terça-feira, 4 de novembro de 2014

O medo da polícia e as graves violações dos direitos humanos



The fear from police and the gross human rights violations


Nancy Cardia
Coordenadora de pesquisa do NEV-USP



RESUMO
A consolidação democrática no Brasil ainda se depara com alguns desafios oriundos do regime autoritário. O advento da democracia coincidiu com uma grave crise econômica e com a redução da capacidade do Estado de intervir na oferta de serviços. O desempenho policial durante a transição democrática ao contrário de melhorar só se deteriorou. A violência e a arbitrariedade também não desapareceram mas cresceram com a ineficiência. A imagem que o público tinha da polícia durante a ditadura não se reestruturou mas continuou a ser negativa. Essa imagem ruim é causada tanto pelo fraco desempenho e pela violência e arbitrariedade da polícia quanto pela falta de controles externos da polícia, ou seja, de canais institucionais para as pessoas poderem registrar suas queixas sobre o comportamento policial. Assim, as pessoas ficam entre a necessidade por segurança pública que deveria ser fornecida pela polícia e a descrença ou mesmo medo que sentem por ela. Eis então a grande ambigüidade do sentimento das pessoas com relação à polícia: elas tendem a não acreditar na polícia mas isso não se traduz por demandas de melhora no desempenho ou de controle sobre essa instituição. Muito pelo contrário, a desconfiança caminha lado a lado com a concordância do comportamento arbitrário da polícia. O objetivo deste trabalho é exatamente examinar essas contradições.
Palavras-chave: medo, polícia, violação, direitos humanos, consolidação democrática.

ABSTRACT
Democratic consolidation in Brazil continues to be confronted with challenges, in general, presented by legacies from the authoritarian regime. Democracy coincides with the economic crisis and a reduction of the state capacity to provide for services. Police performance is not improved in the democratic transition, much to the contrary it deteriorates. Violence and arbitrariness are also not reduced but grow with its inefficiency. The image that the public had of the police during the dictatorship is not re-structured but it continues to be negative. This bad image is sustained by the police's poor performance, by its violence and arbitrariness and by the lack of externals controls over the police and thus of institutional channels for people to voice their complaints and qualms about police behaviour. Thus people are kept between the need for public security that should be provided by the police and the disbelief in it and even fear of it. The extreme ambiguity people feel towards the police: people tend not to trust the police but mistrust does not translate into demands for improvement of police performance or in demands for control over it. Much the contrary, mistrust often goes hand in hand with an acceptance of the arbitrary behavior from the police. The objective of the paper is to examine some of such contradictions.
Keywords: fear, police, violation, human rights, democratic consolidation.



Quando os tempos ruins se vão, apagamos de nossa memória os maus momentos. A ditadura acabou com um sussurro e não com um estrondo. A abertura prolongada, através da qual os mecanismos de repressão foram sendo removidos passo a passo, nos tornou menos conscientes das mudanças e nos permitiu esquecer como a vida era com eles. Não podemos, por exemplo, dizer em que momento paramos de temer a polícia. E esse medo fazia parte de nós que tínhamos algum nível de informação durante os anos sessenta e começo dos setenta e contaminava o nosso cotidiano. Como você deveria reagir se a operação OBAN lhe abordasse? Você deveria visitar o seu amigo ou amiga na cadeia e ser identificado como o amigo dele ou dela? Você deveria ir assistir ao julgamento de um amigo ou amiga no Tribunal Militar? Apresentar sua identidade a alguma autoridade não era uma experiência neutra. Se você fosse uma pessoa minimamente informada, com certeza se sentiria apreensiva ao retornar do exterior ao país e ver seu passaporte desaparecer em um buraco de uma parede, sabendo que seria examinado por um anônimo e não tendo certeza se seu documento seria devolvido ou que tipo de informação estava sendo extraída dele. Todos esse fatos podiam ser totalmente inofensivos mas também podiam ser perigosos porque os critérios utilizados pelos policiais não eram conhecidos, ou seja, pelo próprio arbítrio vivido.
Outras cautelas, de tão incorporadas não se tinha consciência, eram automáticas: era nunca discutir um assunto que pudesse ter conotação política em lugares públicos, ou expressar opiniões sobre os acontecimentos públicos e que pudessem sinalizar suas posições, inclusive em salas de aula da universidade. De alguma forma, aprendeu-se a ser discreto e cuidadoso e a se escolher as palavras, mesmo com os conhecidos que não fossem íntimos, pois não se sabia como as palavras seriam interpretadas ou quem poderia estar escutando e, acima de tudo, quais os critérios poderiam ser usados para lhe tornar uma pessoa suspeita. Tinha-se também que ter cuidado com o tipo de literatura guardada em casa, pois caso uma residência entrasse para a lista de "suspeita", não se poderia ter segurança de como seriam classificados livros que normalmente se consideraria como inofensivos. Assim a incerteza do que pudesse se constituir ou não em uma literatura ofensiva, também fazia parte do controle social1. Esse medo generalizado era em parte o resultado das ações arbitrárias da ditadura, em parte de medidas que sugeriam que existia uma poderosa rede de informantes2. O medo era um poderoso instrumento de controle social. A censura e a falta de informação plenamente confiável alimentavam esse medo3.
Em algum momento, as classes média e alta pararam de ter medo e, aparentemente, o medo e a categoria "suspeito", que equivalia a "culpado até prova em contrário", tinham desaparecido.
Para minha surpresa, em 1983 quando as pessoas sentiam-se seguras o suficiente para irem às ruas exigir eleições diretas, eu descobria que o medo não tinha desaparecido das favelas de São Paulo, mas sim que lá as pessoas viviam cindidas entre o medo da polícia e o medo dos delinqüentes. As pessoas sentiam-se submetidas a diferentes tipos de controle por parte desses dois grupos. A polícia era percebida menos como fonte de segurança e mais como agente de força. Quando chamada pela população para agir, segundo os moradores, demorava muito a aparecer ou simplesmente não vinha. Quando a liderança de uma das comunidades procurava a delegacia local buscando ajuda para controlar alguns delinqüentes, que estavam causando problemas para os moradores, ouvia do delegado que "os incomodados que se mudem", pois a polícia não tinha obrigação de agir nas favelas por se tratarem de áreas ilegalmente ocupadas. Assim, a percepção que os moradores dessas áreas tinham da polícia era a de que a polícia não iria garantir a segurança dos moradores, mas ao mesmo tempo essa mesma polícia poderia a qualquer momento dar uma "batida" na favela e exibir comportamentos arbitrários. Os moradores mantinham-se preparados para isso guardando um histórico que documentava a origem legal (notas fiscais) de móveis, objetos e utensílios que possuíam na casa. Nem uma inocente compra de supermercado escapava de ser revistada e a nota de compra de ser apresentada. Prevalecia uma sensação de abandono por parte do Estado e da possibilidade de violência por parte dele e de desproteção em relação à ameaça apresentada pelos delinqüentes. Estes eram percebidos como uma dupla ameaça: a presença deles representava um risco de violência para toda a comunidade e além disso para garantirem a continuidade dentro da favela, eles controlavam os contatos dos moradores com pessoas de fora, por temerem que os favelados, por exemplo, pudessem dar informações que afetassem suas atividades.
A vida nessas circunstâncias era muito estressante e tensa. Os delinqüentes e a polícia produziam um outro tipo de medo, o medo da violência física. Fiquei surpresa ao ver quanta energia e tempo eram gastos na discussão de estratégias de auto-proteção na eventualidade de um tiroteio envolvendo polícia e delinqüentes. A possibilidade de violência não era remota: era diária. Sempre havia algum episódio ou incidente novo: as crianças estavam cercadas na escola por uma gangue que queria roubar os tênis deles, a polícia fora chamada mas ainda não chegara, as mães se reuniam para irem buscar os filhos; as crianças estavam brincando com cápsulas de balas que encontraram no quintal; fulano fora assaltado voltando do trabalho. A cada dia um evento. As informações e as conversas ocorriam sempre dentro de casa entre parentes e amigos de muita confiança. Foi assim que descobri que para viver em um ambiente violento consome-se muita energia desenvolvendo estratégias de sobrevivência e antecipando os eventos. Quando o que temem acontece, precisam estar previamente preparados para não se perderem no pânico. As batidas policiais com uso de helicóptero, em que os policiais estão armados com metralhadoras ou pendurados em janelas de veículos transitando em vielas estreitas e que não têm saída, são muito assustadoras. O risco de disparos acidentais são muito presentes. Essas batidas ocorrem sem aviso, as pessoas não têm tempo de se abrigarem adequadamente. Pais entram em pânico pela sorte das crianças que brincam nas vielas e quintais. Foi também quando concluí que se as classes média e alta tinham conseguido se libertar do medo, o mesmo não havia ocorrido com as classes trabalhadoras que moravam em áreas consideradas ilegais ou abandonadas pelo Estado.
Passaram-se vários anos, a transição democrática avançou, mas quanto mudou a interação das pessoas com a polícia? É verdade que alguns setores da sociedade não têm mais medo da polícia, mas mudou o suficiente para se sentirem protegidos por ela? Confia-se na polícia? A resposta para todas essas questões parece ser não, ao menos pelo que se observa nas pesquisas. Em janeiro de 1996, o jornal Folha de S. Paulo publicou os resultados de uma pesquisa feita em dezembro de 1995, sobre a imagem da polícia em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nas duas cidades predomina uma péssima imagem da polícia. A primeira idéia que associam à polícia é negativa (61%). A polícia, nas duas cidades, é pensada como sendo: ineficiente, despreparada, não dando segurança (19%), corrupta (14%), violenta (10%), provoca medo (8%) e tem pouca ou nenhuma estrutura (4%). Apenas 14% se sentia protegido pela polícia e 13% achava que a polícia realmente combatia o crime. Quando perguntados se achavam que havia policiais envolvidos com o crime organizado, 88% dos entrevistados, nas duas cidades, responderam que sim. O medo é maior entre os jovens negros4. Os entrevistados de maior nível de educação e de renda e as mulheres são os que têm a pior imagem da polícia5. É interessante notar que a imagem das duas polícias é ruim e que ao responderem à pergunta "qual a primeira imagem que vem à cabeça quando você pensa na polícia?", os entrevistados não sentiram necessidade de distinguir entre polícia militar e civil, sugerindo que as diferenças existentes entre elas não são relevantes o suficiente para que pensem em duas polícias. As pessoas parecem ter imagens unificadas das polícias a despeito das diferenças que existem entre as corporações.

A imagem da polícia
Dados de uma pesquisa qualitativa realizada pelo NEV6, junto a diferentes grupos sociais, permitem aprofundar um pouco os motivos dessa má imagem. Nessa pesquisa procurou-se explorar a relação entre o tipo de contato que a população tem com a polícia e a imagem que fazem dela. Esses dados permitem traçar algumas hipóteses sobre o que muda e o que não muda na polícia com a democracia e como essas mudanças e continuidades afetam sua imagem. Os dados dessa pesquisa referendam aqueles da pesquisa do Datafolha: predomina entre os entrevistados uma má imagem da polícia. Entre 52 entrevistados, 45 já precisaram recorrer à polícia em algum momento. Poucos (4) são os entrevistados que relatam experiência positivas em seus contatos com a polícia. Outros, mais numerosos (12), reconhecem que são bem tratados mas fazem ressalva que essa experiência é exceção à regra: "Eu sou muito bem tratado. Sabe porque a maioria da população brasileira não gosta da polícia? Porque ela trata mal a população"(promotor 1, homem). Esse comentário reproduz uma experiência comum aos operadores do direito entrevistados nessa pesquisa: serem bem tratados por seus pares percebendo que esse tratamento não é universal. Para quase 1/3 dos entrevistados (15) o atendimento que a polícia dá à população é péssimo. A imagem predominante é que os pobres e os negros são maltratados e que os mais ricos ou de maior escolaridade recebem melhor tratamento7. Melhor tratamento não quer dizer "bom tratamento". Alguns empresários entrevistados revelam ter tido experiências muito ruins com a polícia: "depende, de repente eu sou tratado como bandido, de repente eu sou tratado como doutor. Eu já fui tratado como bandido e já fui tratado como doutor, que eu não sou" (industrial 2, homem). Mas a idéia predominante é que aparentemente as pessoas mais ricas teriam um tratamento "menos ruim".
A desigualdade no tratamento dispensado à pessoas provoca alguma inquietação: "fui lá na delegacia muito bem recebido e tal, enquanto outras pessoas, que estavam lá, estavam tendo tratamento de quinta categoria... então eu acho um absurdo que porque pra algumas pessoas eles são capazes de ser corteses, civilizados e outros eles tratam com casca e tudo... mesmo quando eu sou bem tratado acho que é um tipo de discriminação" (empresário 2, homem).
É importante salientar que a possibilidade de contato com a polícia não é percebida como algo tranqüilo mesmo entre aqueles membros da elite que se percebem recebendo um tratamento diferenciado justamente pela diferença no tratamento. Para essas pessoas a existência da discriminação provoca insegurança, talvez porque não tenham garantias totais de que um dia eles também não possam ser vítimas de mal tratos. A proteção de classe não seria uma garantia universal: "Se você está dentro de uma classe socio-econômica mais elevada ou mais distinta eles vão lhe tratar melhor... Essa distinção é muito ruim discrimina as outras pessoas. A elite tem alguma impunidade policial... A visão que eu tenho do setor de segurança pública e da polícia, no caso é sempre uma relação de temor. Eu tenho essa relação de temor" (prof. liberal/dono de clínica, homem).
A má imagem da polícia como um todo, parece derivar de três fatores: (a) do que se percebe como falta de eficiência - a atuação da polícia não preenche a expectativa que dela faz a população, não identifica os responsáveis pelos delitos, não recupera os bens perdidos e não impede novos delitos: não realizando o que dela se espera, não estaria conseguindo dar à população a sensação de segurança; (b) da continuidade da violência policial e da arbitrariedade e (c) da continuidade da falta de controle da sociedade sobre a polícia.

A falta de eficiência da polícia
O estudo do NEV revela, como mencionado acima, que a má imagem que os entrevistados têm da polícia derivam de experiências negativas ou frustrantes e não de imagens produzidas e disseminadas pelos meios de comunicação. A maioria dos entrevistados, em algum momento, teve algum contato com a polícia. É marcante que, em nenhum relato, a experiência foi satisfatória. Os relatos são repetitivos: ao denunciaram algum furto ou roubo à polícia, todos (inclusive um juiz)8, dizem terem sido informados, pelos policiais, que os objetos roubados não seriam recuperados ou que a polícia não encontraria os culpados. Alguns entrevistados afirmaram que foram persuadidos pela polícia a não registrar queixa. A condição econômica do queixoso não parece afetar a resposta da polícia no sentido de encorajá-la a desempenhar melhor: "Olha, roubaram o meu carro, roubaram. Eles acham graça, eles não tomam, a polícia não toma providências, é um descrédito total nas instituições" (empresário 3, homem).
A imagem da polícia como ineficiente estaria alimentando a sub-notificação de delitos à polícia e a falta de cooperação das pessoas com a polícia em suas investigações. Os entrevistados concordam com os dados da pesquisa PNAD (1988) que revelou que as pessoas preferem não recorrer à polícia ou registrar queixa, não só em casos de roubo e furto mas até em casos de agressão física9. Solicitados a explicar porque as pessoas não procuram a polícia os entrevistados referiram-se à "falta de credibilidade da polícia" (24), por ser "inútil" (18), porque a polícia é corrupta (10), porque é negligente/incompetente (10), porque atende mal a população (9) e provoca medo nas pessoas (4), ou ainda porque a população teme represália dos delinqüentes (9). Uma minoria de entrevistados (7) responsabiliza a população por não procurar a polícia por acomodação (3) ou por conivência com os delinqüentes (4).
Os entrevistados reconhecem que só fazem registro da ocorrência quando necessitam documentar a perda do objeto à seguradora: "é muito desgastante. Você tem sua casa roubada você passa a noite inteira na delegacia e é alvo de chacotas, é alvo de risos. Não dá em nada. Não vale a pena" (jornalista 2, mulher). Alguns, quando procuraram, foram dissuadidos de registrarem queixa: "eu fui assaltada... Veio (sic) o síndico e a polícia, eu contei a ele e ele disse: 'o correto seria a sra. ir lá no. ... tipo onde o Judas perdeu as botas e olhar todos aqueles retratos. Acho uma judiação isso pra sra., porque de maneira nenhuma a sra. vai recuperar nada, de maneira nenhuma vamos conseguir prender o assaltante'. Não consegui dormir naquela noite porque no meu íntimo eu estava tão revoltada. Mas achei que não valia mesmo a pena" (dona de casa, esposa de empresário). Essa foi uma forma delicada de dissuasão do reclamante, entrevistados do grupo "classe trabalhadora" relatam experiências menos sutis: "Olha a única vez que eu precisei foi assim, a única mesmo. Uma vez roubaram umas telhas de zinco da minha casa, o toldo. (Eu) desmontei para lavar, deixei na garagem, entraram e roubaram. Aí eu fui para a delegacia, mas como é coisinha pequena eles não dão a menor atenção... Ele (policial) me tratou bem, mas cê via que ele não tava nem aí... Eu virei as costas assim, escutei barulho de papel amassando. Aí eu voltei e dei um sorrizinho pra ele assim porque eu sabia que era aquele papel que ele tinha anotado as coisas que eu falei que ele amassou e jogou no lixo" (classe trabalhadora, homem).
Essa falta de confiança na atuação da polícia tem dois aspectos: não se confia que a polícia possa proteger a população da ação de delinqüentes quando esta os denuncia e alguns chegam a desconfiar da ação da própria polícia: "eu sei que as seguradoras pagam para a polícia por fora para acharem o carro... Eu nunca ouvi que alguém tivesse devolvido os bens roubados... eu não acredito que a polícia devolva integralmente aquilo que ela encontra. Existe um número grande dentro da polícia de pessoas bem desonestas, existe" (professor 1, homem). Sem confiarem na polícia não podem cooperar com ela em suas investigações.
A concordância dos entrevistados com a sub-notificação parece ser generalizada mas os motivos para não recorrerem à polícia variam de acordo com a classe social e a posição de poder da vítima10. A ineficiência da polícia e a suspeita de corrupção são para as "classe alta" e "média" e para os "formadores de opinião pública", as principais causas para não confiarem na polícia: "eu já tive um bem roubado e não procurei a polícia. Porque não tem jeito, né ? A gente ouve histórias de que a polícia é que é assim, amiga de bandido, divide as coisas. Então eu nem procuro"(profissional liberal, mulher). A imagem de incompetência se mistura com a de corrupção: " Tentaram roubar meu carro, foi uma dor de cabeça, não fizeram nada, eu desconfio que quem tirou o rádio do meu carro foi a própria polícia. Então eu não posso dizer que a força policial seja uma força na qual eu tenha confiança absoluta. Tenho direito, vou usar mas sem acreditar na máxima eficiência" (empresário1, homem).
Para os entrevistados do grupo "classe trabalhadora" as razões para não confiar, além da descrença na eficiência, inclui a incapacidade da polícia em protegê-los de possíveis retaliações dos delinqüentes: "essas pessoas que não reclamam é com medo de amanhã ou depois aquele próprio ladrão ser reconhecido e ir tirar a vida daquela pessoa, então a gente fica com medo, fica amedrontado" (trabalhador manual não especializado, mulher). Os entrevistados do grupo "justiça"11 também percebem que a população se afasta da polícia com medo de represálias dos delinqüentes. Os entrevistados policiais reconhecem que não conseguem garantir segurança à população e que há um forte descrédito da população em relação às atividades policiais: "elas pagam para não ter que ir lá (na delegacia) prestar declarações (o motivo?)... é o descrédito, o aumento desenfreado da criminalidade; e outra coisa, se pegarem os bandidos, as pessoas temem por uma represália" (delegado1, homem). Além de temerem os delinqüentes alguns policiais reconhecem que a população teme e desconfia da própria polícia: "Há um temor muito grande, mas não é defeito do brasileiro, temor do próprio ladrão e às vezes não fazem (denúncia) por desconfiança da própria polícia" (delegado 2, homem).
Uma outra explicação utilizada pelo grupo "classe trabalhadora", para não procurarem a polícia refere-se aos "outros" - eles mesmos procuram a polícia, quem não procura são os "outros". E não o fazem porque têm alguma culpa: "bom, a pessoa que tem pouco (perde o pouco) e não procura a polícia é porque ele deve dever para a polícia também" (trabalhador manual não especializado 4, homem). Nessa interpretação, apresentada pelos entrevistados do grupo "classe trabalhadora", a vítima não procura a polícia porque o que ela perdeu tinha origem ilícita, ou seja a própria vítima seria suspeita: "graças a Deus eu sou bem tratada, que a pessoa que é mal tratada é a pessoa que tem culpa no cartório" (operária especializada 2, mulher). É interessante que os policiais militares entrevistados também defendem esse argumento da suspeita sobre a legalidade da reclamação da vítima como sendo motivo para não-notificação de delitos. Estes policiais são praças que fazem patrulhamento ostensivo e que têm origem na "classe trabalhadora" e aparentemente compartilham com ela algumas interpretações sobre alguns tipos de relação entre a população e a polícia.
A pesquisa do NEV mostra que os policiais militares, delegados, promotores e juízes entrevistados sabem que a polícia tem uma má imagem junto à população. Esses entrevistados, que fazem parte do sistema de justiça, percebem que as pessoas não acreditam que a polícia identifique os culpados ou que vá recuperar o que foi perdido: "Não procuram porque seria inócuo ou por desconfiança da polícia" (juiz 2, mulher) e que temem a polícia: "a polícia trata muito mal, eles atiram primeiro e perguntam depois, não há controle de violência da polícia... (é) o pior serviço do Estado. Ele gera mais intranqüilidade com sua polícia do que segurança" (promotor 3, homem). Mas o conhecimento dessa má imagem não parece predispor esses entrevistados a mudanças: nenhum entrevistado propôs ou sugeriu reformas ou de alterações nos procedimentos, no treinamento ou no atendimento dado pelos policiais à população. A reação que a má imagem produz é a de se sentirem discriminados pela população.
Se os entrevistados ligados ao sistema de justiça criminal não se referem à necessidade de mudança, os outros entrevistados o fazem. A maioria dos comentários espontâneos sobre o desempenho profissional da polícia não só expressa críticas e insatisfação com o desempenho da polícia, com as habilidades e com a capacidade dos policiais mas também com o treinamento. Os entrevistados atribuem essas falhas à falta de treinamento adequado. Há consenso entre os entrevistados tanto na avaliação como na identificação da causa. Se o desempenho da polícia não é percebido como tendo melhorado a partir da democratização do país a violência e o arbítrio também são percebidos como tendo sobrevivido na transição.

A continuidade da violência policial e da arbitrariedade
A percepção, bastante freqüente entre os entrevistados, de que o policial é mal preparado para suas funções deriva do que percebem como uso excessivo e até indiscriminado de força: a polícia seria muito rude, usaria a força excessiva contra suspeitos, desrespeitaria a dignidade das pessoas e seria preconceituosa. Dentre os 52 entrevistados 23 se referem espontaneamente ao uso de violência pela polícia contra cidadãos corretos, principalmente nas situações em que ocorrem batidas policiais: "Chegam batendo, se estiver sem documento levam em cana"(trabalhador manual não especializado1, homem); "dando batida na rua agem de maneira selvagem, é uma injustiça" (trabalhador manual não especializado 4, homem). Esse risco é maior quando se trata de pessoas "pobres" mas nem as pessoas mais "ricas" estariam totalmente protegidas dessa violência. Esta percepção aparece junto a todos os grupos sociais e profissionais entrevistados: "a polícia age de maneira ríspida e violenta"(promotor 2, homem) ou ainda: "Você pára (em uma batida policial), já lhe vê como marginal, bota na parede, revista. Eu já fui revistado, é humilhante"(estudante universitário 2, homem).
A imagem que predomina é que alguns grupos são mais atingidos por essa violência. São esses os mesmos que tendem a ser mais maltratados quando procuram a polícia: "A minha mãe era diretora de uma escola de periferia ela contava dos abusos (da polícia) bastava um aluno negro andar um pouco melhor vestido para já ser abordado como suspeito..." (promotor 3, homem). Alguns entrevistados também notaram que há pouco negros na força policial, fato que eles interpretam como mais um indicador de que há discriminação racial dentro e por parte da polícia... Assim a composição étnica e racial da polícia não passa desapercebida pelas pessoas. Além da discriminação de racial percebe-se claramente a discriminação de classe: "Numa lanchonete (chega) - 'documento tem?' ou 'vai aonde?' tudo com arma na mão, arma apontada pra cabeça. Acho um absurdo isso. Não tem educação pra lidar com o povo. Acho que devia ser mais humano com o povo... acho que fazem diferente de uma pessoa pra outra. Só que a pessoa que vier de um nível rico pelo menos eles perguntam primeiro quem é. Se é pobre, primeiro eles vão batendo pra depois perguntar quem é" (operário especializado 3, homem).
A percepção de que há tratamento diferenciado e que alguns grupos com maior freqüência sofrem abusos é confirmado nas entrevistas com policiais e naturalizado: "é evidente que existe diferença. Se você trabalha aqui no Jardim Paulistano e você vai trabalhar na Praça da Sé, é brincadeira... Na Praça você tem mendigo, ladrão, prostituta, carente, professor, desembargador, juiz e vai por aí... no Jardim Paulistano só pelo hábitat das pessoas, pelo local o tratamento é totalmente diferente. As pessoas se dirigem a elas, se respeitam elas chegam e fala:' vai lá e faz isso' " (policial militar 1, homem). "Em todas as coisas da vida, as pessoas com mais dinheiro são mais bem tratadas. Não se pode tratar uma pessoa da favela da mesma maneira que se trata uma pessoa rica, pois mesmo que ela seja um trabalhador ela não é igual ao outro (o rico), a linguagem é diferente, as pessoas são mais rudes" (policial militar 3, homem). Na percepção desses entrevistados, a desigualdade econômica justifica a desigualdade no trato pessoal e nos direitos. Os grupos mais "pobres" não teriam direito a um atendimento igual àquele dispensado aos grupos mais "ricos". O mau tratamento deixa de ser resultado de mal treinamento e passa a ser uma adaptação do policial a uma exigência do meio.

A continuidade da falta de controle da sociedade sobre a polícia
É importante enfatizar que se a violência e a arbitrariedade da polícia são percebidos como praticados, com maior freqüência contra um grupo determinado e não são considerados universais, também se percebe que não há proteção universal contra essa violência e arbitrariedade. Para captar o conhecimento que os entrevistados tinham de seu direitos e das instituições às quais poderiam recorrer para terem seus direitos desrespeitados, foram apresentadas situações hipotéticas envolvendo conflitos entre pessoas e entre pessoas e instituições. Uma dessas situações hipotéticas se referia a um caso de violência policial ou de uso excessivo de força contra um familiar do entrevistado. Pedia-se então que ele/ela indicasse o que faria se: "O seu filho é preso às quatro horas da manhã na saída de um baile. Volta na manhã seguinte com marcas de agressão que segundo ele foram provocadas pela polícia, o que o sr (sra.) faria? A quem apelaria?" Primeiro é importante notar que nenhum entrevistado considerou essa situação como inverossímil ou com pouca probabilidade de ocorrer. Um dos entrevistados revelou que teme que isso ocorra e que prepara o filho para essa eventualidade. "Viro um bicho. Eu tenho filho e eu oriento ele assim: se a polícia te pára na rua a primeira coisa que você faz é dar um escândalo. Diz que é menor, que tem pai, mãe, família e não deixa te levarem, botarem no carro. Porque eu tenho medo da polícia... Eu tenho vários casos, não comigo diretamente, com amigos, parentes que estiveram envolvidos em situações com a polícia e sofreram muito. Coisas assim chocantes, com a polícia eu imediatamente saio na imprensa e procuro a justiça"(funcionária pública1, mulher).
Quanto à primeira reação que teriam, os entrevistados se dividem em três grupos: o grupo majoritário (32) compõe-se de pessoas que tentariam reagir ao que consideram um abuso de autoridade de diferentes formas - acionando a justiça (14), indo a uma delegacia de polícia dar queixa (12), constituir advogado (11), procurar altos escalões da área da segurança pública (7) e a imprensa (6). Um segundo grupo (12) iria verificar "se o filho não fez nada errado". Caso o filho nada tivesse "feito de errado" iriam procurar fazer alguma coisa; entrar na justiça, dar queixa em uma delegacia de polícia e fazer exame de corpo de delito seriam as medidas mais freqüentes nesse grupo. Se o filho tivesse feito algo errado não tomariam providências. O terceiro grupo reúne pessoas (5) que questionariam o comportamento do filho e que tentariam punir os responsáveis pela agressão ao filho "ainda que ele estivesse errado": "mesmo que meu filho tenha transgredido normas de conduta a polícia não poderia ter uma atitude de violência" (professor 1, homem). Três entrevistados dizem que não saberiam o que fazer ou a quem recorrer. É importante notar que o grupo que questionaria o comportamento do filho e que só agiria caso ele nada tivesse feito "de errado" agrupa: trabalhadores manuais não qualificados (4), profissionais "classe média" (3) e policiais civis (3) e militares (3). As justificativas desses entrevistados para não agirem expressa uma desconfiança e desaprovação do comportamento dos próprios filhos e paradoxalmente uma atribuição de arbitrariedade à polícia na qual não confiam. Os entrevistados que são trabalhadores manuais aparentemente ficaram mais incomodados com o filho voltar tarde de uma festa do que com o comportamento da polícia: "Voltar às 4 horas da manhã já não é muito confortável. Ele tem que me dar uma explicação" (trabalhador manual não especializado 2, homem). Já esses entrevistados do grupo "classe média", que questionariam o filho, apoiam, em geral, o uso da força física pela polícia desde que aplicado a quem transgride: "sou a favor de a polícia bater em estuprador, ladrão e assassino. Isso aí eu não tenho dó mas no caso do meu filho eu ia procurar saber porque" (secretária administrativa, mulher) ou ainda: "as pessoas reclamam de policial que dá um tapa em menor. Mas os menores são muito agressivos. Os pais abandonam os próprios filhos, deixam que as escolas os eduquem. Eu não culpo o policial porque do jeito que ele faz com aquele policial, ele faz com os pais". (profissional liberal, homem)
A quem recorrer em um caso de suspeita de abuso policial? Essa situação hipotética revelou o desconhecimento dos entrevistados das instituições encarregadas de investigar e de punir os excessos cometidos por policiais e a profunda impotência deles em relação a esses excessos: "Eu ia ficar muito revoltada com certeza, mas o que fazer objetivamente eu não sei" (profissional liberal, mulher) ou como diz um jornalista "daria queixa, faria B.O. [Boletim de Ocorrência] mas é super complicado, B.O. não vai resolver nada. Teria que recorrer a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], denunciar no jornal... "
A falta de alternativas para a população é reconhecida pelos promotores e juízes entrevistados. A solução por eles adotada implica no uso da rede de relacionamento pessoal: "vou criar um 'clima', vou ao secretário de segurança pública, ao delegado geral de polícia" (promotor 1, homem). Esses entrevistados, quando instados a sugerir o que deveria fazer aquele(a) pai/mãe que "não tem os meios próprios do Ministério Público" (promotor 2, homem), reconhecem que teriam que recorrer à OAB, a organizações de defesa dos direitos humanos, à imprensa. As corregedorias de polícia (civil e militar) são mencionadas apenas pelos próprios policiais e por um dos juízes entrevistados.
A impotência dos entrevistados se reflete também na necessidade de acionar mais de uma instituição de tomarem mais de uma medida, como se tivessem que se garantir de vários modos para repararem o dano. Mesmo aqueles que recorreriam aos altos escalões da área da segurança pública também mencionam outras medidas auxiliares: entrar com ação na justiça, denunciar na imprensa, isto é, não acreditam totalmente na eficiência da rede de conhecimentos. No limite as pessoas não sabem a quem recorrer: "tem que entregar nas mãos de Deus" disse uma operária qualificada, "procuraria o chefão de polícia para que ele fizesse uma investigação. Se ele não desse jeito eu não sei com quem reclamar. Interessante, né?" (funcionário público 3, mulher). O principal motivo da incerteza é que não há garantias ou instituições com poder suficiente para controlar a polícia ao olhos desses entrevistados: mesmo "buscando um amplo respaldo, porque o poder da polícia é grande, (é) uma instituição muito difícil de você provar alguma coisa contra" (professor 2, mulher).
A inexistência de mecanismos amplamente difundidos de proteção da população contra eventuais abusos cometidos pela polícia pode estar alimentando a desconfiança da população em relação à polícia, o descrédito e sua má imagem. As corregedorias de polícia que seriam as agências internas de controle ou não são conhecidas ou não têm credibilidade suficiente. Suas ações não têm sido suficientes para eliminar a imagem que a população tem da polícia quer a violência quer o arbítrio. Sem controle por parte da sociedade não há controle sobre a violência e sobre o arbítrio e a sociedade continua a se perceber indefesa contra esses dois aspectos. Essa percepção de desproteção não passa desapercebida a entrevistados do grupo "justiça" e não seria ilusória: "A polícia trata muito mal. Eles atiram primeiro e perguntam depois. Não há controle sobre a violência da polícia... a coleção de abusos é gigantesca... é o pior serviço do Estado. Ela gera mais intranqüilidade do que segurança" (promotor 3, homem). A ausência de controles sobre a polícia ajuda a distanciá-la da população e alimenta a sua má imagem: "Acho que a polícia é autoritária. Ela não exerce a função pela qual foi criada. São mais bandidos do que aqueles que eles caçam... Hoje a população é indefesa porque a polícia foi criada para proteger mas não protege" (prof. liberal, mulher).

Saliência da polícia
A identificação da freqüência e das situações em que a palavra "polícia" foi mencionada ao longo da entrevista quando tratando de temas não diretamente relacionados com polícia, revelou que essa palavra é usada com maior freqüência pelos entrevistados do grupo "classe trabalhadora". Essa palavra está associada a situações negativas ou ambíguas. Atribui-se à ação da polícia, por exemplo, a falta de reação ou a passividade dos trabalhadores quando percebem ou são vítimas de alguma injustiça : "o povo não faz demonstração contra o (aumento) preço do ônibus porque senão dá confusão com a polícia, esse povo é preso, mas estuprador ela não prende " (trabalhador manual não especializado 3, homem). O temor de que a polícia possa reagir com violência ao envolvimento em protestos e manifestações não é fantasia mas fruto de experiências anteriores. Não é raro o uso de violência pela polícia para conter manifestações e protestos de trabalhadores. Isso é agravado pela continuidade, na transição democrática, de relações extremamente íntimas entre polícias e políticos, em especial nos estados do Norte e Nordeste e no Centro-oeste do Brasil. Com freqüência os jornais relatam casos envolvendo o uso de policiais por políticos para resolverem rixas privadas. Alagoas12 é apenas um exemplo da apropriação de policiais como guardas privados dos poderosos, nas áreas rurais dessas regiões isso é ainda mais freqüente. Parte da classe trabalhadora de São Paulo, oriunda de áreas rurais, pode ter socializado uma imagem de polícia que serve aos poderosos inclusive para violar a lei. Se isso for verdade, a imagem que hoje tem da polícia pode guardar resíduos dessa experiência anterior. Além disso, a história da atuação da polícia em manifestações, protestos, greves ou marchas promovidas pela classe trabalhadora não se pauta pela moderação no uso da força. O mesmo ocorre nas operações de reintegração de posse de áreas invadidas ou de retirada de favelados ou ainda quando em missões de patrulhamento. Na transição democrática, o uso de força excessiva não foi eliminado, no que se refere a essa população. A polícia não mais espanca os estudantes mas não se tem certeza que não usará da força para conter uma greve ou para remover a população de uma área.
Se há uma imagem de eficiência da polícia na contenção de manifestações populares ou coletivas de trabalhadores, há também a percepção de que ela é negligente em áreas carentes. Exatamente onde a criminalidade é mais problemática, a polícia é mais seletiva sobre os casos que considera prioritários, que investiga e que consegue encaminhar para o Judiciário. Isso significa que quando os trabalhadores superam o medo pela polícia e tentam registrar uma queixa e são dissuadidos, eles se sentem mais rejeitados do que outros grupos sociais, pois estão sendo desencorajados de buscarem a proteção da lei, como demonstra o caso relatado abaixo:
"Roubaram a minha casa, eu procurei a polícia (roubaram) uma televisão. E a polícia falou: 'só isso? A queixa está registrada. Se por um acaso a gente achar um neguinho com uma TV na cabeça, a gente prende'. Eu achei uma barbaridade. Eu recuperei a televisão. Mas recuperei porque onde eu moro tinha muito bandidinho... Sabe, quando a gente mora no bairro dessas pessoas elas não fazem nada pra gente... Aí eu conversei com um deles, pedi um favor pra ele. 'Ah, é então era sua? Eu vi. Pode deixar que eu trago. Aí eu recebi, ele me trouxe. Eles iam fazer um negócio com ela... (como avalia a experiência) Eu acho que não deveria existir isso (ter que recorrer ao bandido)... Não mexendo com ninguém. ... ele não deixa de ser um bandido, né? eles não mexendo com a gente tudo bem" (classe trabalhadora 4, homem).
Ao verificar que os delinqüentes podem dar solução ao um caso que a polícia ignora, as pessoas tendem a achar que a lei não foi feita para protegê-las. Isso é reconhecido pelos entrevistados do grupo da "justiça": "a classe média procura a polícia para dar um jeitinho de reaver seu toca-fitas. A classe mais pobre procura os bandidos... Vejo nisso uma semelhança entre a polícia e o bandido, muito natural" (promotor 3, homem).
A combinação do uso excessivo de força em certas circunstâncias (como as descritas acima) com ineficiência e até negligência no garantir a segurança cotidiana da população nas áreas mais carentes das cidades não são propriamente exclusividade das nossas polícias. Weinberger (1990) descreve essa combinação de extremo rigor (violência) na aplicação de certas leis e "lassidão nas atitudes em relação às reclamações de inação da polícia" na brigas e disputas de rua dentro dos bairros ocupados pela classe trabalhadora em Birmingham na década de 1870, comparadas com a o tratamento dispensados aos "cidadãos respeitáveis": "enquanto a transgressão mais trivial ou comportamento excessivamente zeloso da polícia em relação a cidadãos respeitáveis era considerada suficientemente importante para ser notada, contra a população em geral fazia-se vista grossa" (Weinberger, 1990, p. 13).
Relatos sobre o que ocorria e continua a ocorre nos ghettos da África do Sul são muito semelhantes ao que Weinberger relata sobre a Inglaterra do século XIX. Não é novidade que as áreas onde não há policiamento se tornem as mais violentas. A polícia sul-africana sempre usou de extrema violência na repressão de manifestações públicas da população negra de qualquer faixa etária e por qualquer motivo (até mesmo em enterros) e ao mesmo tempo ignorou a violência cotidiana nos guetos permitindo que proliferassem formas brutais de linchamentos e assassinatos cometidas por grupos de vigilantes. Essas ações não desapareceram com a transição para a democracia, e seria alimentada pela negligência e incompetência policial assim descrita: "O fracasso da polícia tem origem em vários fatores. Afora o partidarismo de muitos oficiais da polícia, para quem a ANC (African Nacional Council)13 sempre foi um organização assassina e ilegal, há o racismo aberto dos oficiais brancos e hindus que acham que matar negros é a ordem natural das coisas. Há também uma grave escassez de pessoal e incompetência generalizada no trabalho investigativo. Sob as leis de segurança e de prolongado estado de emergência draconianas da África do Sul, a polícia nunca teve um incentivo legal para produzir evidência além do que podia obter pelo espancamento de um suspeito sem advogado de defesa, sem direito a ficar calado e sem limite de quanto tempo ele poderia ficar detido sem acusação" (Berkeley, 1994, p.100). Um lema que Berkeley cita como resumindo as políticas de segurança pública aplicadas pela polícia na África do Sul era: "Deixem o escravo comer o escravo" (um velho provérbio sudanês). Essas práticas de negligência malévola são arraigadas e não desaparecem com a transição democrática.
Weinberger sugere que essa negligência era a evidência da falta de poder dos trabalhadores em relação a polícia local que se recusava a proteger a população moradora nas áreas pobres de Birmingham. Essa falta de ação da polícia terminava por alimentar a violência entre os pobres: "Basicamente nem as cortes (de justiça) nem a câmara estavam seriamente preocupados com o bem estar ou os direitos de uma comunidade que não tinha nem o poder nem os votos, que não fazia parte de sua força de trabalho e em relação a qual só guardavam desprezo" (Weinberger, 1990, p.18). "Já que os brutos badernavam entre si, não havia motivos para que as autoridades interviessem. Suas esperanças e esforços para melhorar o ambiente da classe trabalhadora se restringiam ao setor respeitável. Nenhum esforço era feito para coibir os excessos dos mais marginalizados, cujo sentimento de exclusão da sociedade era o que alimentava o surgimento de gangues. Apesar de errado, o estado de guerra implantado pelas gangues, pelo menos dava aos participantes uma chance de adquirir poder e prestígio local, que lhes eram negados na vida pública" (Weinberger, 1990, p. 18).
O'Donnell mostra que um dos desafios colocados à transição democrática é o de ampliar a proteção da leis aos os grupos antes dela excluídos. O que os dados sugerem, no caso brasileiro, é que esse desafio ainda não foi preenchido. A perversidade está no fato de que a falta de proteção não elimina sua necessidade. A ineficiência da polícia e seu baixo desempenho preparam o caminho para mais violência por parte de dois grupos: a polícia e as vítimas. A hipótese portanto é que quanto maior a ineficiência da polícia, maior a falta de confiança na polícia e maior a necessidade de proteção da população (por exemplo, quanto maior forem os riscos que eles sentem, mais expostos eles ficam), mais aceitam as ações arbitrárias da polícia e da comunidade (como o uso de tortura e a violência fatal contra "suspeitos"). Isso indica que quanto maior o estado de desespero do grupo, mais receptivo às violações dos direitos humanos ele é.
Podemos assim afirmar de que essas percepções apresentadas acima mostram que a polícia não é benquista por seu público. Por um lado as pessoas não se sentem com poder suficiente para mudar a polícia. Isto é válido para os entrevistados de todas as classes. Aparentemente, a transição democrática não afetou, pelo menos até o momento, as percepções que as pessoas têm da capacidade do sistema judicial atender às suas demandas. Por outro lado, as percepções e a experiência concreta que as pessoas têm da polícia, praticamente eliminam qualquer predisposição que porventura tenham de cooperar com essa instituição. Esse fato é reconhecido por alguns integrantes do sistema da justiça criminal: "A polícia maltrata a população. Em vez de prestar um bom serviço, o Estado age como se estivesse fazendo um favor. Não estou falando de bandidos, estou falando de vítimas. Por isso ninguém ajuda, como testemunha dando depoimentos" (promotor público 1, homem).

O medo da polícia
O medo também está presente na polícia. Retomando as transcrições das fitas com as entrevistas com policiais, descobri que a palavra medo é usada com muita freqüência. Ela foi usada por esse grupo 20 vezes mais que nos demais grupos. Eles também vivem expostos à situações de perigo e também são rejeitados pela sociedade. Essa situação e mais a falta de habilidades encorajam uma sensação de vulnerabilidade.
As condições de trabalho dos policiais nas áreas pobres da cidade reforçam essa vulnerabilidade. O treinamento dado é reconhecido pelos profissionais como insuficiente, faltam equipamentos de proteção (colete à prova de bala, capacetes, etc.) e comunicação com outros grupos; falta também infra-estrutura de apoio, como, por exemplo, mapas adequados para a áreas mais difíceis. Os usados são irreais: a escala não é adequada, eles não descrevem as áreas invadidas. Favelas são apresentadas como áreas vazias14. Quando a polícia tem que entrar em uma dessas áreas, ela entra sem informações detalhadas sobre os acessos e as saídas. Sem instrumentos, há pouco planejamento e muita improvisação aumentando as chances de cair em verdadeiras armadilhas e pôr em risco suas próprias vidas e a dos demais moradores. Muitas das condições de trabalho de campo favorecem o mau desempenho. Além disso, há pouco apoio em geral para os policiais, isto por suas próprias corporações15.
Em regiões pobres, onde a violência fatal ocorre com maior freqüência e onde a polícia tem menos recursos materiais e humanos para lidar com essa demanda, a população tem pouco poder de barganha política para conseguir recursos adequados. Essa população não pode competir com outras regiões mais poderosas por recursos existentes para a segurança pública. Áreas enormes da periferia de São Paulo correm cada vez mais o risco de não terem segurança pública, delegacias são fechadas em fim de semana e à noite por falta de condições de segurança da própria polícia. É também nesses lugares que as gangues estão se fortalecendo e com isso diminuindo a possibilidade da população se sentir livre do medo.
Para encerrar, volto à favela onde há 12 anos atrás me questionei sobre a diminuição do medo e do controle sobre os mais pobres e sobre a classe trabalhadora. Nos dias de hoje, de acordo com fontes policiais, traficantes de drogas assumiram o controle da favela chegando a cobrar taxa de "pedágio" dos moradores para terem acesso à favela. Um carro da polícia foi enviado para fazer investigações e foi recebido com pesado armamento tendo que ser resgatado por outros grupos de policiais. O relato da polícia afirma que os traficantes possuíam rifles AR-15. Se essa história for verdadeira, isso indica que as pessoas que moram lá pouco conhecem de democracia, pelo menos daquela face da democracia das garantias de integridade física, de liberdade de ir e de vir. A capacidade de gerar medo e a arbitrariedade de quem dispõe da força de coerção não só continua a imperar como ganhou terreno e floresceu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Berkeley, Bill (1994) The warloads of Natal. The Atlantic Monthly, p. 85-100, May.         [ Links ]
NEV (1992/1995) A ideologia autoritária na vida cotidiana. Parte do projeto integrado: Consolidação democrática e continuidade autoritária - financiada pelo CNPq.         [ Links ]
Piquet Carneiro. (1996) Quais as condições que influenciam para as vítimas recorrerem ou não às instituições de segurança e justiça. Texto apresentado no Colóquio internacional sobre a polícia.         [ Links ]
PNAD. (1988) Participação político social. Vol. 1. Justiça e Vitimização. Rio de Janeiro, IBGE.         [ Links ]
Weinberger, B. (1990) The anatomy of urban violence: street gangs in Birmingham in the 1870's. Trabalho apresentado no Colóquio Urban violence, public order and social control. São Paulo, NEV-USP, março.         [ Links ]




1 O arbítrio e o ridículo das apreensões de livros alimentaram vários volumes do Festival da Besteira que assola o país - FEBEAPÁ selecionados e comentados por Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta).
2 Tais como taxistas, porteiros de prédios que deviam informar sobre a presença de novos moradores, ou de visitantes, locadores de imóveis que deveriam informar sobre novos locatários etc.
3 Esse cotidiano vigiado está magnificamente sintetizado no filme Páginas da revolução.
4 Medo esse justificado pelos dados da pesquisa PNAD (1988) que mostra que a polícia tende a agredir com maior freqüência jovens negros.
5 Essa imagem ruim é corroborada por outra pesquisa da Folha de S. Paulo (18/08/96) que mostra a falta de interesse da maioria da população pela carreira militar: 13% das pessoas entrevistadas declararam espontâneamente que não seriam um policial. A profissão de policial foi a segunda mais rejeitada, só perdendo para a de lixeiro.
6 "A ideologia autoritária na vida cotidiana" dados coletados em São Paulo entre 1992 e 1993. Entrevistas foram realizadas com diferentes grupos sociais: "classe alta: empresários, esposas de empresários, industriais; "classe média": profissionais liberais, funcionários públicos; "classe trabalhadora": operários, trabalhadores manuais não especializados; "formadores de opinião": políticos, jornalistas, professores universitários, estudantes universitários; "justiça criminal": juízes, delegados, promotores e policiais militares.
7 Para um dos entrevistados, isso significa uma certa impunidade da elite "Se você for da classe alta você é sempre mais bem tratado. As pessoas mais ricas são refinadas, mais educadas e portanto exigem melhor tratamento. Essa diferença não é uma coisa boa, pois discrimina outras pessoas. A elite é impune" (classe alta, homem).
8 Um dos entrevistados lembrou do caso envolvendo o então ministro da justiça Célio Borja: "alguns membros da família dele foram assaltados, ele tentou procurar a polícia na qualidade de ministro. A polícia não pode atendê-lo e se desculpou dizendo que não havia combustível para suas viaturas (imagine) os pobres mortais..." (industrial, homem).
9 Cf. Pesquisa PNAD (1988) e Piquet Carneiro (1996) sobre o Rio de Janeiro .
10 A pesquisa PNAD sugere que os motivos para não recorrer à polícia e para não registrarem queixa variam de acordo com a renda e a escolaridade do entrevistado e que quanto maior a renda e a escolaridade menor é a confiança na polícia.
11Os promotores, juízes, delegados de polícia e policiais militares.
12 "Elites comandam a violência no Estado: segundo a OAB, 25% dos crimes são praticados por policiais militares ou civis" (O Estado de S. Paulo, 01/07/96, p. A7); "Irmão de PC manda na investigação" (Jornal do Brasil , 30/06/96, p. 1); "Política é feita a bala", "Alagoas é a terra onde tudo é possível" e "Clã dos Faria domina a polícia" (Jornal do Brasil, 30/06/96, Política, p. 30).
13 Partido que representa parte da população negra e que lutou por anos contra o Apartheid. Hoje está no poder representado pelo Presidente Mandela.
14 A ocupação de terras na parte Sul da cidade está cada dia aumentando mais devido entre outras razões ao processo de desalojamento dos antigos favelados que de lá saíram por causa dos serviços públicos.
15 Exemplo disso foi observado quando da queda do avião da TAM em novembro de 1996. As equipes de policiais militares que trabalharam no resgate dos corpos das vítimas receberam comida e líquidos de grupos de voluntários. Não estava presente no local nenhum grupo das polícias (civil ou militar) para apoiar esses policiais. Em outros países entendem-se que policiais que tomam parte nessas atividades precisam receber algum tipo de atendimento de suporte após uma tarefa dessa natureza com um forte componente de stress.Não foi divulgado qualquer medida desse tipo ou externada preocupação com o estado emocional desses profissionais por nenhuma autoridade.

Temos medo de quê?

1

What do we fear?


Alain Vanier
Ex-psiquiatra de hospitais. Professor da Universidade Paris VII – Denis Diderot. alainvanier@noss.fr



RESUMO
O enfraquecimento contemporâneo das figuras tutelares tem como correlato certa escalada do medo. Contudo, a psicanálise apostará em outra via que não a da restauração do pai do patriarcado. A fim de pensar tal via, articula-se, aqui, as diferentes categorias do medo, considerando-se as formas tomadas por este termo no curso da História, bem como suas inflexões contemporâneas na relação com o laço social.
Palavras-chave: Medo, angústia, pai, gozo, ciência.

ABSTRACT
The contemporary weakning of the tutelaring figures holds a corrilation to a fear scale. However, the psychoanalysis will bet on other means that not the one of the restauration of the patriarchate father. In order to think such a mean, it is here argued the different categories of fear, considering the forms taken by this term in the course of History, as well as its contemporary inflections in the relation with social bonds.
Keywords: Fear, anguish, father, joy, science.



O fato de as Faculdades Universitárias Saint-Louis e sua Escola de Ciências Filosóficas e Religiosas terem solicitado a um psicanalista que inaugurasse o ciclo de aulas públicas deste ano me sensibiliza muito. Agradeço ao senhor reitor das faculdades, e à Comissão Diretora da Escola, na pessoa de sua presidente, senhora professora Anne-Marie Dillens, com uma lembrança especial ao professor Jean Florence, ele próprio psicanalista, cuja amizade tanto me honra. Seus trabalhos sobre identificação constituem referência, e não estão distantes de nosso tema, porquanto a identificação — como modalidade de relação com o semelhante — articula-se com a questão do medo, do qual é uma das saídas.
Que é que um psicanalista pode dizer a propósito do medo? Não considero que seja fortuito o aparecimento de um tema como este hoje em dia. De fato, uma questão como "temos medo de quê?" se divide entre a intemporalidade do medo como afeto fundamental, e a atualidade dessa questão.
Alarme, acovardamento, angústia, ansiedade, apavoramento, apreensão, assombro, aversão, cagaço, azar no jogo, covardia, desassossego, desbrio, enlouquecimento, fobia, ódio, raiva, horror, inquietação, inquietude, medo, pânico, paúra, pavor, pusilanimidade, receio, repulsa, sobressalto, susto, temor, terror, tremor, etc. O vocabulário do medo é imenso, e o campo semântico que constitui é muito rico e, curiosamente, discrimina muito pouco. O termo central que Freud promove é o de angústia (Angst) — do qual Kierkegaard fizera um conceito alguns decênios antes — e sem dúvida não é indiferente observar o reaparecimento desse termo, caído em desuso no século XVIII, nesse momento particular da História do Ocidente (REY, 1992). Propõe-se para nós, então, a questão da articulação possível entre as diversas categorias do medo, assim como suas formas no curso da História e as inflexões contemporâneas desse mesmo termo na sua relação com o laço social. Aristóteles e a tragédia, Agostinho e a Revelação, Hobbes, Kierkegaard, Heidegger, depois Hannah Arendt e o terror totalitário, Hans Jonas, tantas figuras que marcam várias etapas da problemática, articulando a singularidade do medo e sua universalidade, sua particularidade e o tratamento que dá e recebe da coletividade.
O que é a angústia para a psicanálise? Freud foi o primeiro a fazer a angústia entrar para o vocabulário da psicopatologia. Os alienistas do século XIX não desconheciam o medo como signo, mas o incluíam em quadros diversos. Freud deu à angústia um estatuto novo, ao descrever em 1895 a neurose de angústia (FREUD, 1895). Ele desenvolve sucessivamente pelo menos duas teorias da angústia, assim como um recorte desse abundante vocabulário do medo.
A angústia tem com o nosso corpo a mais estreita vinculação, como nos é mostrado pela etimologia (do latimangustia): designa um mal-estar psíquico, mas também físico — sensação de aperto na região epigástrica, de bolo na garganta, com palpitações, palidez, impressão de que as pernas vacilam, dificuldade para respirar, em suma, a angústia afeta o corpo. Se para a psicanálise é o "afeto principal", "fundamental", "aquele a cuja volta tudo se ordena", para os psicanalistas a angústia não é um reliquat, um ressurgimento de nossa animalidade, uma reação de nosso ser biológico cioso de preservar-se como vivo — o que o termo fobia (phobos: a fuga) dá a entender. Em conseqüência de sua captura na linguagem, o homem faz de suas necessidades naturais, desejos. Talvez daí provenha a escolha feita pelos tradutores franceses de Freud, de traduzir Angst por angoisse[angústia], uma vez que em alemão aquele termo recobre também o medo: para dizer que alguém tem medo, utiliza-se Angst.
Desde os anos 1890, a angústia para Freud corresponde a uma tensão física que não pode ser elaborada psiquicamente, e essa tensão é sexual. Depois de ter sido referida a causas a propósito das dificuldades atuais da vida genital, em seguida é articulada à teoria do recalcamento. Este separa representação e afeto: a representação é recalcada no inconsciente, e o afeto é deslocado, destacado dessa representação à qual estava ligado. O afeto então não pode ser reconhecido e se transforma em angústia que parece não ter objeto.
Freud vai propor uma divisão de medos e angústias, à qual será levado pelos efeitos clínicos da Primeira Guerra Mundial (FREUD, 1916-1917; 1920). Ele distingue três categorias em função de "sua relação com o perigo". Em primeiro lugar, a angústia — Angst — que se refere a um estado e "abstrai do objeto". O perigo pode ser desconhecido e provoca um estado de espera e de preparação. Em seguida, o medo (Furcht) exige um objeto determinado e dirige sua atenção para este. Por fim, o terceiro termo, Schreck, para o qual [em francês] a tradução por effroi [pavor] é preferível a frayeur [susto], porque frayeur deve sua forma e seu sentido atual a uma aproximação com effrayer [assustar], de onde vem effroi [pavor], nesse caso a etimologia é distinta. O pavor é efeito de um perigo que não é preparado por alguma forma de alerta, não é preparado pela angústia, é marcado pela surpresa. Isso faz Freud dizer que o ser humano se protege do pavor por meio da angústia. As neuroses traumáticas — neuroses de guerra — fornecem o modo explícito de uma manifestação de pavor, e a articulação da angústia e do medo é particularmente nítida na fobia.
Ao longo dos anos 1920, Freud vai propor uma segunda teoria da angústia (FREUD, 1926). Nesta, ele inverte sua proposição inicial: não é o recalcamento que faz a angústia, mas sim "a angústia é que faz o recalcamento". Porque a angústia sobrevém inicialmente diante de um perigo extremo e ameaçador. Freud a denomina Realangst, que podemos traduzir por angoisse réaliste [angústia ante um perigo real], ou melhor, [em francês] por angoisse de ou du Réel. Trata-se daquilo que se apodera do menininho diante do amor que sente por sua mãe. Ainda que apareça como perigo interno, esse amor remete a um perigo externo que é o temor imaginário da castração. Não é tanto que a castração possa efetivamente ser praticada, Freud escreve, mas "esse é um perigo que ameaça do exterior, e a criança acredita nele". Essa crença é determinante. Para as meninas, Freud prossegue, trata-se da angústia ante a perda do amor, "visivelmente um prolongamento da angústia do lactente quando experiencia a ausência da mãe"; remete a uma angústia originária, a angústia do nascimento, que já significa separação da mãe. A angústia é um sinal no eu, sinal de perigo quando sobrevém uma exigência pulsional. A angústia é um sinal no eu, ela adverte o sujeito de um perigo que é o de um desejo enigmático que envolve seu ser como perdido e passível de anulação, seu ser como objeto que pode ser, sem saber qual, para o desejo do Outro. Só então o recalcamento intervém.
Toda a teoria do infantil tinha sido desenvolvida por Freud a partir dos tratamentos de adultos. Para responder aos seus detratores, Freud estimulou pessoas que andavam à sua volta a observarem crianças, a fim de verificar suas hipóteses. Dessas observações, nada chegou até nós, a não ser o início do artigo sobre o pequeno Hans, publicado em 1909 (FREUD, 1909; ver também comentário de Lacan em LACAN, 1956-1957/1994). Porém, quando tinha 4 anos e meio, o Hans dispara uma fobia que vai ser tratada por uma psicanálise conduzida por seu pai. Paradoxalmente, Freud vai declarar que o tratamento de Hans não lhe ensinou nada que ele já não soubesse.
Muito cedo, Hans surge preocupado com seu pênis, que ele chama de seu Wiwimacher — seu faz-pipi. Ele atribui um faz-pipi daqueles também aos animais que existem à sua volta, mas não a todos, e se pergunta se sua mãe também teria um. Diante disso, ela responde que tem, e acrescenta: "Então você não sabia?" Essa ênfase no saber não é à toa, uma vez que a fobia tem isso de particular: ela manifesta, ao mesmo tempo, um saber que o sujeito possui sem poder fazer saber que possui, sem poder fazer com que seja reconhecido, e, além disso, uma zona de não-saber fundamental. Hans responde: "Não, eu achava que como você é tão grande, devia ter um faz-pipi como o de um cavalo." Esta é uma das primeiras ocorrências do cavalo, que será o objeto fóbico por onde Hans faz saber aquilo que sabe. Nessa época, as ruas viviam cheias de cavalos, o que permitia a observação de sua vida íntima, tão importante para as crianças. Hans não pode se apropriar desse saber, porque não pode fazê-lo reconhecer pelo Outro. Ele também adquiriu o hábito de se masturbar, o que lhe valeu uma ameaça de castração proferida pela mãe.
Lacan vai insistir na importância da descoberta do real do órgão nessa idade. A micção deixa de acontecer com ereção, e as ereções se produzem intempestivamente, dando sensações de tensão desconhecidas, incontroláveis e quase dolorosas. As crianças dessa idade muitas vezes fazem perguntas indiretas sobre essas sensações, que são solicitações de palavras para saber aquilo que irrompe violentamente em seu corpo. Porque a sexualidade irrompe violentamente e, ademais, é impossível dominá-la: isso já impunha a dúvida aos gregos, uma vez que a sexualidade é o lugar por excelência do fracasso do ideal de domínio de si mesmo.
A sexualidade é sempre traumática porque vem do Outro, é heterogênea ao corpo. Para Freud, ela de início apareceu como ligada à sedução dos pais abusadores, construção que visava simbolizar esse algo que escapa à simbolização, isto é, ao saber — outra fórmula de Freud, que mais tarde constata que não há representante da diferença dos sexos no inconsciente, e de que nesse nível há uma falta de saber.
O nascimento de uma irmãzinha alimenta o questionamento de Hans sobre esse órgão, assim como sobre a diferença dos órgãos genitais entre meninas e meninos. Ele tem um sonho no qual sua mãe o abandona, e desenvolve pouco depois uma fobia a cavalos, lugar da transposição da angústia. Hans era um menininho particularmente amado pela mãe que o levava para toda parte: para sua cama, apesar dos tímidos protestos do pai; para seu banheiro, etc. O temor de ser devorado pela mãe que seu sintoma manifesta (medo de que um cavalo o morda) de fato é o temor de não saber o que a mãe quer dele nesse amor que tem por ele. O interesse pela irmãzinha que acabou de nascer torna mais aguda a questão. Trata-se de saber por que ele é amado, uma vez que seu órgão não parece estar à altura daquilo que a mãe poderia esperar. Então, o risco é de que seja ele inteiro o objeto do desejo da mãe. Hans é confrontado com aquilo que encontrou como falta no Outro, isto é, como desejo. Se não falta nada à mãe, ela não deseja. Sócrates já fazia Diotima dizer que o amor é filho do Expediente e da Pobreza, é pobre porque é falta e vive de expedientes.
Porém, uma vez que imagina a si mesmo como outro que não aquele que é desejado, Hans é jogado para fora do campo imaginário da mãe onde ela poderia achar de se satisfazer, em vista do lugar que ele ocupava aí. Nesse lugar da angústia, Hans vai substituir o medo pela produção de uma fobia. Esse medo, diferentemente da angústia, tem a vantagem de estar focalizado num objeto; de algum modo é um posto avançado da angústia. Paradoxalmente, esse medo tem uma função estruturante. Introduz uma ordem — exorbitante, é bem verdade — no mundo dessa criança: há, assim, lugares onde pode ir, onde ela não tem medo, e outros onde ela não pode ir. Lacan chegou a dizer: "O sentido da fobia é introduzir uma estrutura no mundo da criança. A fobia coloca precisamente no primeiro plano a função de um interior e de um exterior. Até aí a criança, no fim das contas, estava no interior de sua mãe", de onde acaba de ser expulsa. A confrontação ao enigma do desejo da mãe, ao enigma do desejo do Outro, faz surgir a angústia. Esta intervém quando o sujeito encontra a falta no Outro, que gera seu desejo, e que não sabe que objeto ele é para esse Outro e seu desejo. O medo do objeto fóbico que substitui a angústia vem então proteger o sujeito contra esse desejo. O objeto fóbico é um significante, um significante que serve para tudo, trata-se igualmente do pai que pune e da mãe que devora. Esses significantes muito freqüentemente têm um valor genérico para além de toda realidade presente. Assim, o medo do lobo está sempre presente, mesmo que não haja mais lobos nos nossos campos; está, porém, depositado na cultura, nos nossos mitos. A criança está desarmada como resultado de sua dependência absoluta ao desejo do Outro, que sempre lhe parece enigmático: "O que ele quer? O que ele quer de mim?" Essa pergunta não pára de ressurgir ao longo da vida inteira, ela colore, dá sabor às aflições da vida amorosa de todo mundo: o que é que eu sou para o Outro? Que é que ele ama em mim, se me ama? E isso a cada vez que esse outro me parece realmente outro. Assim, a angústia é, para o sujeito, uma espécie de marcador do aparecimento de uma relação com o Outro, em sua dimensão real, e destaca a dependência ao Outro de toda constituição de sujeito.
Para Freud toda angústia é fundamentalmente angústia de separação. De fato, o que gera a angústia é menos a separação do que aquilo que aconteceria se essa separação não acontecesse: a angústia surge da experiência dessa ligação que desmente a separação. A angústia é, portanto, marca dessa separação, marca de um vestígio deixado pela simbolização dessa separação. A encarnação de um objeto (seja um bichinho de pelúcia, um paninho macio, um objeto eletivo que Winnicott chama de objeto transicional) é esse vestígio, esse reliquat que significa que essa separação não é totalmente simbolizável, que há um resto.
No final das contas, a suposta onipotência da mãe, a dependência suposta ao seu capricho, é que cria uma situação de perigo para o sujeito.
"O espanto se apossa de você mais facilmente ao sair de um estado de contemplação e de concentração profundas, quando você está numa meditação profunda, ou recolhido na música ou mergulhado no sono. Mais fácil e fortemente do que qualquer outra, uma percepção visual o fará mergulhar no espanto. Mas especialmente, se é a presença de uma pessoa feminina que você percebe por perto (e provavelmente é a mesma coisa tanto para os homens quanto para as mulheres). De modo que o aparecimento da mãe, despertando o homem da meditação na qual ele está profundamente absorto, seria o caso eidético ideal do espanto." (BENJAMIN, 1920-1922/2001)
O recolhimento de que Benjamin fala não é em Deus, explicita ele, nem em si mesmo: é um recolhimento incompleto que "desencarna a carne" e a desenraiza "do corpo estrangeiro", donde a prevalência do visual. E acrescenta: "O espanto é um fenômeno que só pode se instalar quando a sós", e põe em jogo a dimensão do duplo.
A angústia não é sem objeto, mas esse objeto é fundamentalmente perdido. Parece sem objeto porque o que a provoca é antes a iminência da presença do que a própria presença. A angústia introduz a função da falta, porque está ligada a esse momento separador de constituição do objeto. Desde então, a angústia é antes falta da falta que constitui o apoio do desejo para o sujeito. Deste ponto de vista, a fobia mostra como o medo trata a angústia. Os pacientes fóbicos apresentam novos surtos de angústia quando a fobia desaparece; na neurose obsessiva, quando o sujeito é impedido de entregar-se aos seus rituais. Essa relação com o desejo do Outro encontra sua resolução normativa no complexo de Édipo, isto é, no lugar que o pai pode tomar como sendo aquele que se ocupa do desejo da mãe. Nisso, a culpabilidade tem ligação com a angústia, o que Kierkegaard (1844/1935) desenvolveu magnificamente, sob um outro ângulo, e que é constatado pelo trabalho histórico de Jean Delumeau (1983) sobre o pecado e o medo. A fobia manifesta ao mesmo tempo uma realização e um fracasso; de certo modo a operação edipiana erra o alvo, uma vez que ao mesmo tempo manifesta e disfarça uma falha da separação.
Há algum tempo o tema do declínio do pai, do enfraquecimento de sua função, tem tomado ares de banalidade. E no entanto, esse enfraquecimento não é recente. O advento do cristianismo é um dos momentos decisivos para isso, e uma disputa como a do filioque é evidência disso. É certo, no entanto, que nossa época mostra um enfraquecimento de uma dimensão imaginária do pai — não sem relação com a promoção de figuras ideais para além da família. Há, entretanto, alguma coisa estrutural no fato de que, falando propriamente, nenhum pai está à altura de substituir por completo a dimensão simbólica de sua função. As inevitáveis fobias que balizam e escandem o desenvolvimento da criança manifestam isso. Quer se trate do medo da escuridão, do lobo, etc., essas fobias aparecem em idades determinadas: por volta de 3 a 5 anos, e a fobia de Hans provavelmente é uma dessas; depois por volta de 8-9 anos, quando a criança apreende que pode perder ou ser perdida por seus pais, que são mortais. É por isso que se pode dizer, ante essa incompletude, "só temos medo verdadeiramente daquilo que não podemos compreender" (MAUPASSANT, 1884/1979). Lacan diz a mesma coisa quando, ante a pergunta de uma jornalista quanto ao que "leva as pessoas a se submeterem à psicanálise", responde que é "o medo. Quando acontecem ao homem coisas que ele não compreende, mesmo que sejam coisas que ele quis, o homem tem medo. Ele sofre por não compreender e, pouco a pouco, entra num estado de pânico. É a neurose."
A nostalgia do pai é um tema da modernidade, e nossa época viu determinados retornos terríveis, porém, ainda que apenas possamos constatar que há aí algo que não funciona mais como outrora, a psicanálise é uma aposta razoável — uma vez que se apóia na clínica — numa outra via que não a da restauração do pai, que não a do salvamento do pai do patriarcado. Temos alguma idéia de outrora graças aos incomparáveis trabalhos de Jean Delumeau (1983). Ele mostrou como o acúmulo de agressões que atingiram as populações do Ocidente do século XIV ao século XVII provocou profundo abalo psicológico que "todas as linguagens do tempo evidenciam". "Constituiu-se 'um país do medo' em cujo interior uma civilização se sentiu 'pouco à vontade' e povoou de fantasias mórbidas". A angústia e o desespero ameaçavam a coerência social. "Os homens da Igreja", escreve Jean Delumeau,
"designaram e desmascararam esse inimigo dos homens. Prepararam o inventário dos males que ele é capaz de provocar, e o rol de seus agentes: os turcos, os judeus, os hereges, as mulheres (especialmente as feiticeiras) (...). Uma ameaça global de morte encontrou-se assim segmentada em medos, certamente temíveis, porém nomeados e explicados, porquanto refletidos e esclarecidos pelos homens da Igreja. Essa enunciação designava os perigos e os inimigos contra os quais o combate era pelo menos possível, se não fácil, com a ajuda da graça de Deus. (...) O discurso eclesiástico, reduzido à sua essência, era de fato o seguinte: os lobos, o mar e as estrelas, as pestes, as privações e as guerras não precisam ser tão temidos quanto o demônio e o pecado, e a morte do corpo, não tanto quanto a morte da alma. Desmascarar Satã e seus agentes e lutar contra o pecado, ademais, era diminuir a quantidade de infelicidades existentes sobre a Terra, das quais eles são a verdadeira causa. (Id., ibid.)
Jean Delumeau observa, por outro lado, que se introduz então um certo medo de si mesmo, porque "todo homem, se não tomar cuidado, [pode] se tornar um agente do demônio".
Isso que é descrito para nós dessa maneira é um notável tratamento do medo pelo medo. Essas agressões incompreensíveis remetem às fontes do medo. Explicá-las, nomeá-las, colocá-las num combate no qual cada um pode encontrar seu lugar, ainda que não mude nada nas agressões, modifica o valor e o próprio sentido do medo.
Relendo Athalie de Racine, em 1956, Lacan desenvolveu uma hipótese próxima a isso (LACAN, 1955-1956/1981). A primeira cena da exposição mostra o encontro de Abner, um oficial da rainha Athalie que reina pelo terror, com o grande sacerdote Joad, que conspira a fim de levar ao trono o seu filho, filho que deveria ter sido morto quando criança, e que ele escondera.
O medo é algo ambivalente. "É ao mesmo tempo alguma coisa que o impele a avançar e alguma coisa que o puxa para trás; é alguma coisa que faz de você um ser duplo e que, quando você o exprime diante de um personagem junto de quem você quer dar mostras de ter medo, põe você a cada instante na postura de reflexo. É o que Abner vai tentar fazer com Joad. O que se produz, porém, é a operação inversa. Tudo gira em volta de um termo: o temor a Deus. Lacan demarca essa báscula à volta da passagem do zelo para a fidelidade. De fato, Abner começa evocando a desafeição do Templo cheio de uns poucos "zelosos adoradores", vindos em busca de um Deus que não manifesta mais nada de seu poder diante do poder da rainha, que parece não ter limites. Zeloso vem do latim zelus, que quer dizer "ciúme", que por sua vez provém do grego zelos, "emulação", "rivalidade"; designa um vínculo imaginário, uma multidão de assemelhados (REY, 1992). Diante disso, Joad responde: "Eu temo a Deus, caro Abner, e não tenho nenhum outro temor."
Ao redor desse temor a Deus — e Lacan enfatiza a que ponto esse termo é fundamental numa certa tradição que é a nossa — gira a posição de Abner, zeloso, porém indeciso, um pouco deprimido, que fica firme e se junta ao grupo fiel. A eficácia desse temor a Deus é transformar o zelo inicial em fidelidade no final da cena, porquanto os "zelosos adoradores" se tornam a "tropa fiel", fidelidade que deriva de fides, a fé — fé nesse Deus terceiro que articula minha ligação ao meu semelhante. Essa passagem, parecida com aquela descrita por Delumeau, não é um embuste de prestidigitação.
Lacan pode dizer:
"o temor a Deus é um significante que não se encontra em toda parte. Foi preciso que alguém o inventasse, e o propusesse aos homens como remédio para um mundo feito de múltiplos terrores, temer um ser que, no final das contas, só pode exercer seus maus-tratos por meio dos males que estão aí, presentes de forma múltipla, na vida humana. Substituir os inumeráveis temores pelo temor a um ser único que não dispõe de outro meio para manifestar seu poder senão aquilo que é temido por trás desses numerosos temores, é um bocado difícil de admitir." (LACAN, 1955-1956/1981)
As culturas sempre propuseram esse tipo de tratamento do medo pelo medo. Um medo imaginário, difuso, que ameaça aparecer de surpresa, é substituído por um medo orientado, focalizado, como uma espécie de fobia generalizada, que serve de remédio para a solidão paralisante da angústia, ao coletivizar essa angústia. Tal intervenção, portanto, introduz uma dimensão suplementar com Deus como figura de Pai ideal. Põe em ação um efeito de simbolização daquilo que há de mais Real para cada um, por trás dessas múltiplas infelicidades: a morte, a morte incompreensível, a respeito qual nada podemos saber, porque remete a uma abertura no próprio saber. Todas as crianças da idade de Hans são pequenos metafísicos, preocupados com essa questão. O que encontram no Outro que interrogam é um ponto de não-saber, no qual está alojada uma crença. Nesse lugar, é preciso abster-se cuidadosamente de inscrever uma certeza que funcione como um tampão, que faça extinguir a curiosidade do pequeno perguntador que tenta limitar essa abertura no Outro.
Essa dimensão ideal de uma figura paterna é particularmente evidente na constituição dos grupos. Quem tenha assistido a um dia de aula numa seção de crianças pequenas de um maternal — crianças de mais ou menos 3 anos — terá guardado na lembrança a dificuldade que a professora pode ter para simplesmente arrumá-las em grupo. Alguns anos mais tarde, as crianças formam uma fila sem maiores dificuldades, elas se organizam sob a tutela da professora, ou do líder que tenha surgido de dentro de suas próprias fileiras.
O reagrupamento sob uma figura tutelar sempre constituiu uma das maneiras mais comuns de tratar o medo. O pai, ou sua figura, protege do medo. Esse reagrupamento se faz à custa de uma regressão que mantém o sujeito em determinada posição, aquela que Freud qualificava como infantil, mas que pode tomar corpo e constituir uma proteção eficaz contra a neurose. É o que a religião realizava ("Não tenhais medo!") num tempo em que seu lugar no campo cultural permitia isso. O relativo declínio do discurso religioso, a modificação de seu lugar no nosso mundo tem ligação com a emergência da psicanálise como sintoma revelador do mal-estar em nossa civilização.

ENTÃO, TEMOS MEDO DE QUÊ?
De nosso corpo, respondia Lacan. Esse medo de si mesmo se chama angústia. Os outros registros do medo se articulam aí, ou procedem daí. O que é o corpo? Em francês, pelo menos, não se diz "eu sou", mas sim "eu tenho" um corpo. O corpo é um haver, uma posse que também nos possui; é algo de que gozamos — entendam gozo no seu sentido jurídico. O gozo que é gozo do corpo é aquilo que está além do prazer, que funciona como barreira. O gozo é aquilo que se pode experienciar, por exemplo, na dor. Ora, as proteções funcionam e, na maioria das vezes, nos põem ao abrigo de experienciar essa dimensão de nosso corpo.
O corpo é um haver que "se introduz na economia de nosso gozo pela imagem do corpo". O estádio do espelho é paradigmático. A criança se reconhece numa imagem que lhe dá sua unidade antes mesmo que seu amadurecimento neurofisiológico o permitisse. Para que ela assuma essa imagem, para que se identifique, é necessária uma mediação: a mediação da mãe, desse Outro que a carrega nos braços, e que nomeia essa forma que a criança encontra. No olhar da mãe e em suas palavras, a criança capta que representa alguma coisa para seu desejo, mesmo assim, sem saber o quê. A mediação simbólica do Outro me confere a imagem do meu corpo, e meu eu se constitui a partir daí como um alter ego. Assim é o corpo da linguagem que faz o corpo do espelho, conferindo-o ao sujeito. A linguagem — isto é, o saber — afeta o corpo, desmembra seu gozo, recorta-o para produzir as quedas desses objetos — perdas de gozo oral por ocasião do desmame, do gozo anal por ocasião da educação dos hábitos higiênicos, etc., mas também escópica e vocal — objetos que o sujeito não reencontra em seu reflexo. As zonas recortadas pela perda desses objetos são os lugares onde se realizaram as trocas com o Outro através dos cuidados, da maternagem, etc., lugares de gozo comemorativos de um gozo primeiro, perdido para sempre.
Essa imagem, portanto, é furada; o sujeito não reencontra aí os seus objetos, eles estão faltando. Não o seio, mas o furo da boca, não o olhar, uma vez que, diante do espelho, eu não me vejo ver. O que retém a imagem são essas faltas, embora a imagem como unificada as oculte.
Se existem medos do corpo ligados a perigos que o ameaçam diretamente, a angústia é esse momento em que pressentimos que nosso próprio corpo poderia não ser senão um desses objetos próprios ao gozo do Outro, próprios para não ser senão um desses resíduos. A angústia é, assim, um medo do medo, medo de alguma coisa que escapa à compreensão, ao saber, medo desse gozo enigmático para o sujeito.
Portanto, o que fixa minha imagem no espelho são esses objetos que faltam, fragmentos, facetas dessa perda primordial que o sujeito incansavelmente vai buscar, na esperança de uma feliz redescoberta. Ora, nosso mundo pôs-se a produzir esses objetos que visam a preencher-nos — e que não param de nos deixar insatisfeitos. Cada uma dessas felizes redescobertas é marcada de uma impossibilidade — "não é isso!" — e o sujeito é lançado novamente nessa busca sem fim. Hannah Arendt tinha observado a ligação dessa produção com a morte, a ligação do circuito da produção com a destruição, que ela via em ação mesmo num fenômeno como a moda, com a produção de objetos cuja finalidade é a destruição, porque saem de moda (ARENDT, 1958/1961-1983). A ciência nos dá numerosas bugigangas próprias como engodo para o nosso desejo. Elas vêm no lugar daquilo que nos falta: televisão, walkman, telefone celular, etc. Mas nós provavelmente não gozamos melhor do que antes. Esse gozo, outrora remetido ao além como recompensa de uma vida de merecimentos, hoje em dia nos é prometida, mostrada como possível. Não obstante, somos separados desse gozo, em posição de espectador que o espetáculo designa sempre mais próximo, uma vez que é meu semelhante, em nome de uma opção aleatória, que ocupa a tela da tele-realidade. Se essa organização é a mola propulsora do consumo moderno, é também provedora de angústia ante esse real que a ciência produz. A chama contemporânea de exigências de segurança não é a promoção de um medo novo como remédio contra essa angústia? Será que também vamos terminar no retalhamento objetal, com nossos corpos aparelhados, remodelados, entrando sempre um pouco mais nessa circulação? O outro e seu corpo se apresentam ante nós, hoje em dia, regulados pelo consumo. Os pacientes psicóticos, que são atravessados pela verdade de uma época, muitas vezes nos fazem saber aquilo que preferiríamos ignorar. Assim, uma mulher jovem me relatava, por ocasião de sua última hospitalização, um encontro amoroso que acabava de ocorrer. Tratava-se de um amor maravilhoso com um homem que lhe "corresponde" perfeitamente: "A gente se entende bem intelectualmente, sentimentalmente e...", fiquei esperando que dissesse "sexualmente", mas ela acrescentou "... financeiramente".
Certa dimensão do Outro, que permitia o tratamento da angústia canalizando-a como medo contra o qual esse Outro se fazia protetor, encontra-se remanejada hoje em dia. A organização de um poder aurático2 permitia outrora essa gestão: o príncipe exercia o poder em nome de um princípio divino que o distinguia da multidão; e se tinha o poder, a autoridade procedia de um outro lugar que lhe conferia, ao mesmo tempo, a sua unicidade (cf. BENJAMIN, 1935-1939/2000). Os progressos científicos seduziram esse esquema — tudo o que é vivo vale tudo o que é vivo, cada organismo vale tanto quanto um outro — mas o organismo da ciência é o homem-máquina da medicina, porque da própria vida nada sabemos. Essa vida, enigmática, adquiriu hoje em dia um caráter sagrado no qual Benjamin via "o derradeiro extravio da tradição ocidental enfraquecida que busca no cosmologicamente impenetrável o sagrado que perdeu" (idem, 1921). Esse desmoronamento das figuras tutelares tem como correlato uma certa subida do medo, resgate dessa emancipação do sujeito moderno agora ante um mundo que lhe é explicado, mas que permanece insensato para ele, e cada vez mais incompreensível.
Em seu estudo sobre o totalitarismo, Hannah Arendt enfatiza a função do terror nesse regime, inédito até o século passado (ARENDT, 1951-1968/1972). Ela lembra a dimensão cientista que funda essas ideologias baseadas em Darwin ou Marx. O que vai prevalecer sobre as leis positivas do direito fundado sobre o desvio que não pode ser reabsorvido entre legalidade e justiça, serão as leis da Natureza ou da História, baseadas num 'discurso cientista',3 numa ideologia que não pertence à ciência propriamente dita, mas deriva dela. A Lei se torna a lei científica. São leis, no sentido científico do termo, ao qual o regime em questão não tem mais apenas que se submeter, mas cuja realização tem que garantir, realização tornada instrumento da vontade do Outro — a Natureza, a História. Assim, não basta a constatação de uma raça "inapta a viver", trata-se de efetuar seu extermínio em nome de um processo lógico que caracteriza esse terror moderno. Terror moderno que é apenas a conseqüência dessa nova versão da lei que se confunde com o movimento da Natureza ou da História. Esse regime de terror realiza o isolamento de cada um em relação a cada um, "o isolamento (loneliness) é o capital do terror moderno".
Vivíamos num mundo em que nosso gozo se situava, se regulava a partir do Outro (cf. LACAN, 1973). Hoje em dia, na esperança de recuperar um pouco desse gozo perdido, somente nos situamos a partir do objeto. Assim é possível compreender a passagem de uma chefia que procedia de um direito divino para essa que se funda apenas em designar um objeto no outro, um fragmento de gozo, do qual somos espoliados e que é preciso recuperar destruindo-o, o que é evidenciado pela moderna promoção do discurso da vítima — os grandes líderes sanguinários do século XX se legitimavam assim: vítimas dos gozadores que eram os judeus, os burgueses, etc. (cf. VANIER, 2003).
Porque se a ciência está em vias de substituir a religião — Benjamin situava o capitalismo como uma religião não expiatória mas culpabilizante — se, por exemplo ela fornece mandamentos de preservação do vivo — não fumarás, não beberás, etc. — e gera dessa maneira uma espécie de hipocondria generalizada, por isso mesmo deixa o sujeito na angústia, à falta de uma ética do desejo, enguiçado quanto a um sentido que sustente sua vida, em busca de um balizamento que regule o seu gozo. Como conduzir sua vida? Executar determinadas escolhas em função de quê?
Se a ciência, como nova religião, só imperfeitamente substitui as necessidades da antiga ordem, vai ser preciso por isso nos deixarmos fascinar pelo bom tempo antigo, por essa nostalgia do pai de que Novalis já falava? Uma certa desilusão da modernidade não deve encontrar seu abonador nos tempos antigos repentinamente idealizados e igualmente ilusórios. A psicanálise também é filha da modernidade. Não é uma religião nem uma ciência, mesmo que deva sua emergência ao progresso do discurso da ciência, uma vez que se encarrega de rejeitá-la. Conseqüentemente, comporta uma jogada ética. O tratamento analítico permite que o sujeito saiba alguma coisa de seu gozo, permite apreender esse Real — e se contrapor a ele — e suportar essa parte que incessantemente escapa ao sujeito, parte que, no entanto, é estrutural, embora retorne ao sujeito como aquilo que lhe é o mais estrangeiro. O tratamento analítico pode então permitir não interpretar ilusoriamente esse Real como espoliação de um gozo que o captura e que ele quer recuperar no Outro, por conta de quem, à sua revelia, ele o descartou.
A psicanálise não promete o fim da angústia. Apenas um por um, sem solução global — mas Kierkegaard não dizia que "a todo instante o indivíduo é ele próprio e o gênero humano"? — ela pode permitir viver com a angústia que é a marca da nossa condição, da nossa finitude e da nossa paradoxal liberdade.

REFERÊNCIAS
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Tradução: Pedro Henrique Bernardes Rondon
1 Publicado originalmente em Dillens, Anne-Marie (dir.) La peur: émotion, passion, raison. Bruxelas: Facultés Universitaires Saint-Louis, 2006, p.15-30. Por ser fruto de uma conferência, este ensaio não apresenta referências bibliográficas completas das citações literais; o autor se responsabiliza pelas mesmas.
2 No original, auratique. Neologismo do autor: um adjetivo referente a "aura" (cf. BENJAMIN, 1935-1939/2000). (N. do T.).
3 No original: discours cientiste. (N. do T.)