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sábado, 21 de março de 2015

Três dicas das neurociências para incrementar sua memória

Todos nós sabemos que aprender não se resume simplesmente em memorizar. No entanto o aprendizado efetivo precisa de uma memória bem concatenada e vitaminada para não dar branco na hora H.

Daí a importância de manter essas engrenagens bem azeitadas.
Trazemos aqui algumas dicas fundamentadas em recentes conquistas das neurociências e que intuitivamente alguns estudantes já utilizam com excelentes resultados, tanto para incrementar sua memória quanto o aprendizado.
  1. Realizar conexões em rede
Toda a informação nova quando conectada a pelo menos uma informação já memorizada tem maiores chances de ser recordada. À medida que o número de conexões vai aumentando a probabilidade de resgate dessa nova informação na memória vai se aproximando dos 100%.
Um dos exemplos mais singelos dessa aplicação é o utilizado por alguns políticos, quando não querem esquecer o nome de um eleitor. Eles simplesmente associam mentalmente o nome desse eleitor ao de outra pessoa de mesmo nome e que pertença a seu contato mais corriqueiro, seja por alguma característica física ou aspecto de sua personalidade que apresentam em comum. Logo, logo terá uma rede de Josés, Eduardos, Marias, etc armazenada em sua memória.
Notadamente quando estamos estudando conceitos científicos, por exemplo, e efetuando conexões entre as informações dentro desse próprio campo de estudo, ocorre um favorecimento pronunciado do aprendizado como um todo, não apenas a simples memorização de um conceito, mas sua compreensão como parte de um corpo harmônico de conhecimentos.
  1. Utilizar o potencial emocional-afetivo
Está comprovado que as emoções, os sentimentos e as relações de afeto interferem significativamente na construção das memórias e de seu resgate.
Efetivamente quando colocamos “o coração” naquilo que fazemos as chances de que o recordemos são maiores.
É daí que etimologicamente se origina o saber de “cor” (cor = coração em latim).
Tais vínculos podem ser naturais, como por exemplo, a facilidade que temos em recordar os momentos mais felizes (ou os mais tristes) de nossas vidas.
Ou mesmo a vinculação de lugares, cores, odores, sabores e sons aos sentimentos, ou estados emocionais vividos. Como o cheiro da terra molhada que reacende recordações vívidas da infância ou ouvir tal música que faz recordar as sensações vividas em determinado momento da adolescência, etc.
Ou de aprender aquele conteúdo que gostamos ou estamos inclinados a gostar.
Também esse tipo de vinculação pode ser criado, como, por exemplo, a facilidade que encontramos em aprender os conteúdos ministrados por professores bem humorados e que usam do lúdico como uma de suas técnicas de ensino e que também são capazes de invocar as emoções mais elevadas no instante em que ensinam.
Daí que o favorecimento da memória, e também do aprendizado, dependem fundamentalmente de nosso estado emocional.
Cabe então aquela perguntinha incômoda: estou motivado para aprender? Quero mesmo aprender isso?
Nas palavras de Rubem Alves o esquecimento é o vômito da mente.  E o ato de vomitar alguma coisa inútil ou — que não nos faz bem — é sinal de saúde!
  1. Realizar reiterações
Muitos estudantes utilizam a técnica de repetir em voz alta uma informação a ser memorizada ou até mesmo escrever várias vezes em papeis de rascunho a fórmula matemática, a equação química ou o termo da biologia e assim por diante.
A repetição em si favorece a memorização, como o observado, por exemplo, no aprendizado de idiomas, de técnicas esportivas, de coreografias, etc.
No entanto, a repetição tende a ser exaustiva e na maioria das vezes monótona e os resultados nem sempre são os esperados quando computado todo o esforço.
Por isso, no lugar de simplesmente repetir mecanicamente é recomentada a reiteração, ou seja a repetição vinculada ao uso de um corpo completo daquele tipo de conhecimento.
Numa analogia: é bem mais produtivo, numa aula de um idioma estrangeiro utilizar vocábulos de forma reiterada como parte de uma conversação do que simplesmente repeti-los isoladamente.
Reiterar é reviver várias vezes aquela experiência com um aprendizado a mais em cada uma de suas repetições. Em suma, repetir e aperfeiçoar.
Bônus: uma reflexão filosófica
A reiteração usa a repetição de forma inteligente e conectada, valendo-se tanto da conexão cognitiva feita pela natureza da informação quanto da forma sensível-afetiva envolvida valendo-se da intensidade de sua carga emocional.
Se observarmos nossa vida diária, existe uma rotina que segue ciclos mais ou menos constantes e repetidos.
Podemos utilizar esses ciclos para reiterar nossa capacidade retentiva, melhorando nossa capacidade de recordar e também de aprender ou, como muitos fazem, ligar o piloto automático e deixar a vida passar sem ensinar e nem aprender nada.
A escolha é nossa:
Fazermos da nossa vida uma experiência memorável ou deixar passar, pois afinal não há nada que valha à pena recordar.

sábado, 24 de maio de 2014

A ciência do autocontrole‏

Sem dominar nossos impulsos não poderíamos conviver de forma civilizada. Segundo neurocientistas, a capacidade de autocontrole social pode ser compreendida por meio de marcas neurobiológicas
 
©Yellowj/Shutterstock

Quem nunca teve muita vontade de dizer poucas e boas ao chefe, a um amigo ou parente mas na hora h usou toda a energia para evitar fazer isso? Ou então cedeu ao ímpeto e perdeu algo importante – talvez um relacionamento ou o emprego? Agora, imagine se você sempre fizesse tudo que passasse pela cabeça. Talvez a possibilidade seja tentadora, mas provavelmente você já teria tido problemas profissionais, dificilmente manteria um relacionamento afetivo estável ou amizades e com certeza se envolveria muitas vezes em brigas de todo tipo – o que seria um risco até para sua integridade física. Afinal, não por acaso a capacidade de autocontrole em situações sociais é essencial para um convívio razoavelmente harmônico.

O fato é que quase sempre precisamos refrear nossos impulsos para que, por exemplo, um pequeno desentendimento entre colegas ou na família não se torne algo enorme, que cause ruptura permanente. Da mesma forma, também deveríamos resistir a certas tentações se um relacionamento estável for importante. E quem sempre diz o que pensa não raro coloca pedras no próprio caminho – por exemplo, em uma entrevista de emprego.

Em todas essas situações utilizamos o autocontrole para seguir as normas sociais. Mas nem sempre é fácil manter o domínio de nossas reações. E como acontece com a maioria das características humanas, há grandes diferenças individuais no que se refere à capacidade de filtrar comportamentos para não deixar que a exaltação tome conta de nós. Em nossa sociedade, quem tem bom domínio de si mesmo é em geral mais respeitado por outros do que pessoas consideradas imprevisíveis e explosivas – o que certamente traz inúmeras vantagens.

Pessoas com bom autocontrole são, em geral, mais bem-sucedidas no trabalho e mantêm relacionamentos estáveis, como comprovam estudos do psicólogo social Roy Baumeister e de seus colegas da Universidade Estadual da Flórida em Tallahassee, nos Estados Unidos. Ele reconhece que, apesar de a autonomia emocional ser tão importante para o convívio, durante muito tempo seus fundamentos neurobiológicos foram ignorados. Hoje, os pesquisadores que se dedicam a esse estudo investigam principalmente duas questões: 1. Os processos cerebrais responsáveis por nossa capacidade de autocontrole social; 2. As características neurobiológicas que possam esclarecer as diferenças individuais relacionadas a essa capacidade.

Alguma vez um bom amigo traiu sua confiança? É provável que você tenha exposto a ele claramente sua opinião ou talvez tenha até terminado a amizade. Ou você se irritou ultimamente com uma multa por ter dirigido rápido demais na estrada? De fato, quando desrespeitamos regras, podemos ser punidos pelas pessoas à nossa volta ou por instituições públicas. Por esse motivo, quase sempre respeitamos as normas e controlamos impulsos egoístas para evitar as sanções.

Sabendo disso, neurocientistas aproveitam o fato de as reações serem mais fortes quando somos ameaçados com punição por desrespeito ao que está estabelecido ou em situações nas quais somos observados por outras pessoas e reproduzem essas condições nos experimentos. Uma equipe de pesquisadores coordenada pelo cientista econômico Ernst Fehr, da Universidade de Zurique, e pelo psiquiatra Manfred Spitzer, da Universidade de Ulm, estudou recentemente o que acontece no cérebro nessas ocasiões. Eles compararam o comportamento e a atividade cerebral de adultos saudáveis em duas situações: na primeira, o participante recebia 1 euro por rodada e deveria decidir a cada vez que porcentagem queria ceder para outro participante. No Segundo cenário a pessoa devia tomar a mesma decisão, sabendo, porém, que o recebedor poderia considerar a oferta injusta e punir com pontos negativos aquele que a propunha.

Conforme esperado, os voluntários se mostraram muito mais generosos diante da possibilidade de punição. Enquanto no primeiro caso quase ninguém optou por doar mais de 20 centavos, a maioria dos participantes do outro grupo dividiu pela metade a quantia que lhe coube.

Como revelou a tomografia por ressonância magnética funcional (TRMf), as áreas pré-frontais foram mais intensamente ativadas quando havia a possibilidade de castigo. Quanto mais divergente o comportamento do participante sob as duas condições, maior se mostrava a diferença no cérebro. Aqueles que responderam mais intensamente à punição por uma oferta muito sovina, cedendo muito mais dinheiro, apresentaram intensa ativação do lobo frontal.

Os pesquisadores acreditam que isso ocorre porque os participantes precisam exercer maior controle sobre seus impulsos egoístas para ceder uma quantia mais elevada do que gostariam. O córtex pré-frontal desempenha aqui um papel claramente importante.

O resultado é também interessante se considerarmos estudos que mostraram uma ativação reduzida de áreas pré-frontais em criminosos psicopatas. Sua pouca capacidade de controlar o próprio comportamento apesar da ameaça de sanções pode estar associada a déficits nessas áreas.