rede privada, pode assumir cargos de coordenação na área. Na Educação Superior pública, progride conforme obtém as titulações de mestrado e doutorado e evolui como pesquisador, até chegar a professor titular.
- Em outras instituições, com a experiência, passa a liderar equipes e pode assumir cargos de gerência e direção.

Auge da carreira    


Entre 20 e 25 anos.

Dicas     


- Como as instituições governamentais oferecem muitas vagas para historiadores, nas áreas de preservação de patrimônio e memória, é importante acompanhar os editais de concursos públicos.
- Está em trâmite no Congresso Nacional um projeto para a regulamentação da profissão de historiador. Com isso, serão ampliadas as oportunidades para o profissional, em especial no setor público.

TOPO
Fontes: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)/Ministério da Educação (MEC), dados de 2010; Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), dados de 2009;

Associação Nacional de História

Especialistas entrevistados para compor o perfil da profissão:

Lucília Siqueira, professora do departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

sábado, 29 de outubro de 2016

A última noite de Mary Stuartp


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Reportagem

A última noite de Mary Stuart

Fevereiro de 1587. A rainha da Escócia será executada por ordem de sua prima Elizabeth da Inglaterra. Diante da morte iminente, a soberana recapitula sua vida, dedicada a combater a Reforma protestante e zelar pela fé católica na Grã-Bretanha

A última noite de Mary Stuart

Pascal Marchetti-Leca
Museu do Lovre/ (c) RMN /Jean-Gilles Berizzi/ Other Imges
Mary Stuart (à dir.) no momento em que foi levada para a execução. Óleo sobre tela de Philippe Jacques Van Bree, século XIX
Amanhã não haverá alvorecer. Eu, ao menos, não vou ver o dia amanhecer. Foi o desejo de Deus que chegasse ao fim esse doloroso caminho que foi minha vida. A peregrinação termina por meio de um decreto no último dia 1o de fevereiro, com o selo real de minha prima, Elizabeth da Inglaterra. Esse fim varrerá tanto os sonhos não cumpridos quanto as traições não patentes e as repetidas humilhações. Deo gratias.

Na aurora de minha vida, nada deixava antever o desastre. Para ser rainha, me bastou nascer, em 9 de dezembro de 1542, no castelo de Linlithgow. Mas já naquela época a calamidade se preparava para dissipar a bem-aventurança. Eu mal tinha aberto os olhos, e morria meu pai, Jaime V da Escócia, confirmando a perturbadora profecia: “A coroa nos veio por uma mulher, e com uma mulher ela nos deixará!”.

Soberana no berço, eu tinha um corpo frágil, que se tornou de imediato objeto de tratativas políticas. Meu real parente, Henri que VIII da Inglaterra, se apressou a pedir a mão da herdeira perfeita para seu filho caçula, o príncipe herdeiro Eduardo. Em nosso meio, nada como um casamento para transformar hostilidade em concórdia. O sangue dos Stuarts e o dos Tudors mesclados para comandar o destino do mundo!

Interveio aí a perspicácia de minha mãe, a católica Maria da Lorena, herdeira dos Guises. Temendo a ideia de delegar os cuidados de minha educação a heréticos, ela preferiu se voltar para a França e, com o apoio dos papistas, promoveu negociações com sua terra natal para propiciar a minha fuga. Em 7 de agosto de 1548, eu embarquei no galeão de velas brancas.
Reprodução
Mary Stuart ao lado de seu primeiro marido, o rei Francisco II da França. Óleo sobre madeira de François Clouet, 1559
Fui recebida como uma pequena rainha em terras francesas, onde houve festejos, salvas e vivas. Foi lá que conheci o lívido príncipe que me tinha sido destinado por esposo: Francisco, o herdeiro do trono dos Valois. Daquele momento em diante, nossos destinos estavam para sempre unidos. Em 24 de abril de 1558, os noivos adolescentes se ajoelharam diante do altar de Nossa Senhora e desempenharam a representação da cena de dupla grandeza monárquica para a qual tinham sido mecanicamente preparados.

Ao me tomar por esposa, Francisco II fez de mim sua rainha. Ao lhe dar minha mão, eu oferecia a ele a coroa da Escócia.

A França me ensinou a civilidade dos prazeres, a sutileza intelectual, o refinamento das maneiras que, ainda hoje, faltam à nossa miserável Escócia, petrificada pela rudeza. Não me desagradou descobrir como se pode ser concomitantemente uma dama e uma alegre, sensual, elegante e humanista esposa.

Em 6 de dezembro de 1560, eu vesti luto por meu marido Francisco II. Minha sogra Catarina de Médici, que o meteórico casamento do filho havia eclipsado, foi novamente alçada a seus direitos dinásticos.
Galeria Nacional de Retratos, Londres
Amargo retorno: depois de 13 anos de ausência, Mary volta para sua terra natal e encontra uma Escócia hostil. Gravura, autor desconhecido, 1893
Como é que eu, Mary Stuart, princesa de sangue real, e até a véspera rainha da França, teria podido aceitar viver à sombra de uma arrogante filha de mercadores? Viúva real, talvez, mas sempre rainha. Com a morte na alma, atravessaria o oceano de volta, para garantir o único bem que me parecia inalienável: a coroa da Escócia.

Eu estava enganada. Lordes e barões nunca recuaram diante da oportunidade de uma traição – minha defunta mãe sentiu isso na carne, mas até seu último suspiro ateve-se à fidelidade à Igreja romana. Para mim, a deslealdade tornou-se algo familiar.

Deixei a França com fausto e pompa, para chegar em casa em 19 de agosto, um ambiente hostil. As delicadezas com as quais havia me acostumado se perderiam sob a indigência de uma terra que, depois de 13 anos de ausência, me considerava uma completa estrangeira. Fui para o castelo de Holyrood, que, às portas de Edimburgo, tornava-se minha residência.

A rainha da Escócia não era bem-vinda em seu próprio reino. Para se apoderar dos bens da santa Igreja e usurpar o poder real, os lordes escoceses haviam cedido à Inglaterra e se devotado ao calvinismo. Eles formaram uma barreira fatal à minha autoridade de soberana católica.
Ante tantas alianças contrariadas, como eu, sozinha e mulher, poderia resolver uma situação tão delicada? Com um novo casamento, disse a mim mesma.

Depois de um exame do mercado matrimonial político, minha escolha recaiu sobre um primo, o primeiro príncipe de sangue dos Tudors: Henry Darnley. Contra todas as expectativas, aquele jovem soube comover meu coração, e decidi elevá-lo à dignidade de rei consorte, título que ele obteve em 25 de junho de 1565, ao colocar a aliança em meu dedo, na capela de minha fortaleza.

Infelizmente, o cortesão perfeito se tornou rapidamente altivo. Em 9 de junho de 1566, os canhões de nosso castelo de Holyrood ribombaram, anunciando a chegada ao mundo do herdeiro que oferecíamos à Escócia, mas nem isso tirou nossa união do rumo do desastre. Henry se irritava com todos os que, cercando minha pessoa, faziam sombra a suas prerrogativas de esposo. Ferido em seu orgulho conjugal, esse insolente chegou ao cúmulo de conspirar contra mim. Na aterradora noite de 9 de março de 1566, mandou apunhalar diante de meus olhos o menestrel que eu havia ordenado com o grau de conselheiro, David Riccio. Nunca mais nós voltaríamos a nos entender.
Galeria Nacional Escocesa de Retratos
James Hepburn, o “urso letrado” a quem a rainha delegou a tarefa de assassinar o marido. Óleo sobre madeira, artista flamengo, 1566
Onde, então, buscar socorro? A quem poderia eu dedicar uma confiança tantas vezes traída? Obtive a resposta nos traços do guerreiro que outrora havia emprestado seu braço forte à resistência que minha mãe opunha aos lordes da Congregação: James Hepburn, conde de Bothwell. Quase cavaleiro, quase fora da lei, aquele urso letrado conhecia a arte de somar a astúcia à força.

Sua máscula segurança venceu todos os meus princípios, e meus sentidos lutaram em vão para conter o caudal de uma moral em dispersão. Naquele momento, só o que me importava era sua satisfação. E, para Bothwell, não podíamos mais esperar: era preciso nos livrarmos de meu marido. Apesar de ser incapaz de fomentar um complô, tampouco fiz algo para impedir o atentado em 10 de fevereiro de 1567, que roubou a vida do rei da Escócia.

A voz do povo se fez de imediato ouvir, e não tardou para que todas as fachadas de Edimburgo ficassem cobertas de galhofas. Eu me emparedei em silêncio, que aos olhos da Escócia e de outras nações sugeria minha culpa. Ao anúncio de meu necessário casamento com alguém tido como o assassino do rei da Escócia, saltava aos olhos essa culpa, como um insulto.

Os senhores se sublevaram, e, em 15 de junho de 1567, as tropas reais desertaram. Fiquei prisioneira no castelo de Lochloven e fui obrigada a abdicar em favor de um filho demasiado jovem para reinar.
Quando tudo parecia perdido, ergui a cabeça. Menos de um ano depois de minha detenção, consegui ludibriar a vigilância de meus carcereiros e buscar asilo junto de minha eterna rival, Elizabeth da Inglaterra, que me mantém cativa há cerca de 20 anos.

Por instigação dela, a infâmia de um processo – capciosamente chamado de “conferência” – me foi infligida, a fim de deixar patente ao mundo a responsabilidade que eu porventura poderia ter no assassinato de meu esposo. Contrariamente à promessa que me tinha feito, de não atentar contra minha honra, os versos e cartas que eu havia escrito a Bothwell foram trazidos para figurar das discussões.

Minha prima nunca poupou mesquinhez, intriga e humilhação. E minha Impetuosidade serviu de desculpa para seu ressentimento. Só lamento esse traço parcialmente, porém: para ser rainha, teria sido preciso ser menos mulher. Meu coração se incendiou como um pedaço de estopa, mas essa ousadia, que foi minha perdição, também me valeu um bom número de adeptos.

Estará Elizabeth ainda rindo de mim? Que me importa! Não me envergonho. Meu único crime é minha posição, minha verdadeira ofensa é meu título. Como ela ousa me pôr a perder, perderá mais que eu. Seu nome ficará para sempre manchado. A história fustiga a impostura e reabilita o justo. Um dia – quem sabe? – meu filho reunirá as duas coroas, que de maneira tão ávida disputaram comigo. Assim, não cederei ao miserável triunfo de minha prima e de suas reformas doutrinárias.

Não será como pecadora contrita que caminharei para o cadafalso, mas como uma autêntica soberana. Na hora derradeira, no grande salão de Fotheringhay, eu sei que Deus me ajudará a enfrentar o suplício com dignidade, sem falhar. Se em vida eu nem sempre compreendi tudo, de minha morte não quero ignorar nada. Quero adentrá-la com os olhos abertos, um crucifixo nas mãos e dois rosários à cintura. Até o fim, permanecerei surda aos ventos heréticos do calvinismo. Castelo de Fotheringhay, 7 de fevereiro do ano da graça de 1587.
Galeria Nacional de Retratos, Londres
O herdeiro: em 1603, Jaime I realizou o sonho de sua mãe ao reunir as coroas da Escócia e da Inglaterra. Óleo sobre tela de Daniel Mytens, 1621

E a história seguiu seu curso...

O filho de Mary Stuart foi coroado rei da Escócia com 1 ano de idade, em 1567, chamado de Jaime VI. Em 1603 tornou-se soberano da Inglaterra e da Irlanda, como Jaime I. Governou longamente os ingleses, até 1625, como era o desejo de sua mãe.

A disputa entre católicos e protestantes continuou na Inglaterra e na Escócia de Mary Stuart. Seu filho Jaime, ao tomar o poder, tentou transformar a religião anglicana da Inglaterra em algo mais próximo do catolicismo e mais distante do calvinismo.

Nessa área religiosa, porém, nunca houve um vitorioso. Hoje, no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte), há cerca de 20% de católicos, igual proporção de anglicanos, cerca de 40% de presbiterianos, metodistas, batistas e outros cristãos, 17% de islâmicos e o restante de sikhs, hinduístas, judeus e adeptos de outras religiões.
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domingo, 8 de novembro de 2015

O Segredo dos Anos Bissextos

Estamos num ano em que fevereiro tem 29 dias, o que ocorre a cada quatro anos. Para entender isto, é importante lembrar o conceito de ano, ou seja, o tempo que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol. Na Antiguidade, o ano era contado pelo intervalo de tempo decorrido entre duas passagens consecutivas do Sol pelo equinócio vernal, ponto no céu onde o Sol cruza o equador celeste saindo do hemisfério sul indo em direção ao norte. Essa passagem ocorre próximo ao dia 21 de março, no início da primavera do hemisfério norte.

O ano dura aproximadamente 365,25 dias, ou seja, cerca de 365 dias e 6 horas, e assim normalmente os anos têm 365 dias e a cada 4 anos soma-se um dia para acertar esta diferença. E por que se escolheu o mês de fevereiro para esse acerto?

O calendário que utilizamos vem dos romanos, que inicialmente adotavam um ano de 304 dias e 10 meses:martius, aprilis, maius, junius, quintilis, sextilis, september, october,november e december. Com o tempo, a contagem dos dias doano foi ficando defasada e na época do imperador Numa Pompílio, no século 7 a.C., estava atrasada em 51 dias em relação ao início das estações. Pompílio então criou mais 2 meses: janeiro e fevereiro, e o ano passou a ter 354 dias. Além disso, criou um 13o mês, intercalado para adequar o calendário às estações do ano. Esse mês, chamado de mercedonius, era intercalado entre 23 e 24 de fevereiro, no fim do ano na época, que se iniciava em março. Ocorre que esse mês apenas existia quando fosse do interesse do governante de cada cidade.

Ainda assim, sob o reinado de Caio Júlio César (100-44 a.C.), as intercalações do 13º mês eram feitas de maneira tão desorganizada que em 46 a.C. o calendário solar tinha uma defasagem de 80 dias em relação ao início das estações. Então Júlio César chamou o astrônomo e filósofo egípcio Sosígenes, da Escola de Alexandria, para uma reforma no calendário. Dessa forma, o ano de 46 a.C. passaria a ter 80 dias a mais, ou seja, 445 dias; e por isto foi o chamado “Ano da Confusão”.

Assim, no chamado “calendário juliano”, o ano passou a ter início no dia 1º de janeiro, tendo 365 dias e 1/4, divididos em 12 meses de 30 e 31 dias, com exceção de fevereiro, que tinha 28 dias, passando a 29 nos chamados anos bissextos aos quais a cada 4 anos seria somado 1/4 de dia, perfazendo um dia a mais, ou seja, um ano com 366 dias.

Mas o curioso é que este nome não vem do fato de que seus 366 dias terminam em dois 6. O dia do início de cada mês no calendário romano era chamado “calendas” e o dia mais importante era 23 de fevereiro, isto é, o sexto dia antes das calendas porque o último mês do ano era fevereiro. Então, nesse dia sagrado e em homenagem ao deus Termo, ou Terminus, celebravam- se em Roma festas de grande animação popular. Trocavam- se presentes, libertavam-se escravos, promoviam-se espetáculos de gladiadores no circo, as famosas termálidas (algo parecido com o que chamamos de carnaval). César queria introduzir um dia a mais que levaria o nome de mercedônio em fevereiro em homenagem a Fébrua, a deusa da purificação (daí o nome fevereiro). Mas como explicar ao povo que o sexto, o dia mais sagrado para eles, deixaria de ser sexto, porque a cada quatro anos haveria um sétimo? A solução não foi difícil: o dia mercedônio que seria inserido foi considerado um “adendo” e chamado de “bis sexto” – ou seja, mais um sexto. Em outras palavras, o dia intercalado seria o 24 de fevereiro, ou seis dias antes das “calendas” de março. Assim, esse dia era contado duas vezes (bis), sendo chamado de “bissextus ante calendas martii”, que, com o tempo, passou a ser “bissexto”. Dessa forma, fevereiro ficaria com 29 dias.

No calendário juliano, o mês quintilis passou a chamar-se julius, em homenagem ao imperador. Posteriormente, o mês sextilis passou a se chamar augustus em homenagem a Augusto, outro imperador romano, que aperfeiçoou o calendário juliano. Mas, dizem, como era muito orgulhoso, não quis que o mês a ele dedicado – augustus, ou agosto – tivesse menos dias que julho, que homenageava Júlio César. Então, “roubou” mais um dia de fevereiro, que ficou com 28 dias, e passou- o para agosto, que ficou com 31 dias. 

Ocorre que, mesmo sendo mais preciso que os anteriores, o calendário juliano ainda não era exato. Em 1582, já acumulava um atraso de dez dias em relação ao ano solar. Foi então que o papa Gregório 13, seguindo os conselhos de astrônomos, resolveu corrigir de vez a diferença entre o calendário oficial e o solar. Isso ocorreu porque, na verdade, o chamado ano solar tem 365,242199 dias. Se fizermos a decomposição deste número em parcelas teremos: 365,242199 = 365 + 0,25 - 0,01 + 0,0025 - 0,007801, que pode ser escrito em frações: 365,242199 = 365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3300. Em outras palavras, o ano tem 365 dias, deve-se somar 1 dia a cada 4 anos, diminuir 1 dia a cada 100 anos, somar 1 a cada 400 anos e finalmente eliminar 1 dia a cada 3.300 anos.Assim, naquela época, o papa começou eliminando sumariamente os dez dias de atraso. Depois, estabeleceu que os anos de virada de século (1800, 1900 etc.) que fossem múltiplos de 100 não seriam bissextos, exceto quando fossem também múltiplos de 400. Dessa forma, retirava-se 1 dia a cada 100 anos e adicionava-se 1 a cada 400 anos. Por isso, o ano 2000 foi bissexto por ser múltiplo de 400. Com essa providência, o calendário chamado “Gregoriano” só acumula um dia de erro a cada 3.300 anos solares.