domingo, 9 de novembro de 2014

Significados de violência em abordagens da mensagem televisiva

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The meanings of violence in the television message


Nara Magalhães
Pesquisadora Pós Doutoranda Associada ao Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI), PPGAS/UFRGS



RESUMO
Este artigo aborda a multiplicidade de significados da violência apontada pelos estudiosos, comparando-a com estudos empíricos realizados em uma cidade de médio porte do interior do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. A seguir, discute a ausência dessas várias significações, tanto no espetáculo televisivo, quanto na percepção das pessoas pesquisadas, e a presença de estereótipos na construção de mensagens da televisão e em suas interpretações. Busca, também, expor outros dados para explicar a percepção das pessoas pesquisadas sobre o aumento da violência no contexto local. Problematiza, por fim, a cultura do medo, sugerindo que ela pode ser alimentada não só pelo alarme das pessoas pesquisadas que assistem ao espetáculo televisivo, mas também pelo próprio modo de alguns estudiosos analisarem este mesmo espetáculo. A reflexão busca demonstrar que existem concepções reificadas de violência, imagem e realidade, presentes no debate, que retro alimentam a percepção de aumento da violência e o sentimento de insegurança daí decorrentes.
Palavras-chave: Violências. Estudos de recepção. Espetáculo televisivo. Cultura do medo. Antropologia da mídia.

ABSTRACT
This article discusses the multiple meanings of violence identified by researchers, comparing them to empirical studies conducted in a mid-size city in Rio Grande do Sul, Brazil. Subsequently, it considers the absence of these various meanings, both in the television show and in the perception of the people surveyed, as well as the presence of stereotypes in the construction of the television messages and its interpretations. Furthermore, the article intends to present more data to explain the perception of the interviewed people on the increase in violence within the local context. To conclude, the author questions the culture of fear, suggesting that it can be powered not only by the apprehension of the people surveyed who watch the TV show, but also by the way some researchers analyze the same show. The discussion aims to show that there are reified conceptions of violence, image and reality, within the debate, that give power to the perception of an increase in violence and the resulting sense of insecurity.
Keywords:Violence. Reception studies. Television show. Culture of fear. Media anthropology.



As reflexões que desenvolvo aqui são construídas com base em uma experiência de pesquisa sobre o significado da televisão, realizada com pessoas de camadas médias de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, Brasil. Abordo o tema ressaltando os vários significados da violência, do ponto de vista de estudiosos do assunto, cotejados à abordagem da televisão, a partir desse viés de pesquisa, com a intenção de refletir sobre as conseqüências desse debate para quem deseja elaborar políticas públicas.

Violência ou violências?
Quando estudamos os fenômenos que são chamados de violência, percebemos que há um conjunto de práticas diferentes, reunidas sob a mesma denominação. Fica oculto um processo social de homogeneização e ressignificação, isto é, a passagem de um significado positivo a um significado predominantemente negativo, que é apresentado como exclusivo.
Um dos autores que pode ajudar-nos a entender essa multiplicidade dos significados da violência é Mafesoli. EmLa violence ou le desir du collectif, o autor começa afirmando que a violência nada mais é do que a recusa da atomização, a busca da união: la violence n'ést en fait q'une expression paroxystique du désir de communion(MAFESOLI, 1979, p. 171). O autor ressalta que a figura do inimigo é um constituinte importante, até fundamental, do fato social2. Ele cita como exemplo o mundo grego, onde as guerras eram constantes. Nesse contexto, uma festa interrompia as hostilidades e a destruição: os jogos olímpicos. A festa, além do caráter sagrado, teria como função reconstituir uma comunidade. Representaria uma eufemização do sacrifício. Na violência, o paroxismo e o excesso representam a negação sacrificial de tudo o que nega a vida. Por outro lado, de maneira homeopática e ordenada, uma violência dominada permite recriar aquilo que uma violência desenfreada havia exacerbado. Na visão do autor, a violência joga plenamente seu papel de fundação ou de regeneração da comunidade. Seria uma prova de que o irracional faz parte também desta obra humana que é a sociedade. A perversidade seria um resíduo da ação social principal - a tentativa de fundar a comunidade - presente em todas as sociedades (MAFESOLI, 1979).
Vista assim, a violência pode ser marca para falar das diferenças: ela garante dispersão, mas também unidades locais. É uma característica das sociedades contemporâneas a complexidade, a fragmentação, a construção de unidade nas diferenças. Este é um movimento contrário à homogeneização, mas que garante coesão. Há uma comunhão com tensões, com diferenças e não, uma homogeneidade. Com essa abordagem, podemos refletir sobre a sociabilidade como um processo que não é nem tão perfeito, nem tão sem falhas de comunicação como imaginamos.
Também Giddens, em seu conhecido livro A Transformação da Intimidade, afirma que:
a força e a violência fazem parte de todos os tipos de dominação. No domínio ortodoxo da política, surge a questão de até que ponto o poder é hegemônico, de tal forma que só se recorre à violência quando a ordem legítima entra em colapso, ou alternativamente, até que ponto a violência expressa a verdadeira natureza do poder do Estado(GIDDENS, 1993, p. 136).
Nesta visão, o poder e violência aparecem muito imbricados, e os aspectos negativos ficam descartados: justifica-se e é considerada legítima, e muitas vezes sequer é assim nomeada, a violência exercida pelo Estado4. Também na obra já citada de Mafesoli (1979) encontramos este aspecto da violência coletiva. O autor considera que a sociedade se constrói sobre diferenças e contradições e não, sobre homogeneidade. Para ele, em nome do coletivo, muitas perversidades são praticadas. Quando tornado coletivo, qualquer ato violento é aceito sem ser assim considerado: guerras e combates, repressões, rituais, suicídio. Quando autorizada pelo coletivo, até a morte - que é considerada a forma de violência mais extrema - é admitida.
O coletivo, para Mafesoli, é fundado, portanto, não no consenso, na harmonia, ou no entendimento, mas no conflito5, no confronto, na comunicação entendida de modo amplo (incluindo o que não é dito). Entende-se por que a violência, como uma linguagem que comunica algo, joga um papel fundante da comunidade: revela o desejo de união. Com isso, aparece um surpreendente (em nosso contexto) significado positivo para o fenômeno.
No campo de pesquisas sobre o tema, ressaltar os múltiplos significados da violência e ir além dos estudos sobre as causas, tem-se revelado uma nova tendência, que pode auxiliar na busca de soluções para os problemas sociais reunidos sob o mesmo rótulo6. Para Rifiotis, por exemplo, a violência é um objeto reificado, que não existia como tal até os anos 70, período em que apareceu já sob o signo da violência urbana. O autor nos lembra que violência é um termo do latim vis, que significa força. No século XIII, violência, que significava força, virou abuso da força; no século XX ganhou novo significado: força brutal para submeter alguém. Para ele, "houve uma ampliação do campo semântico da violência nos últimos anos, mas o que está aumentando é o significado negativo" (RIFIOTIS, 1999, p. 28).
Ao mesmo tempo em que aumentou o processo de denominação de diferentes práticas sob o mesmo rótulo, aumentou o sentimento de insegurança, porém, muitas vezes, os índices que tentam medir o fenômeno não mostram igual crescimento. Foi o que demonstrou um estudo de Luiz Eduardo Soares, que chamou de cultura do medo a homogeneização realizada quando se associam diferentes práticas sociais à violência (SOARES, 1996). Rifiotis (1996, p.2) apresenta objeções a essa expressão, por considerá-la muito ampla para dar conta da especificidade do nosso objeto. Mesmo sem concordar com a designação de cultura do medo, Rifiotis - como outros autores - está preocupado em "entender essa polissemia que cerca o campo da violência, e os usos e abusos do termo, que acabam impedindo uma compreensão mais clara do fenômeno" (RIFIOTIS, 1997, p. 12 e 13).
Outra questão importante para a abordagem da violência é analisar o imaginário que associa criminalidade e pobreza. Um estudo de Alba Zaluar, por exemplo, mostra uma situação grave nas favelas do Rio de Janeiro. À medida que o tráfico de drogas tornou-se um negócio (uma das primeiras empresas capitalistas globalizadas - ilegal, mas lucrativa), cada vez mais, são os jovens favelados os grandes prejudicados, pois a sociedade não lhes oferece alternativa: se eles não forem para o mundo do crime, de qualquer modo a sociedade os considerará criminosos. Suas afirmações nos instigam a pensar numa lógica perversa: o que eles teriam a perder, uma vez que já são considerados "bandidos" por uma sociedade que os rotula, mesmo "antes" de o serem ou nunca pretendendo sê-lo? Além disso, os "salários" oferecidos pelos traficantes locais são tentadores, muitas vezes mais do que seus pais ganhariam em um ano. As quadrilhas acabam realizando uma espécie de "socialização às avessas" desses jovens, que morrerão no máximo aos 25 anos, segundo a crua estatística sobre a expectativa de vida de jovens envolvidos no tráfico (ZALUAR, 1985).
Por outro lado, "não se tem conhecimento de que o salário ou a renda familiar das famílias pobres no RJ tenha aumentado após a quantidade de roubos, seqüestros, assaltos ou aumento do consumo de drogas ilegais [...] a taxa de famílias abaixo da linha de pobreza aumentou [...]" (ZALUAR, 1999, p. 96).
Ou seja, não são os pobres que estão enriquecendo com o tráfico, e as vultosas quantias ganhas neste negócio não estão na favela. Mas a polícia e a justiça brasileira continuam a optar preferencialmente pelos pobres na busca da responsabilização (ZALUAR, 1999). A autora ressalta que continuar tratando genericamente da violência como resultado da pobreza, sem reconhecer a globalização do crime, levará à continuidade do traçado de políticas públicas equivocadas, com conseqüências desastrosas para as comunidades envolvidas.
Outro estudioso do fenômeno, Sérgio Adorno, em seu artigo "Violência, ficção e realidade", demonstra que a "mídia faz uma leitura parcial dos chamados índices de violência, de forma a apresentá-los sempre como em expansão". No entanto, continua o pesquisador, "se fôssemos comparar os índices de criminalidade com os índices de crescimento populacional, ao invés de crescimento da violência, teríamos até mesmo uma taxa negativa" (ADORNO, 1995, p. 186-187). Apesar disso, "continua existindo na população uma percepção7 de aumento da criminalidade e, em especial, da criminalidade violenta" (id., p. 183).
Também para esse autor, a percepção da violência é diferente da concretização da mesma: a percepção seria mais forte que a informação objetiva e não dominada pela racionalidade. Ainda que a racionalidade possa modificar a percepção, no caso dos fenômenos agrupados sob o nome violência isto parece não acontecer.

O contexto local
Os estudiosos da violência têm ressaltado a pluralidade de sentidos e a homogeneidade com que o termo é empregado em nossas sociedades contemporâneas, com a predominância de um sentido negativo. Têm destacado o tratamento do fenômeno como espetáculo midiático, têm mostrado que a complexidade da busca de soluções está além da procura das causas (que pode contraditoriamente, realimentar o processo) e têm mostrado também as rotulações e estereótipos que fazem recair uma culpabilização sobre os pobres.
Na pesquisa realizada sobre televisão8, também encontramos dados que demonstram empiricamente a complexidade deste processo. No entanto, através da análise dos depoimentos e observações, percebe-se que os meios de comunicação de massa, mesmo sendo um dos agentes da negatividade sobre a violência, não são os únicos, pois esta negatividade está inserida num processo de significação mais amplo.
O relato de um episódio parece exemplar a respeito do sentimento de violência ou de risco que as pessoas vivem na sociedade de hoje: era o período de início da referida pesquisa, durante o qual eu e três alunos realizávamos entrevistas, contando com o auxílio de um roteiro aberto de questões - para identificar se a TV fazia parte do lazer, se era buscada como fonte de informação, quais as principais críticas e o que era considerado positivo em sua mensagem. Propositadamente, a metodologia previa que nesse momento ainda não haveria um tema recortado para trabalhar no vasto mundo da comunicação televisiva. Mas ele foi aparecendo forte já nas primeiras entrevistas: a violência9.
Um daqueles fatos que acontecem nas margens do processo de pesquisa e que, em geral, são contados comofolclores do campo em corredores, aquilo que Da Matta chamou de antropological blues, aconteceu nesse momento.
Durante a realização de uma entrevista, toca o telefone na casa de uma entrevistada, e ela se mostra agitada. Vai até a janela e volta, confirmando: "É, eu vi, tem um homem lá fora! Quem será? Por que está ali parado?... O quê?... Está ali há mais de uma hora?... Não sei se é o caso de chamar a polícia..." As exclamações, o olhar pela janela, a fala alarmada, o medo, finalmente chamam a atenção da entrevistadora, que esclarece e tranqüiliza a dona da casa: quem está lá fora é seu conhecido, alguém que a espera no carro!
O episódio mostrou um drama atual: também numa cidade de médio porte do interior do Rio Grande do Sul não se pode transitar livremente, ou escolher parar o carro em uma rua qualquer. Também ali há uma mudança de significado do uso do espaço público. Parar ou deslocar-se em uma rua à noite pode despertar suspeita e, em nome do medo da violência, é preciso explicar uma simples presença naquele espaço, antes considerado de livre circulação e uso.
Naquele longo minuto de pânico que envolveu o medo de um desconhecido parado perto de sua casa à noite, várias idéias podem ter sido cogitadas pela entrevistada e sua vizinha. Porém, mais do que a vivência da violência, parecia que o que as assustava estava muito informado pela televisão, pois o contexto local não permitia afirmar a recorrência de episódios violentos (ainda que a percepção fosse outra).
A semelhança com os estudos realizados por Tereza Caldeira era instigante. Analisando as novas maneiras de morar de grupos de camadas médias e altas, nos chamados enclaves fortificados em grandes cidades como São Paulo e Los Angeles, esta autora detecta tendências que solapam os ideais modernos de separação público-privado e aponta alguns comportamentos desses grupos que, em nome da segurança e do medo da violência, adotam medidas de controle e cerceamento do direito de livre circulação no espaço público, de indivíduos considerados suspeitos (CALDEIRA, 1997).
Buscar entender como, numa cidade de médio porte do interior, os entrevistados revelam temores e preocupações com a violência e ideais de moradia muito semelhantes ao de moradores de grandes metrópoles mundiais, tornou-se, então, um dos caminhos frutíferos de análise. E a relação mais evidente parecia ser a abordagem da violência pelos meios de comunicação de massa. O assunto estava sempre na pauta dos telejornais, que eram justamente os programas que apareciam como prediletos nas entrevistas. A partir daí, realizamos uma série de pesquisas, enquetes, observações na cidade, para buscar entender esse sentimento de violência, para verificar se ele correspondia a uma vivência ou se era um imaginário resultante da interpretação realizada sobre a abordagem televisiva.
O episódio foi bastante revelador sobre a modificação do espaço público e reforçou também uma afirmação de Martín-Barbero (1997): se a televisão atrai, isso é, em boa parte, porque a rua expulsa. É a ausência de espaços para comunicação - ruas e praças - que faz com que a televisão seja algo mais que um instrumento de ócio, um lugar de encontro. No caso da cidade analisada, não há uma ausência de espaços públicos fisicamente considerados, mas há uma ausência simbólica: as pessoas não os consideram locais adequados para o lazer e a comunicação, pelo menos não à noite. No cotidiano, a única praça local é um lugar de passagem; aos domingos ou fins de semana é utilizada pelos jovens adolescentes para ouvir música em volume acima da média em seus carros. Um costume interessante do uso do espaço público ali é aquele já conhecido de quem está familiarizado com o modo de vida no Interior: passear de carro, seguindo por uma avenida principal e contornando a praça. Mas é uma prática predominantemente diurna, pois o objetivo é ver e ser visto. De qualquer modo, não é exclusivamente no espaço público que as relações e os laços se consolidam: é o lugar onde são exibidos, divulgados, mas encontram outros canais para se estabelecerem.
Portanto, mesmo se tratando de uma cidade relativamente pequena, do Interior, (alguém poderia dizer que talvez seja exatamente por isso) o convívio entre diferentes é algo que acontece pouco. Mas isso expressa, também neste contexto, um problema social contemporâneo: a convivialidade - entre gerações distintas, entre raças distintas, entre classes sociais distintas - tem cada vez menos oportunidades para acontecer10. Morar em condomínios fechados, em prédios considerados "com segurança" ou em casas com altas grades, são ideais de moradia que predominam na estética local e nos jogos de prestígio social. Considerar que a televisão é prejudicial e excessivamente violenta, especialmente para o "outro", este desconhecido e anônimo a quem se atribui muito, foi um imaginário quase palpável que a pesquisa revelou. Neste contexto, o medo da violência encontra terreno fértil para se desenvolver.
Na continuidade da pesquisa, trabalhamos junto às delegacias locais, analisando os chamados Boletins de Ocorrência. Estes, como sabemos, são elaborados sempre que uma pessoa queixosa deseje registrar um fato no qual se tenha sentido lesada e que precise de providências das autoridades policiais. Uma vez que se trata de registros genéricos, os quais poderão dar origem a um processo ou não, dependendo de vários fatores, naquele momento nos serviram mais como estímulo à reflexão do que como medidores. Eles não apresentavam relatos significativos que ajudassem a explicar a percepção de "cidade violenta" expressa pelos moradores.
Nos jornais locais, as notícias da coluna policial eram, em sua maioria, sobre pequenos furtos: roubos de som de carros cuja garagem ficara aberta (e carro idem); de roupas de varal e tênis em pátios de casas; de carteiras em painel de carro aberto na rua, etc. Ainda que sem medidores, podíamos perceber, nos registros das delegacias, jornais e rádios locais, que os crimes violentos e à mão armada eram bem mais raros.
Buscamos também dados em uma pesquisa panorâmica sobre a violência em todo o Estado do Rio Grande do Sul, desenvolvida por uma equipe de estudiosos da UFRGS11, e descobrimos que não havia registros que permitissem considerar a cidade singular; não havia destaques nos índices de violência a respeito daquela região, a noroeste do Estado.
Os vários caminhos de pesquisa - quantitativos e qualitativos, de variadas fontes, mostravam que a percepçãosocial da violência local era maior do que os registros permitiam visualizar: a chamada cultura do medo ou o sentimento de medo estava imperando. Parece que era o conjunto de pequenos furtos dos quais se tinha notícia, reproduzidos não só nos meios de comunicação locais, mas também em relatos assustados entre as pessoas no cotidiano, e que conferia ao lugar toda a fama de cidade perigosa. Esses relatos eram depois comparados ao que se via nos noticiários nacionais - que expressavam o aumento da criminalidade violenta ou a banalização da morte - e pareciam confirmar que ali também se vivia um cotidiano violento, semelhante ao da abordagem televisiva.
Este contexto pode estar revelando uma preocupação coerente com a dos representantes da chamada Escola de Chicago. Estes buscavam, em seus estudos do início do Século XX, entender o "caos urbano", numa proposta à qual subjazia uma idéia de saneamento, coerente com uma base científica da época, segundo a qual caberia aos cientistas elaborar teorias que pudessem servir de base a intervenções políticas ordenadoras12. Mas o referido contexto pode também estar questionando as idéias de isolamento a que está submetida uma cidade do Interior, especialmente num período de acesso a novas tecnologias e a informações mundiais, não só sobre violência. A preocupação das pessoas pesquisadas com a violência e os roubos, apresentados de modo desproporcional em relação à sua gravidade, como característica da cidade onde moram, talvez revele um desejo de definir o lugar como um centro urbano moderno13.
Ao lado dessa percepção generalizada de "cidade violenta" no contexto local e dos ideais de moradia expressados (que eram muito semelhantes aos de grandes centros urbanos), havia a suposição de que a mídia, em especial a televisão, cria comportamentos violentos e ensina - especialmente os jovens e principalmente os pobres - a cometerem crimes. Não se pode falar em consenso entre os pesquisadores a respeito dessa relação entre horas em que se assiste TV, ou a relação entre audiência de determinados programas considerados violentos, ou mesmo a prática de videogames, e um suposto comportamento violento dos jovens. Mas pode-se afirmar que não há certezas ou evidências científicas sérias a respeito dessa relação14.
Uma das explicações para essa visão que atribui aos meios de comunicação de massa a criação da violência poderia ser aquela que outros estudiosos também têm enfatizado. Culpar a televisão pela violência pode ser um modo de sentir-se fora dela, sentir-se isento de responsabilidades, como afirma Sérgio Adorno (1995) referindo-se à imprensa.
Essa afirmação, junto com a observação da postura das pessoas pesquisadas, convidam-nos a uma reflexão sobre os processos sociais através dos quais se criam os estereótipos, as evitações de convívio, os rótulos sobre quem é o "marginal" ou "bandido". Certamente vamos encontrar várias maneiras e lugares para sua construção e expressão: a família, a vizinhança, a escola, os grupos fechados dos considerados "iguais". E também estarão presentes de um modo ou outro nos meios de comunicação de massa: os jornais, o rádio, a televisão, o cinema, os quadrinhos, poderão expressá-los de várias maneiras - que poderão ir desde o "politicamente correto" até a mais grosseira abordagem. Mas responsabilizar os meios de comunicação pela sua criação é, sem dúvida, uma das formas de se isentar de sua criação e/ou difusão em vários outros jogos da interação social.
Notamos o fascínio que esse tipo de notícias exerce: apesar da crítica enfática que os pesquisados faziam ao excesso de violência nos telejornais, a dramatização da violência na TV parecia atender às suas expectativas enquanto público, pois eles estavam sempre "por dentro" do que tinha sido abordado nos noticiários dos quais reclamavam, provavelmente contribuindo para os altos índices de audiência.
Muitas das pessoas pesquisadas afirmavam que a violência se transmite pela mídia, parecendo supor que a TV cria realidades. Criticar a televisão, tentar sugerir uma programação educativa e, ao mesmo tempo, fornecer altos índices de audiência à programação existente, bem como adquirir aparelhos cada vez mais sofisticados, parecia ser uma constante. Adorno pode ajudar novamente na compreensão deste aspecto: ele chega a referir-se ao fenômeno da dramatização como "expressão da opinião pública". Ou seja, o público, fornecendo altos índices de audiência, é que alimentaria de modo indireto a escolha deste que seria um estilo de programa. Para ele, "essa dramatização não é a fabricação de uma inverdade, mas é um gênero, um modo de colocar em discurso uma certa reação diante de problemas, conflitos e questões difíceis de serem socialmente enfrentadas"(ADORNO, 1995, p. 26).
Compreende-se, então, por que algumas das pessoas mais críticas eram justamente as que possuíam telões, além de três ou quatro aparelhos de televisão em casa15. Encontramos TVs na sala, no quarto, na cozinha e até no banheiro! E essa prática conferia uma especialização em TV e contribuía para que a crítica à mesma fosse bastante detalhada, considerando-a violenta e prejudicial. A percepção generalizada era de que a violência estava aumentando. A televisão era considerada mais prejudicial às "classes mais baixas", e as pessoas pertencentes a estas classes eram consideradas como pessoas que tinham uma tendência anterior para o crime, sugerida como inata16:
"As reportagens estimulam e influenciam para o negativo, ensinando truques de assaltos, roubos para as pessoas que têm tendência para isso, os de classe mais baixa, embora alta também, mas de forma diferente" (A).
"As reportagens acabam informando os assaltantes, as quadrilhas, sobre o que a polícia está fazendo" (B).
"A TV é apelativa, exagerada. O que nos interessa saber se alguém que desconhecemos traiu, matou? Fico admirado quando vejo que as pessoas se interessam por isso" (D)
"Está ocorrendo um acréscimo de violência de um modo geral, mas as cenas diárias de crimes cometidos por jovens podem concorrer para que outros jovens os pratiquem...". (G)
Os telejornais são reconhecidos como possuindo um gênero narrativo predominante, a dramatização da violência, que confirma a percepção generalizada de seu aumento:
"Eu acho que todos os jornais... tem um do SBT, que só pega violência, polícia. Este da Globo que agora está dando alguma coisa que dá para aproveitar mais tarde. Senão, o dia-a-dia é assim: violência, derrubam postes, pegas..." (C).
"Assisto o Jornal Nacional, mas não gosto quando eles enfatizam muito os crimes" (E).
"O Jornal Nacional é um dos jornais da televisão que a gente vê mesmo, praticamente todos os dias. Apesar de, às vezes... ultimamente ele está de competição com outros telejornais. É tipo 'A vida como ela é', mostrando a realidade da violência, da violência urbana, nas famílias, na favela". (F)
"Mas pode notar: não tem uma notícia boa, não tem uma notícia que incentive nada" (A).
Um tema recorrente à época da pesquisa nos telejornais era uma notícia sobre o então denominado "maníaco do parque", um criminoso que atraía e atacava mulheres em um parque, em São Paulo, fato amplamente noticiado pelos meios de comunicação. Uma das mulheres pesquisadas referiu-se indiretamente ao assunto:
"Caminhar sozinha à noite é muito perigoso. Uma vez eu saí para caminhar à tardinha e um homem me seguiu. Ele dizia umas coisas, fiquei tão nervosa que nem me lembro o quê. Ele podia ser um maníaco". (H)
Esse temor das mulheres de serem atacadas não é específico de nosso período histórico, é uma recorrência numa sociedade em que a dominação masculina pela força ficava impune (situação que vem mudando lentamente). As notícias veiculadas pela televisão sobre o caso, provavelmente fizeram aumentar um temor já existente e também forneceram um novo repertório lingüístico para um fenômeno já conhecido. Outra nominação antiga poderia já haver para o homem que persegue e ataca mulheres, mas essa nominação foi substituída rapidamente pela usada nos meios de comunicação - "maníaco" - ainda que o significado fosse o mesmo. No meu entender, essa "comunidade de sentido" em torno da nova nominação só é possível de ser propagada tão rapidamente porque ela é amalgamada por uma grande experiência anterior. Ela só "faz sentido" agora porque já fazia sentido antes, na vivência das pessoas. Parece-me uma prova de que a televisão ou os meios não criam valores e significados a partir do zero.
Mas quem fica procurando a "série" no crime são os repórteres: a partir de então, todos querem descobrir um "assassino serial" nas suas cidades, pois isso terá lugar garantido na pauta do jornal. Isto confirma o que diz Bourdieu (1997): na busca do furo, cria-se a homogeneidade da mensagem. Mas é na produção da mensagem, na sua emissão, que se cria esta homogeneidade, note-se bem. Isto não significa que a mesma mensagem será recebida passiva e homogeneamente.
Refletindo sobre os dados da pesquisa e sobre as abordagens teóricas a respeito da espetacularização da violência, encontrei-me ante algumas assertivas que se mostraram enganosas: reconhecer que existe um sentimento de medo da violência, exacerbado pelo espetáculo televisivo, naquele contexto de interior (lido como pacato por quem é de fora), podia levar-me a acreditar que a violência ali não existia como em outros lugares e que a ficção televisiva é que criava a forte sensação de sua gravidade. Mas este raciocínio continha uma dupla armadilha: uma, negar a importância do aumento e impacto da violência na sociedade de hoje17; outra, acreditar que a televisão é que cria a realidade da violência.
Como entender, então, as suposições das pessoas pesquisadas, sem reificar a capacidade televisiva de criação? Eu poderia considerá-las simplesmente como parte de uma explicação "espontânea" do "senso comum" e ir em busca de explicações "mais sérias" sobre o tema. Mas parece-me fundamental debater esta visão, pois é preciso considerar as conseqüências sociais e políticas que geram estes posicionamentos (além de ser ela compartilhada por muitos acadêmicos e especialistas, como sabemos18). São posicionamentos que inspiram um debate permeado por uma série de estereótipos, como a desqualificação do popular, a evitação do diferente, a construção de um "perfil de periculosidade", suposto muitas vezes como criado pelo universo televisivo, e do qual nos isentamos19. E isto aparece no campo de análise da interpretação das mensagens, e não apenas na produção das mesmas, ou seja, está presente no processo de comunicação mais amplo e na vida em sociedade.
O debate aqui proposto está mostrando que não basta reafirmar que as mensagens televisivas são estereotipadas (como de fato são, na maior parte das vezes); sabemos também que, na ótica das ciências sociais, tampouco podemos considerar que a TV crie valores (pois sabemos que os valores se criam no processo social, inclusive a importância atribuída à TV). Também não basta reafirmar que os receptores reelaboram as mensagens e criam novos significados para elas, distanciando-se da intenção dos produtores, num sentido idílico (pois essa reinterpretação, exatamente por ser múltipla, pode ser num sentido negativo e estereotipado). Mas talvez sirva para reafirmar a importância política de debater o ângulo de abordagem adotado pela televisão e por seus intérpretes diários, pois ambos os campos - dos criadores das mensagens e de seus intérpretes - contribuem para gerar novos significados para vários problemas sociais, entre eles as violências.

Espetáculo, realidade virtual, imagem... E as interpretações?
Os debates atuais em torno da noção de "realidade virtual" têm-se revelado um campo que eu chamaria de "pós-apocalíptico". Refiro-me a um debate proposto por Umberto Eco, entre dois campos teóricos que debatiam a influência dos meios de comunicação na sociedade: os apocalípticos e os integrados. É muito conhecida e hoje considerada clássica nos estudos de comunicação esta "divisão": de um lado, os apocalípticos, que consideram, "como Heráclito20, a cultura como um fato aristocrático", perante o qual a cultura de massa torna-se o sinal de uma queda irrecuperável e o "homem de cultura, o profetizador de seu desaparecimento perante o apocalipse da massificação" (ECO, 1979, p. 8); de outro lado, os integrados que, tal como seus oponentes, assumem oconceito-fetiche de massa, pretendem construir seus projetos para ela, educar a massa, operando um reducionismo no seu interior: há uma ausência de sujeitos na massa (Id, p. 18).
Poderíamos, talvez, considerar que os analistas da realidade virtual estão num campo pós-apocalíptico? A julgar pelo tom de "queda irrecuperável" do social, pelo vazio que julgam criar-se numa sociedade da imagem e da imediaticidade da experiência, podemos supor que sim. Quando falamos em realidade virtual, podemos estar falando em mais uma representação construída sobre o real, no coletivo, construção que tem por referência as novas práticas, novas sociabilidades construídas num período de criação e acesso a novas tecnologias. Mas, para Virílio (1993), por exemplo, a perspectiva é bastante pessimista, pois, como afirma Parente (1997, p. 141), para ele "as tecnologias do virtual se impõem como estética da desaparição que substitui o real; estética do hiper-real que despotencializa o real; buraco negro que aniquila o referente".
A análise dessas novas possibilidades de construção de sociabilidades tem merecido enfoques predominantemente negativos. Muitos estudiosos, trabalhando numa perspectiva crítica à sociedade contemporânea, ao processo de "coisificação" do sujeito diante de uma sociedade na qual a imagem é cada vez mais central, acabam repondo essa coisificação sobre este mesmo sujeito. Entre eles, por exemplo, Jeudy, quando afirma que hoje não se pode mais falar que a "mídia" é o espelho da realidade:
se opusermos realidade externa à mídia, no final essa realidade externa será captada por ela e se transformará em imagem! Então, não há possibilidade - e esse é o problema - de operar uma distinção entre a imagem e o real. Ora, o processo mediático, no seu conjunto, na sua vertigem...não funciona mais como um espelho da sociedade. Hoje, não podemos mais dizer que a mídia tem uma função especular em relação à sociedade, que ela 'revela' a imagem da sociedade".(JEUDY, 1994, p.68; grifo meu).
Para o autor, a "mídia" alucina o real no momento em que desaparece a distinção entre imagem e realidade. No meu entender, algumas de suas afirmações podem ser problematizadas, entre elas a concepção de realidade e a agência na construção e interpretação de imagens. Ele parece estar trabalhando com uma concepção que opõe realidade concreta e realidade inventada: se a realidade externa se transformará em imagem construída pela mídia, então parece que ele está supondo que a agência será só da "mídia"; ele não está considerando o leitor dessa imagem. A imagem construída sobre a realidade substituirá esta realidade, e como isto será feito pela "mídia" (supõe-se, pelo viés adotado, que ele considera essa construção totalmente ilegítima), indiretamente ele está afirmando que existe um novo processo social em curso (de transformação do real em imagem), que é resultado da criação da mídia, à parte da sociedade.
Aqui cabe o resgate da discussão sobre a construção e leitura de imagens numa outra lógica, diferente dacoisificação ocidental e mais próxima da especulação imaginativa, como propõem alguns estudiosos. 21Também a imagem, como o texto, é produto de certo "recorte", mas parece que não lhe é atribuída legitimidade para "recortar" a realidade (nem à imagem, nem aos criadores de imagem). Nas abordagens em que se diz que a imagem substitui o real, estará sendo exigido da imagem em movimento aquilo que era exigido da fotografia no seu surgimento, que comprovasse o real? Será que está sendo criticada a imagemcomo algo negativo em si, ou certas imagens construídas de modo considerado ilegítimo? Esta diferenciação muitas vezes não fica clara e contribui para que a coisificação da imagem seja ampliada de modo assustador, pois não há "sujeitos" (nem na construção, nem na interpretação) num tipo de abordagem do real e da imagem como esta.
A discussão sobre o que é a realidade, se podemos (ou devemos) nos aproximar dela ou não, se esta é a tarefa por excelência do conhecimento científico, ou se é irrealizável, tem marcado as ciências sociais. Sobretudo na década de 1980, o debate ocupou o centro das indagações sobre a cientificidade22. Rabinow (1986) e também Foucault (1999) responderam este questionamento de forma semelhante: propuseram reconhecer que existe uma realidade, da qual o saber científico só pode tentar aproximações, sem nunca ter a pretensão de tê-la esgotado. Propuseram, portanto, reconhecer que o saber científico não coincide com a realidade, é uma construção sobre ela, e isso não significa que seja falso23.
Talvez um dos caminhos para formularmos novas perguntas (tarefa por excelência do conhecimento científico não dogmático) seria considerar que, no processo social em curso, emerge uma nova maneira de se relacionar com o real, com a mediação da imagem ou com outros significados atribuídos à imagem, que podem ser positivos ou negativos, depende dos usos e interpretações que se faça24. Outra possibilidade é, ao supormos que a diluição entre imagem e real esteja acontecendo, considerar que este seria um processo social mais amplo, ao qual estaríamos todos sujeitos, inclusive os produtores da "mídia" e seus leitores-receptores. E assim poderiam multiplicar-se as análises e talvez fôssemos encontrar também muitos outros questionamentos e pistas para futuras pesquisas.
Considerar que a "mídia" cria uma realidade virtual, sem a participação da sociedade, como se ela fosse umente à parte do social, com vida própria (mas sem sujeitos) e como se essa realidade virtual, por outro lado, fosse uma não-realidade, constituem, no meu entender, um processo de reificação, da "mídia" e da realidade. Mas as pesquisas não precisam tomar este rumo nem permanecer nestes pressupostos.
A televisão trabalha com uma visão no singular - em oposição a plural - sobre violência, apresentando-a como drama e como espetáculo25. Este espetáculo tem seu ápice na tragédia, é exacerbado nos vários "excessos", apresentados como o perigo extremo ao qual estamos todos sujeitos. A visão negativa sobre a violência é construída de modo tal, como se houvesse um paraíso anterior, que foi perdido e, na nossa época, vivêssemos um mar de violência, nunca antes conhecido (RIFIOTIS, 1999). Mas isso seria o que faz a TV ou o emissor. E o receptor? Quando nos alarmamos com a violência na TV, estamos desconsiderando-o.
A mídia tem tratado a violência predominantemente como espetáculo, tem exacerbado a dramatização e, com isso, tem contribuído para reforçar uma visão no singular sobre a violência, que é a sua exclusiva negatividade. Contraditoriamente, ao alarmar-se e ressaltar somente o aspecto negativo, distancia-se da violência no plural, no cotidiano, fazendo parte das relações sociais. Na guerra pela audiência a qualquer preço, acaba criando uma narrativa descolada da sociedade, constrói um texto ficcional que poderíamos considerar como parte do campo da estética: tintas exageradas, tragédia exacerbada.
Quando os cientistas sociais não tratam a violência como espetáculo, não a consideram de modo simplista em crescimento e tentam entender seus múltiplos significados, estão numa direção oposta do que a mídia tem feito com o tema. Podemos supor que, deste modo, não estão contribuindo nem para a dramatização nem para exacerbar a percepção de aumento da violência e o sentimento de insegurança daí decorrente. Mas quando a consideram (como as pessoas pesquisadas) com uma capacidade criadora do real - mesmo que, para isso, sofisticando o debate teórico e denunciando o vazio da sociedade da imagem ou da realidade virtual - entram num caminho de retroalimentação de um sentimento de perigo que pouco contribui, seja no combate à violência, seja na evitação da criação de estereótipos.
No caso do grupo estudado, o tema da violência apareceu como interesse dos entrevistados, e eles manifestam a crença de que a TV tem a capacidade de moldar comportamentos e pensamentos, além de estarem mergulhados numa percepção de aumento da violência e de um sentimento de insegurança muito grande. Este, causado não só pelo que é sentido e imaginado através das imagens espetaculares da mídia, mas pela vida cotidiana numa cidade que é considerada violenta pela maioria de seus moradores.
Cabe também aos estudiosos das violências e seus múltiplos significados, construir uma reflexão acerca de sua crítica à mídia: estarão supondo que a mídia tem o poder de criar valores e ela seria a grande responsável pela construção de um único significado, negativo e singular, para a violência? Como tentamos demonstrar, o caminho de construção dessa negatividade não é um caminho de mão única: é no processo social que ele se constrói.

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1 Uma outra versão deste texto foi apresentada em palestra proferida aos alunos do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria, em agosto de 2006.
2 Outros autores, como Girard (1990) e Rifiotis (1998), concordam com esta afirmação, destacando o papel do inimigo comum que é o "bode expiatório".
3 As perspectivas contemporâneas sobre a violência do coletivo remetem à clássica abordagem de Weber sobre o monopólio da violência legítima por parte do Estado. Ver, a respeito, Weber (1971 e 1986).
4 A presença do conflito no processo de sociabilidade já está presente em Simmel (1992).
6 É o caso dos estudos de Tavares dos Santos (1999), Osório (1999) e também Rifiotis (1999).
7 Note-se que o autor usa a categoria de percepção para referir-se não só às representações da população sobre violência, mas também às sensações relacionadas ao fenômeno, aos sentimentos de medo e alarme, que extrapolam a racionalidade. Uso percepção no mesmo sentido.
8 Refiro-me a uma pesquisa realizada de modo intermitente, entre os anos de 1997 e 2004, e que resultou em minha tese de doutorado, a qual contou com várias técnicas de coleta de dados: inicialmente entrevistas com roteiro de questões, depois etnografia de audiência, coleta de novos depoimentos, gravação de imagens para vídeos, fotos e observações, realizadas em locais de residência e públicos, no cotidiano e em festas locais. Ver Magalhães (2004).
9 O surgimento do tema violência no início da pesquisa sobre televisão gerou um novo projeto para investigar o assunto, intitulado: "Representações de violência a partir da recepção da mensagem televisiva: vivência ou simulacro?", que foi executado com auxílio de Bolsistas de Iniciação Científica do CNPq.
10 É o que aponta, por exemplo, Oliveira (2003, p. 95 e 99), ao propor repensar as articulações entre vida privada e trabalho. Numa inovadora reflexão sobre a pressão de tempo à qual estão submetidas as famílias de hoje, e sobre o lugar das mulheres e dos homens - na vida privada e na vida pública, no cuidado dos filhos e dos idosos - propõe que a solução não é doméstica, mas do mundo público, dos governos e das empresas, promovendo a reengenharia do tempo. Aumentar o convívio entre gerações, aumentar os laços de socialidade contribuiria para novos aprendizados: aprender a aprender, aprender a ser na nova sociedade informatizada.
11 Refiro-me à pesquisa realizada por José Vicente Tavares dos Santos, que resultou na publicação "Violência em tempos de globalização", de 1999.
12 Refiro-me, por exemplo, a Simmel (1979) para quem o caos urbano obriga o indivíduo a se relacionar com recortes dessa realidade; ou a Wirth (1979), que chamava a atenção para a necessidade de definir o significado do "modo de vida urbano", sem associar mecanicamente "urbano" e "cidade".
13 Agradeço a Ana Luiza Carvalho da Rocha por me chamar a atenção para este aspecto, em debate sobre a pesquisa, no Seminário "Antropologia das Sociedades Complexas", do PPGAS/UFSC, 2000.
14 Como exemplo, temos o livro Televisão, criança, imaginário e educação, organizado por Elza Dias Pacheco, o qual conta com uma série de artigos que expressam esta polêmica entre televisão e influência sobre as crianças. Ver Pacheco (1998).
15 Cabe destacar que as pessoas pesquisadas, pelo seu estilo de ver a TV, podem ser consideradas especialistas no assunto: é exatamente a grande experiência, a prática cotidiana de ver televisão, aliada ao conhecimento da existência de técnicas de edição (seja através dos próprios programas televisivos que mostram o making off de filmagens, seja através da participação em entrevistas depois editadas) que afina sua crítica sofisticada a toda programação. Esta especialização demonstra que a prática de ver televisão é muito maior do que se admite. Ver a respeito, Magalhães (2004). Devo a Sônia Maluf a sugestão de considerá-los especialistas.
16 As pessoas entrevistadas eram profissionais liberais, bancários, funcionários públicos, professoras, donas de casa. Seus nomes foram omitidos para preservar o anonimato.
17 Como demonstram, por exemplo, as pesquisas desenvolvidas por Lourdes Bandeira (1999).
18 Muitas vezes, os episódios abordados exaustivamente pela televisão geram pressões sobre os órgãos públicos, os quais se vêem compelidos a tomar medidas. Nestes momentos, retornam ao debate propostas de rever a maioridade penal ou a instituição da penalidade de morte no Brasil. Os profissionais que trabalham com justiça restaurativa podem ajudar, com reflexões e proposições de ação, a resolver de outro modo os conflitos. Agradeço aos pesquisadores do NACI - Núcleo de Antropologia e Cidadania - do PPGAS/UFRGS, por me colocarem em contato com essa perspectiva de ação e análise.
19 O debate sobre a "falta de cultura" no Brasil, que seria característica de uma população "atrasada" e pobre, impedindo-a de entender as tentativas da televisão de enganá-la, combina com a explicação que atribui a responsabilidade pelo "atraso brasileiro" a esta mesma população e não à elite, por exemplo. Ver Magalhães (2006).
20 Eco faz uma citação de Heráclito: "Por que quereis levar-me a toda parte, ó iletrados? Não escrevi para vós, mas para quem me pode compreender. Um, para mim, vale cem mil, e a multidão, nada" (ECO, 1993:8)
21 Cf. discussão feita por Carvalho da Rocha (1995, p. 89), e também abordada em Magalhães (2004).
22 Ver, a respeito, Tavares do Santos (1993)
23 Ver, por exemplo, discussão proposta por Rabinow em "Representations are socail facts: modernity and post-modernity in Anthropology", in Clifford e Marcus (1986) e entrevista de Foucault ao mesmo Rabinow em 1983, publicada no Brasil em 1999.
24 Cf. as tendências que têm marcado os debates realizados no GT de Antropologia Visual da RAM (Reunião de Antropologia do Mercosul), como foi o caso das realizadas em Curitiba, 2001, e Montevidéu, 2005.
25 Como demonstram os estudos já destacados aqui de Adorno (1995), e também os estudos de Rocha (1998) sobre a violência e o espetáculo televisivo em São Paulo, e de Teixeira (2002), que estudou o Programa televisivo Linha Direta da Rede Globo.

Ambivalência e medo: faces dos riscos na modernidade



Ambivalence and fear: facets of the risks in modernity


Daniel Chaves de BritoI; Wilson José BarpII
IDoutor pelo NAEA/UFPA, Prof. da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFPA. Integra a linha de Pesquisa violência e Não-Violência nos Processos Sociais
IIDoutor pela UNICAMP, Prof. da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da UFPA. Integra a linha de Pesquisa violência e Não-Violência nos Processos Sociais



RESUMO
No diagnóstico da modernidade, incerteza e insegurança - e portanto o medo - são elementos presentes. Partindo dessa constatação, este trabalho tem por objetivo descrever os efeitos ambivalentes do medo sobre a sociedade contemporânea. Nesta tentativa, busca-se o apoio de diversas teorias sociais que, embora não enfoquem o medo, mostram de certa forma os riscos constantes do processo de modernização. Por outro lado, isso permite separar a crítica social que ainda tenta continuar pensando a modernidade com base nas premissas conceituais da razão ocidental, de uma outra, que por sua própria fadiga proclama sua autodestruição. Entende-se aqui que se despedir da razão e considerar o movimento autônomo da modernidade é fazer surgir um processo que apenas garante a modernização do medo.
Palavras-chave: Modernidade. Risco. Medo.

ABSTRACT
In the diagnosis of the modernity, uncertainty and insecurity - and therefore the fear - they are present elements. Leaving of that verification, this work has for objective to describe the ambivalent effects of the fear on the contemporary society. In that attempt, the support of several social theories is looked for that, although they don't focus the fear, they show the constant risks of the modernization process in a certain way. On the other hand, that allows to separate the social critic, that it still tries to continue thinking the modernity with base about the conceptual premises of the western reason, of another one, that for your own fatigue proclaims your self-destruction. Understands each other here that to say good-bye of the reason and to consider the autonomous movement of the modernity is to do a process that just guarantees the modernization of the fear to appear.
Keywords: Modernity. Risk. Fear



Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu
próprio ser, pode temer. O medo (temor) abre
esse ente no conjunto de seus perigos
(riscos), no abandono a si mesmo.
Heidegger

Introdução
A crescente potencialidade de destruição que a humanidade engendrou sobre ela mesma tem despertado ainda muito pouco interesse por uma reflexão do medo. Jean Delumeau (1989), em seu livro História do Medo no Ocidente, indaga-se: por que esse silêncio prolongado sobre o papel do medo na História? Pode-se até acreditar que se deve ao fato de o medo estar relacionado à covardia e à vergonha, devendo, por isso, ser escondido. Mas o teórico da sociedade não pode ter medo dos medos sociais. Parece mais fácil enterrar o medo dentro de nós e hipocritamente ressaltar feitos heróicos. Ora, o medo, como veremos mais adiante, é inerente à nossa natureza: é um sentimento que nos perturba, que traz inquietação, sobressaltos, que exige providências e o cálculo de riscos, enfim, ele faz parte do cotidiano. Mesmo que o medo possa ser visto por esse ângulo, a incerteza e a insegurança são fatores que provocam medo contínuo e, por conseguinte, mal-estar permanente.
No diagnóstico da modernidade, incerteza e insegurança – e portanto o medo – são elementos presentes. Partindo dessa constatação, este trabalho tem por objetivo descrever os efeitos ambivalentes do medo sobre a sociedade contemporânea. Nesta tentativa, busca-se o apoio de diversas teorias sociais que, embora não enfoquem o medo, mostram de certa forma os riscos constantes do processo de modernização. Por outro lado, isso permite separar a crítica social, que ainda tenta continuar pensando a modernidade com base nas premissas conceituais da razão ocidental, de uma outra, que, por sua própria fadiga, proclama sua autodestruição. Entende-se aqui que se despedir da razão e considerar o movimento autônomo da modernidade é fazer surgir um processo que apenas garante a modernização do medo.

1. A Busca da Autocertificação
As narrativas da modernidade apontam para um sentimento de aventura. Uma nova experiência de tempo e espaço vai, aos poucos, conformando a modernidade, uma nova cultura, que rompe com as tradições, institui novos laços sociais. Na modernidade, o mercado e o Estado assumem de maneira estrita a função de princípio estruturante da sociedade. Por meio do mercado, os indivíduos exercem a "liberdade" econômica: os indivíduos, de forma fragmentada, defendem os seus interesses. Na esfera da política, a representação tornou-se a forma mais eficiente de mediação, com o Estado assumindo o monopólio legítimo da normatização das relações sociais. A impessoalidade passou a ser o princípio sobre o qual assenta a intervenção normativa. A modernidade, assim pensa Habermas (1990: 18), "não pode e não quer continuar a ir colher em outras épocas os critérios para sua orientação, ela tem de criar em si própria as normas por que se rege". Ela também tem que trazer à superfície as categorias que permitiram o seu entendimento, é a necessidade de sua autocertificação.
Uma verificação, ainda que rápida do horizonte histórico de três séculos, mostra, de forma inquestionável, um forte processo de mudança. Autores tornaram-se importantes apenas porque fizeram um enorme esforço para captar o que o filosofo G. W. F. Hegel destacou como Zeitgeist. O espírito da época caracterizava-se pela busca do entendimento da transição ou, como registra Anthony Giddens (1991), do desencaixe. Entretanto, o fato que diferencia enormemente este tempo é a consciência da aceleração. Novos processos, sobretudo econômicos e políticos, surgem e rumam em um ritmo extraordinário para o futuro. A noção de futuro quase perde o que ela representa, pois, nesses tempos, o moderno é futuro realizado ou realizável em breve.
O processo de mudança deixou para trás, negou ou destruiu estruturas e culturas, isto é, os arranjos sociais antigos, com desfechos variados – da simples assimilação à imposição pela violência. O fato singular é que hoje podemos trabalhar com a idéia de que o mundo inteiro já fez algum tipo de experiência com a modernidade. Agnes Heller (1999) relata:
este processo de desconstrução foi tão rápido que mudanças fundamentais foram registradas pela mesma geração... E a velocidade foi constantemente acelerada. No começo do século XX, o mundo pré-moderno ainda não havia sido inteiramente desconstruído nem na Europa; no entanto no final do século, o arranjo social pré-moderno já não existe no planeta1.(HELLER, 1999:15).
O ritmo acelerado de mudanças imprimiu à modernidade uma característica bem peculiar. É uma época envolta e dominada por crises. A noção de crise2 faz-se presente de forma obrigatória em todos os esforços para compreender a modernidade. Esse termo, do ponto de vista sociológico, é o que melhor caracteriza estes tempos: trata-se de um momento histórico indefinido ou de riscos inquietantes. O estado de incerteza influi diretamente na dimensão da vida cotidiana, mas também na dimensão política e econômica. Embora nasçam livres, os homens modernos nascem contingentes, porquanto estão imersos num mundo de relações volatilizadas e precisam encarar o fato de que a liberdade é acompanhada de riscos. Por outro lado, os processos econômicos e políticos são submetidos a um procedimento de calculabilidade das ações na busca de minimizar, ainda que com sucesso questionável, a força da contingência. Assim, não podemos afastar doZeitgeist a noção de contingência. Mas o que ela significa para a modernidade?
A descoberta da contingência exige uma reflexão profunda, certamente, no que diz respeito ao sentimento do medo. Dissolvidas as certezas coletivas que, no Ocidente, foram dadas pelo Cristianismo, forma-se o indivíduo burguês. A subjetividade ganha autonomia, o direito ao pensamento crítico começa a sua caminhada, e o Iluminismo é o seu terreno mais fértil. Immanuel Kant (1970) saudou de forma vigorosa esse novo projeto de sociedade e convocou todos os homens a servirem-se de si mesmos, a fazerem uso de seu próprio entendimento, a vencerem a preguiça e a covardia e com isso os incentivou ao sapere aude. O esclarecimento é uma estratégia de emancipação, que põe em mãos humanas a realização de um intento que exige do próprio homem algo extraordinário, o esforço para se valer de sua capacidade legisladora. Sobre a consciência do indivíduo repousa o peso do imperativo categórico: "age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal" (KANT, 1999:42). Podemos ver por esse princípio que Kant tenta recuperar valores prático-morais que guiam os homens na esfera pública.
Quando chama a atenção para esse ponto, Kant, evidentemente, está interessado não, em retornar ao pensamento político clássico, mas na possibilidade de levar o indivíduo burguês para o coração da ação política, desenvolvendo amplamente a autonomia moral. O alvo em questão é vencer a heteronomia estabelecida no contexto do jusnaturalismo. A teoria do direito natural está preocupada em juntar os homens, elevando sobre eles o poder do Estado, isto é, submetendo-os a uma liberdade negativa. Para vencer esse argumentoheteronômico, Kant mostra uma distinção entre moralidade e legalidade. Norberto Bobbio (2000) explica essa discussão da seguinte maneira: a conduta humana é regulamentada pelas chamadas leis da liberdade e estas se contrapõem às leis da necessidade, que regulam os fenômenos naturais. Mas a conduta humana regulada pelas leis da liberdade apresenta duas formas distintas de legislação da ação: a legislação moral e a legislação jurídica.
Não é fácil estabelecer uma distinção entre ação moral e ação jurídica. Para resolver essa questão, Kant, segundo Freitag (1989:05), invoca a noção de dever: "O dever (Pflicht) é compreendido por Kant como sendo a necessidade de uma ação por respeito à lei". Para entender essa questão, Bobbio (1984) destaca a existência de três requisitos fundamentais da ação moral: a) ser realizada não para obedecer a uma certa atitude sensível, a um certo interesse material, mas somente para obedecer à lei do dever; b) ser cumprida não por fim, mas somente pela máxima que a determina; c) não ser motivada por outra inclinação que não seja o respeito à lei. Isso que dizer que "para que uma ação seja moral não é suficiente que seja coerente com o dever; é necessário que seja também cumprida pelo dever" (BOBBIO, 1984:54). Analisando essas colocações, diz Bobbio:
a legislação moral é aquela que não admite que uma ação possa ser cumprida segundo inclinação ou interesse; a legislação jurídica, ao contrário, é a que aceita simplesmente a conformidade da lei e não se interessa pelas inclinações ou interesses que a determinaram. Quando eu atuo de determinada maneira porque este é o meu dever, cumpro uma ação moral; por outro lado, quando atuo de determinada maneira para conformar-me à lei, mas ao mesmo tempo porque é meu interesse ou corresponde à minha inclinação, tal ação não é moral, mas somente legal. (BOBBIO, 1984:54)
E conclui: "O que faz da ação conforme a este dever sucessivamente uma ação moral ou jurídica é a diferente motivação da ação: a mesma ação é moral se foi cumprida unicamente por respeito ao dever, é meramente legal se foi cumprida por inclinação ou por calculo" (BOBBIO, 1984:55). Esta discussão é multiaxial, entretanto, o eixo que interessa a esta reflexão é a noção de liberdade, do agir na esfera pública3. A noção de liberdade política, para Kant, como afirma Bobbio (2000), está baseada numa idéia de liberdade voltada para alguns princípios liberais e não democráticos (apesar da forte influência do pensamento de Rousseau em suas idéias).
Para entender essa questão, é necessário retomar a reflexão de Benjamin Constant e a sua clássica distinção entre liberdade dos antigos e dos modernos. Para esse autor, "o objetivo dos antigos era a partilha do poder social entre todos os cidadãos de uma mesma pátria. Era isso que eles denominavam liberdade. O objetivo dos modernos é a segurança dos privilégios privados; eles chamam liberdade às garantias concedidas pelas instituições a esses privilégios" (CONSTANT, 1980:15). Podemos notar que, na primeira fórmula, é ativa a participação dos homens na esfera pública; na segunda, são as instituições (o Estado) que representam as normas que regulam as relações sociais. N. Bobbio (2000: 105) assinala que Kant entende por liberdade jurídica o poder dar coletivamente leis a si mesmo, isto é, faz coincidir o significado de "liberdade" com "autonomia política".
Há, nessas idéias, uma forte intenção de fazer valer a esfera pública. A liberdade dos modernos (concebida como liberdade negativa) pressupõe um aparelho estatal como fonte da mediação política e social garantindo a todos a felicidade da vida privada. Mas, no contexto do século XVIII e no seu ambiente cultural, econômico e político, já é possível vislumbrar e delinear as formas que o Estado moderno assumiria no Ocidente, ou na Europa especificamente. O pensamento político kantiano marca de certa maneira uma ruptura histórica dentro da própria modernidade. As forças que trariam a democracia como um regime político estão se estabelecendo; a noção de indivíduo ganha uma nova conotação; definitivamente a competição econômica e a conformação da esfera estatal burocrática como mediadora deixam para trás o sentimento de comunidade. Seguindo a interpretação de Bobbio, Kant ainda sonhou com a liberdade de tipo republicana, movida por um sentimento cívico de responsabilidade com o coletivo, com a ordem social constituída como fruto de consenso, visando à ampliação da esfera de ação com autonomia. Uma ética da ação política garantiria a liberdade. Assim, não haveria necessidade de um regime democrático (no sentido kantiano), que faz da ampliação de órgãos estatais uma maneira de controle e no qual prevalece o imperativo das normas (BOBBIO, 2000: 101).

2. O Estado, a Técnica e o Medo como Instrumento de Controle Social
Na noção de liberdade dos modernos, podemos então encontrar os novos critérios a que a modernidade se submeteu. Lembremos que, para Constant, o objetivo principal dos modernos é a "segurança dos privilégios privados". A preponderância desse preceito certamente enterrou de vez a tentativa kantiana de resgate da tradição da pólis grega. A democracia moderna criou suas próprias regras de participação, e o Estado Moderno assumiu uma forma ambígua: "de um lado significa um aparato de governo ou de poder e de outro é o sistema social como um todo subordinado a esse governo ou poder" (GIDDENS, 2001:42). Aqui se evidencia um processo de cristalização do Estado que, pelas proposições teóricas de Max Weber (1991), culmina não somente com a monopolização dos meios de violência e de administração, mas também com a capacidade de reivindicar um poder sobre um território. O território geográfico, na definição de Estado em Weber, representa o espaço de ação de uma determinada sociedade; o êxito da construção dessa ordem, formando uma unidade interligada, diz Giddens (2001: 47) "refere-se ao Estado-Nação".
O Estado-Nação sobrevive por uma espécie de síntese de uma identidade, o que implica um engano sociológico – na medida em que a nação é compreendida como resultado de uma cultura homogênea, fundada, portanto, numa identidade nacional –, ou seja, o Estado-Nação é o amálgama de um coletivo falso: "o povo". A nação e seu corolário – o nacionalismo – sacrificam a existência do gênero humano em nome do gentílico, cristalizando uma série de preconceitos. É por esse meio que temos o "civilizado" e o "bárbaro". Porém, a repercussão maior do desenvolvimento do Estado Moderno, do monopólio legítimo da violência é no âmbito interno. Weber esclarece o que garante a existência do Estado enquanto associação política:
[o Estado existe] na medida em que sua subsistência e a vigência de suas ordens, dentro de um determinado território geográfico, estejam garantidas de modo contínuo mediante a ameaça e a aplicação de coação física por parte do quadro administrativo. Uma empresa com caráter de instituição política denominamos Estado, quando e na medida em que seu quadro administrativo reivindica com êxito o monopólio legitimo da violência para realizar as ordens vigentes.(WEBER, 1991: 34)
O território está ligado à idéia de autodeterminação, isto é, a manutenção da ordem interna é uma atribuição exclusiva do aparato de força do Estado, legitimado pelo monopólio da violência. Ainda nesse processo, as relações entre os Estados-Nações pautam-se apenas por acordos, mas a ordem interna mantém-se pelo estabelecimento de um direito que legitima a coerção física.
Segundo Max Weber, o êxito do Estado em monopolizar a violência deve-se a um processo específico de racionalização, apenas observado no Ocidente. Na sociologia do direito e na sociologia da dominação, Weber identifica os meandros dessa história de "sucesso". O aparecimento de um direito racional, afastado, por conseguinte, de todos os efeitos mágicos, tem sua maior expressão na criação de uma doutrina científica que deu origem ao Direito público no Ocidente. A dominação, no contexto racional, somente adquire vigência quando a ordem estabelecida baseia-se num Direito que possui legitimidade para nomear e delimitar o exercício do mando. Em ambos os casos, está explícito o caráter preponderante da lei sob o princípio da impessoalidade. A lei positiva governa a ação social, e Weber destaca:
um 'Estado' moderno existe em grande medida dessa maneira – como complexo de específicas ações conjunta de pessoas –, porque determinadas pessoas orientam suas ações pela idéia de que existe ou deve existir dessa forma, isto é, de que estão em vigor regulamentações com aquele caráter juridicamente orientado. (WEBER, 1991, p. 9)
Uma especificidade do processo de racionalização que atingiu as estruturas culturais do Ocidente é a divisão bem rígida das esferas de poder. O quadro administrativo, ao qual Weber faz referência duas vezes na definição de Estado, constitui-se numa estrutura burocrática, baseada na divisão hierárquica das ocupações, na carreira profissional dos funcionários, na rígida separação entre o cargo e os bens pessoais. São muitas as características que Weber aponta no seu estudo da burocracia moderna, porém o que chama a atenção é o fato de somente os funcionários do Estado, do quadro administrativo, exercerem em nome deste a violência. Produzem, assim, uma ordem jurídica capaz de orientar as ações e regulamentar as relações sociais. Nessa burocracia está depositada a essência da segurança dos privilégios privados. O monopólio da produção e da aplicabilidade das leis pela esfera estatal prescinde, na modernidade, da ação política na esfera pública. Alcançou-se com sucesso a burocratização das ações sociais nesse contexto e, como na divisão do trabalho, tal qual analisada por Karl Marx, confinaram-se homens e mulheres em um mundo estranhamente fragmentado. O indivíduo é obrigado a obedecer determinadas regras porque algumas pessoas acreditam que elas determinam a sua existência. A figura do puritano com seu comportamento econômico representa, para Weber (1999), o paradoxo das conseqüências do desenvolvimento da ordem moderna.
O desenvolvimento, o que Weber chamou a moderna ordem econômica e técnica, pode levar a humanidade a uma prisão de ferro. Eis o paradoxo: as luzes da emancipação são ofuscadas pelo medo. A ordem socioeconômica moderna valeu-se da ciência para criar instrumentos de aceleração do progresso, subverteu a idéia de esclarecimento (aufklärung) e tornou o saber um instrumento técnico, relegando a um plano inferior a autoconsciência. A técnica, para Adorno e Horkheimer (1985: 20), é "a essência desse saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital". A técnica moderna invade o mundo da produção, dominando a sociedade industrial. Capaz de penetrar nos diversos domínios da esfera humana, a técnica conquistou os territórios mais recônditos da ação humana, criando formas institucionais de controle da sociedade.
A técnica, na modernidade, não é apenas um meio de produção, não é apenas uma forma de transformar a natureza em benefícios para a humanidade. Nesse processo, ela foi mais além, ajudou a transformar valores-de-uso em mercadorias. Nesse caminho, ela incorporou uma ambigüidade, tornando-se a própria razão de ser da modernidade. Anteriormente, Immanuel Kant ainda agitara e incentivara os homens a se valerem da razão para se emanciparem da superstição, a promoverem uma desmagificação4 das visões de mundo, a prestarem atenção para os resultados da ciência. Passados três séculos, Adorno e Horkheimer lideram um movimento que, não apenas exige uma reflexão sobre a combinação da razão, do industrialismo, do capitalismo e da modernidade, mas também denuncia uma re-mistificação do mundo em que os meios de emancipação tornam-se instrumento de dominação profunda dos homens, valendo-se do terror e do medo. Para esses autores, está claro que o saber tornou-se escravo do poder; a suposta neutralidade da técnica é apenas um artifício que a torna mais eficaz na sua capacidade de dominação. "Tal neutralidade é mais metafísica do que a metafísica. O esclarecimento acabou por consumir não apenas os símbolos, mas também seus sucessores, os conceitos universais, e da metafísica não deixou senão o medo abstrato frente à coletividade da qual surgira", denunciam Adorno e Horkeimer (1985: 35).
As análises sobre o esclarecimento não deixam dúvida de que a esperança moderna de poder gozar em segurança os privilégios privados, com a liberdade garantida pelas instituições, transformou-se num terrível mal-estar. Benjamin Constant acreditou e apostou em uma forma de liberdade mediada pelas instituições; Max Weber mostrou a dominação burocrática que essas instituições passaram a exercer; Adorno e Horkheimer (1985, p. 49) revelaram que "o absurdo desta situação, em que o poder do sistema sobre os homens cresce na mesma medida em que os subtrai ao poder da natureza, denuncia como obsoleta a razão da sociedade racional". A razão tornou-se um instrumento de dominação, e essa transformação é responsável por um retorno à barbárie. Por isso, Adorno e Horkheimer afirmam:
a essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu. Com a difusão da economia mercantil burguesa, o horizonte sombrio do mito é aclarado pelo sol da razão calculadora, sob cujos raios gelados amadurece a sementeira da nova barbárie.(ADORNO & HORKHEIMER, 1985:49)
Na dialética do esclarecimento, as noções de civilização e barbárie, progresso e regressão, esclarecimento e ofuscamento aparecem como os principais elementos do diagnóstico sombrio da modernidade por constituírem um forte instrumento de denúncia da razão. Os conceitos, nessa análise, não resistiram à sedução do poder e do progresso e tornaram-se armas potentes para subjugar os homens. Vítimas da sua própria astúcia, os homens são obrigados a se submeterem a fortes mecanismos de alienação, a acreditar numa liberdade que é apenas um mero artifício. As instituições que lhes prometiam a segurança para gozar os privilégios privados convertem-se em instrumento do medo.

3. A Modernidade de Risco, Perigo e Medo
Ao longo do século XX, as narrativas da modernidade visavam destacar o progresso em direção ao domínio da natureza; hoje a análise da modernidade enfatiza, cada vez mais, a noção de risco e de perigo5. Essas noções passaram a ajudar-nos a entender melhor as conseqüências do processo de modernização e suas ambivalências. No campo político, a concentração dos meios de poder fundados no princípio da racionalidade calculadora deu origem a um dos mais efetivos meios de controle social. O pensamento social clássico lidou com o despotismo como uma manifestação pré-moderna e acreditou, ou fez acreditar, que, na modernidade, não haveria espaço para o uso arbitrário do poder. Entretanto, a arbitrariedade, valendo-se de meios racionais, impôs-se como um instrumento de controle social. "O totalitarismo é diferente do despotismo tradicional, mas é muito mais aterrador como resultado. O governo totalitário combina poder político, militar e ideológico de forma mais concentrada do que jamais foi possível antes da emergência dos estados-nação modernos" (GIDDENS, 1991:17).
Giddens (1991: 17) mostra que os pensadores sociais do século XIX e do início do século XX acreditavam que "a recém-emergente ordem moderna seria essencialmente pacífica". Essa visão os teria impedido de vislumbrar uma conexão perigosa entre organização e inovação industrial com o poder militar. Hoje todos estamos convencidos de que "não apenas a ameaça de confronto nuclear, mas a realidade do conflito militar, formam uma parte básica do 'lado sóbrio' da modernidade" (GIDDENS, 1991: 19. Neste sentido, Giddens assinala que "o século XX é o século da guerra, com um número de conflitos militares sérios envolvendo perdas substanciais de vidas, consideravelmente mais alto do que em qualquer um dos séculos precedentes" (GIDDENS, 1991: 19, grifo nosso). Se, por um lado, podemos notar o potencial de letalidade bélica e de controle social, por outro, não podemos esquecer outras formas de ameaças, como ao próprio indivíduo ou ao meio ambiente. Assim, não podemos deixar de concluir que "o mundo em que vivemos hoje é um mundo carregado e perigoso" (GIDDENS, 1991: 19).
As análises precedentes esclarecem algo importante: a modernidade trocou o sentimento de aventura pelo sentimento do medo. O que era segurança tornou-se um instrumento de controle social; o que era confiança no progresso tornou-se uma efetiva ameaça à existência da civilização. Sendo assim, é evidente que estamos no limbo de uma sociedade de risco. Entretanto, como podemos definir o risco? Poderíamos pensar que ele deriva de uma incerteza, de uma impossibilidade de controlar o futuro por meio de um cálculo seguro:
se eu arrisco algo, corro o perigo de perder algo. Não existe nenhum risco sem a valorização positiva de algo, não existe nenhum risco sem algo que alguém possa perder. O risco é um acontecimento futuro, um momento esperado ou temido no qual essa perda pode acontecer [...] um perigo realizado é um desastre, terminando o percurso perigoso. O risco, pelo contrário, é algo que abre uma dada situação e bifurca o percurso da história de forma imprevisível. (BRÜSEKE, 2001: 36).
A idéia de risco está ligada aos perigos futuros de uma determinada ação (social ou individual), por isso não deixa de ter relação com a idéia de medo. Aristóteles, no livro II da Retórica, afirma: "o medo é uma dor ou uma agitação produzida pela perspectiva de um mal futuro, que seja capaz de produzir morte ou dor". É importante reter a idéia de "agitação", pois este movimento pode ser interpretado como angústia e inscrever-se no eixo das emoções. Na moderna filosofia ocidental, M. Heidegger (1997) julga o fenômeno do medo constitutivo da existência inautêntica, isto é, da existência "lançada no mundo" e abandonada às vicissitudes desse mundo. Como tal, o medo não é um fenômeno temporal parcial, mas um modo de ser essencial e permanente. No que se refere à angústia, Heidegger assume que ela existe pelo simples fato de se estar no mundo, pela situação originária e fundamental da existência humana. Pode-se então dizer que o medo é algo ameaçador, mas que pode ser contornado, removido ou afastado, ao passo que a angústia somente pode ser sentida diante do mundo como tal. Como o homem tem de enfrentar os fatos e os acontecimentos e esses fatos e acontecimentos podem tornar-se ameaçadores, para Heidegger, o medo pode ser considerado uma angústia caída no mundo, inautêntica e oculta a si mesma6.
Quando nos reportamos à história da modernidade, não podemos deixar de sentir a força de um deslocamento ou, no dizer de A. Giddens, de um desencaixe, momento em que, segundo Habermas, ocorre a formação de um novo arranjo social que quer esquecer o passado, visto que não é mais possível, na modernidade desencantada, alimentar as utopias reconciliadoras. No lugar da comunidade, coloca-se o indivíduo envolto por sua subjetividade. O nascimento do eu é, de acordo com Jean-François Mattei (2002), a grande contribuição do Cristianismo para a modernidade. Mattei, ao contrário de A. Giddens, não trabalha com a noção de ruptura, ele vai buscar na agricultura a imagem de uma mistura que altera as espécies originais – o enxerto. Para Mattei, a busca da interioridade do homem que marca o pensamento ocidental clássico é herança do Cristianismo, particularmente dos ensinamentos paulinos. Na sua carta aos colossenses (3,11), Paulo enfatiza: "Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos". Na sua análise, Mattei (2002: 126) pergunta: "Que homem novo é esse que não é mais judeu, grego ou bárbaro, que se retira do espírito do mundo assim como do espírito da cidade para receber, em seu santuário, o Espírito que vem de Deus?". A resposta é a descoberta do homem interior, que se renova na medida em que destrói o "homem exterior".
Para Mattei, a imagem do enxerto é importante, pois nos ajuda a entender por que a civilização não foi capaz de sublimar a barbárie:
A civilização européia edificou-se lentamente a partir de uma sucessão de enxertos em um núcleo básico inicial, assim como uma pérola cultivada, a partir de um corpo parasita, secreta pouco a pouco suas camadas sob a casca da ostra: o enxerto grego, o enxerto romano sobre enxerto grego e o enxerto agostiniano sobre o enxerto romano formam assim o nácar da Europa cristã que sufocou o elemento inicial sem o destruir (MATTEI, 2002: 132).
Constata-se, de forma inequívoca, que a barbárie não foi deixada fora do umbral da civilização romana, ela também não foi convertida ao Cristianismo, foi a alma individual juntamente com a alma do mundo que foi expulsa da comunidade. Nesse movimento de retração, de separação, ocorreu o processo de interiorização, doravante, o bárbaro "estará no interior do eu, encerrado numa caverna ou num túmulo" (MATTEI, 2002: 146). Para concluir diz Mattei:
poder-se-ia mesmo afirmar que o caráter principal da Modernidade, pelo qual ela se distingue radicalmente da Antiguidade, provém dessa passagem insensível da substancialidade à subjetividade, ou, para dizer numa linguagem menos severa, da passagem da alma ao eu e, ao mesmo tempo, da passagem da exterioridade à interioridade (MATTEI, 2002: 146, grifos do autor).
O resultado principal deste desdobramento é a afirmação da existência do "eu" universal, mas inteiramente abstrato, privado de substância, vazio e entregue às vicissitudes e às armadilhas da sua autodeterminação. Na sua reflexão sobre o medo, como vimos anteriormente, Heidegger mostra que a existência "lançada no mundo" põe em jogo o próprio ser-do-ente, no abandono a si mesmo, a sua autodeterminação é o único meio para enfrentar os riscos e os perigos da existência inautêntica. Nesse contexto, não há como não pensar em uma existência amparada apenas em uma razão estratégica, na força da razão calculadora e centrada no sujeito. Esta exigência aumenta à medida que o processo de modernização se autonomiza e os riscos sociais e individuais são mais claros no horizonte. U. Backer afirma: "A sociedade de risco não é uma opção que se pode escolher ou rejeitar no decorrer de disputas políticas. Ela surge na continuidade dos processos de modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus próprios efeitos e ameaças" (BECK, 1997: 16). Se concordarmos com Beck, concordaremos também com Adorno e Horkheimer e com os perigos da razão instrumental porque eles deixam evidente que o abandono do sujeito ao fluxo da História reverte-se num processo de modernização do medo. Obrigado a tornar-se senhor da razão, o homem, buscando a máxima dominação, faz mau uso desta, e é nisso que se manifesta a barbárie que permaneceu enxertada na civilização ocidental: o cálculo criminoso é o reflexo do "despotismo interior do sujeito[...]; neste caso seus instintos de violência" (MATTEI, 2002: 62).
Ao tratar do despotismo interior, Mattei chama a atenção para a noção de "barbárie reflexiva". Estando a barbárie interiorizada no sujeito, a razão não escaparia à tentação do uso da violência e do crime como um dos meios eficazes no cálculo da realização dos fins. Sigmund Freud, analisando a expectativa do desenvolvimento das forças técnicas da sociedade, assinala: "é inequívoca a influência exercida sobre as relações sociais da humanidade pelo progressivo controle das forças da natureza. Pois os homens sempre colocam seus instrumentos de poder recentemente adquiridos a serviço de sua agressividade e usam-nos contra os outros homens"7. A modernidade foi capaz de criar um artifício poderoso no sentido de atrair a violência para a esfera do Estado; o monopólio estatal da violência, com toda a ambigüidade que possa carregar, torna-se um fator preponderante na busca da segurança. Explicita Bauman (2003: 30): "o moderno arranjo – capitalista – do convívio humano tinha uma forma de Jano: uma face era emancipatória, a outra coercitiva, cada uma voltada para um setor diferente da sociedade... Para dizer de maneira curta e grossa: a emancipação de alguns exigia a supressão de outros".

4. Ambivalência e Medo
A discussão levantada por Z. Bauman revela o aprofundamento das ambivalências que se engendraram na modernidade. Partindo do pensamento clássico, Bauman vale-se da imagem imortalizada por Karl Marx, que mostra as pilastras de sustentação da ordem burguesa cheias de cargas explosivas – a fonte de sua própria destruição. Marx afirmou que "essa subversão contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distingue a época burguesa de todas as precedentes" (MARX; ENGELS, 2001: 24). Nesse momento o pensamento social experimentava um instante crucial, aquilo que A. Giddens denominou desencaixe, a destruição dos últimos vestígios da comunidade8 e o nascimento do individualismo. Refletindo sobre esse começo da modernidade, Bauman assume uma posição já conhecida desde 1651, quando T. Hobbes publica o Leviatã. Nessa obra, o medo9 individual é instituído como fonte do poder estatal. Para Hobbes, o governante governa pelo temor que inflige a seus súditos, mas não pelo terror, que é um elemento pertencente ao estado de natureza (o homem lobo do homem); o indivíduo que assimilar as regras sociais não terá problemas com o soberano e entrar no Estado é a única esperança de ter uma vida melhor e confortável. Esses três pontos mostram que a filosofia política de Hobbes navega entre a esperança e o medo10. Aqui é importante assinalar que a esperança está numa vida segura, fugir da morte violenta; significa renunciar à liberdade individual e acreditar numa comunidade artificial, o Estado. Analisando a liberdade dos modernos, tal qual Constant a havia concebido, Bauman (1998: 10) assegura que "os esplendores da liberdade estão em seu ponto mais brilhante quando a liberdade é sacrificada no altar da segurança".
Esta ambivalência é para Bauman, como intérprete de Freud, a causa do mal-estar da civilização. Diz ele:
A segurança ante a tripla ameaça escondida no frágil corpo, o indômito mundo e os agressivos vizinhos chamados para o sacrifício da liberdade: primeiramente e antes de tudo, a liberdade do indivíduo para a procura do prazer. Dentro da estrutura de uma civilização concentrada na segurança, mais liberdade significa menos mal-estar. Dentro da estrutura de uma civilização que escolheu limitar a liberdade em nome da segurança, mais ordem significa mais mal-estar (BALMAN, 1998: 9).
Como a sociedade moderna optou pela ordem – para poder gozar dos privilégios privados –, ao longo de seu desenvolvimento teve que modernizar concomitantemente os mecanismos técnicos e organizacionais como meios de poder. Neste processo, percebe-se que o pensamento hobbesiano não foi preterido, a ameaça de utilização da força territorializou a democracia e instituiu o medo como fonte da manutenção da ordem.
Anteriormente nos referimos a uma passagem da obra de Bauman para mostrar que a emancipação significa uma supressão. Podemos ver aí uma tensão entre as forças sociais da modernidade. Bauman buscou em Freud o entendimento do mal-estar da modernidade, mas foi em Marx que ele recolocou o conflito social de classes. Nesse ponto, o foco volta-se para o sistema de controle (o Estado policial), a ordem social depende exclusivamente dele. Para situar essa discussão Bauman diz que a modernidade valeu-se do modelo panóptico11. Na época da vigilância contínua, "O modelo panóptico de poder prendia os subordinados ao lugar, aquele lugar onde podiam ser vigiados e punidos por qualquer quebra de rotina. Mas também prendia os supervisores ao lugar, aquele de onde deviam vigiar e administrar a punição" (BAUMAN, 2003: 35). A evolução desse processo mostrou uma mútua dependência: "Os governados dependiam dos governantes, estes não deixavam depender daqueles. Para o bem ou para mal os dois lados estavam amarrados entre si e nenhum deles podia com facilidade sair do impasse – por difícil ou repulsivo que fosse" (BAUMAN, 2003: 35). A isso Bauman denominou a "era do engajamento", o poder e a riqueza juntamente com a força de trabalho compunham um quadro de conflitos, mas nenhum dos lados podia dar-se ao luxo da separação. Assim, "passou-se muito tempo até que os dois lados, em muitas tentativas e erros, aprendessem essa verdade. Uma vez aprendida a verdade, a inconveniência e o alto e crescente custo do poder panóptico (e, em geral, pela dominação pelo engajamento) ficaram óbvios" (BAUMAN, 2003: 36)12. Ainda no contexto da formação do capitalismo industrial, Marx havia apostado no turbilhão, no conflito desencadeado pelo sistema de poder e da exploração capitalista – "onde tudo que é sólido desmancha do ar" – como uma fase necessária no processo de mudança para uma vida verdadeiramente segura, livre dos conflitos violentos provocados pela emancipação seletiva da modernidade inicial. Mas a destruição e a reconstrução após períodos prolongados de guerra, no século XX, anunciaram a obsolescência do modelo do panóptico e o advento de uma modernidade líquida (BAUMAN, 2001), o momento em que instituições e valores perdem sua força e em que aumenta a perda do sentido, a insegurança e o mal-estar.13
A crise do welfare state, a partir dos anos de 1970, significou o início de um novo processo, que Bauman denominou de desengajamento. Uma dissolução abrupta da velha aliança marcou o início de uma era em que as palavras de ordem são: "aceleração", "flexibilização" e "desregulamentação". A eficiência do panóptico é substituída pela idéia de incerteza. Aqui a secessão dos bens-sucedidos constitui um fosso profundo. A distância cada vez maior traduz-se em indiferença. A dominação não prima mais pela busca da obediência direta:
os detentores do poder não têm o que temer e assim não sentem necessidade das custosas e complicadas 'fábricas de obediência' ao estilo panóptico. Em meio à incerteza e à insegurança, a disciplina anda e se reproduz por conta própria e não precisa de capataz para supervisionar seu abastecimento constantemente atualizado (BAUMAN, 2003: 42).
Vista por esse ângulo, a modernidade líquida parece concluir de uma vez o inexorável abandono do indivíduo. P. Rosavalon e J.-P. Fitoussi (1997) assinalam que a emancipação dos indivíduos, isto é, sua autonomia faz deles portadores de direitos, mas, por outro lado, submerge-os no mar de insegurança crescente, obrigando todos a serem responsáveis pelo futuro e a darem sentido a uma vida que não é mais predeterminada a partir de fora. Assim, a razão que permite o cálculo do risco de suas ações joga-os ao abandono da sua autodeterminação num mundo sem referências. Sem as tais referências sociais, a ordem perde coerência, e "o tipo de incerteza, de obscuros medos e premonições em relação ao futuro que assombram os homens e as mulheres no ambiente fluido e em perpétua transformação em que as regras do jogo mudam no meio da partida sem qualquer aviso ou padrão legível, não une os sofredores: antes os divide e os separa" (BAUMAN, 2003: 48).
Com a cisão do mundo não apenas entre pobres e ricos e com a destruição dos últimos vestígios de identidade de classe, formada no âmbito da disciplina, esfumou-se a eficiência do controle social: "a ordem global precisa de muita desordem local 'para não ter o que temer'", afirma Bauman (2003: 96). Neste ponto é importante situar a teoria sociológica de Bauman. Os grupamentos sociais estão sendo divididos em ricos e pobres. Os ricos são homens e mulheres globalizados, desenraizados, desengajados, com trânsito relativamente livre pelos espaços globalizados pelo capitalismo; os pobres estão cada vez mais isolados em guetos. A guetificação é paralela e complementar à criminalização da pobreza. O gueto e as prisões14 são uma forma de força "para prender os indesejáveis ao chão", mantendo-os confinados e imobilizados. O perigo, alerta Bauman (2003: 111), é que "um gueto não é um viveiro de sentimentos comunitários. É, ao contrário, um laboratório de desintegração social, atomização e de anomia".
Nesse contexto de desintegração social, Bauman destaca o abandono do papel de regulação normativa do Estado-Nação. As tarefas de promover a integração social entregues a forças sobre as quais ele não mais tem jurisdição. O policiamento ainda é, dentro do território administrado, a única função deixada nas mãos dos governos dos Estados. Vale ressaltar: a polícia é o último órgão que adentra o gueto. O contato com os desintegrados faz-se, portanto, sob o domínio da violência.
Esperar que o Estado, se chamado ou pressionado adequadamente fará algo palpável para mitigar a insegurança da existência não é muito mais realista do que esperar o fim da seca por meio de uma dança da chuva. Parece cada vez mais claro que o conforto de uma existência segura precisa ser procurado por outros meios. A segurança, como todos os outros aspectos da vida humana num mundo inexoravelmente individualizado e privatizado, é uma tarefa que toca a cada indivíduo (BAUMAN, 2003: 102).
O trabalho de Bauman tem por objetivo mostrar a constituição de uma modernidade em torno de um eixo do qual se podiam calcular os avanços e os progressos, mas também sobre o qual as ciências sociais podiam ainda exercer uma análise crítica e esclarecedora. Na modernidade fluida, a elite intelectual teria renunciado a esse papel, mas teria encontrado na discussão multiculturalista uma forma de se colocar contra a intolerância cultural. Na interpretação de Bauman, essa atitude é mais uma forma de esconder a condescendência com o afastamento da "agenda pública da questão da privação material. Fonte profunda de toda desigualdade e injustiça" (BAUMAN, 2003: 96).
O diagnóstico da modernidade líquida apresentado por Bauman parece complementar a constatação de Mattei de que a barbárie é a outra face de uma moeda chamada civilização. As mudanças profundas no sistema social, com forte repercussão na cultura e na política, parecem revelar a presença do poder de destruição. Teme-se o monopólio da violência pelo Estado-Nação, mas é muito mais temerosa a violência difusa que parte de estruturas capilares da sociedade (o crime organizado, por exemplo). Nesse contexto, em que há uma intensa modernização do medo, uma cotidianização do medo, quais seriam as chances de se formarem estruturas políticas voltadas para a segurança? É evidente o grau de dramaticidade do diagnóstico da modernidade efetuado por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1985). A constatação de uma lógica da decadência dentro da modernidade aponta para uma desordem sempre iminente. Vale reter dessa análise, que obscurantismo esteve sempre presente na História. Ao lançar-se em busca de esclarecimento, a humanidade mergulha na escuridão, desorientada pelo ofuscamento provocado por seu próprio progresso. Em Adorno e Horkheimer (1985), todas as possibilidades resultariam na máxima: "A própria razão destrói a humanidade que ela possibilitou" (HABERMAS, 1990: 113). Para alguns autores – os defensores do pós-modernismo –, essa constatação permite compreender uma modernidade que se autonomizou. Isso implicaria dispensar o horizonte conceitual da razão ocidental, considerando que as premissas do Iluminismo estão mortas, tendo restado somente as suas conseqüências.
Assim, a modernidade tornou-se obsoleta, executando apenas as leis funcionais da economia e do Estado, da técnica e da ciência. A exaustão da cultura moderna levou-a a um estado de cristalização, isto é, tudo o que poderia ser desenvolvido já foi alcançado. Esse horizonte de despedida é o traço marcante do movimento pós-modernista que encontrou, nos anos de 1950-1960, um solo fértil.
J. Habermas chama a atenção para o fato de que a crítica autodestruidora de Adorno e Horkheimer "acaba deixando em aberto a contradição performativa de uma critica ideológica que se ultrapassa a si própria, que já não faz questão de se superar teoricamente" (HABERMAS, 1990: 127). Da mesma forma, ao apreciar a denúncia totalitária da razão, feita pelos autores da Dialética do Esclarecimento, Mattei identifica uma contradição importante. Diz ele:
resulta desta constatação irremediável que Tudo, em um único e só sentido é bárbaro, o que tem como conseqüência, por uma dedução igualmente bárbara, que a crítica total do todo a que se entregam Horkheimer e Adorno ainda faz parte da barbárie. É preciso concluir então, por uma espécie de redução ao absurdo, que a barbárie nada mais é que o processo de autodestruição da razão, a qual, criticando esse processo de destruição, só faz reforçá-lo para engendrar ad libitum a espiral infinita da barbárie (MATTEI, 2002: 56).
Nessa discussão, não é necessário partir definitivamente para uma sombria conclusão. Certamente mudanças profundas se estão descortinando à nossa frente, mas é preciso um esforço para apreender as suas tensões e ambivalências. Estão claros os fortes deslocamentos que marcam uma diferenciação dentro da modernidade. O próprio dinamismo da modernidade provocou um processo de autonomização, despertando o sentimento de incerteza. U. Beck denomina este momento de "modernização reflexiva" ou de autoconfrontação. Entretanto, é importante assinalar que, a partir dessa constatação, o conceito de sociedade de risco passa a orientar o diagnóstico de um novo estágio da modernidade. Nesse sentido, tanto a apreciação de Beck como a de Giddens mostram que é possível restabelecer a força crítica da razão.

Conclusão
O risco, talvez despertado pelo sentimento do medo, mobiliza a sociedade a articular com mais cuidado os seus instrumentos de intervenção, desde a natureza até a organização social. Precisamente nesse contexto ganha relevo a noção, defendida por Habermas, de esfera pública, que, em última instância, representa um instrumento, um fórum de conteúdo não-estatal, cuja base é um público que julga, que tem a vantagem de trazer à baila a questão da legitimação discursiva do Estado. B. Constant queria a intervenção das instituições para a garantia do gozo do privilégio da liberdade individual, mas o aprofundamento do processo de individualização e o superdimensionamento das instituições estatais revelaram a face cruel e temerosa do totalitarismo na política. U. Beck, A. Giddens, J. Habermas, J. F.Mattei e Z. Bauman, cada um por seu ângulo próprio, nem sempre compartilhando as mesmas estratégias teóricas, voltam seus interesses para a reconstrução de uma esfera pública política orientada pelo princípio do pluralismo. Mattei (2002, p. 288), por exemplo, chama a atenção para o fato de as democracias modernas estarem reduzindo o cidadão à pura virtualidade do sujeito jurídico, o que resulta num declínio da participação na vida pública e num retraimento do espaço público. Por outro lado, Habermas (2002) tem desenvolvido uma reflexão no sentido de redirecionar o estatuto da razão na modernidade tardia.
O princípio dialógico da razão é, para Habermas, o fator essencial na construção de uma nova ordem social, neste momento da história da modernidade, em que necessariamente terão de estar presentes a pluralidade, a partilha de poder, o exercício da cidadania, emoldurada por uma esfera pública de inclusão e de efetivas arenas de deliberação. Para Beck, Giddens, Mattei e Bauman, e, sobretudo, para Habermas, não dá para fugir da incerteza, do perigo e de uma atmosfera de medo, sem assegurar a existência de uma cultura política que permita integrar livremente os membros de uma sociedade em uma associação voluntária, organizada sob princípios jurídicos universais. Ao que parece, todos querem dizer que nos devemos voltar para a política, ou continuaremos a presenciar a manifestação da barbárie como a principal marca da modernização do medo.

Referências
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1 Evidentemente que essa afirmação está circunscrita a uma visão estreita. Poderíamos certamente dizer que, por todo o planeta, estruturas modernas estão em conflito com outras pré-modernas. Acredito que ainda não é tempo de declarar que os arranjos sociais pré-modernos já não existem mais sobre o planeta.
2 Tendo em vista que, de forma genérica, essa noção concerne a um momento ou mesmo a uma situação que, embora ofereça perigos, pode, de modo ambivalente, produzir tanto benefícios quanto prejuízos para o indivíduo ou para a sociedade que por ela passar
3 A noção de esfera pública remete sobretudo ao estudo de Habermas (1984).
4 "Desmagificação" é o termo que Pierucci (2003) emprega para contrapor à noção de secularização. Weber, de forma mais geral, fala em desencantamento do mundo.
5 Adiante essas noções serão explicitadas.
6 As reflexões sobre o medo aqui apresentadas neste contexto inspiram-se nas idéias recolhidas em Abbagnano (2000: 311).
7 Excerto da XXXV Conferência, que se encontra no volume XXII na Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
8 Sobre esse tema, Bauman escreve: "A guerra contra a comunidade foi declarada em nome da libertação do indivíduo da inércia da massa. Mas o verdadeiro resultado – ainda que não dito – dessa guerra foi o oposto do objetivo declarado: a destruição dos poderes de fixar padrões e papéis da comunidade de tal forma que as unidades humanas privadas de sua individualidade pudessem ser condensadas na massa trabalhadora" (BAUMAN, 2003, p. 30).
9 "Minha mãe pariu gêmeos, eu, o medo". "O medo foi a única paixão de minha vida". Ribeiro (1999) retirou a primeira frase da autobiografia de Hobbes, que a teria escrita do alto de seus 90 anos; Ribeiro (2004) diz ter retirado a segunda da obra intitulada Prazer do texto, de Roland Barthes.
10 Um apreciável estudo da filosofia política de Hobbes está em Ribeiro (1993).
11 J. Bentham, filósofo inglês (1748-1832), criou uma figura arquitetônica que deveria ser usada para a construção de um presídio: em torno de uma torre central, constroem-se em círculos as células prisionais, que devem ter janelas amplas de vidro através das quais um vigia pode com a máxima eficiência observar toda a movimentação dentro do prédio. Essa figura – o panóptico – é retomada e analisada por M. Foucault em sua obra Vigiar e Punir.
12 Em um outro contexto Brüseke (1996), ao analisar essa relação referiu-se ao proletariado como "o aliado rebelde".
13 Referindo-se a essa questão, Mattei (2002, p. 140) assinala: "Édipo podia ainda contar com Antígona para guiá-lo em segurança a Colono; o Homem moderno tem apenas seu analista, depois de muitos silêncios e recusas, para reconduzi-lo a si".
14 Sobre esse tema, é importante consultar também o trabalho de Loïc Wacquant (2004).