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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Quando é hora de procurar uma psicoterapia?

Christian Ingo Lenz Dunker

A vida não vem sem sofrimento e miséria. Se isso fosse suficiente para determinar a procura de ajuda seria simples: psicoterapia para todos. Não penso que seja este o caso.  Há situações como dependências químicas, disposições de personalidade e sintomas específicos para os quais a maior dificuldade é procurar tratamento. Se o sintoma deixasse o sujeito pedir ajuda, “meio caminho já teria sido andado”. Nesta linha a psicoterapia só seria possível para aqueles para quem ela já não é mais necessária.
Pedir ajuda é um grande sinal de salubridade psíquica. Indica que você foi capaz de perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento. Sugere também que você entende que isto não é apenas uma deficiência moral, uma insuficiência de sua educação ou uma ofensa ao seu sistema de crenças. O autodiagnóstico é parte do processo de cura. O clínico tenderá a interpretar este movimento crítico como parte de seu desejo de transformação.  Antigos filósofos já diziam que era difícil suportar a ideia de ser “libertado pelo outro”, tanto porque isso indica passividade e fraqueza, quanto porque seria uma liberdade falsa, obtida por meios que não são próprios. Esta oposição entre resolver-se por si, “aceitando-se como você é”, ou pedir ajuda e ficar dependente nas “mãos do outro” deve ser superada. Como em tudo mais na vida, atravessamos problemas e nos tornamos autônomos com os outros e não sem eles. Contudo, isso não explica quando um sintoma se torna insuportável a ponto de demandar tratamento.
Os verdadeiros sintomas não se definem pelo código social de condutas desejáveis, mas por duas formas específicas de relação que mantemos com o que fazemos. Há os sintomas baseados na forma “ter que”, definidos pela coer-citividade. Exemplo. Trabalho, como todo mundo, todo dia, e me queixo ou me felicito nele. Isso pode ser um sofrimento “suportável”. No entanto outra pessoa dirá: “eu tenho que” ir trabalhar, porque se não for “algo acontecerá”, sentirei angústia extrema, serei criticado impiedosamente pelo chefe, e assim por diante. Há aqui o recobrimento de um “comportamento aceitável” (trabalho) por uma disposição patológica (coerção subjetiva a).
A segunda família de sintomas obedecem à gramática do “não posso com”. São situações que podem parecer irrelevantes, ou plenamente aceitas socialmente, mas que são vividas com sofrimento adicional. Exemplo: “não posso com baratas, com ratos, com pessoas deste ‘tipo’, com mulheres desta ‘forma’, com perdas, com ganhos” e assim por diante. O diagnóstico que autoriza um tratamento psicoterápico está mais atento a esta incidência “subjetiva” do “ter que” ou do “não posso com” do que com a norma de vida esperada para alguém ou época.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Trauma, dor e ato: o olhar da psicanálise sobre uma tentativa de suicídio



Trauma, pain and act: a psychoanalytic look on the attempt of suicide


Mônica Medeiros Kother MacedoIBlanca Susana Guevara WerlangII
IPsicóloga, psicanalista, doutora em Psicologia (PUCRS), professora adjunta e coordenadora do Serviço de Atendimento e Pesquisa em Psicologia da Faculdade de Psicologia da PUCRS e Membro Pleno da Sociedad Psicoanalítica del Sur de Buenos Aires. monicakm@pucrs.br
IIPsicóloga, doutora em Ciências Médicas/Saúde Mental (Unicamp), professora adjunta e diretora da Faculdade Psicologia da PUCRS, membro do Grupo de Trabalho para implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio (Ministério da Saúde). bwerlang@pucrs.br



RESUMO
As relações existentes entre trauma, dor psíquica e ato são abordadas por meio da análise do caso clínico de uma pessoa que efetivou uma tentativa de suicídio. Explora-se a inter-relação entre o traumático, a ruptura das barreiras de proteção ao psiquismo e o predomínio do irrepresentável que tem como conseqüência o ato de tentar tirar a própria vida. A partir da metapsicologia psicanalítica, nomeia-se a tentativa de suicídio como um ato-dor.
Palavras-chave: Trauma, dor psíquica, tentativa de suicídio, ato-dor, metapsicologia psicanalítica.

ABSTRACT
The existing relations among trauma, psychic pain and act are approached by means of the analysis of the clinical case of a person that has performed a suicide attempt. The inter-relation among the traumatic, the breaking of the psyche protection barriers and the prevalence of the "unrepresentative" contents predominance that as a consequence produces the act of trying to take one's own life. Through psychoanalytic metapsychology a suicide attempt is named as a pain-act.
Keywords: Trauma, psychic pain, attempt of suicide, pain act, psychoanalytic metapsychology.



A psicanálise nasce a partir da investigação de Freud a respeito do padecimento humano neurótico. Seu empenho em compreender o que o sintoma manifestava e, ao mesmo tempo, escondia, motiva Freud a embrenhar-se numa investigação por caminhos tortuosos e difíceis. Para criar e manter a vitalidade da psicanálise, ele precisará, ao longo do tempo, defender com coragem e determinação conceitos fundamentais como inconsciente, sexualidade, recalcamento e transferência. Sem dúvida, ao longo de sua obra, o pilar central é sua crença na etiologia inconsciente e sexual dos padecimentos psíquicos.
Na busca por melhores recursos técnicos a serem utilizados na condução de um processo de cura, Freud (1895/1987) atende ao inusitado pedido da paciente Emmy Von N.: ela deseja que ele a escute em silêncio. E assim, exercitando a capacidade de escuta, Freud irá descentrando o analista do lugar de poder para o qual a hipnose acenava. Busca, a partir de então, cada vez mais, a participação de um sujeito acordado e ativo no processo de conhecimento de seu inconsciente. Assim, ao dar à transferência um lugar de destaque no cenário da clínica, Freud redimensiona o papel do analista, abrindo um espaço único de escuta às repetições singulares de uma história. Revisitando via auto-análise sua história infantil, os recônditos mais íntimos de seu ser, Freud torna-se um guia ainda mais habilitado para acompanhar a viagem analítica de seus pacientes. Dessa maneira, os conceitos da psicanálise e sua metapsicologia servirão como instrumentos de investigação e acesso à peculiar natureza humana.
A psicanálise, como teoria e técnica, propõe um olhar livre de "pré-conceitos" para as dores da alma. Freud (1905/1972), ao referir-se às doenças de etiologia psíquica, afirma que "os leigos, que gostam de rotular influências mentais desta espécie como 'imaginação', inclinam-se a demonstrar pouco respeito por dores devidas à imaginação em contraste com as causadas por ferimentos, doença ou inflamação". Acrescenta, ainda, que isto é claramente injusto, pois considera que, mesmo que as dores sejam causadas pela imaginação, "elas próprias não são menos reais nem menos violentas por isto" (p.320).
Fiel a esse posicionamento a respeito dos padecimentos psíquicos, já nos textos de 1892 e 1895, um tema ocupa Freud: o trauma. Marca-se, nesse tempo inicial, uma estreita relação entre trauma, realidade e histeria. Entretanto, à medida que Freud aprofunda seus estudos, a concepção de trauma sofre importantes transformações. Assim, as afirmativas dele a respeito do trauma permitem encontrar, independentemente da clínica com o paciente histérico, uma verdadeira vitalidade do conceito, resultando no que pode se chamar umateoria do trauma.
Freud (1892/1987) afirma que "transforma-se em trauma psíquico toda impressão que o sistema nervoso tem dificuldade em abolir por meio de pensamento associativo ou da reação motora" (p.174). Esse momento teórico freudiano permite que se faça uma leitura antecipada, mas legitimada por seus avanços posteriores, de que o aparelho psíquico trabalha para manter constante, em seu interior, a "soma de excitação", e alcança tal condição na medida que tramita todo o considerável aumento de excitação por via associativa ou via descarga mediante uma reação motora correspondente.
A carta de 21 de setembro de 1897, escrita a Fliess, explicita o abandono da teoria do trauma, abrindo um espaço fundamental para o conceito de fantasia. Considera-se que o abandono da idéia de uma cena real de sedução para explicar a etiologia da histeria não pode resultar em uma leitura apressada da exclusão de uma teoria do trauma na psicopatologia psicanalítica. Além do abandono de uma idéia de sedução real, Freud renuncia à linearidade da compreensão de uma patologia. O efeito traumático nas produções psíquicas evidencia a impossibilidade da manutenção do trauma unicamente vinculado à histeria. Num movimento de abandono, mais do que nunca, se abrem portas para pensar a significação psíquica (interna) dos efeitos de um trauma, seja real ou imaginário.
No ano de 1920, Freud escreve "Além do princípio do prazer". Este texto nasce de sua experiência com os horrores da guerra e possibilita a descoberta de que a repetição não se dá apenas nos caminhos do prazer. Apresenta seu conceito de compulsão à repetição e também resgata algumas concepções sobre o ingresso de quantidades no aparelho psíquico, temática que já de alguma forma abordara no "Projeto para uma psicologia científica", em 1895.
A noção de excesso está intimamente vinculada, em 1920, à noção de quantidades que invadem o psiquismo, rompendo a proteção das pára-excitações. Observa-se que Freud avança em relação ao que já anunciara em 1895 sobre a diferença entre descarga e fuga. Cabe à fuga um recurso no que se refere aos estímulos externos, já que em relação ao que ingressa no psiquismo a dinâmica é outra. A intolerância do aparelho frente ao que o invade gera uma tendência a desprender-se dessa situação por caminhos conhecidos, os quais foram eficazes em situações anteriores. No texto de 1920, Freud utiliza a metáfora de um território invadido para explicar o que se passa no aparelho psíquico quando, frente à vivência de um excesso, são rompidas as barreiras pára-excitações. Pode-se identificar aí a retomada de suas concepções sobre a teoria do trauma. Agora, Freud nomeia o traumático não apenas no terreno da neurose, pois amplia sua proposição a respeito do dualismo pulsional que habita o homem. Na reprodução do circuito pulsional, observa-se a força demoníaca da pulsão de morte; a repetição se dá a partir do que nunca foi registro de prazer para o aparelho psíquico.
Considera-se ser a força destrutiva de Tânatos o motor que impulsiona as diversas manifestações do comportamento suicida. Assim, este artigo tem como objetivo apresentar, por meio de uma ilustração clínica, as relações existentes entre trauma, dor psíquica e ato, considerando-se a ocorrência de uma situação de tentativa de suicídio. Não se pretende afirmar ou defender uma espécie de equação que "explique" as tentativas de suicídio de modo geral. Ao contrário, fiel aos ensinamentos da psicanálise, dedica-se especial cuidado e atenção à singularidade sempre presente no sofrimento humano. Pretende-se, desse modo, desenvolver um raciocínio teórico, com aplicabilidade clínica, o qual demonstra serem algumas situações de tentativas de suicídio resultantes de contextos nos quais o sujeito se vê acometido por um excesso (trauma) que seu aparelho psíquico mostra-se incapaz de processar e metabolizar. O material clínico apresentado ilustra situações que viabilizam pensar a tentativa de suicídio como um ato resultante da vivência e da experimentação de intensa dor psíquica. Nessa situação, o ato de matar-se parece ser a única via de descarga possível.
Entende-se, portanto, que, frente a essa tentativa de suicídio, a pessoa encontra-se no terreno da psicopatologia. A palavra patologia deriva do grego pathos, que significa sofrimento, e da qual também se derivam as palavras paixão e passividade (Berlinck, 2000). A inter-relação entre estes três sentidos da palavrapathos parece destacar-se na situação de uma tentativa de suicídio que se pretende ilustrar. Ao considerar-se a tentativa de suicídio como um ato decorrente da força do traumático que resulta na incapacidade de dar figurabilidade à dor psíquica, destaca-se a dinâmica singular de um ato. Busca-se compreender a relação entre sofrimento, paixão (excesso) e passividade, considerando o tema do trauma e seus efeitos no psiquismo. Propõe-se, então, como tema central deste artigo, a compreensão desta situação na qual, frente à ação do traumático, a ausência de palavras, provocada pela força do irrepresentável, leva o indivíduo a um ato de tentar dar fim à própria vida. O prefixo psico, acrescido da palavra patologia, alude a essa dimensão de excesso relacionada ao que é para o aparelho psíquico de difícil ou impossível elaboração.
Conforme Berlinck (2000), quando pathos acontece, "algo da ordem do excesso, da desmesura se põe em marcha sem que o eu possa se assenhorear desse acontecimento, a não ser como paciente, como ator" (p.18). A desmesura de pathos alude a algo que excede, que vai além do possível de ser suportado. Assim, entende-se ser pertinente propor uma articulação entre a noção de patologia e uma situação de invasão de intensidades decorrentes do traumático no território psíquico. Entende-se ser a "patologia" um processo que envolve sempre a noção de temporalidade, na medida que alude ao ocorrido antes, remete à sucessão de fatos e a acontecimentos importantes na vida da pessoa. A partir desses fatos, dessa linha de temporalidade, ocorrem as diferentes formas de processamento das possíveis situações de conflito psíquico (Fischbein, 1999).
Diferente de uma proposta de cura da medicina que visa restabelecer um estado anterior, ou seja, visa retornar a um estado antes saudável, na cura psicanalítica, se são colocados objetivos terapêuticos, esses apontam, segundo Hornstein (1989), "a algo que antes não existia, a não ser em forma potencial: o projeto terapêutico tem a ver, de fato, com o desenvolvimento de potencialidades que as inibições, sintomas e estereótipos caracteriais do paciente haviam diminuído" (p.40). Acredita-se, que em algumas situações de tentativas de suicídio, considerando-se a escuta analítica, trata-se exatamente do que menciona o autor. A escuta do ato da tentativa de suicídio pode ajudar o sujeito a criar e/ou desenvolver sua potencialidade simbólica. Portanto, parte-se do pressuposto de que o que é descarregado no ato de tentar acabar com a própria vida tem íntima relação com um excesso derivado de vivências traumáticas às quais não foi possível dar uma atribuição de sentido ou obter uma captura no mundo representacional do sujeito.
O caso de tentativa de suicídio abordado neste artigo circunscreve-se a um modelo no qual a vivência traumática imprime-se como uma marca a ferro e fogo que impõe uma repetição cega. O que se repete é a intensidade não qualificada ou simbolizada. Assim, a tentativa de suicídio, como saída, põe em evidência um ato que precisa ser escutado e historizado. Ao buscar a própria morte, o sujeito convoca o analista a uma escuta do que está além do desejo recalcado da neurose. Trata-se de uma escuta da urgência, pois se sabe da possibilidade de que, frente a um fracasso de uma tentativa, outra poderá vir a ocorrer. O ato suicida explicita um fracasso no processamento psíquico de intensas cargas afetivas (Knobloch, 1998; Fischbein, 1999; Gerez-Ambertin, 2003). A tentativa de suicídio pode resultar em uma situação sem ponto de retorno. Werlang e Botega (2004) alertam sobre o fato de que 20 a 50% das pessoas, que acabam se matando, já haviam tentado o suicídio antes. Portanto, segundo os autores, a existência de uma tentativa de suicídio mostra a probabilidade de que um suicídio venha realmente a ocorrer.
O eixo teórico da proposição, de ser a tentativa de suicídio um ato-dor, pode ser inferido do texto de 1920 de Freud, no qual o conceito de trauma é recuperado a partir de uma perspectiva do violento, do intrusivo, que gera uma demanda significativa de processamento psíquico. Mais do que colocar em pauta uma discussão entre trauma real e fantasia, evidencia-se a partir disso, a necessidade de pensar, a partir da perspectiva do sujeito, no efeito do excesso que o invade. Nesta linha de pensamento, alinha-se este artigo. Trata-se de propor a inter-relação existente entre vivências de excesso, portanto, traumáticas, dor psíquica e ato. Devido à impossibilidade de um processo de simbolização dessas quantidades, o traumático não encontra meios de metabolização psíquica. A operação que falha é a da simbolização.
No presente trabalho, parte-se de considerações a respeito da magnitude do traumático conforme proposto por Freud (1920/1976) em seu texto de 1920: "um acontecimento como um trauma externo está destinado a provocar um distúrbio em grande escala no funcionamento da energia no organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possíveis" (p.45). Portanto, propõe-se ser a tentativa de suicídio, naquelas situações nas quais se encontra na história de vida do sujeito um contexto de predomínio do traumático, uma forma de dar vazão a esse excesso via ato de tentar tirar a própria vida. Apresenta-se uma ilustração clínica a partir da qual se pretende trabalhar a inter-relação existente entre trauma, dor psíquica e ato, assim como apresentar o conceito de ato-dor.

MORFINA E DOR PSÍQUICA
O caso a ser apresentado integrou uma investigação mais ampla a respeito da história de vida de tentadores de suicídio e sua motivação para cometer tal ato. O material clínico que será, aqui, parcialmente exposto derivou-se de um conjunto de entrevistas realizadas com Gerusa por ocasião de sua internação hospitalar por tentativa de suicídio.
Gerusa tem 25 anos e é a primeira filha de seus pais. Está prestes a concluir o curso superior na área das ciências humanas. Sua infância foi tumultuada devido ao alcoolismo paterno e a violentas brigas no núcleo familiar. Os relacionamentos familiares giravam em torno de brigas por ciúmes, desconfiança e ameaças de morte. Seus relacionamentos amorosos sempre foram às escondidas, tendo rompido há pouco tempo um namoro de quatro anos, aparentemente sem maiores dificuldades. Sua primeira tentativa de suicídio foi por ingestão de medicamentos, sendo a segunda, a mais grave, por ingestão de morfina.
O traumático adentra sua história desde a infância. Quando tinha cerca de dois anos e meio, nasceu seu irmão. Sobre este fato conta:
"Lembro quando meu irmão nasceu. Rasguei todo o meu vestido. O pai e a mãe foram embora e eu fiquei ali, ninguém me explicou nada, não sabia onde estava o nenê, nada. Eu rasguei todo o vestido, me lembro bem da cena. A mãe conta que naquela semana eu fiquei bem sensível, queria chamar a atenção e o meu pai me bateu. Eu tinha uns ataques assim, quando eu ficava braba, eu batia a cabeça no chão, esperneava. Não chegava a me machucar. Só batia a cabeça no chão, gritava. Aos poucos ia me acalmando. Mas meu pai perdeu a paciência e me deu uma surra, que era para nunca mais eu fazer aquilo. A mãe conta que eu nunca fiz mais, aí comecei a ter asma."
Na dinâmica dos fatos relatados, Gerusa anuncia o destino que terá o que não puder ser processado psiquicamente. Se não pode representar via palavras o que a ataca intrapsiquicamente frente ao nascimento do irmão, passa a manifestar nas crises de asma o que lhe é de indescritível sentido. A crise de asma está associada no contexto médico a uma impossibilidade de expirar. Ou seja, o paciente com asma retém o que inspira, não conseguindo transformar oxigênio em gás carbônico (CO2). Fazendo uma analogia, Gerusa, na impossibilidade de desfazer-se do que a atacava por dentro, o efeito do traumático, mutila-se psiquicamente. Ela não consegue encontrar recursos nas palavras. Fica sem poder "trocar" com o ambiente que a circunda e "transforma" dor em asma. Frente à desautorização paterna, fica invadida por um excesso e submetida fisicamente a uma doença. Nesse sentido, o termo pathos mostra a desmesura que se "nomeia" em ato e não em palavra. O excesso é um companheiro no dia-a-dia de Gerusa:
"Meu pai era alcoolista e um homem muito violento. Ele não batia, mas dizia coisas que magoavam e machucavam muito. Era muito castrador, eu não podia fazer nada, ter amigos, sair, ter namorados. Ele não deixava, ficava com ciúmes. Era bem difícil, tinha um gênio violento. Quando bebia, ficava pior, mas mesmo sem beber não era fácil."
O início de sua adolescência provocou, segundo a própria Gerusa, uma importante mudança no vínculo já frágil com seu pai. O pai se afastou física e afetivamente dela, passando a controlar suas saídas e amizades. Gerusa sentia-se muito triste por não poder sair e fazer as coisas de que gostava. Sua rotina se restringia a ir da casa para o colégio e do colégio para casa. Acabava obedecendo ao pai por medo de seu gênio violento, independentemente da bebida.
"Era difícil porque muitas vezes eu queria ir e não achava justo ele me proibir... eu não poder fazer as minhas coisas. Mas aí se criava todo um problema dentro de casa. Por outro lado, eu me sentia meio que culpada de estar criando briga dentro de casa com a minha mãe, com o meu irmão sendo que, muitas vezes, eu acabava fazendo escondido."
Seu temor era comprovado na realidade com o comportamento paterno. Não se tratava de fantasias em relação a um pai ciumento, mas sim de experimentar fatos reais de violência.
"Uma vez eu briguei com ele porque cheguei um pouco mais tarde em casa, e ele tinha uma arma, estava no meio da sala com a arma.[...] Uma vez a gente brigou e ele veio para cima de mim, me bateu e eu tive uma luxação no dedo. Meu irmão veio me defender, ele pegou a arma e ameaçou meu irmão. Se a gente deixasse, a coisa chegava ao extremo. [...] Se a gente desafiasse ele, ele pegava a arma. Então eu ficava quieta."
A relação com a mãe, segundo Gerusa, era melhor. Porém, após uma marcante situação de violência do pai para com a esposa e frente à recusa desta em manter-se separada dele, Gerusa passa a ter também dificuldades no relacionamento com a mãe. Expressa, claramente, não entender a manutenção do casamento por parte dela. Percebe-se nesse momento a desestabilização de um vínculo de confiança e apoio entre ambas. A violência do pai, que tinha, segundo Gerusa, a mãe como alvo principal no que diz respeito não apenas a ameaças de morte, mas também a desconfianças de traição, evidencia não se tratar de um ciúme neurótico. Pelo caráter quase persecutório e delirante das fantasias paternas de traição, assim como pela violência desmedida, insinuam-se possíveis fantasias e desejos homossexuais deste homem. Freud (1922/1976) menciona o caso de um paciente que sentia intensos ciúmes da esposa. Descreve o modo como esse homem vigiava "a mente inconsciente de sua esposa" (p.274), interpretando seus atos mais casuais como confirmações de traição. Freud (1922/1976), ao traçar um paralelo entre a ambivalência da paranóia e o ciúme excessivo, considera que a "ambivalência serve, assim, para o paranóico, ao mesmo objetivo que o ciúme servia ao meu paciente: o de uma defesa contra o homossexualismo" (p.275). Seria essa uma hipótese também viável no caso do pai de Gerusa, pela freqüência e característica de repetição nas cenas de intensos ciúmes que tinha na relação com a esposa e com a filha.
Sobre o irmão, Gerusa conta que, há pouco tempo, obteve dele mesmo a confirmação das suspeitas a respeito de sua homossexualidade. Menciona que seus pais sempre fizeram de conta que não sabiam o que se passava com o irmão:
"A gente sempre se deu bem. Passamos por muitas coisas juntos e como somos irmãos é diferente. A mãe viveu também, mas é mãe. Ele é gay, mas minha mãe não sabe. Melhor, ela não quer saber. Não é que ele esconda, só não vê quem não quer. Todo mundo no trabalho dele sabe. Os amigos dele vão lá em casa; ele tem amigos bem afeminados. Ela não aceita de jeito nenhum. Ele vai à parada gay e mostra as fotos. É tapar o sol com a peneira. Ela me dá umas indiretas, pergunta que tipo de figura materna ele teria, mas o que ela quer é que eu confirme que ele não é gay. Eu não falo nada. O pai também não sabia, não sabia como a mãe não quer saber. Quando ia alguma amiga dele lá em casa, eles ficavam felizes e aliviados."
Apesar da boa relação que demonstra ter com o irmão, percebe-se no relato de Gerusa que ambos acabam se encontrando pouco, sendo que André tem atualmente uma vida ainda mais distanciada de Gerusa e da mãe. Na medida que ela conta fatos de sua infância e de sua adolescência, fica evidente o quanto ela e seu irmão se aproximavam pelo temor de que algo de terrível acontecesse devido ao caráter violento do pai.
Com 15 anos, Gerusa faz sua primeira tentativa de suicídio. Ingere grande quantidade de remédios, mas, assustada com a forte taquicardia, acaba pedindo ajuda à mãe e ao irmão, sendo levada à emergência de um hospital. Lembra:
"Minha mãe ficou bem nervosa, meu pai estava tão alcoolizado que nem viu nada, ficou dormindo. Eu não tinha vontade própria [...], o meu pai continuava daquele jeito, não podia ir à casa das minhas amigas, não tinha ninguém para conversar. Fim de semana não podia, pois tinha que ficar estudando e fazendo os trabalhos. Os 14 e os 15 anos foram bem difíceis [...] Mas aí eu pensei em ir ao psiquiatra, toda vez que ele via que eu ia ao psiquiatra, me dizia que eu era louca."
Ser nomeada como louca deixa Gerusa ainda mais sem possibilidade de enxergar um caminho de esperança. Buscar ajuda é adquirir a condição de louca. Com outra ilustração, conta o modo como "resolvia" e explicitava sua indignação ou raiva. Por não querer debutar conforme desejo paterno, ela corta todo seu longo cabelo. Acaba por debutar de cabelo curto com uma imagem despersonalizada da feminilidade cujo exercício se dá sempre às escondidas ou no território da dor. Precisa fazer um esforço frente às poucas amigas que vão até sua casa para que não percebam o ambiente familiar. Nessas ocasiões, o pai mostrava-se amável na frente dos outros, mas, se algo o desagradasse quando estavam a sós, as ameaças voltavam.
Ao abordar o aspecto imperativo de silenciar sobre o traumático, Maia (2003) considera que a solidão do silêncio faz com que o ocorrido não possa ser inscrito num registro de significações a fim de ocupar um espaço de passado para chegar a um posterior esquecimento. Portanto, essa espécie de "buraco negro", nomeado pela autora, passa a funcionar com uma força de atração. Por isso, no terreno do traumático, não se está descrevendo um processo de recalcamento, mas, sim, de clivagem.
Ao trabalhar as proposições de Freud a respeito da cisão do eu (Ichspaltung) e da defesa denominada por Freud de desmentido (Verleugnung), Figueiredo (2003) traz uma importante contribuição. O autor propõe queVerleugnung seja nomeada como desautorização. A desautorização, segundo Figueiredo, nega a autorização para que um episódio de ruptura se inscreva no campo da experiência do sujeito e que este sujeito se converta em autor desta experiência. No processo de desautorização, "o que se recusa não é uma dada percepção, mas o que vem ou viria depois dela, seja como uma percepção que a primeira torna possível, uma possibilidade de simbolização, uma conclusão lógica aparentemente necessária ou uma lembrança que a percepção pode ativar". Trata-se, então, de impedir, via desautorização, "que o que se vê leve o psiquismo ao que poderia inferir daquilo que foi visto" (p.60).
Para Ferenczi (1933a/1992) é, exatamente, a impossibilidade de representar o ocorrido que torna o traumático patogênico. Ao mesmo tempo que busca proteger-se dessa maneira, o sujeito denuncia sua fragilidade psíquica. A vivência traumática fica excluída de um contexto significativo. Segundo Fischbein (1999), "a tendência à descarga e ao ato são os elementos básicos que observamos naqueles estados nos quais o sujeito repudia a dor de reconhecer seus limites e carências. São estados de repúdio das representações que dão figurabilidade à dor psíquica" (p.266).
Na história de Gerusa, esse aspecto está presente em seus relatos sobre a morte de pessoas da família:
"Fiquei pensando sobre essa coisa que eu tenho com o meu pai. Ele já faleceu e eu não consigo sentir, sabe? E com a morte da minha vó, a mesma coisa aconteceu. [...] Mas eu achava que era por eu não conviver com ela todo o dia. [...] E com meu tio também foi a mesma coisa. E eu fui no enterro dos dois. A vó, inclusive, cheguei a ver quando ela estava mal na UTI. Vi ela morta, depois quando arrumaram ela, quando vestiram ela, prepararam ela. Eu não estava junto, mas eu vi. [...] Eu chorei, mas parecia que era uma coisa natural, sabe? E a vó morreu assim, ninguém esperava que ela fosse falecer."
Em 1997, o pai de Gerusa tem o diagnóstico de câncer na laringe. Faz o tratamento aparentemente com certo sucesso, mas surge um novo câncer no pulmão em janeiro de 2004. O estado de saúde dele piora consideravelmente até ser desenganado pelos médicos. Gerusa envolve-se muito nos cuidados com o pai, sendo que reveza suas atividades de estágio da faculdade com períodos no hospital, cuidando dele após um longo tratamento em casa. Nesta mesma época, rompe um namoro de quatro anos. Sente-se pouco apoiada pelo namorado na situação de morte iminente do pai. Este rompimento não foi, aparentemente, difícil para ela, pois relata que há tempos se sentia distante dele. Percebia-o muito ocupado com suas próprias coisas e sentia-se pouco considerada por ele. Porém, desde janeiro de 2005, por sentir-se cansada e muito desanimada, Gerusa busca, de novo, ajuda psiquiátrica.
Em agosto de 2005, na fase terminal da doença paterna, Gerusa, no hospital, tem uma discussão com a mãe que desencadeia sua segunda tentativa de suicídio.
"Foi muito uma solução; eu estava muito cansada, muito estressada. O estopim foi quando que eu briguei com a mãe no hospital. Nós brigamos por causa de um creme. Eu comentei que tinha um creme que estava em promoção e que a minha tia estava vendendo no hospital. Daí, ela me chamou de consumista, que eu estava num hospital, que tudo era baratinho para mim, começou a me dizer um monte de coisas. [...] Ela dizia que a minha faculdade já era cara, que ela não sabia como a gente ia ficar de pensão depois que o meu pai falecesse. E eu me senti assim um cheque, dinheiro... tudo que eu fazia parecia que não tinha valor nenhum. Eu me senti um nada. Eu saí do hospital e, quando cheguei em casa, tudo que ela falou estava na minha cabeça. Lembro que tentei ligar para o meu terapeuta, mas não consegui falar com ele. [...] Estava precisando falar com alguém, mas sabia que ninguém ia estar em casa; daí fui para a cozinha e vi os vidros de morfina que eram do pai. [...] Eu tomei tudo que tinha: eram seis vidros. Depois que tomei, deitei e apaguei, rapidinho. Só lembro de umas vozes no hospital me chamando. Perdi totalmente a noção."
A tentativa de suicídio de Gerusa é considerada muito grave pelos médicos. Fica dez dias na UTI, correndo risco de vida por sérios problemas respiratórios e uma parada cardiovascular. Precisa de ventilação mecânica e cuidados especiais. Sai da UTI, mas seu estado de saúde exige a permanência de mais 30 dias de hospitalização. Seu pai vem a falecer exatamente no período de sua internação. Conta que, quando pequena, rezava para o pai morrer, pois achava que essa era a única forma de terem paz dentro de casa. O pai estava aposentado desde que ela tinha 10 anos e ficava durante o dia em casa com os filhos, alcoolizado, enquanto a esposa trabalhava.
"A gente tinha muita raiva, por causa da situação toda que estava acontecendo. Muitas vezes a gente pensava, queria que ele morresse mesmo. Lembro que não queria que ele parasse de beber porque eu pensava que por um lado até era bom, pois assim ele morre mais cedo. A gente sempre tinha a impressão que era só ele morrendo, porque a mãe tentou se separar uma vez e, se ela se separasse dele, ele ia matar ela, e ia acabar acontecendo algumas outras coisas que ela tinha medo. Então parecia que essa era a única solução. Que ele morresse mesmo, era isso que a gente comentava dele. E, quando ele parava de beber, parecia ser pior, porque ele ficava insuportável."
Como Gerusa não acompanha a morte do pai, sente-se confusa em relação ao ocorrido.
"Está tudo bem misturado. É estranho porque, quando eu estava no hospital, ele morreu. Eu não consigo sentir que ele morreu, é esquisito. [...] Não acompanhei quando ele morreu, então é estranho, não consigo sentir. Até converso com mãe, mas é meio estranho. [...] Quando eu soube o que tinha acontecido, a primeira coisa que eu senti foi um alívio. Eu sabia que ele não estava sofrendo mais, ele já estava um corpinho, pequeno. Ao mesmo tempo me dá um alívio, alivio porque, tipo isso foi muito marcante na minha personalidade, sabe?"
A clivagem protege Gerusa de uma invasão de sentimentos, mas deixa-a no terreno da dor. O conceito de clivagem, aqui, é utilizado no sentido que lhe atribui Maia (2003). Para a autora, a clivagem está relacionada nos textos de Freud a um movimento de recusa. Essa recusa "abre a possibilidade de que possam coexistir no ego duas atitudes psíquicas diferentes frente à realidade: a primeira leva a realidade em consideração; a segunda, atendo-se à sobrevivência psíquica, nega-a" (Maia, 2003, p.166). Para proteger-se da dor, Gerusa acaba abrindo mão de parte de si mesma. Não pode sentir quando na verdade está atordoada pela dor que provoca esse excesso não representado simbolicamente. A dor não consegue ser processada como sentimento. Segundo Fischbein (1999), a bagagem representacional do sujeito protege-o do impacto de estímulos. No caso de Gerusa, falta-lhe esse recurso. A clivagem aparece como única possibilidade de "defesa". Para Maia (2003), na clivagem, "coloca-se em xeque a integridade narcísica, na medida que aquilo que é silenciado exige a redefinição do sujeito, endurecendo suas vias de afetação para com o mundo: o eu terá que vigiar este que dentro dele é vivo e morto simultaneamente" (p.155).
No texto "Projeto para uma psicologia científica, Freud" (1895/1987) utiliza a concepção de invasão de quantidades no aparelho psíquico, as quais, de tão intensas, chegam até mesmo a fazer desaparecer a possibilidade de investimento em um mundo representacional. Nesta situação, frente a quantidades intensas e inesperadas, a capacidade de retenção de memória é substituída por uma condição de passagem equivalente a uma ausência de memória. Assim, nesse contexto, Freud (1895/1987) aborda a questão da dor psíquica. A dor está intimamente ligada a um acréscimo de quantidades no aparelho psíquico. A dor deixa uma marca, um rastro, efeito desse excesso. A condição representacional está abalada nessa situação. Valls (2004) escreve que "Freud está explicando aqui como o trauma vai gerando no aparato psíquico espaços sem investimento de representação de um objeto". Acrescenta ainda o autor que, por mais que, em segunda instância, tente-se buscar essa representação, mesmo que ainda se consiga isso, "me parece que serão investidas, em todo caso, representações que se prestam aos fins de repetir a sensação dolorosa e seguramente o que mais se repetirá nelas não será somente determinada cena senão o fato de que qualquer cena da vida possa terminar em dor". Ou seja, tais cenas, segundo o autor, "buscam simplesmente repetir a dor, o trauma" (p.82). Portanto, nesta leitura, encontram-se subsídios para se pensar que o efeito do resto da dor leva a uma busca de repetição, ou melhor, tem como efeito a instalação de um circuito de repetição da dor. Mesmo quando alcança algum tipo de representação, esta visa reproduzir a dor, o trauma. Uma dor primeira (excesso) gera repetições, que são "tentativas de criar uma representação" do irrepresentável, mas que, diante da impossibilidade disto, cedem espaço ao ato como única alternativa de descarga.
As vivências de maus-tratos e violência deixam à Gerusa um modelo de dor que fica se repetindo num circuito no qual ora é ativa, ora é passiva. Corta seus cabelos (ato dirigido contra si mesma) no "protesto" contra todos os cortes que recebe do pai, tentando desviar a hostilidade que teria a figura paterna como alvo. Antes, frente ao nascimento do irmão, a ira se transforma em asma. Batia com a cabeça no chão, machucava-se fisicamente frente a uma dor da alma. O que se passava com Gerusa por ocasião do nascimento do irmão não pode ser nomeado como uma situação de ciúmes. Talvez, frente à pobreza dos vínculos com as figuras parentais, a chegada de um irmão ameaçasse deixá-la ainda com menos do pouco que recebia.
Nesta seqüência de contar fatos de sua história, descreve uma cena entre o pai e a mãe que a marcou profundamente.
"Eu lembro do pai indo para o banheiro, ameaçando bastante a mãe. O meu irmão sempre se metia, desde pequeninho se metia nas brigas. Aí ele pegou a arma, foi para o banheiro e trancou a porta com a mãe lá dentro. A gente ficava tentando ouvir o que estava acontecendo. Meu irmão ficava tentando abrir e batendo na porta. E aí depois ele levou a mãe para o banheiro dos fundos e ficou trancado aí também. O tempo todo ele estava com a arma. [...] Éramos só nós dois em casa [ela e o irmão]. E aí depois veio a vizinha porque ouviu o barulho veio e tentou acalmar meu pai. Ela ouvia a briga na janela, ficava conversando, acalmando ele, pedindo para ele sair dali. Minha mãe estava bem nervosa, chorando."
Quando conta o ocorrido, diz que não consegue entender o fato de não ter tido nenhuma reação depois de a mãe ter saído daquela situação: eu me lembro que o meu irmão abraçou a minha mãe com força e eu não conseguiafazer nada, fiquei parada. A passividade de Gerusa atualiza o impacto do trauma, não pode fazer nada com o excesso frente à desmesura do vivido. O único ato que pode fazer é contra si mesma.
Propõe-se, portanto, buscar compreender a referência ao tema do excesso. De que excesso fala sem palavras o ato de Gerusa? O excesso para ela é a ameaça real de desamparo. O nascimento do irmão ameaça sua sobrevivência psíquica. A mãe deixa-a junto com o irmão em casa para serem cuidados por um pai alcoolizado. O que está descuidado em Gerusa faz com que o traumático irrompa.
Na etiologia dessa modalidade de tentativa de suicídio, o tema edípico não se faz presente como na neurose no terreno da exclusão. Trata-se aqui de uma vivência edípica na qual tanto o pai como a mãe, ou ambos, não puderam colocar em um tempo anterior essa criança no lugar de "sua majestade o bebê". Freud (1915/2004) usa esta expressão para descrever o lugar ocupado pela criança na relação com os pais à medida que ela passa a ser depositária de tudo que estes desejaram ser: "a criança deve satisfazer os sonhos e os desejos nunca realizados dos pais, tornar-se um grande homem e herói no lugar do pai, ou desposar um príncipe, a título de indenização tardia da mãe" (p.110). Dessa forma, o amor parental manteria essa estreita ligação com o processo de renascimento do narcisismo dos pais frente ao nascimento de um filho.
Na história infantil de Gerusa, faltou-lhe ocupar esse lugar de ser o objeto de esperança dos ideais não realizados pelos pais. Gerusa não foi investida como um objeto de esperança para o qual se abre a noção de devir e de possibilidade de investimento em projetos de vida. As constantes restrições sofridas falam de um espaço familiar marcado pela desesperança. A fantasia de ser a morte do pai a única alternativa de salvação faz com que busque como saída este caminho de morte de desfazer vínculos com Eros. Um pai alcoolista, uma mãe submissa e frustrada com sua vida, mas presa nesta escolha que a deprime, um irmão que não pode ser nomeado em sua homossexualidade. Cabe à Gerusa confirmar, com suas tentativas de suicídio, com seus atos de tentar acabar com a própria vida, o predomínio e a vitória da desesperança. A desesperança aqui é proposta no sentido que lhe outorga Fischbein (1999). Para o autor, "a desesperança que aparece nesses momentos está dada pela claudicação do aparelho psíquico na realização de seus movimentos de reinvestidura. Os sujeitos se queixam de uma vaga sensação de vazio, de transtornos indizíveis e de sentirem-se imersos em um universo pleno de carências e com difusa excitação" (p.277). Para o autor, o traumático ataca o investimento narcisista e daí resulta a experiência de desvalimento.
Gerusa é nomeada pela mãe durante a briga no hospital como uma consumista, alheia ao que poderia ocorrer com a família após a morte do pai. Gerusa não se reconhece nas palavras da mãe, mas também não sabe nomear-se. Sente-se "um nada" e, assim, usa a morfina do pai para silenciar sua dor. Sua tentativa tem conseqüências como a deformação de seu corpo. É como se ele passasse a espelhar o excesso que lhe acompanha dentro.
"Cheguei a ter uma parada cardiorrespiratória, mas não fiquei com nenhuma seqüela. Quando eu fui para a Psiquiatria do hospital e me olhei no espelho e fiquei muito assustada comigo. Isso que já não era o jeito que eu estava antes. Dizem que eu estava enorme, parecia uma mulher de cento e poucos quilos."

O ATO-DOR E A ESCUTA ANALÍTICA
Neste texto, abordou-se a seqüência de excesso, dor e ato que está presente na tentativa de suicídio que tem como ponto de ancoragem as vivências traumáticas do sujeito. A partir do material apresentado, propõe-se nomear a tentativa de suicídio resultante de vivências traumáticas como sendo um ato-dor.
Entende-se como ato-dor um ato decorrente da vivência de situações traumáticas acrescidas da incapacidade psíquica de processar este excesso. No ato-dor observa-se o predomínio do ato como forma de evacuação dessas quantidades que provocam dor psíquica e deixam o sujeito encurralado num processo de repetição. Para compreender-se a ocorrência e dinâmica dessa modalidade de ato, é necessário recorrer aos conceitos de trauma, dor psíquica, compulsão à repetição e irrepresentabilidade.
O conceito de compulsão à repetição foi aqui entendido como força de impulsão do ato-dor, pois ele é, segundo Laplanche e Pontalis (2001), "ao nível da patologia, processo incoercível e de origem inconsciente, pelo qual o sujeito se coloca ativamente em situações penosas, repetindo assim experiências antigas sem se recordar do protótipo" (p.83). Dessa ausência de memória decorre a sensação de motivação atual e de novidade que acompanha a repetição. A dor resultará exatamente do circuito que evacua, mas não elabora o excesso.
Dor, compulsão à repetição e ato se confundem na busca de dar fim a algo que atormenta o sujeito. A desesperança é a companheira e motor de combustão para a busca de fim. O ato-dor está relacionado à incapacidade de atribuição de sentido a essa quantidade que ingressou no psiquismo. Tal modalidade de ato denuncia uma urgência subjetiva conforme descreve Seldes (2005). Ao usar a expressão "urgência subjetiva", o autor está se referindo à possibilidade de aplicar a psicanálise àquelas situações de urgência nas quais o sujeito não pode ainda sustentar uma demanda, ou seja, situações de desespero. Nesse caso, pode-se "oferecer-lhe uma assistência imediata que lhe dá a possibilidade de captar, com as variáveis que traz, aquilo que sumiu no desespero, o que o deixou perplexo, agoniado e inclusive desacorçoado" (p.24).
É necessário considerar que diversos autores da psicanálise (Marcelli & Braconnier, 1989; Knobloch, 1998; Flechner, 2000) salientam que a tentativa de suicídio deve ser sempre entendida como indício de uma perturbação importante nos arranjos pulsionais e recursos defensivos. Especificamente, Marcelli e Braconnier (1989) evidenciam que "embora efetivamente haja urgência de escutar o suicida, nem sempre há urgência de agir, de 'fazer alguma coisa'. Em matéria de tentativa de suicídio, a única urgência é a urgência da escuta" (p.112). A necessidade de escutar e de buscar formas de construir um recurso a fim de processar psiquicamente o que provoca dor psíquica apóia-se na proposição de que, na tentativa de suicídio, o sujeito está frente à força do traumático. Knobloch (1998) descreve como sendo da ordem do traumático "aquilo que rompe com os sistemas de representação, ou seja, o irrepresentável" (p.22). Segundo Flechner (2000), "parece fundamental esclarecer que a tentativa de suicídio ou o suicídio se converterá em um momento no qual uma quebra entre pensamento e ato deverá fazer-se presente" (p.57).
Por meio de um exemplo relativo a pacientes com impulsos suicidas, Ferenczi (1932/1997) descreveu o modo como um terapeuta pode convocar o paciente a falar sobre a situação traumática, mas, agora, em outro contexto. Para o autor, é favorável mostrar ao paciente que ele não está inteiramente só. Afirma Ferenczi (1933b/19927) que
"talvez não lhe possamos oferecer tudo o que caberia em sua infância, mas só o fato de que possamos vir em sua ajuda já proporciona o impulso para uma nova vida, na qual se fecha o dossiê de tudo o que se perdeu sem retorno e, além disso, efetuando o primeiro passo, é permitido contentar-se com o que a vida oferece, apesar de tudo. Não rejeitar em bloco, mas vitalizar o que ainda pode ser utilizável." (p.117)
A capacidade de construir um escudo protetor a partir do complexo representacional que servirá como um recurso importante para o sujeito processar os estímulos externos depende, segundo Fischbein (1999), "da sedimentação das experiências de vida de cada sujeito e da ajuda que teve de seus objetos primários para processá-las" (p.275). A respeito da possibilidade de elaboração das experiências traumáticas, Maia (2003) considera que "é preciso fazer surgir no setting afetos que, por sua dimensão traumática, provocam cisões patológicas para o sujeito. Entendo que o sujeito que tem sua vida psíquica em parte devassada por aspectos traumáticos age a dor, sendo incapaz de significá-la" (p.238). Nesse sentido, para a autora, muitas vezes, no espaço transferencial, a compulsão à repetição se apresentará como "uma oportunidade, às vezes única, de fazer mover essa engrenagem tão delicada que se monta a partir das vivências traumáticas patológicas" (p.239). Ao marcar a diferença entre agir a dor e expressar a dor, a autora considera que a repetição dos afetos nesse espaço possibilita a retirada das experiências traumáticas da clandestinidade e do estado de dissociação.
A escuta analítica é fator essencial quando o ato ocupa o lugar das palavras. Escutar o ato-dor é escutar o irrepresentável, ou seja, é a escuta do que escapa ao complexo representacional do sujeito. A repetição será trabalhada e nomeada no terreno da transferência e assim poder-se-á construir, junto com o paciente, palavras que metabolizem o excesso. Na mesma linha de pensamento adotada neste artigo, Fischbein (1999) assinala que nesses casos "não se trata do desvelamento de uma história recalcada, mas de inscrição e de armar o texto do que não foi representado" (p.280). Somente o trabalho com uma história significante poderá conter um ato. Assim, o espaço de escuta pode ser um fator vital na vida desse sujeito aprisionado pela repetição. Para Maia (2003), a possibilidade de recuperação da experiência traumática em um processo de análise "poderá conferir um lugar psíquico aos afetos e às marcas traumáticas que, por sua característica patogênica, se reproduzem ad infinitum, obliterando a possibilidade de devir subjetivo" (p.174). As sensações envolvidas na clivagem não deixam lugar "a uma emoção propriamente dita" (Fischbein, 1999, p.277). Assim, ao tirar essa experiência do estado de dissociação, devolve-se ao sujeito a capacidade de apropriar-se de si mesmo, de transformar dor em sentimento. Ao romper a cisão que o incapacita a ser dono de seu destino, abre-se à palavra um recurso de mediação do mundo psíquico.
Gerusa, após ser escutada, conta:
"Eu me senti mais leve, também acho que vir aqui me fez pensar nas coisas. Eu inclusive dormi melhor sem remédio, que é uma coisa que eu não estava conseguindo. No hospital eu estava tomando um remédio até para poder dormir. Em casa eu não estava conseguindo dormir, faltava o remédio. [...] Eu acordo até antes do relógio, que era uma coisa que eu não ouvia o celular tocando no volume máximo. De manhã, nos últimos dias [...] eu não estava conseguindo acordar."
A tentativa de suicídio de Gerusa pode ser entendida como um ato-dor que traz condensado em si uma história de excessos. Excesso de faltas que a vão deixando à mercê da impossibilidade de atribuir uma representação simbólica a suas vivências. Neste cenário de desesperança, Gerusa vai tecendo os fios de um entramado que não altera suas repetições. A desmesura do que a invade condena-a a não ter esperança. Investir em um tempo futuro exige um montante de energia que evidencia sua carência. Gerusa expressa não poder afirmar que não voltará a tentar se matar, pois já o fez duas vezes. Ao mesmo tempo, esboça uma esperança nesse espaço de escuta, ao falar de seu entusiasmo com o início de um processo terapêutico para o qual foi encaminhada. Acredita-se que a relação analítica viabilize o acesso de Gerusa a um território vitalizado e de esperança para que ela possa, então, interromper um conhecido circuito de trauma, dor e ato.

REFERÊNCIAS
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terça-feira, 6 de maio de 2014

Sobre o tratamento analítico de um caso de autismo: linguagem, objeto e gozo



On the analytical treatment of a case of autism: language, object and jouissance


Ana Beatriz FreireI; Elisa Carvalho de OliveiraII
IPsicanalista, professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, pesquisadora do CNPq, coordenadora da pesquisa Dispositivo Clínico Ampliado: criança e adolescente psicóticos em direção ao laço social e à inclusão escolar.
IIPsicanalista - Escola Letra Freudiana, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da UFRJ, supervisora no grupo de pesquisa Dispositivo Clínico Ampliado: crianças e adolescentes psicóticos em direção ao laço social. Endereço: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psicologia. Av. Pasteur, 250 fundos. Rio de Janeiro, RJ - Brasil. CEP: 22290-240. E-maileco@cosmevelho.com.br



RESUMO
A partir de fragmentos do caso clínico de uma criança autista, pretende-se, neste artigo, interrogar o saber psicanalítico, em particular, os conceitos de linguagem, significante e objeto. No caso clínico citado, a direção do tratamento se deu pela escuta do analista dos "elementos verbais" apresentados pela paciente, o que propiciou, ao longo das sessões, a construção de um determinado "termo verbal". A hipótese sustentada é a de que esse termo operou, no percurso do tratamento, como algo da ordem de um "significante privilegiado" tal qual formulado por Lacan (1985[1972-1973]). Este termo específico foi articulado pela paciente, em função de um saber-fazer próprio com a linguagem, ocorrendo não sem uma modalização do gozo, abrindo a possibilidade do surgimento do olhar, na via da construção das bordas corporais.
Palavras-chave: psicanálise; clínica; autismo; gozo; significante.

ABSTRACT
Based on fragments of the clinical case of an autistic child, this paper intends to question the psychoanalytic knowledge, in particular, the concepts of language, significant and object. In this case study, the direction of the treatment took place in accordance to the analyst's listening of the "verbal elements" presented by the patient, which resulted, during the sessions, in the construction of a particular "verbal term". The hypothesis supported is that this term has operated, in the course of treatment, as something similar to a "privileged significant" as formulated by Lacan (1985[1972-1973]). This specific term was articulated by the patient, according to her own know-how towards the language, not without a place of jouissance modalization, opening the possibility of the emergence of the look, with the construction of the edges of the body.
Keywords: psychoanalysis; clinic; autism; jouissance; significant.



1. INTRODUÇÃO
A partir de fragmentos do caso clínico de uma criança autista, pretendemos interrogar o saber psicanalítico, em particular, os conceitos de linguagem, significante e objeto.
Sobre o saber, Lacan (2003[1967]) distingue o saber referencial do textual. O saber referencial corresponde àquele sobre o qual se aprende, aquele que é estudado nos textos dos mestres. O saber textual concerne ao saber inconsciente, que vem a ser lido em uma análise e cuja leitura opera transformações na maneira de apreender o saber referencial, de modo a subjetivá-lo. Aprender a partir da psicanálise implica uma relação com o saber, uma relação que assume a falha no saber, falha que Freud no início de sua obra e clínica1 detectou ao verificar que seus mestres transmitiram-lhe aquilo que não sabiam.
Assim, seguindo Freud e Lacan, no lugar do não saber, perguntamos: o que a clínica do autismo pode nos ensinar e como, por meio dela, se pode questionar a teoria?
Esses pacientes nos ensinam, primeiramente, que qualquer saber universitário que se quer totalizante, global e a priori é, no mínimo, vão.
Nesta via, propomos pensar a pesquisa em psicanálise não para reparar os impasses com os quais o analista se depara ao longo das sessões com o paciente, o impossível próprio da clínica, mas para aprender com esses impasses, propomos alargar, sem perder a precisão e o rigor, os conceitos da psicanálise, para que um saber-fazer possa ser construído a partir das invenções de cada paciente. O autismo nos faz questionar os conceitos que acreditávamos estar sedimentados, adquiridos, já como um consenso ou com uma inteligibilidade. Vale, portanto, relembrar o que aprendemos com Lacan sobre e com os autistas.
Em primeiro lugar, assinalamos o que, na "Conferência em Genebra sobre o sintoma", Lacan (1988[1975a]) nos indica que se trataria de saber por que há algo no autista, ou no chamado esquizofrênico, que se congela.2Poderíamos considerar, como hipótese de nosso trabalho, que o algo que se congela, mencionado por Lacan (1975a) estaria referido ao significante Um. Um S1 "congelado", que não faria cadeia e, sendo assim, não cumpriria a função de representar o sujeito para outro significante. No entanto, apesar desse algo que se congela, não se poderia dizer que o autista não fala. O fato de as pessoas em seu entorno terem dificuldade para escutá-lo, na medida em que os elementos verbais que veiculam (sons, gritos e palavras) não estabelecerem um laço de comunicação com o outro, isso não impede que sejam tratados finalmente, retomemos Lacan (1988[1975a], p. 135), de "personagens sobretudo verbosos".
Ao abordarmos o termo "verboso", consideramos que este apontaria para uma relação muito singular do autista com a linguagem. Assim, não poderíamos conceber que ele estivesse fora do verbo, mas justamente no verbo onde um gozo a mais se presentificaria como excesso (em função da problemática que se apresenta na articulação dos significantes na linguagem), o que justifica o termo "verboso". Por estarem no verbo, inclusive, constatamos clinicamente que os autistas são passíveis de falar, sobretudo, como observa Maleval (2007), em momentos de devastação.
Em segundo lugar, seria preciso, como nos indica Lacan (1988[1975a]), p. 134), "não nos ocuparmos demasiadamente deles", nem nos colocarmos no lugar do Outro, o que exacerbaria a posição de objeto no qual toda criança se instaura, para podermos escutar o que articulam. Lacan vai mais longe, considera que os autistas "articulam" muitas coisas e que certamente temos algo a lhes dizer. Cabe aqui verificarmos o que eles articulam. Acompanhando-os em suas construções aparentemente bizarras, a proposta de estarmos presentes, mas quase nada - "à peine" - (STEVENS, 2008, p. 25-26), possibilita ao analista direcionar o tratamento para a escuta das construções e invenções apontadas pelo paciente.
Essa situação é bem ilustrada pelo caso clínico de Íris, uma criança autista. Em vez de nos ocuparmos dela, deixamo-nos conduzir por suas vocalizações e movimentos corporais aparentemente sem sentido e pudemos ouvir muitas coisas.
Passaremos agora, a partir de fragmentos do caso clínico dessa paciente, mais especificamente, a analisar o estatuto de um "termo verbal" (LACAN, 1975b, p. 33) construído pela paciente em determinado momento do tratamento que aqui escrevemos: "Ram". Mais especificamente, objetivamos interrogar em que medida poderíamos considerar esse termo como algo da ordem de um significante privilegiado, que é formulado por Lacan (1985[1972-1973]) acerca do S1, no "Seminário: mais, ainda", livro XX.

2- FRAGMENTO CLÍNICO
A situação em que esta paciente se encontrava, inicialmente, era muito grave, sendo-lhe somente possível emitir sons e gritos indiferenciados, sem estabelecer propriamente uma comunicação com os outros à sua volta. Até aquele momento, a paciente não dirigia o olhar a outra pessoa, era alimentada exclusivamente pela mãe, com alimentos pastosos, e não tinha condições de utilizar o banheiro por conta própria.
Para a realização do trabalho, em torno da singularidade deste caso clínico, tomamos, como uma importante referência teórica, a pontuação feita por Lacan (1988[1975a], p. 134) na "Conferência em Genebra", ao explicitar que, como o nome indica, os autistas "escutam a si mesmos", apontando para um pretenso gozo fechado, que não incluiria o Outro. Para além de si mesmos, insistamos com Lacan, eles escutam muitas coisas, sendo que, em alguns, o fato de escutarem pode, inclusive, desembocar em uma alucinação. Nem todos os autistas escutam vozes, mas certamente articulam muitas coisas. Nessa situação, trata-se de ver precisamente de onde escutaram o que articulam, o que denota a possibilidade de algo da ordem de uma alteridade se apresentar para o autista.
Essa marcação de Lacan se constitui em uma baliza importante para abordarmos a clínica do autismo, uma vez que, no caso citado, somente em função da escuta do analista, que tomou as manifestações vocais e motoras da paciente como articulações singulares, foi sendo possível circunscrever uma determinada "atividade" realizada pela paciente ao longo das sessões.
Tal atividade envolvia certa ordem, ou seja, uma articulação, que consistia no fato de Íris "extrair" pequenos pedaços de tinta de alguma mesa, porta, ou ainda de uma parede. Essa "extração", todavia, operava-se quase sempre no ponto específico da superfície onde Íris encontrasse alguma reentrância ou falha. A paciente centrava sua ação no "trabalho" de cavar e recolher o produto de sua escavação, para então jogá-lo longe, emitindo um som como Aaah!, em um dos poucos momentos em que lhe era possível veicular de alguma forma sua voz.
Em determinada sessão, Íris tomou um rolo de papel, mas, dessa vez, para ir até a janela da sala do consultório, onde, tomando o parapeito como um limite, passou a destacar pequenos pedaços de papel, jogando-os não somente para longe, como fazia com os fragmentos de tinta que retirava da parede, mas para fora da sala. Durante essa atividade, Íris passou a emitir novos e diferentes sons.
Com o "contorno da janela", algo da ordem de uma atividade, que podemos nomear como extração de fragmentos de um objeto, anteriormente tão dispersa, passou a ser realizada com "certo enquadramento".
Em uma sessão, na qual se repetia a atividade realizada por Íris na janela, o analista fez uma determinada intervenção expressando que talvez já fosse possível para a paciente deixar um resto do rolo de papel, para retornar o seu trabalho na sessão seguinte. Ao deixar o rolo de papel, e ao se dirigir até a porta do consultório, Íris realizou um movimento, ou melhor, um gesto, e pronunciou um termo construído ou mesmo inventado por ela: "Ram"!. Ao pronunciá-lo, Íris dirigiu ao analista um olhar que, como citado, passou a ocorrer pontualmente e um gesto de aceno.
Neste ponto, consideramos importante mencionar os efeitos dessa articulação do termo "Ram"! sobre os pais de Íris.

3. ALGUNS EFEITOS DO TRATAMENTO DE ÍRIS SOBRE OS PAIS: O TRABALHO COM OS PAIS
Pela primeira vez, nesse momento do processo analítico, os pais dirigiram ao analista uma questão, pois estavam de alguma forma sem saber como agir perante a mudança de posição de Íris, ao passar a falar.
Em uma entrevista com o analista, a mãe diz que foi surpreendente que a filha passasse a se despedir, dando provas de que não só entendia uma separação, mas também a aceitava. Anteriormente, a mãe declarou que, quando se afastava da filha, não dizia nenhuma palavra a Íris sobre sua ausência. Essa atitude era determinada pela dificuldade da mãe em supor que a filha sofreria com a separação, mesmo que momentânea, das duas. No entanto, o efeito do afastamento sem qualquer nomeação desse vazio em que Íris era deixada por parte da mãe, fazia com que, ao retornar, encontrasse a filha em um canto do quarto contra a parede, utilizando o único recurso que parecia restar-lhe: a realização de suas estereotipias, em estado agravado.
Os pais, surpreendidos pelo surgimento de um novo termo "Ram", articulado por Íris, e em determinados momentos dirigida, agora, a eles, passaram a sustentar o endereçamento de uma palavra à filha. De início respondendo à despedida da filha e, posteriormente, passando a falar com ela em várias situações do cotidiano, o que promoveu uma mudança de posição de Íris, dado que esta passou a ser considerada não mais como alguém que não falava e que não entendia o que lhe era dito, mas como um ser falante, que se expressava em sua singularidade, e assim alguém a quem, por sua vez, não tão fixada na posição anteriormente ocupada, eles deveriam endereçar palavras.
A seguir, devemos tentar precisar do que se trata quando nos referimos ao termo "Ram" ser considerado no tratamento um significante privilegiado, na via do que é formulado por Lacan (1985[1972-1973]) acerca do S1, uma vez que foi por meio desse termo que se tornou possível, para essa criança, articular algo da ordem de uma fala.

4. UM SIGNIFICANTE PRIVILEGIADO
No "Seminário: mais, ainda", livro XX, Lacan (1985[1972-1973]) destaca que a ênfase dada ao significante, em seu ensino, deve-se ao fato de este ser o fundamento da dimensão do simbólico, que só o discurso analítico permite isolar. No enagrama do discurso analítico escrito por Lacan (1985[1972-1973], p. 27), a/ S2 - S(barrado)/S1, o a se escreve em cima à esquerda e se sustenta pelo S2, quer dizer, pelo saber no que ele está no lugar da verdade. É dali que ele interpela o S (barrado), o que deve dar na produção do S1, do significante pelo qual se possa resolver sua relação com a verdade. A verdade procurada é essa, no que diz respeito à lei que regra o gozo.
Temos como hipótese que o que se produz, como efeito do trabalho realizado pela paciente, ao longo das sessões, é justamente algo da ordem de um significante privilegiado. Consequentemente, seria preciso, a partir da experiência clínica, interrogar não apenas que lugar ocupa um significante qualquer, mas interrogar, especialmente, o lugar do significante Um na lógica de uma direção de tratamento.
Assim, podemos considerar que a estrutura como efeito de linguagem é produzida pela impossibilidade de se estabelecer o "Um" da relação sexual - o que é expresso na fórmula "Não há relação sexual" (LACAN, 1985[1972-1973], p. 49). Lacan afirmou "Y a de l' un". Trata-se de uma expressão em francês que poderia ser traduzida por "Há de um Um" (LACAN, 1985[1972-1973], p. 34), em que o partitivo "de um" deve ser mantido para indicar que do conjunto "Um", da unidade, do todo, só se pode extrair uma parte. Pensamos que o partitivo nessa expressão designa, na unidade do suposto conjunto, um paradoxo: referindo-se à filosofia, Lacan, ao designar a unidade do Ser, aponta para o impossível de fazer Um com o ser, de pensar o Um como único, de restituir o Um à sua esfera totalizante.
O S1, como dissemos, não é um significante qualquer, é um significante-mestre, que faz valer o "não-todo" na linguagem, na medida em que sua ex-sistência é a condição de possibilidade de articulação significante. O S1 é um significante-mestre que singulariza e instaura a ordem significante a partir da qual se encadeiam os significantes, formando uma articulação e um sistema propriamente dito.
Lacan (1985[1972-1973], p.196) profere que o S1 é enxame (essaim). Enquanto é o significante que assegura a unidade de copulação do sujeito ao saber (S1(S1(S1...S2), a noção de enxame interroga o alcance do elemento que não se reduz à unidade, mas comporta os parênteses que produzem o envelope formal da série de significantes Uns, de modo que o sujeito possa vir, aí, a falar. Esse enxame "zumbidor" é o que se apresenta enquanto gozo da alíngua.
Destacaremos, a seguir, o conceito de S1 articulado à noção de alíngua.Por meio dessa articulação, pretendemos refletir sobre o estatuto da linguagem para o autista. Se, no autismo, não há linguagem propriamente dita como sistema de articulação de significantes, propomos então interrogar como o autismo se serve de alíngua e como ele pode se servir de algo como traço que possibilita ficar no lugar do S1 que, a princípio, não se realizou.

5. O S1 E ALÍNGUA
Para investigarmos ainda a noção de "enxame", o que envolve o gozo d' alíngua, como assinalamos, se faz necessário destacar que o conceito de alíngua toma importância, na obra de Lacan (1985[1972-1973]), porquanto, ao abordar a articulação do sujeito na linguagem, a questão do gozo vem ocupar um lugar primordial.
Na "Terceira" (1988[1974], p. 9), ao tratar o conceito de alíngua Lacan formula que:
Alíngua é o que permite que o voeu (voto), consideremos que não é por acaso que isso seja também veut (quer), terceira pessoa do indicatio do verbo vouloir (querer); que o nom (não) que nega e o nom (nome) que nomeia, isso também não seja um acaso; nem que d'eux (deles) seja feito da mesma maneira que o algorismo deux (dois), isso não é puro acaso nem arbitrário como diz Saussure. O que é preciso conceber aí é o depósito, o aluvião, a petrificação que se marca pelo manejo, por um grupo, de sua experiência inconsciente.
É importante assinalar que, desde a origem, existe uma relação com alíngua. Daí, alíngua merecer ser chamada maternal, pois é pela mãe, ou ainda, por suas palavras, que a criança a recebe e não a aprende. Sendo assim, é certo que voltará a surgir logo nos sonhos, em toda sorte de tropeços, em toda sorte de maneiras de dizer, os significantes a partir da maneira pela qual alíngua foi falada e também escutada por cada um em sua singularidade.
Neste ponto destacamos a dimensão do gozo introduzida pelo significante, na medida em que podemos considerar que os significantes Uns de alíngua trazem o "peso" do gozo, do gozo que, aí, nesses significantes, faz depósito.
Ao considerarmos, neste trabalho, a hipótese de que o autismo se configuraria como resposta a um S1 congelado, isto indicaria, em nossa concepção, que esse S1, mesmo que com o estatuto de algo congelado ou mesmo "fixado", não se apresentaria totalmente desvinculado d'alíngua. No entanto, algo se apresentou de tal forma nos primeiros encontros do infans e este primeiro Outro, que se tornou impossível para a mãe, no caso citado, "doar" uma palavra à criança, ou ainda o que foi dito o foi com um gozo excessivo para a criança, fazendo com que fosse problemático, e até mesmo devastador para esta receber essa palavra.
Sobre o Outro, poderíamos dizer, parafraseando a definição lacaniana de angústia (LACAN, 2005[1962-1963]), que o autismo está "não sem" o Outro: ele está sem o Outro enquanto este não se apresenta como Outro da linguagem, tesouro de significantes articulados. Ele tem, entretanto, relação com um Outro inassimilável, isto é, um Outro não extraído de sua plenitude gozante. Este paradoxo, de presença e ausência do Outro, leva-nos a afirmar que mesmo sem o Outro articulado, no autismo, esta ausência de sistema de linguagem não o impede de estar "não sem" o Outro.
Este último Outro se encarna, no caso da pequena Íris, na relação desta com sua mãe, que disse encontrar-se, na ocasião do nascimento da filha, deprimida, morando em um país estrangeiro, onde não havia criado laços afetivos. As únicas pessoas com as quais se relacionava, além do marido e da primeira filha, eram os sogros. Na época, a mãe já queria voltar ao Brasil, mas, em função do trabalho do marido, nem cogitava tocar no assunto.
Durante o parto de Íris, a mãe sofreu uma grave hemorragia e, durante sua recuperação, chegou finalmente, segundo ela, a dizer que preferiria morrer a morar longe do Brasil. A proximidade da morte a levara a formular palavras que estavam silenciadas há muito tempo. Contudo, sobre Íris e seu nascimento, propriamente, nenhuma palavra.
Apesar de o Outro não existir a priori, mas ser uma "elucubração", uma produção do sujeito, a posteriori, de alíngua, supomos que Lacan (1985[1972-1973], p. 190), ao assinalar a alíngua como dita materna, estaria apontando a presença deste Outro inassimilável muitas vezes veiculado aos significantes maternos e à relação enigmática do lugar que a criança ocupa no fantasma da mãe, ou melhor, entre esta, enquanto encarnando a função de mãe e enquanto mulher. No caso dessa criança, sua posição, inicialmente, apontaria a uma resposta frente aos significantes inassimiláveis, à devastação que a mãe apresentava na ocasião do parto.
Ao nos perguntarmos sobre a possibilidade do surgimento de um significante privilegiado como efeito do tratamento analítico do autismo, recorremos ao "Seminário: mais, ainda", livro XX (LACAN, 1985[1972-1973]). Nesse Seminário, Lacan escreve que é somente a partir do momento em que algo se desembaraça da materialidade significante em que consiste alíngua, a partir justamente deste algo que lá estava "fixado" (uma vez que, no significante, o gozo faz depósito), que se pode "extrair" de alíngua o que é do significante.
O que, por fim, se indica na fórmula "um significante representa o sujeito para outro significante" (LACAN, 1985[1972-1973], p.194) é que o significante mesmo não é nada definível senão como uma diferença para com outro significante. É a introdução da diferença enquanto tal, no campo do significante, que permite encontrar um princípio de identidade de si para si.
Desse ponto em diante, interrogaremos, inclusive, no caso clínico, em que medida é possível considerar algo que se "destacou" da ordem de alíngua, o termo "Ram", como um significante privilegiado. Será que este termo pode ser considerado um significante privilegiado, tal como formulado por Lacan (1985[1972-1973]), como algo da ordem do S1? Ou, se não tem um estatuto do S1, poderíamos considerá-lo como um significante que já passou por uma negativização de gozo e que, durante o tratamento, não carrega mais a marca absoluta e o caráter de "congelamento"? Esta questão se impõe, pois o surgimento deste significante no tratamento dessa criança vem a produzir efeitos que lhe possibilitaram realizar novas articulações na linguagem, levando-a a formular algo da ordem de uma fala.

6. O SIGNIFICANTE-LETRA E O OBJETO a
Com base nos fragmentos do caso clínico mencionado, o termo "Ram" surgiu, primeiramente e em diversas vezes seguidas, no momento em que, ao se despedir no final da sessão, a paciente, ao mesmo tempo, dizia "Ram!" e fazia um aceno, indicando um primeiro esboço do que poderia vir a se articular como um laço ao Outro.
Esse termo, no entanto, passou a ser utilizado por Íris em situações que indicavam que ela havia terminado de beber a água que estava em seu copo, ou que havia fechado a janela, ou mesmo que iria deixar um objeto de lado e iria pegar um outro no armário que ficava na sala do consultório. O que pode ser considerado que ali não se tratava de um significante congelado, ou, ainda, articulado a um único significado, e sim se prestava à possibilidade de novas e diferentes articulações na linguagem.
Neste sentido, faz-se imprescindível que o analista, ao escutar a palavra "Ram!", não tenha dado um significado a priori para essa formulação realizada pela paciente. A intervenção pontual do analista, sustentada num "não-saber orientado" possibilita que Íris se aventure a percorrer a borda do buraco que o significante viria, neste caso, instaurar.
Assim, para sustentarmos nossas considerações, recorremos, novamente, ao "Seminário: mais, ainda", livro XX, onde Lacan (1985[1972-1973]) formula que pela via da representação não é possível nenhum acesso ao real. É somente no ponto em que se entende o que há de mais vivo ou de mais morto na linguagem, ou seja, "a letra", que algo se circunscreve por ser escrito.
Esta ideia é retomada em "A Terceira", na qual Lacan (1988[1974]), ao se referir ao S1 como "significante-letra", ressalta que esse significante se escreve fazendo-o sem nenhum efeito de sentido. Ao abordar ainda o conceito de S1 como "significante- letra", Lacan o articula ao objeto a, ao formular este significante como: "Homólogo, se ouso dizer, do pequeno objeto a" (LACAN, 1988[1974], p. 6).
Na formulação lacaniana (1988[1974]), o objeto a é aquilo de que não se tem ideia, salvo se ele for quebrado. E, nesse caso, seus pedaços são identificáveis corporalmente como voz, olhar, seio e fezes.
a, a que Lacan chama de objeto, não é nada mais que uma letra. Em outras palavras, apenas conforme é escrito que o objeto a é extraído, designando um inassimilável que se perde para, inclusive, constituirmos um corpo.
Ao nos referirmos à extração do objeto, podemos considerá-la possível, na medida em que esse objeto é cernido ou cerrado, no centro do nó borromeano. Lacan se serve da articulação do nó de três rodas (de barbante) para escrever o enodamento do Imaginário, do Real e do Simbólico, enodamento este que comporta um buraco no centro.
Dessa articulação do S1 como homólogo ao a, e não como uma relação pontual, biunívoca entre os termos, se faz importante interrogar em que medida o trabalho realizado pela paciente ao longo das sessões, um trabalho que desde sempre trazia a marca da tentativa de uma "extração", propiciou o advento de novas articulações da paciente na linguagem, e se a esse trabalho se articulou a possibilidade do surgimento do olhar dirigido ao analista.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
No caminho traçado por Freud, diante de seus mestres, ou seja, de um lugar de "não saber", interrogamo-nos o que pode nos ensinar o autismo. Por meio do ensino de Lacan, questionamo-nos, a partir da clínica, em especial de um caso clínico, sobre como podemos alargar os conceitos de linguagem, significante e objeto, para não recuarmos clinicamente diante do autismo.
Ao interrogarmos o estatuto de um determinado termo construído ou mesmo inventado pela paciente, ao longo do seu tratamento analítico, faz-se importante assinalar um vetor na direção do tratamento desse caso clínico que comporta três tempos:
1) A tentativa de "extração" pela paciente de fragmentos de tinta de parede, seguida de uma determinada vocalização, tentativa esta, escutada pelo analista, como um trabalho ou ainda, uma articulação singular desta paciente na linguagem que apontava à introdução de algo da ordem de um "furo" no que se lhe apresentava como compactado e homogêneo.
2) A realização deste trabalho (de tentativa de "extração") não mais aleatoriamente, mas se utilizando do contorno da janela para jogar para fora da sala do consultório, pequenos fragmentos de um objeto que consistia em um rolo de papel, envolvendo a emissão de novas vocalizações, na via da produção de uma borda de uma escritura.
3) O surgimento do termo "Ram", articulado pela paciente no momento do término de uma sessão, notificado e escutado pelo analista, sem que a este fosse conferido nenhum significado. Segundo nossa hipótese, "Ram" poderia ser considerado como algo da ordem de um significante privilegiado, ou ainda, não tão "congelado", como escrevemos anteriormente, na medida em que foi possível constatar, a posteriori, os efeitos para a possibilidade de essa paciente vir a produzir novas articulações na linguagem, o que se deu no mesmo tempo lógico do tratamento que o surgimento do olhar. A partir do momento em que a paciente passa a olhar para o analista seria possível considerar que "um ponto fora-de-si mesmo" teria sido introduzido. O que nos leva a interrogar sobre a possibilidade de esse objeto (olhar) ter se destacado e se localizado fora do corpo, na via da construção das bordas corporais.
O tratamento do autismo convoca o analista a manter o rigor de sua ética - ética da psicanálise - na escuta do que é da ordem do significante. Podemos considerar que, no autismo, como no caso clínico citado, de início, as poucas articulações na linguagem realizadas pela paciente consistiam na emissão de sons indiferenciados e gritos. No entanto, o analista, em sua aposta ao escutar as manifestações da paciente como algo da ordem do significante ou ainda como "termos verbais", faz valer o essencial da análise, na via da operação do significante mesmo que esta esteja reduzida a não ser, de início, mais do que restos, ou ainda, "elementos verbais".
A clínica do autismo exige, em sua radicalidade, que se questione a teoria a partir da abordagem do real, na dimensão da escritura. Nesta via, apostamos que o termo "Ram", pela função que exerceu para a possibilidade de esta paciente vir a articular algo da ordem de uma fala, no mesmo tempo lógico do tratamento em que surge o olhar, dirigido ao analista, se configuraria com o estatuto de algo da ordem de um significante privilegiado. Talvez pudéssemos considerá-lo, ainda, uma "dimensão da letra" que, ao se escrever, teria tido efeitos para circunscrição do gozo, o que tocaria na posição, anteriormente ocupada pela paciente, que, segundo nossas referências teóricas, poderia ser considerada como "verbosa".

NOTAS
1 "A idéia pela qual eu estava me tornando responsável de modo algum se originou de mim. Fora-me comunicada por três pessoas cujos pontos de vista tinham merecido o meu mais profundo respeito - o próprio Breuer, Charcot e Chrobak, o ginecologista da Universidade [...] Esses três homens me tinham transmitido um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não possuíam [...] essas três opiniões idênticas, que ouvira sem compreender, tinham ficado adormecidas em minha mente durante anos, até que um dia despertaram sob a forma de uma descoberta aparentemente original" (FREUD, 1980[1914], p. 22-23).
2 Apesar de considerarmos que nesta passagem Lacan procede à uma aproximação entre os temas do autismo e da psicose, neste momento, contudo, pretendemos nos deter nas questões suscitadas pelo autismo, deixando a problemática posta pela esquizofrenia para um estudo posterior.

REFERÊNCIAS
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