sexta-feira, 20 de abril de 2018

A concepção filosófica da Verdade.


DISCIPLINA:  METODOLOGIA DA VERDADE I
AULA DIA 19/04/2018
PROFESSOR : זה TANRILAR TANRI
MATERIAL I




Verdade significa aquilo que está intimamente ligado a tudo que é sincero, que é verdadeiro, é a ausência da mentira.
Verdade é também a afirmação do que é correto, do que é seguramente o certo e está dentro da realidade apresentada.
A verdade é muitas vezes desacreditada e o ceticismo é a descrença ou incredulidade da verdade. Aquele indivíduo que tem predisposição constante para duvidar da verdade é chamado de cético.
Quando pessoas ou grupos tentam provar que se interessam por assuntos, mas na verdade não gostam, ou não entendem, são chamados de pseudo, ou seja que não são verdadeiros. Ex: pseudocatólico, pseudo-intelectual, pseudo-canônico etc.
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A concepção de verdade.
A nossa ideia contemporânea de verdade foi construída ao longo de séculos, desde a antiguidade, misturando a concepção grega, latina e hebraica.
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Em grego, a verdade (aletheia) significa aquilo que não está oculto, o não escondido, manifestando-se aos olhos e ao espírito, tal como é, ficando evidente à razão.
Em latim, a verdade (veritas) é aquilo que pode ser demonstrado com precisão, referindo-se ao rigor e a exatidão.
Assim, a verdade depende da veracidade, da memória e dos detalhes.
Em hebraico, a verdade (emunah) significa confiança, é a esperança de que aquilo que é será revelado, irá aparecer por intervenção divina.
Em outras palavras, a verdade é convencionada pelo grupo que possui crenças em comum.
A união destes conceitos fez com que Tomás de Aquino terminasse definindo a verdade como expressão da realidade, a concepção em voga entre nós no senso comum até hoje.


A verdade filosófica.
Em filosofia, uma designação tradicional de verdade diria que é aquilo que permanece inalterável a quaisquer contingências, um conceito que não está em concordância com o senso comum e que trás um problema.
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O conceito tradicional de verdade, do ponto de vista do senso comum e da filosofia, contraria o objetivo da filosofia, uma busca pelo que está oculto por trás das aparências, tornando a verdade relativa e provisória.
Em outras palavras, a verdade espelha aquilo que é, o problema é encontrar a essência do que as coisas são, adquirir a certeza incontestável sobre algo, o que geraria uma atitude dogmática.
O grande problema é que a verdade não possui um significado único, tampouco estático e definitivo, sendo influenciada por inúmeros fatores.
Destarte, a construção de um sistema filosófico configura uma verdade dogmática que se contrapõem a outras verdades dogmáticas.
Neste sentido, em filosofia existem várias verdades, todas possíveis desde que exista a ausência de contradições, já que somente elementos que se anulam mutuamente poderiam invalidar a verdade.
Na filosofia e nas Ciências Humanas paradigmas coexistem e não se anulam.


Leibniz, Kant e Husserl.
A concepção de verdade foi objeto de estudo de diversos pensadores ao longo da história da filosofia, mas três particularmente exerceram forte influência: Leibniz, Kant e Husserl.
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Para Leibniz seria necessário distinguir dois tipos de verdade: de um lado as verdades de razão e de outro as verdades de fato.
As verdades de razão enunciam que uma coisa é, necessariamente e universalmente, não podendo ser diferente do que é, tal como as ideias matemáticas, sendo inatas.
As verdades de fato, ao contrário, são aquelas que dependem da experiência, expressando ideias obtidas através das sensações, percepção e memória, sendo, portanto, empíricas.
A relação entre verdades de razão e de fato, julgadas pela racionalização das informações, permite conhecer a realidade.
Já para Kant, a verdade surge a partir da relação entre juízos analíticos e sintéticos, expressando o primeiro operações intelectuais e o segundo as estruturas ou fenômenos analisados.
Em outras palavras, a realidade que conhecemos não corresponde aquilo que é, mas sim ao que a razão interpreta.
Partindo do mesmo principio, Husserl criou a fenomenologia, uma ramo da filosofia que estuda a leitura dos fenômenos pela razão, já que a realidade seria relativa e subordinada à manifestação para consciência.
O entendimento sofreria influencia dos sentidos e da razão, além dos conhecimentos previamente presentes na mente e do contexto.


Concluindo.
A teoria do conhecimento, através da epistemologia (ciência que estuda o discurso), mesclada a discussão em torno do conceito de verdade, a partir do racionalismo, do empirismo e do criticismo; fundou posturas que influenciaram a construção da ciência e atitudes, maneiras de enxergar o mundo e agir.
A maneira de lidar com informações e tomar decisões, considerando especialmente os critérios para solucionar problemas, acabaram sendo influenciados por três tendências que dizem respeito à forma de conhecer e encarar a verdade:

1. Dogmatismo: Baseado no racionalismo de Descartes, afirma que o conhecimento adquirido é seguro e universal, alguns inclusive inatos, conferindo certeza absoluta às decisões.
2. Ceticismo: Oposta ao dogmatismo, originado a partir do empirismo, afirma que o verdadeiro conhecimento é fornecido pelos sentidos e pela experiência, sendo impossível construir uma verdade segura; portanto toda decisão é provisória e sujeita a constantes reajustes.
3. Relativismo: Atitude filosófica originada a partir do criticismo kantiano, a qual defende a ideia de que cada indivíduo possui uma verdade, um ponto de vista e uma perspectiva, para qual as decisões só podem ser tomadas em conjunto, analisando os diversos ângulos e pontos de vista.

Chegar à verdade pode ser mais complexo do que aparente, talvez mesmo impossível dentro da limitada capacidade humana de racionalização.
Porém, o interessante é o caminho percorrido em busca da verdade, uma luz que pode iluminar novas tentativas.


Para saber mais sobre o assunto.
CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
GOLDSCHMIDT, Victor. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” In: GOLDSCHMIDT, V. A religião de Platão. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1968, p.139-147.

Kant e a mentira

Imagine o seguinte caso. Uma pessoa está fugindo de um assassino e pede para se esconder em sua casa. Você aceita e logo em seguida chega o assassino e pergunta se você não viu a pessoa que acabou de esconder. O que você deveria fazer? Mentir para o assassino, dizendo que a pessoa não se encontra ali, ou falar a verdade?
A maior parte das pessoas diria: devemos mentir para salvar uma vida. Porém Immanuel Kant (1724-1804), um dos maiores filósofos da história, pensa que deveríamos falar a verdade, inclusive nesse caso. Naturalmente, o que fez com se tornasse conhecido e respeitado não foi apenas defender essa resposta que vai contra o senso comum. Ele tinha uma teoria moral bastante sofisticada para dizer isso.
Para compreendermos seu pensamento precisamos entender o que Kant chamava de Imperativo hipotético e imperativo categórico. Imperativos hipotéticos são ordens do tipo “se deseja ser aprovado na escola, então deve estudar”. Esses imperativos sempre tem a estrutura “se… então”. Essas são são ordens que qualquer pessoa deve seguir. Pelo contrário, caso uma pessoa qualquer não queira ser aprovada na escola, ela não tem qualquer necessidade de estudar. Esses imperativos são ordens apenas na medida em que uma pessoa tenha certo desejo. 
Por outro lado, imperativo categórico tem um formato diferente. Exemplos desse tipo de deveres são os deveres morais. Quando digo “você não deve mentir”, não estou fazendo uma afirmação condicional. Não estou dizendo que você não deve mentir caso goste da pessoa ou queira agradá-la. Pelo contrário, em qualquer condição não deve mentir.
Se um imperativo hipotético do tipo “você deve estudar se quiser ser aprovado” tem origem em um desejo, qual a origem de imperativos categóricos?
Há uma frase célebre de Kant que diz o seguinte:
Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.
Kant pensava que  imperativos categóricos tinham origem na razão humana. Ele acreditava que havia uma lei moral dentro de cada pessoa, que cada ser racional seria capaz de reconhecer como verdadeira. Essa leia se resumia ao  seguinte princípio: “age apenas segundo uma regra pela qual possas ao mesmo tempo querer que se torne uma lei universal”.
Isso quer dizer que apenas aquelas ações que pode se tornar uma regra a ser seguida por qualquer pessoa em qualquer tempo podem ser consideradas corretas. Por exemplo, imagine que você precisa de um empréstimo. Pra conseguir que alguém te empreste dinheiro, terá que prometer que irá devolver.  Porém, você não tem condições de devolver. Você deveria enganar uma pessoa e pedir dinheiro emprestado, prometendo devolver mesmo sabendo que não fará isso?
Podemos pensar no princípio kantiano como um procedimento para avaliar o que é certo ou errado.
O procedimento seria o seguinte:
  1. Passo 1: transforme sua ação numa regra;
  2. Passo 2: se questione se é possível que essa regra possa ser adotada por todas as pessoas, em qualquer época ou lugar (uma lei universal).
Se transformássemos a ação do exemplo acima em uma regra, obteríamos algo do tipo: “se você precisar de um empréstimo, prometa devolvê-lo, mesmo que você saiba que não será capaz”. É possível que essa regra se torne uma lei universal? Kant diria não, porque essa é uma regra autodestrutiva. Uma vez que essa regra se tornasse uma prática universal, ninguém mais iria acreditar em  promessas de devolução e ninguém faria empréstimos baseados nelas.
Voltemos ao exemplo com o qual começamos esse texto e perguntemos: seria adequado mentir para salvar uma vida? Agora que conhecemos um pouco da teoria moral de Kant, podemos entender porque, apesar de contraintuitivo, ele defendia que seria errado mentir, mesmo nessa situação. Não podemos transformar a ação de mentir em uma lei universal, porque se isso acontece as pessoas não mais dariam qualquer importância ao que outras pessoas dissessem. Já nem mentir poderíamos mais, porque ninguém nos daria ouvidos.
Assim, para Kant, agir moralmente significa agir de acordo com o dever, mesmo que as consequências da ação não sejam positivas. O que importa para considerarmos uma ação moral é a intenção do agente moral e não o resultado.  Kant diferencia entre agir conforme o dever e agir por dever. 
Para entender a diferença consideremos os possíveis motivos que levaram, por exemplo, a pessoa imaginária interrogada pelo assassino a dizer a verdade. Talvez ele tenha feito isso por estar com medo de que o assassino descobrisse de qualquer forma e o prejudicasse de alguma maneira. Nesse caso, a pessoa está agindo de acordo com o dever, está agindo por interesse e não por obrigação. Para agir por dever ela deveria pensar “irei falar a verdade, porque é meu dever não mentir” e ao invés de “irei falar a verdade, porque pode ser que acabe sendo prejudicado”.
Moral relativa ou absoluta Segundo Kant 

A ética provém da observância da moral. A norma ética estabelece condutas à moralidade. Para a efetiva credibilidade da norma ética, faz-se mister o entendimento: é a moral absoluta (objetiva) ou relativa (subjetiva)? Como nas ciências filosóficas, humanas e sociais, tudo é relativo; há, pelo menos, duas correntes de pensamento. 

Para a posição absoluta e apriorista, “os valores não se criam nem se transformam; se descobrem ou se ignoram”. A ética dá, então, condições ao homem para afinar-se com esses valores, descobrindo-os; ele não os cria. Seria moral aquilo que dá ao homem a sensação de sentir-se bem após determinada ação. Como se ele tivesse uma bússola natural que o guiasse ao discernimento entre o certo e o errado. 

Já a teoria relativista e empirista remete à tese subjetivista, postulando que a criação de valores acontece por vontade dos homens. As normas são convencionais (estipuladas) e mutáveis, existindo várias normas, ao longo do tempo. 

Esquematicamente: 

Relativista/empirista: 
- norma com vigência convencional e mutável; 
- caráter empírico (observação); 
- várias morais; 
- subjetivismo; 

Absolutista/apriorista 
- validez atemporal e absoluta; 
- conhecimento da norma “a priori”; 
- bússola natural (certo/errado); 
- predisposição. 

Kant: a verdade subjetiva

Por Peter Kreeft
Immanuel Kant (1724-1804) parecia ser uma pessoa cordial e pacata. Poucos daqueles que o conheceram talvez imaginassem que as suas teorias teriam um impacto destruidor sobre a filosofia e a mentalidade contemporâneas.

Na história da filosofia, houve poucos pensadores tão ilegíveis e áridos como Immanuel Kant. Contudo, poucos tiveram um impacto tão devastador sobre o pensamento humano como ele.
Conta-se que Lumppe, o seu dedicado assistente, teria lido fielmente cada uma das publicações do mestre. Mas nem mesmo ele conseguiu ler a obra mais importante publicada pelo filósofo, A crítica da razão pura; na verdade, chegou a começar a leitura, mas interrompeu-a dizendo que, se tivesse de terminá-la, haveria de ser num hospital psiquiátrico. Desde então, muitos estudantes têm-se feito eco dessa opinião.
No entanto, penso que esse professor abstrato, que escrevia em estilo abstrato sobre questões abstratas, é a fonte primária da idéia mais perigosa de todas para a fé (e, portanto, para as almas): a idéia de que a verdade é subjetiva.
Os simples cidadãos da sua Königsberg natal (atual Kaliningrado, Rússia), onde o filósofo viveu e escreveu durante a segunda metade do século XVIII, parecem ter entendido isso melhor do que muitos acadêmicos profissionais, porque lhe deram o apelido de “o destruidor” e davam o seu nome aos cachorros.
Pessoalmente, Kant era um homem amável, gentil e piedoso, tão pontual que os vizinhos ajustavam os relógios pelos seus passeios. Também o intuito básico da sua filosofia era nobre: restaurar a dignidade humana num mundo cético que idolatrava a ciência.
Essa intenção pode ser ilustrada com o seguinte episódio. Em certa ocasião, Kant assistiu à palestra de um astrônomo materialista sobre o lugar do homem no universo. Quando o cientista concluiu a palestra com as palavras: “Assim, vemos que o homem é evidentemente insignificante em termos astronômicos”, o filósofo levantou-se e disse: “Professor, o senhor esqueceu o mais importante: o homem é o astrônomo”.
No entanto, mais do que qualquer outro pensador, foi ele quem impulsionou a deriva tipicamente moderna da objetividade para a subjetividade. Isso pode parecer bom até nos darmos conta de que implicava a redefinição da própria verdade como algo subjetivo. E as conseqüências dessa idéia têm sido catastróficas.
Quando conversamos com alguém que não crê, percebemos que o obstáculo mais comum à fé hoje em dia não é nenhuma dificuldade intelectual honesta (como o problema do mal ou o dogma da Trindade), mas a convicção de que a religião não pertence ao campo dos fatos nem das verdades objetivas. Assim, qualquer tentativa de tentar convencer outra pessoa de que a fé é verdadeira – objetivamente verdadeira, verdadeira para todos – passa a ser considerada de uma arrogância intolerável.
De acordo com essa mentalidade, a religião é teórica, não prática; tem a ver com valores, não com fatos; é subjetiva e privada, não objetiva e pública. O dogma seria um “extra”, e um “extra” daninho, porque fomentaria o dogmatismo. Ou seja, a religião, no fundo, não passaria de uma ética. Além do mais, uma vez que a ética cristã é muito parecida com a ética das outras grandes religiões, pouco importaria se você é cristão ou não; o importante é ser “boa gente”. (Geralmente, as pessoas que acreditam nisso também acham quase todo o mundo “boa gente”, com exceção de Adolf Hitler e Charles Manson).
Kant é em larga medida responsável por essa maneira de pensar. Ele ajudou a enterrar a síntese medieval entre fé e razão, e descreveu a sua filosofia como “tirar do caminho as pretensões da razão para abrir espaço à fé”, como se fé e razão fossem inimigas, não aliadas. Assim, consumou o divórcio entre fé e razão iniciado por Lutero.
O filósofo pensava que a religião jamais poderia ser objeto da razão – uma evidência, um argumento ou sequer um objeto de conhecimento –; deveria ser unicamente uma questão de sentimentos, de emoções e de atitudes. Esse postulado influenciou profundamente a maior parte dos educadores religiosos atuais (entre os quais redatores de catecismos e teólogos), que deixaram de lado a rocha-mãe da fé, os fatos objetivos narrados na Sagrada Escritura e resumidos no Credo dos Apóstolos. Fregueses da filosofia kantiana, divorciaram a fé da razão e casaram-na com a psicologia pop.
“Duas coisas me deixam maravilhado”, confessou Kant certa vez: “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Aquilo que maravilha um homem preenche o seu coração e dirige o seu pensamento. Reparemos que, entre as coisas que maravilham o filósofo, não estão Deus, Cristo, a Criação, a Encarnação, a Ressurreição e o Juízo, mas apenas “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”.
“O céu estrelado” é o universo físico, tal como a ciência moderna o entende; e tudo o mais é relegado para o campo da subjetividade. Assim, a lei moral não estaria “fora”, mas “dentro de mim”; não seria objetiva, mas subjetiva; enfim, não seria uma Lei Natural com certos e errados objetivos, mas uma lei feita por nós mesmos à qual escolhemos vincular-nos. (Mas será que estamos realmente vinculados quando só nos vinculamos a nós mesmos?) A Moral seria, portanto, apenas uma questão de intenção subjetiva; não teria qualquer conteúdo com exceção da Regra de Ouro (o “imperativo categórico” de Kant).
() A regra de ouro é considerada classicamente o princípio central de toda a ética. Na sua formulação negativa – “não farás aos outros aquilo que não queres que te façam” –, encontra-se em diversos pensadores de quase todos os povos. Cristo deu-lhe uma formulação positiva: Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles (Mt 7, 12) (N. do T.).
Se a lei moral veio de Deus e não do homem, o homem não seria livre no sentido de ser autônomo, o que é verdade. Mas, para Kant, o homem tem de ser autônomo, e portanto a lei moral não vem de Deus, e sim do próprio homem. Partindo da mesma premissa, a Igreja afirma que a lei moral realmente vem de Deus, e portanto que o homem não é autônomo; ele é livre para optar por obedecer-lhe ou não, mas não é livre para criar a lei.
Embora se considerasse cristão, o filósofo negou explicitamente que pudéssemos conhecer ao certo a existência (1) de Deus, (2) do livre arbítrio, e (3) da vida eterna. Disse que deveríamos viver como se essas idéias fossem verdadeiras, porque caso contrário não levaríamos a moral a sério. É essa justificação da fé por razões puramente práticas que constitui um erro terrível. Kant acredita em Deus não porque Ele exista, mas porque é útil. Se for assim, por que não acreditar no Papai Noel? Se eu fosse Deus, preferiria um ateu honesto a um deísta desonesto; e penso que Kant é um deísta desonesto, porque há apenas um único motivo honesto para acreditar seja no que for: o fato de essa coisa ser verdadeira.
Aqueles que tentam vender a fé cristã no sentido kantiano, como um “sistema de valores” em vez da verdade, têm fracassado geração após geração. Com tantos “sistemas de valores” no mercado, por que deveria alguém preferir a variante cristã a outras mais simples, com menos teologia e com uma moral mais fácil e menos inconveniente?
Com efeito, Kant fugiu da batalha ao bater em retirada do campo dos fatos. Acreditava no grande mito do século XVIII, o Iluminismo (nome irônico!). Acreditava que a ciência de Newton tinha vindo para ficar e que, para sobreviver, o cristianismo teria de encontrar um lugar na nova paisagem mental esboçada pela nova ciência. E o único lugar que lhe sobrava era a subjetividade.
Isso implica ou ignorar os acontecimentos sobrenaturais e miraculosos da história do cristianismo ou interpretá-los como mitos. A estratégia de Kant foi essencialmente a mesma que seguiria Rudolf Bultmann (1884-1976), o pai da “demitologização” e talvez o principal responsável pela perda da fá entre inúmeros universitários católicos. Muitos professores de teologia perfilham as suas teorias exegéticas, que reduzem os milagres contidos na Bíblia, relatados por testemunhas oculares, a simples “mitos”, “valores” e “interpretações piedosas”.
Com relação ao suposto conflito entre fé e razão, Bultmann disse: “A visão científica do mundo veio para ficar e fará valer os seus direitos contra qualquer teologia, por mais impositiva que seja, que venha a entrar em conflito com ela”. Ironicamente, a “visão científica do mundo” oferecida pela física de Newton e aceita como absoluta e imutável por Kant e Bultmann é hoje quase universalmente rejeitada pelos próprios cientistas!
A questão básica de Kant era: Como podemos conhecer a verdade? Na sua juventude, aceitava a resposta racionalista de que conhecemos a verdade pelo intelecto, não pelos sentidos, e de que o intelecto possuía as suas próprias “idéias inatas”. Mais tarde, leu o empirista David Hume, que, em palavras do próprio Kant, o “despertou do sono dogmático”. Como outros empiristas, Hume acreditava que o homem só pode conhecer a verdade mediante os sentidos e que não existem “idéias inatas”. Mas as premissas de Hume conduziram-no ao ceticismo, à negação de que seja possível conhecer a verdade com certeza. Kant considerou inaceitáveis tanto o “dogmatismo” racionalista como o ceticismo empirista e procurou uma terceira via.
Ora, havia uma terceira teoria disponível desde os tempos de Aristóteles: a filosofia do senso comum, que é o realismo. De acordo com o realismo, podemos conhecer a verdade por meio do intelecto e dos sentidos, desde que ambos trabalhem corretamente em conjunto, como as lâminas de uma tesoura. Em vez de voltar-se para o realismo tradicional, Kant inventou toda uma nova teoria do conhecimento, geralmente chamada idealismo. Considerava-a a sua “revolução copernicana na filosofia”. Mas o nome mais simples para ela é subjetivismo, pois o que pretende é redefinir a própria verdade como subjetiva, não objetiva.
Todos os filósofos anteriores tinham dado por assente que a verdade é objetiva. Aliás, de acordo com o senso comum, é simplesmente isso o que queremos dizer ao falar de “verdade”: conhecer o que realmente é, conformando a mente segundo a realidade objetiva. Alguns filósofos (os racionalistas) julgavam ser capazes de atingir essa meta apenas com a razão. Os primeiros empiristas (como Locke) julgavam que podiam atingi-la através dos sentidos. O empirista cético Hume, posterior, julgava que não havia maneira alguma de atingir com certeza a verdade.
Kant negou a premissa comum a essas três filosofias concorrentes, ou seja, negou que a verdade devesse ser atingida, que a verdade significasse conformidade com a realidade objetiva. A “revolução copernicana” de Kant redefine o próprio conceito de verdade como realidade que se conforma segundo as nossas idéias. “Até hoje, sustentava-se que o nosso conhecimento devia adequar-se aos objetos […]. Haverá mais progresso se assumirmos a hipótese contrária, de que são os objetos de pensamento que devem adequar-se ao nosso conhecimento”.
Kant afirmou que todo o nosso conhecimento é subjetivo. Bem, essa afirmação é um conhecimento subjetivo? Se é, então o conhecimento desse fato também é subjetivo, et cetera, e todos estamos aprisionados num infinito salão de espelhos. A filosofia kantiana é perfeita para o inferno. É possível que os condenados creiam não estar realmente no inferno; seria apenas coisa da cabeça deles. E talvez seja isso mesmo: é possível que o inferno seja exatamente assim.

Tipos de ações segundo kant


Espiritualidade e cuidados paliativos



PROF: HARIEL


A Organização Mundial da Saúde (1990/2002) define Cuidados Paliativos como: Cuidados ativos totais de pacientes cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. Controle da dor e de outros sintomas e problemas de ordem psicológica, social e espiritual são prioritários. O objetivo dos cuidados paliativos é proporcionar a melhor qualidade de vida para os pacientes e familiares. A definição de Cuidados Paliativos da OMS evidencia uma preocupação com o cuidado das necessidades espirituais dos pacientes e seus familiares. Oferecer cuidados paliativos de qualidade significa implementar ações inovadoras que evitem o sofrimento moral, espiritual, a desmoralização e a perda de sentido, o sentir de que tudo acabou, experiências muito freqüentes no final da vida, como nos relatam pacientes nesta condição. Segundo Pessini (2006), a Associação Médica Mundial revisou recentemente a Declaração dos Direitos do Paciente, elaborada no Chile, em 2005. Entre os direitos defendidos, apresenta-se o direito à assistência religiosa, afirmando que o paciente tem direito de receber ou recusar o conforto espiritual e moral, incluindo a ajuda de um ministro de sua opção religiosa. Koenig (2001) aponta que pacientes com câncer avançado, que tinham crenças espirituais, mostraram-se mais satisfeitos com suas vidas, eram mais felizes e sentiam menos dor, comparados àqueles sem crenças espirituais. Uma pesquisa feita pela American Pain Society mostrou que a oração era o segundo método mais usado no manejo da dor, depois de medicações orais, e era o método não-ligado a drogas mais comum, no manejo deste sintoma. A espiritualidade está associada a menor depressão, menor  risco de complicações somáticas, de suicídio e a menor uso de serviços hospitalares, inclusive a menor tendência de fumar. Quanto ao papel das crenças religiosas na terminalidade, este autor aponta que estas podem ajudar os pacientes a buscarem o sentido ligado ao sofrimento inerente à doença, o que pode facilitar a aceitação desta situação. A assistência espiritual faz parte integral dos cuidados ministrados a pacientes que estão em programas de cuidados paliativos. É o acompanhamento do que o paciente tem a dizer, suas dúvidas, o que pensa ou acredita. Jamais se trata de impingir dogmas ou um determinado credo religioso. O profissional religioso que participa da equipe de cuidados paliativos é chamado de atendente espiritual e não tem associado o seu credo religioso. Trata-se do apoio espiritual na hora da morte, que pode ser efetuado por qualquer atendente espiritual, que tenha especialização na área paliativa. Breitbart (2003) aponta que 80% dos pacientes na fase final da vida querem conversar com o seu médico sobre temas ligados à dimensão espiritual. Esta necessidade está profundamente relacionada à dignidade no processo de morrer, a busca da existência plena e não apenas da sobrevivência. Saunders (1993), pioneira no desenvolvimento dos cuidados paliativos na Inglaterra que atualmente se encontram em pleno desenvolvimento em todo mundo, afirma que o sofrimento só é intolerável quando não é acolhido e cuidado. Mas é muito importante lembrar que o conforto espiritual acaba não sendo recebido na íntegra se a pessoa estiver em sofrimento físico. Programas de cuidados paliativos têm que ter uma equipe multidisciplinar justamente para poder cuidar de todas essas esferas, cuidando da dor total, como ela postula. A questão do sentido se torna premente diante da questão do adoecimento e da proximidade da morte. Alguns doentes se vêem frustrados e derrotados, enquanto outros encontram uma razão para o seu sofrimento e uma possibilidade para rever toda a sua vida. Como explicar estes dois caminhos tão diferentes? Sem dúvida, acreditar numa dimensão espiritual, na transcendência pode ser muito importante neste momento. Mas esta crença ou fé nunca deve ser forçada, trata-se de um movimento natural, que vem de dentro. Cuidados no fim da vida Cuidados paliativos, entendidos como cuidados a pacientes gravemente enfermos, buscando a qualidade de vida nas várias esferas do existir retomaram a importância dos cuidados na área espiritual, integrada como elemento essencial nos vários âmbitos de tratamento. Muito mais importante do que o prolongamento da vida busca-se o controle de sintomas e o bem-estar em várias esferas do existir, diminuindo ao máximo o sofrimento em todas estas esferas. Parkes (1999), especialista na área de luto e consultor do St. Christopher’s Hospice em Londres, afirma que o contato com a idéia de morte e finitude é um espaço privilegiado para lidar com a questão do sentido da vida e com a tentativa de compreender o que ocorre após a morte. Pacientes com doenças em ESPIRITUALIDADE E PSICOLOGIA — CUIDADOS COMPARTILHADOS O MUNDO DA SAÚDE São Paulo: 2007: abr/jun 31(2):246-255 251 estágio avançado têm que lidar com esta questão e com o sofrimento, tendo que elaborar as perdas relacionadas com a doença e a proximidade da morte. É muito importante compreender e acolher estas pessoas na situação em que fazem a transição para a morte, lidando com o medo do desconhecido, com o sentimento de aniquilação e alienação, com a perda da identidade e diminuição da consciência. Breitbart (2003) cita um estudo envolvendo uma busca de melhora de qualidade de vida de pacientes gravemente enfermos envolvendo os seguintes itens: a) qualidade geral de vida; b) bem-estar em todas as esferas da vida: físicas, psicossociais e espirituais; c) percepção pelo paciente da qualidade dos cuidados recebidos; d) cuidados à família. O autor destaca que atualmente os cuidados espirituais têm muita importância no cuidado total a pacientes gravemente enfermos. Entre as necessidades dos pacientes em fim de vida, Breitbart (2003) destaca os seguintes pontos: 1. Ser considerado como pessoa, participando de todas as decisões quanto ao tratamento. Muitos pacientes temem perder seu nome e identidade, serem considerados como mais um doente, ou somente como diagnóstico de uma doença, dependentes de outros, sentindo-se totalmente inúteis. 2. Revisão da vida. Muitos doentes têm necessidade de falar sobre sua vida, voltar ao passado e reavaliá-lo diante de novos valores, buscando um sentido para o seu sofrimento. O agravamento da doença clama por uma urgência, exposta diretamente, sem rodeio, buscando respostas para profundas crises existenciais. 3. Busca do sentido. O agravamento da doença favorece uma nova hierarquia de valores. Pode ocorrer a busca de algo que é mais forte e maior que a doença. A proximidade da morte coloca a pessoa diante do essencial, da necessidade de encontrar um sentido para a própria existência. O problema da finitude pode se impor ao sofrimento promovendo um ensaio de compreensão sobre a própria vida. O grande desafio é perceber-se como ser limitado e acabado e, ao mesmo tempo, encontrar forças para viver com intensidade os dias que restam. Frankl (op. cit.) viveu como prisioneiro num campo de concentração na Alemanha afirma, também pautado na sua experiência vivida, que todos podem encontrar um sentido em sua vida, também em situações de sofrimento intenso. O sentido de ter feito algo significativo durante sua vida. Este sentimento pode expressar-se de várias maneiras, uma delas pela fé, espiritualidade, arte, entre outras. 4. A necessidade de se livrar da culpa. A crença religiosa seguida pelo paciente pode influenciar seu modo de ver o sofrimento. Se a sua visão religiosa envolve a punição por atos cometidos, ele poderá ver a doença como expiação da culpa pelas coisas que fez ou não fez na sua vida pregressa. Esta significação da doença pode interferir no tratamento. Poder falar desta percepção, ter alguém com quem confessar sua culpa e ser perdoado pode ser muito confortante. Alguém que certamente não deve entrar na condição de um juiz. Já basta o grande sofrimento que uma doença grave traz. A maneira como vivemos pode influenciar as condições de nossa morte. 5. Necessidade de se reconciliar. Todos nós podemos levar conosco questões não resolvidas, má- goas, ressentimento, assuntos inacabados, como afirma Kü- bler-Ross (1975). A doença é, muitas vezes, o momento em que estes sentimentos brotam de forma intensa. O paciente no fim de vida, frágil e sem forças, precisará de muita energia para buscar estas de pessoas a quem feriu ou por quem foi ferido, pedir perdão ou falar de seus sentimentos, buscando assim uma reconciliação. Permitir que o paciente possa retomar o contato com estas pessoas, possa lidar com estes assuntos inacabados, dizer o que quer que aconteça depois da morte e dizer adeus, é fundamental. Muitos destes pacientes revelaram que suas maiores preocupações eram: não serem perdoados por Deus, não conseguirem se despedir de pessoas com quem têm pendências vitais e morrerem afastados de Deus ou de uma força espiritual. 6. De descobrir algo além de sua pró- pria existência. Esta necessidade pode se manifestar de duas formas: 1. abertura à transcendência (o relacionamento com Deus, com a arte, com a natureza); 2. necessidade de reencontrar o sentido de solidariedade. Alguns pacientes com grande dificuldade ainda conseguem levantar de seus leitos para oferecer ajuda à alguém que está no leito ao seu lado ou em piores condições; sentem-se úteis e solidários, cuidando do sofrimento humano. 7. Necessidade de ser amado, apesar de seu aspecto. Poucas pessoas, profissionais e familiares, têm disposição para ficar com pacientes até o fim da vida. Seu aspecto cadavérico, palidez, respiração ruidosa, alteração de humor, franqueza nas questões sobre a morte, tudo isso faz com ESPIRITUALIDADE E PSICOLOGIA — CUIDADOS COMPARTILHADOS 252 O que poucos, e somente os muito íntimos, disponham-se a estar presentes até o final do processo. São freqüentes as queixas das pessoas à morte de um forte sentimento de isolamento e solidão. Estas pessoas têm grande necessidade de sentirem-se amados, não descartados, e que este amor seja expresso de maneira carinhosa, podendo-se utilizar toques e palavras de conforto e esperança, confirmando a significância de sua vida, lembrando-os de suas realizações e as marcas deixadas na vida das pessoas próximas. É muito dolorosa a sensação de que a nossa morte não significará nada na vida daqueles que amamos. 8. Necessidade de uma nova relação com o tempo. Para muitos pacientes, o tempo vivido é o tempo do passado. Como o futuro parece muito curto, há a necessidade de elaborar uma nova hierarquia de valores. Cada dia poderá trazer algumas questões para serem elaboradas e os projetos a longo prazo parecem impossíveis; será preciso pensar em projetos a curto prazo. Este futuro, de tempo limitado, pode ser vivido como frustração e angústia, mas também pode ser uma abertura para a transcendência. É uma visão direta e clara que não se tempo todo o tempo disponível. 9. Necessidade de continuidade. Temos a necessidade de deixar marcas de nossa existência para pessoas significativas ou para a humanidade, envolvendo valores como: fraternidade, justiça, respeito. Esta continuidade pode estar presente nos descendentes, numa empresa, numa obra, mensagem ou palavra. É o fruto de uma vida toda que se avalia num momento de revisão que a proximidade da morte provoca. Pessini (2006) se refere à possibilidade de elaborar um “diagnóstico espiritual”, desenvolvendo a habilidade da escuta. É importante ter ouvidos capazes de comunicar compreensão, amor e solidariedade. Ouvir não somente o que é dito, mas principalmente o que não é dito e nem precisa ser verbalizado. Ouvir é criar um clima em que as pessoas livremente podem partilhar o sentido de seus dias: seus medos, esperanças, dores, desapontamentos e alegrias. Afirma que é importante ouvir com o ouvido do outro, procurando responder às necessidades do paciente e não do terapeuta. É fundamental respeitar os valores pessoais e espirituais da pessoa. Muito fácil é assaltar a pessoa espiritualmente, impondo nossos valores. Propor sim, impor nunca, afirma o autor. É preciso que se perceba como o paciente entende, interpreta e vive a sua experiência de estar doente, como é tocado pela finitude e como relaciona isto com sua fé em Deus ou em outra figura de crença. Neste contexto, aparecem muitas visões em relação à doença, tais como: castigo ou punição, teste, destino, fatalidade, expressão de fim, possibilidade de transformação da vida, entre outras expressões. Também podem surgir desapontamentos, sentimentos de abandono ou revolta em relação a Deus para aqueles que são religiosos. Outros podem aprofundar a sua fé. É necessária a tolerância, paciência, sensibilidade do cuidador espiritual. É preciso poder acolher sentimentos controversos, sem ter a necessidade de modificá-los imediatamente e principalmente não repreender ou censurar. Neste lugar, o atendente espiritual não deve oferecer sermões ou penitências. É importante trabalhar essas experiências, não reforçando a idéia de que a doença surge para castigar as pessoas. Pode ser muito difícil entender e aceitar o sofrimento, quando se está no meio do processo. Segundo o autor, podemos sim confirmar a fé quando está presente, despertá-la quando está dormente e reforçá-la se estiver frágil e deseja crescer. Neste momento, faz muito sentido a proposta de um ritual de fé que tenha significado para a pessoa. É neste contexto em que muitos não vêem nenhum sentido ou então somente “desgraça” é que numa perspectiva de espiritualidade, a vida pode ser iluminada pela graça divina.
Cuidados psicológicos e espirituais-Integração Há pontos de intersecção e complementaridade entre aspectos psicológicos e espirituais na existência das pessoas, como afirmamos anteriormente. Segundo Ancona Lopez (1999), é fundamental que o psicoterapeuta, ao trabalhar os conteúdos trazidos pelo paciente, leve em conta a sua experiência religiosa e espiritual, deixando que expresse os seus valores e expectativas. Há uma estreita relação entre religiosidade e saúde mental, por isto é fundamental buscar o que é pessoal e significativo na vida de cada um e seu sentido de pertença a uma dada comunidade religiosa. Os psicólogos deveriam conhecer e buscar referenciais para abordar a questão espiritual no processo terapêutico. Não se pode ignorar a questão religiosa, é preciso ter abertura para compreender as metáforas e símbolos apresentados pelos clientes. Breitbart (2003) relata a sua experiência de inclusão de conteúdos espirituais em trabalho psicoterápico em grupo com pacientes oncológicos, que ele denomina de Psicoterapia de Grupo Centrada no Sentido. Este procedimento é desenvolvido no Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York. Neste grupo foram abordados temas relativos ao sofrimento causado pela doença, questionamentos existenciais e aflições espirituais no fim da vida. O trabalho de grupo favorece a troca de experiências, o sentido de pertença, de que não se está sozinho nesta situação, tendo a possibilidade de ajudar e ser ajudado e perceber que se tem um propósito comum. Segundo o autor, o grupo favorece a busca de sentido e uma “destoxificação” da morte, podendo-se falar abertamente sobre o tema. Possibilita-se a abertura do caminho para a transcendência, para além dos aspectos materiais da vida, num processo de construção individual e do grupo como um todo. Este trabalho só poderá ser realizado se o paciente tiver os seus sintomas controlados, principalmente a dor. Dentre os temas que foram processados pelos pacientes, o autor relata os seguintes: revisão de vida, exame das situações ligadas à culpa, remorso, perdão e reconciliação, encontrar um sentido maior para o sofrimento. O inspirador deste trabalho é Vitor Frankl, que, em seu livro “Psicoterapia e sentido da vida”, traz os alicerces para esta terapia. Frankl reafirma a relevância de se incluir a dimensão da transcendência no trabalho psicoterápico. É a possibilidade de ir para além de si, de ter uma compreensão maior da sua relação no mundo. Mas o autor ressalta que o cuidar da alma na psicoterapia não é a substituição da religião na vida das pessoas. Frankl (1973) discute a importância de se abordar a questão da busca pelo sentido no trabalho psicoterápico. Esta busca está presente em toda a vida até a morte e envolve a liberdade de vontade para encontrar este sentido, levando em consideração a criatividade, as experiências e a atitude em relação à vida. Há três grandes problemas existênciais: o sofrimento, a morte e a culpa. Para este autor, a nossa responsabilidade é viver a vida plenamente. O sentido é encontrado nas atividades que fazem parte da vida; as situações existenciais podem não mudar, a forma de encará-las sim. Qualquer fase da vida permite que se olhe para as situações de vida, de trabalho, das relações pessoais, e novos significados podem surgir. O processo psicoterápico pode servir como estímulo para estas novas percepções. Jung foi um dos autores na área da psicologia e da psicoterapia que concedeu à religião e à espiritualidade um lugar especial resgatando a questão da alma na psicoterapia, como aponta Giovanetti (1999). Refere-se à função transcendente, podendo ser entendida como uma ampliação da consciência. Podemos ver nisso uma parceria entre a psicologia e a espiritualidade como complementaridade. Este autor aponta para a necessidade do terapeuta estar sensível à experiência religiosa constituinte daquele sob seus cuidados e sempre estar atento às manifestações do sagrado nos relatos, sonhos e associações apresentadas. Kübler-Ross, em suas obras, também discute a importância do desenvolvimento espiritual e, como psiquiatra, iniciou os seus trabalhos no acompanhamento de pessoas à morte, integrando aspectos psicológicos e espirituais. Em seu livro Roda da Vida (1998) relata que foi guiada por espíritos ou entidades, tendo como missão afirmar que a morte é basicamente um processo ESPIRITUALIDADE E PSICOLOGIA — CUIDADOS COMPARTILHADOS
 de transição, dessa forma buscando uma diminuição do sofrimento nesta hora. São dois momentos na trajetória desta autora que trouxe significativas contribuições para o atendimento a pessoas gravemente enfermas ou em processo de luto. Em nossa opinião, a segunda parte da sua obra, se não compreendida e contextualizada, poderá trazer uma idéia falsa de que as pessoas não devem expressar os seus sentimentos quando diante da morte, logo passando para uma elevação espiritual, num processo de sublimação muito rápido. Devemos cuidar para que o processo de sofrimento seja elaborado e não abortado (Kovács, 2003). Gimenes (2003) aponta para uma parceria entre a psicologia e a espiritualidade que se configura num auxílio para a passagem, ajudando as pessoas no seu processo de morte, facilitando a transposição das etapas psicológicas e espirituais. Trabalha-se o medo do desconhecido, pacificando os sentimentos de terror, ajudando a contemplar pendências de diversas ordens. O objetivo é levar à tranqüilidade, calma e o encontro com Deus. A autora apresenta as várias etapas deste processo, afirmando que é muito importante que os cuidadores os reconheçam para acompanhar, ajudar e não atropelar. As etapas apontadas são: a) agonia – quando a pessoa entra em contato com as dores físicas, emocionais, sociais e espirituais; b) auto-julgamento – quando há uma revisão das ações, atitudes e sentimentos em relação à vida; c) entrega – passar para outro estado de consciência. Psicoterapia e assistência espiritual comungam muitos pontos, sendo um dos principais elementos, uma escuta atenta e cuidadosa. A psicoterapia tem como objetivo principal que a pessoa compreenda as suas questões, esclarecendo a demanda, facilitando as suas escolhas dos caminhos a seguir; a prioridade são as questões e não as respostas. A orientação espiritual, a partir da escuta das questões principais, orienta o caminho a seguir.

CONCEITOS BÁSICOS EM PSICOLOGIA E APLICAÇÃO
O OBJETO DA PSICOLOGIA Em que consiste a Psicologia? A Psicologia é derivada de palavras gregas que significam "estudo da mente ou da alma". Hoje em dia é comumente definida como a ciência que estuda o comportamento humano.
PSICOLOGIA DO SENSO COMUM X PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA
Todos nós usamos o que poderia ser chamado de psicologia de senso comum em nosso cotidiano. Observamos e tentamos explicar o nosso próprio comportamento e o dos outros. Tentamos predizer quem fará o que, quando e de que maneira. E muitas vezes sustentamos opiniões sobre como adquirir controle sobre a vida (Ex: o melhor método para criar filhos, fazer amigos, impressionar as pessoas e dominar a cólera). Entretanto, uma psicologia construída a partir de observações casuais tem algumas fraquezas críticas. O tipo de psicologia do senso comum que se adquire informalmente leva a um corpo de conhecimentos inexatos por diversas razões. O senso comum não proporciona diretrizes sadias para a avaliação de questões complexas. As pessoas geralmente confiam muito na intuição, na lembrança de experiências pessoais diversas ou nas palavras de alguma autoridade (como um professor, um amigo, uma celebridade da TV). A ciência proporciona diretrizes lógicas para avaliar a evidência e técnicas bem raciocinadas para verificar seus princípios. Em consequência, os psicólogos geralmente confiam no método científico para as informações sobre o comportamento e os processos mentais. Perseguem objetivos científicos, tais como a descrição e a explicação. Usam procedimentos
científicos, inclusive observação e experimentação sistemática, para reunir dados que podem ser observados publicamente. Tentam obedecer aos princípios científicos. Esforçam-se, por exemplo, por escudar seu trabalho contra suas distorções pessoais e conservar-se de espírito aberto. Ainda assim, os cientistas do comportamento não estão de acordo quanto aos pressupostos fundamentais relacionados aos objetivos, ao objeto primeiro e aos métodos ideais. Como outras ciências, a psicologia está longe de ser completa. Existem muitos fenômenos importantes que não são ainda compreendidos. As pessoa não devem esperar uma abordagem única do objeto da psicologia ou respostas para todos os seus problemas.
AS 3 PRINCIPAIS TEORIAS DA PSICOLOGIA MODERNA
 Os seres humanos, como conhecemos hoje, apareceram na Terra há cerca de 100.000 anos atrás. Desde então têm estado provavelmente tentando compreender-se a si mesmo. Aristóteles (384-322 a.C.), o filósofo grego, e considerado o Pai da Psicologia. Entretanto, a especulação sobre assuntos psicológicos não começou com este pensador grego. Centenas de anos antes de Aristóteles, os primeiros filósofos de que se tem notícia já lidavam com esses assuntos.
·BEHAVIORISMO OU COMPORTAMENTALISMO
 John Watson criticava o estruturalismo e o funcionalismo se queixando sobre o fato de que os fatos da consciência não podiam ser testados e reproduzidos por todos os observadores treinados, pois dependiam das impressões e características de cada pessoa. Watson sentiu que os psicólogos deviam estudar o comportamento observável e adotar métodos objetivos. Em 1912, nasceu o behaviorismo e dominou a psicologia americana por trinta anos. Os psicólogos behavioristas estudavam os eventos ambientais (estímulos), o comportamento observável (respostas) e como a experiência influenciava o comportamento, as aptidões e os traços das pessoas mais do que a hereditariedade. Frederick Skinner vai além do behaviorismo de Watson e com ele nasce o behaviorismo radical que também considera os eventos ambientais, o comportamento observável (ações do indivíduo), mas também considera os comportamentos internos ou privados (pensar, sentir, etc). ·
GESTALT
 A Psicologia da Gestalt pode ser também vista como a Psicologia da forma. Os gestaltistas estão preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito como uma forma diferente da que ele tem na realidade. Max Wertheimer (1880-1943) fundou o movimento da Gestalt. "O todo é diferente da soma das partes", este é o slogan do movimento da Gestalt. O que a pessoa é (o todo) são junções de várias características próprias dela (as partes).
Aos gestaltistas interessa muito saber sobre os significados que os seres humanos impõem aos objetos e acontecimentos de seu mundo, a percepção, a solução de problemas e o pensamento.
· PSICANÁLISE
Para quem nunca estudou psicologia antes, é provável não ter ouvido falar de Watson, Skinner ou Max Wertheimer, entretanto, provavelmente já ouviu falar de Sigmund Freud (1856-1939), o médico vienense que se especializou no tratamento de problemas do sistema nervoso e em particular de desordens neuróticas. Freud adotou a hipnose para ajudar as pessoas a reviverem as experiências traumáticas do passado que pareciam associadas com seus sintomas atuais. Entretanto, nem todos podiam atingir um estado de transe e a hipnose parecia resultar em curas temporárias, com o aparecimento posterior de novos sintomas. Freud então desenvolveu o método da associação livre no qual os pacientes deitavam num divã e eram encorajados a dizer o que quer que lhes viesse à mente (desejos, conflitos, temores, pensamentos e lembranças), sendo também convidados a relatar seus sonhos. Freud tratava dos seus pacientes tentando trazer à consciência aquilo que estava inconsciente. Insistia que todos os detalhes se ajustam perfeitamente entre si. A personalidade é formada durante a primeira infância. A exploração das lembranças dos primeiros cinco anos de vida é essencial ao tratamento.
Aos gestaltistas interessa muito saber sobre os significados que os seres humanos impõem aos objetos e acontecimentos de seu mundo, a percepção, a solução de problemas e o pensamento. · PSICANÁLISE Para quem nunca estudou psicologia antes, é provável não ter ouvido falar de Watson, Skinner ou Max Wertheimer, entretanto, provavelmente já ouviu falar de Sigmund Freud (1856-1939), o médico vienense que se especializou no tratamento de problemas do sistema nervoso e em particular de desordens neuróticas. Freud adotou a hipnose para ajudar as pessoas a reviverem as experiências traumáticas do passado que pareciam associadas com seus sintomas atuais. Entretanto, nem todos podiam atingir um estado de transe e a hipnose parecia resultar em curas temporárias, com o aparecimento posterior de novos sintomas. Freud então desenvolveu o método da associação livre no qual os pacientes deitavam num divã e eram encorajados a dizer o que quer que lhes viesse à mente (desejos, conflitos, temores, pensamentos e lembranças), sendo também convidados a relatar seus sonhos. Freud tratava dos seus pacientes tentando trazer à consciência aquilo que estava inconsciente. Insistia que todos os detalhes se ajustam perfeitamente entre si. A personalidade é formada durante a primeira infância. A exploração das lembranças dos primeiros cinco anos de vida é essencial ao tratamento.
HEREDITARIEDADE X MEIO AMBIENTE · Como são as pessoas e o que as faz serem assim?
As pessoas são muito variadas. Diferem quanto ao tamanho, religião, sexo, idade, inteligência e educação. Diferem ainda quanto às características sociais, econômicas e morais. A individualidade é o resultado de características biológicas ou herdadas (hereditárias) e é ainda influenciada pelo meio ambiente onde vivem. Na realidade o que faz uma pessoa ser aquilo que é resulta da combinação dos fatores herdados e do seu meio ambiente. Características herdadas: Fatores relacionados com a aparência física são geralmente considerados herdados. · a não se que haja trauma cefálico ou doença, o intelecto e a altura são determinados biologicamente · a não ser que haja tratamento medicamentoso ou raios luminosos externos, a cor da pele também é predeterminada · a não ser que haja ferimento ou operação plástica, a forma do nariz e orelhas é predeterminada. Herda-se, enfim, a maioria dos caracteres relacionados a aparência. Características ambientais: O meio ambiente abrange muitas influências. O meio químico pré-natal: drogas, nutrição e hormônios O meio químico pós-natal: oxigênio e nutrição
As experiências sensoriais constantes: os eventos processados pelos sentidos inevitáveis a qualquer indivíduo como sons de vozes humanas, contato físico com as pessoas, etc. Todos passam por essas experiências. As experiências sensoriais variáveis: eventos processados pelos sentidos e que diferem de um animal para outro da mesma espécie, dependendo das circunstâncias particulares de cada indivíduo. Nem todos passam por essas experiências. O melhor argumento a favor da influência ambiental na formação da personalidade encontra-se no estudo desenvolvido com gêmeos idênticos, que são criados em lugares diferentes por diferentes pessoas. Podem ser encontradas diferenças quanto à estatura e seus Q.I., conceito social, pessoal e metas de trabalho. O meio ambiente desempenha importante papel nessa diferenciação. A hereditariedade e o meio interagem continuamente, influenciando o desenvolvimento. A hereditariedade programa as potencialidades humanas das pessoas, o meio faz essas potencialidades se desenvolverem ou não, para mais ou para menos. Não é relevante a discussão a respeito se a hereditariedade ou o meio é mais significativo, pois ambos são absolutamente essenciais. Cada ser humano é diferente pois cada um traz diferentes experiências de vida, e portanto, é emocional, intelectual e socialmente diferente dos demais. Saber como as pessoas desenvolvem as idéias e quais são as suas necessidades é fundamental para a formação de um bom profissional da
área de saúde; mas é igualmente fundamental que este profissional se conheça muito bem. O profissional da área de saúde interage com pessoas diferentes umas das outras. A maior dificuldade em lidar com essas pessoas – médicos, enfermeiras, parentes dos doentes e os próprios pacientes – está em que nunca duas pessoas reagirão de maneira idêntica. Qual a solução para esse problema? A melhor solução é estar bem consciente da própria maneira de agir, como pessoa, da reação dos outros às suas iniciativas e continuar a ganhar experiência nesses aspectos.
NOÇÕES DE PSICOPATOLOGIA
"interna" como resultado de alterações orgânicas e psicológicas no organismo ou "externa". O conhecimento da etiologia dos distúrbios psíquicos ainda é rudimentar, embora esteja se desenvolvendo. Assim, a classificação dos distúrbios psíquicos é insatisfatória, mas como os profissionais da saúde precisam antecipar as consequências de qualquer doença, pesquisar e se comunicar entre si, torna-se necessária uma classificação. Os psiquiatras clínicos descrevem a personalidade em termos de estrutura mental que está constante e regularmente presente em uma pessoa. Uma síndrome é constituída por um certo número de sintomas que, quando agrupados, formam um padrão reconhecível. Para que os profissionais da área da saúde reconheçam da mesma maneira um portador de transtornos mentais ou psíquicos há dois sistemas classificatórios importantes das doenças mentais e que foram desenvolvidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Associação Psiquiátrica Americana (APA). O primeiro é o CID-10, publicado em 1992 e que contém a 10ª revisão do capítulo sobre Transtornos Mentais e de Comportamento. Todas as tradições e escolas da psiquiatria estão ali representadas, o que dá a este trabalho seu caráter excepcionalmente internacional. A classificação e as diretrizes foram produzidas e testadas em muitas línguas. Nesta classificação os transtornos mentais estão elencados em 11 categorias maiores compreendendo 99 tipos de doenças mentais. É oferecida uma secção com as descrições clínicas e diretrizes diagnósticas que deve ser de conhecimento de todo o profissional. Um outro sistema de classificação foi coordenado pela Associação Psiquiátrica Americana e é amplamente conhecido como DSM-IV ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 4ª edição. É um manual mais específico, completo e complexo. Como as classificações dos transtornos mentais é complexa, salientaremos as 3 principais estruturas dentro da psicopatologia, que são: a neurose, a psicose e a perversão. Neurose A pessoa neurótica reconhece que está doente, embora não possa associar seus sintomas com um conflito emocional óbvio. Ele permanece em contato com a realidade. Pode continuar a adaptar-se socialmente porque a pessoa neurótica não gosta da realidade que vive, mas se adapta a ela da sua maneira. O neurótico sofre de reminiscências, quer dizer, o que ele passou no passado, ele sofre no presente, atualiza no presente, o que significa um sofrimento inútil. Como exemplos de distúrbios neuróticos temos a: · neurose obsessiva-compulsiva · neurose histérica · neurose fóbica / síndrome do pânico · neurose hipocondríaca

a.1.) Neurose obssessiva-compulsiva.

A pessoa com personalidade obsessiva é excessivamente asseada, pontual e de confiança. Ela costuma conferir tudo o que faz muitas vezes (rituais). Não gosta de mudança e fica contrariada com qualquer alteração em sua rotina. Tem atividades compulsivas, como por exemplo: gastar dinheiro demais ou ser muito avarento, comer demais e ser obeso, ser muito organizado no sentido de ser perfeccionista. Gosta de sentir que tem o completo controle de si mesmo e de seu mundo. Mantém suas emoções sob controle e raramente perde a calma. Seu senso de humor é limitado. Parece que precisa controlar completamente seu meio ambiente ou então não fazer nenhuma tentativa neste sentido, nenhum meio-termo é possível. Possui a moral muito rígida principalmente com relação a regras e horários. Tem medo exagerado que pode chegar a uma paranóia. É muito bom para os outros, mas pensa pouco em si mesmo, sendo às vezes auto-agressivo e possuindo auto-exigência (perfeccionismo). Se sacrifica pelos outros. Tudo tem que ter sacrifício, tem que complicar as coisas mais simples.
1.2. Religiões: pontos convergentes
 As grandes religiões, não obstante suas diferenças doutrinais e tradições, apresentam convergências fundamentais, como enfatiza Kung2 . Entre as mais significativas, assinalam-se: a) o cuidado com a vida: todas as religiões defendem a vida, especialmente aquela mais vulnerável e sofrida. Prometem a expansão do reino da vida, quando não a ressurreição e a eternidade, no tocante não apenas à vida humana, mas também a todas manifestações cósmico-ecológicas; b) comportamento ético fundamental: todas apresentam um imperativo categórico: não matar, não roubar, não violentar, amar pai e mãe e ter carinho para com as crianças. Esses imperativos favorecem a uma cultura de veneração, de diálogo, de sinergia, de não-violência ativa e de paz; c) a justa medida: as religiões procuram orientar as pessoas pelo caminho da sensatez, que significa o equilíbrio entre o legalismo e o libertinismo. Elas propõem nem o desprezo do mundo, nem sua adoração, nem o hedonismo, nem o ascetismo, nem o imanentismo, nem o transcendentalismo, mas o justo equilíbrio em todos esses domínios. Este é o caminho do meio, das virtudes. Mais do que atos são atitudes interiores coerentes com a totalidade da pessoa e que impregnam de excelência todos os seus relacionamentos; d) a centralidade do amor: todas pregam a incondicionalidade do amor. Confúcio (551-489 a.C.) pregava: “O que não desejas para ti, não o faças a outro”. Jesus: “Amem-se uns aos outros como eu vos tenho amado”. Na perspectiva ecológica de Jonas3 , “age de tal maneira que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana”; e) figuras éticas exemplares: as religiões não apresentam somente máximas e atitudes éticas, mas principalmente figuras históricas concretas, paradigmas vivos, como tantos mestres, santos e santas, justos e justas, heróis e heroínas, que viveram dimensões radicais de humanidade. Daí surge a força mobilizadora de figuras eticamente exemplares, como Jesus, Buda, Confúcio, Francisco de Assis, Ghandi, Luther King, Madre Teresa de Calcutá, entre outros; f) definição de um sentido último: trata-se do sentido do todo e do ser humano. A morte não é a última palavra, mas a vida, sua conservação, sua ressurreição e sua perpetuidade. Todas apresentam um fim bom para a criação e um futuro bem-aventurado para os justos4 . 1.3. Religião e espiritualidade: distinguir sem separar Na visão de Dalai-Lama, há distinção entre religião e espiritualidade: Julgo que religião esteja relacionada com a crença no direito à salvação pregada por qualquer tradição de fé, crença esta que tem como um de seus principais aspectos a aceitação de alguma forma de realidade metafísica ou sobrenatural, incluindo possivelmente uma ideia de paraíso ou nirvana. Associados a isso estão ensinamentos ou dogmas religiosos, rituais, orações e assim por diante. Considero que espiritualidade esteja relacionada com aquelas qualidades do espírito humano – tais como amor e compaixão, paciência e tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia – que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros. Ritual e oração, junto com as questões de nirvana e salvação, estão diretamente ligados à fé religiosa, mas essas qualidades interiores não precisam ter a mesma ligação. Não existe, portanto, nenhuma razão pela qual um indivíduo não possa desenvolvê- las, até mesmo em alto grau, sem recorrer a qualquer sistema religioso ou metafísico5 . A distinção entre religião e espiritualidade nos ajuda hoje a resgatar a alta relevância da espiritualidade para os dias atuais, marcados pelo modo secular de ver o mundo e pela redescoberta da complexidade misteriosa da subjetividade humana. As religiões constroem edifícios teóricos: as doutrinas, as morais, as liturgias e os ritos. Constroem, também, edifícios artísticos, grandes templos e catedrais. Através da arte, em geral, da música sacra e das artes plásticas, as religiões nos elevam a Deus. É só entrarmos numa catedral, por exemplo, a Notre Dame, de Paris, além de 318 A importância da dimensão espiritual na prática dos cuidados paliativos Revista - Centro Universitário São Camilo - 2010;4(3):315-323 ser uma joia de arte arquitetônica, vamos encontrar, em seu interior e nos seus vitrais, retratada toda uma época histórico-cultural e religiosa. As religiões constituem uma das construções de maior excelência do ser humano. Elas trabalham com o divino, com o sagrado, com o espiritual, mas não são, na sua essência, o espiritual. O que afirma Boff6 ajuda-nos a refletir: Quando a religião se esquece da espiritualidade, ela pode se autonomizar, articulando os poderes religiosos com outros poderes. No Ocidente, tivemos já muita violência religiosa, feita em nome de Deus. Ao se institucionalizar em forma de poder, seja sagrado, social ou cultural, as religiões perdem a fonte que as mantêm vivas – a espiritualidade. No lugar de homens carismáticos e espirituais passam a criar burocratas do sagrado. Ao invés de pastores que estão no meio do povo, criam autoridades acima do povo e de costas para ele. Não querem fiéis criativos, mas obedientes; não propiciam a maturidade na fé, mas o infantilismo da subserviência. As instituições religiosas podem tornar-se, com seus dogmas, ritos e morais, o túmulo do Deus vivo6 . A religião codifica uma experiência de Deus e lhe dá a forma de poder doutrinário, moral e ritual. A espiritualidade se orienta pela experiência do encontro vivo com Deus. Esse encontro sempre novo e inspirador é vivido como gerador de sentido, entusiasmo de viver e transcendência. 1.4. Afinal, o que entender por espiritualidade e mística? Nossa compreensão alinha-se com a perspectiva de Boff7 , quando afirma que a espiritualidade é aquela atitude pela qual o ser humano se sente ligado ao todo, percebe o fio condutor que liga e re-liga todas as coisas para formarem um cosmos. Essa experiência permite ao ser humano dar um nome a esse fio condutor, dialogar e entrar em comunhão com ele, pois o detecta em cada detalhe do real. Chama-o de mil nomes: Fonte Originária de todas as coisas, Mistério do Mundo ou simplesmente Deus7 . É ainda Boff6 que nos diz: a espiritualidade tem a ver com experiência, não com doutrina, não com dogmas, não com ritos, não com celebrações, que são apenas caminhos institucionais capazes de nos ajudar a alcançá-la, mas que são posteriores a ela. Nasceram da espiritualidade, podem até contê-la, mas não são a espiritualidade. São água canalizada, não a fonte de água cristalina (p. 44)6 . E o que entender por mística? (...) a mística é aquela forma de ser e de sentir que acolhe e interioriza experiencialmente esse Mistério sem nome e permite que ele impregne toda a existência. Não o saber sobre Deus, mas o sentir Deus funda o místico. Como dizia com acerto Wittengeistein: “O místico não reside no como o mundo é, mas no fato de que o mundo é”. Para ele crer em Deus é compreender a questão do sentido da vida; crer em Deus é afirmar que a vida tem sentido. É esse tipo de mística que confere um sentido último ao caminhar humano e a suas indagações irrenunciá- veis sobre a origem e o destino do universo e de cada ser humano8 . A mística e a espiritualidade se exteriorizam institucionalmente nas religiões do mundo e subjazem aos discursos éticos, portadores de valores, de normas e de atitudes fundamentais. Sem elas, a ética se transforma num código frio de preceitos e as várias morais em processos de controle social e de domesticação cultural. Por isso, a ética, como prática concreta, remete a uma atmosfera mais profunda, àquele conjunto de visões, sonhos, utopias e valores inquestionáveis cuja fonte situa-se na mística e na espiritualidade. São como a aura, sem a qual nenhuma estrela brilha8 . 2. Medicina e espiritualidade Há um cansaço na cultura contemporânea em relação a uma medicina que reduz o ser humano meramente à sua dimensão biológica orgânica. O ser humano é muito mais do que sua materialidade biológica. Poderíamos dizer que esse cansaço provocou uma crise da medicina técnico-científica e que favoreceu ao nascimento de um novo modelo, do paradigma biopsicossocial e espiritual9,10. É a partir dessa virada antropológica que podemos introduzir a dimensão espiritual do ser humano como um componente importante de ser trabalhado na área de cuidados no âmbito da saúde. Já existem inúmeras publicações em nosso meio sobre essa questão que não podem passar despercebidas11,12,13. A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos da Unesco (UNESCO, 19/10/2005)14, logo na sua introdução, apresenta como fundamento uma vi- 319 A importância da dimensão espiritual na prática dos cuidados paliativos Revista - Centro Universitário São Camilo - 2010;4(3):315-323 são antropológica integral, holística, contemplando a “dimensão espiritual” do humano: “Tendo igualmente presente que a identidade de um indivíduo inclui dimensões biológicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais”. A Associação Médica Mundial (AMA), na Declaração sobre os Direitos do Paciente, revista na 171ª. seção do Conselho, Santiago, outubro de 2008, elenca onze direitos, sendo que o décimo primeiro é o “Direito à assistência religiosa”. Na íntegra: “O paciente tem o Direito de receber ou recusar conforto espiritual ou moral, incluindo a ajuda de um ministro de sua religião de escolha”. No Canadá, o Código de Ética Médica (atualizado em 2004), ao apresentar as dez “responsabilidades fundamentais” dos médicos, no que toca ao assunto em tela, diz que é uma responsabilidade fundamental do médico. “Prover cuidados apropriados ao seu paciente, mesmo quando a cura não é mais possível, incluindo o conforto físico e espiritual, bem como suporte psicossocial”. Nos EUA, a Associação Médica Americana, em uma “declaração sobre cuidados de final de vida (2005)”, diz que “na última fase da vida, as pessoas buscam paz e dignidade” e sinaliza que os médicos prestem atenção nos objetivos e valores pessoais da pessoa na fase final de vida. Os pacientes devem confiar que seus valores pessoais terão uma prioridade razoável, seja na comunicação com a família e amigos, no cuidado das necessidades espirituais, na realização de uma última viagem, na tarefa de concluir uma questão ainda inacabada na vida, ou morrer em casa, ou em outro lugar de significado para a pessoa. No México, entrou em vigor, em 5 de janeiro de 2009, “Decreto por el que se reforma y adiciona la Ley General de salud em Matéria de Cuidados Paliativos” . No Cap. II, que trata dos “Direitos do paciente em situação terminal”, entre os doze direitos arrolados, o XI diz que o paciente tem direito “a receber os serviços espirituais quando ele, sua família, representante legal ou pessoa de confiança o solicitar”. 3. Brasil – Carta dos Direitos dos Usuários da saúde Em nosso País, o Ministério da Saúde aprovou a Portaria n. 1820, de 13 de agosto de 2009, que “dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde nos termos da legislação vigente” (Art. 1º), que passam a constituir a “Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde” (Art. 9º) 15. O artigo 4º e parágrafo único afirmam: Toda pessoa tem direito ao atendimento humanizado e acolhedor, realizado por profissionais qualificados, em ambiente limpo confortável e acessível a todos. Parágrafo único: É direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, ter atendimento humanizado, acolhedor, livre de qualquer discriminação, restrição ou negação em virtude de idade, raça, cor, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas ou sociais, estado de saúde, de anomalia, patologia ou de deficiência, garantindo-lhe: III – nas consultas, nos procedimentos diagnósticos, preventivos, cirúrgicos, terapêuticos e internações, o seguinte: respeito (...); d) aos seus valores éticos, culturais e religiosos; (...); g) o bem-estar psíquico e emocional; X – a escolha do local de morte; (...) XIX – o recebimento de visita de religiosos de qualquer credo, sem que isso acarrete mudança na rotina de tratamento e do estabelecimento e ameaça à segurança ou perturbações a si ou aos outros. O Art. 5º afirma que “Toda pessoa deve ter seus valores, cultura e direitos respeitados na relação com os serviços de saúde, garantindo-lhe: (...); VIII – o recebimento ou recusa à assistência religiosa, psicológica e social”. Como vemos, hoje, há um reconhecimento em termos de políticas públicas, bem como no âmbito da pró- pria medicina da necessidade do cuidado espiritual. 4. Que espiritualidade cultivar frente ao “mistério do sofrimento humano? Vivemos num momento cultural sócio-histórico, no âmbito das terapias da saúde dominado pela analgesia, em que fugir da dor é o caminho racional e normal. À medida que a dor e a morte são absorvidas pelas instituições de saúde, as capacidades de enfrentar a dor, de inseri-la no ser e de vivê-la são retiradas da pessoa. Ao ser tratada por drogas, a dor é vista medicamente como um barulho de disfuncionamento nos circuitos fisiológicos, sendo despojada de sua dimensão existencial subjetiva. Claro que essa mentalidade retira do sofrimento seu significado íntimo e pessoal e transforma a dor em problema técnico. Diz-se que hoje temos a chamada trindade farmacológica da felicidade, no nível físico-corporal, psíquico e sexual, que está disponível a conta-gotas nas prateleiras das farmácias, a um custo razoável. O xenical – para emagre- 320 A importância da dimensão espiritual na prática dos cuidados paliativos Revista - Centro Universitário São Camilo - 2010;4(3):315-323 cimento e para a busca da felicidade do corpo escultural; o prozac – para livrar-se dos incômodos da depressão e da busca do bem-estar psíquico; e o viagra, que liberta do fracasso e da vergonha da disfunção erétil (impotência) para proporcionar o prazer e a felicidade sexual. Não possuímos mais hoje os místicos de outrora, que atribuíam à dor e ao sofrimento um sentido. Vivemos numa sociedade em que o sofrer não tem sentido, e, por isso, nos tornamos incapazes de encontrar algum sentido numa vida marcada pelo sofrimento. Na base das solicitações para se praticar a eutanásia, temos sempre o drama da vida envolta em sofrimento sem perspectivas. As culturas tradicionais tornam o homem responsável por seu comportamento, sob o impacto da dor, sendo que hoje é a sociedade industrial que responde diante da pessoa que sofre, para livrá-la deste incômodo. Em meio medicalizado, a dor perturba e desnorteia a vítima, obrigando-a a entregar-se ao tratamento. Ela transforma em virtudes obsoletas a compaixão e solidariedade, fonte de reconforto. Nenhuma intervenção pessoal pode mais aliviar o sofrimento. Só quando a faculdade de sofrer e de aceitar a dor for enfraquecida é que a intervenção analgésica tem efeito previsto. Nesse sentido, a gerência da dor pressupõe a medicalização do sofrimento. A dor pode ser definida como uma perturbação, uma sensação no corpo. O sofrimento, por outro lado, é um conceito mais abrangente e complexo, atinge o todo da pessoa. Pode ser definido, no caso de doença, como um sentimento de angústia, vulnerabilidade, perda de controle e ameaça à integridade do eu. Pode existir dor sem sofrimento e sofrimento sem dor. Em cada caso, somente nós podemos senti-lo, bem como aliviá-lo. A dor exige medicamento e analgésico, o sofrimento clama por sentido. Como afirma Cassel10: O sofrimento ocorre quando existe a possibilidade de uma destruição iminente da pessoa, continua até que a ameaça de desintegração passe ou até que a integridade da pessoa seja restaurada novamente de outra maneira. Apontamos que sentido e transcendência (grifo nosso) oferecem duas pistas de como o sofrimento associado com destruição de uma parte da personalidade pode ser diminuído. Dar um significado à condição sofrida frequentemente reduz ou mesmo elimina o sofrimento associado a ela. A transcendência é provavelmente a forma mais poderosa pela qual alguém pode ter sua integridade restaurada, após ter sofrido a desintegração da personalidade10. No famoso livro da Bíblia, o livro de Jó, escrito há mais de 2500 anos, temos uma apresentação do mistério do sofrimento e Deus. É a mesma pergunta que tantos “Jós” (sofredores) se fazem hoje. Por que Deus faz isso comigo? O rabino Kushner15 responde que as palavras de Jó nem de longe contêm uma indagação de ordem teológica – elas são um grito de dor. Depois daquelas palavras caberia um ponto de exclamação, não de interrogação. O que Jó queria de seus amigos (...) não era teologia, mas simpatia. Não desejava que lhe explicassem Deus, tampouco estava querendo mostrar-lhes que sua teologia era insatisfatória. Ele queria somente dizer-lhes que era realmente um bom homem e que as coisas que lhe estavam acontecendo eram terrivelmente trágicas e injustas. Mas seus amigos empenharam-se tanto em falar de Deus que quase esqueceram de Jó, a não ser para observar que ele deveria ter feito alguma coisa de muito ruim para merecer aquele destino das mãos de um Deus justo16. Na história da espiritualidade cristã católica, em época não muito distante de nós, se enfatizava, exageradamente, a importância do sofrimento, caindo-se numa mentalidade dolorista de valorização do sofrimento por si mesmo. A expressão do povo “se a gente não sofre não ganha o céu” espelha bem essa mentalidade. Na busca de superação dessa religião do sofrimento e da culpa, precisamos beber da fonte primeira, re-descobrindo nos Evangelhos que no centro não está a dor e o sofrimento, mas o amor. O mandamento não é para sofrer, mas para amar. Na carta apostólica Salvifici Doloris, lemos que “O sofrimento humano suscita compaixão, inspira também respeito e, a seu modo intimida. Nele, efetivamente está contida a grandeza de um mistério específico”. É dito também que “o amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem, na Cruz de Jesus Cristo”17. 5. Espiritualidade e cuidados paliativos A espiritualidade diz respeito à busca do ser humano por um sentido e significado transcendente da vida. A religião, por outro lado, é um conjunto de crenças, práticas rituais e linguagem litúrgica que caracteriza uma comunidade que está procurando dar um significado transcendente às situações fundamentais da vida, desde o nascer até o morrer. 321 A importância da dimensão espiritual na prática dos cuidados paliativos Revista - Centro Universitário São Camilo - 2010;4(3):315-323 A filosofia dos cuidados paliativos desde suas origens, a partir do cultivo da visão antropológica biopsicossocial e espiritual, propõe um modelo de cuidados holísticos, que vá ao encontro das necessidades de várias dimensões do ser humano, seja no nível físico, psíquico, social ou espiritual. A própria definição da Organização Mundial da Saúde contempla essa perspectiva. Hoje se reforça a convicção de que os cuidados paliativos devem expandir seu foco para além do controle da dor e dos sintomas físicos, para incluir as abordagens psiquiátrica, psicológica, existencial e espiritual nos cuidados de final de vida e talvez em situações específicas culminar no processo de aceitação com serenidade e em paz da pró- pria morte (p. 211)18. A provisão para controle da dor e dos sintomas físicos continua sendo o objetivo básico e fundamental para os paliativistas. Isso porque tais sintomas se transformam em fonte de angústia e sofrimento para o paciente, e os paliativistas têm as ferramentas e as habilidades para efetivamente lidar com esses sintomas. Os objetivos da medicina podem ser resumidos em: prolongar, proteger e preservar a vida humana. Como esses objetivos podem ser aplicados em cuidados paliativos? Prolongar a vida não é um objetivo clínico em cuidados paliativos. Paradoxalmente, estudos recentes mostram que pacientes que são cuidados em hospices sobrevivem por mais tempo que os pacientes em fase final que são cuidados em outros contextos clínicos. Proteger o paciente de danos apresenta-se como razoável em cuidados paliativos. O que significa preservar a vida como um objetivo em cuidados paliativos? Significa fazer tudo o que for possível para o paciente manter a essência de quem ele é, seu senso de identidade, significado e dignidade na última fase da vida e no processo do morrer. Isso pode se conseguir pelo controle dos sintomas, cuidados humanizados, facilitando o relacionamento com as pessoas queridas, focando em questões existenciais que necessitam ser finalizadas e cuidar do legado (o que a pessoa deixa). Portanto, em cuidados paliativos, os objetivos são raramente prolongar a vida, frequentemente proteger a vida, mas sempre preservar e cuidar da vida. A compaixão é um importante elemento humano em todas as interações em cuidados paliativos e pode ser definida pela hospitalidade, presença e abertura para ouvir. O termo hospitalidade é a raiz das expressões hospital e hospice. O encontro clínico dos cuidadores com o doente implica que comunique a esse um senso que todos nós estamos relacionados uns com os outros, enfrentamos as mesmas realidades e questões existenciais, por exemplo nossa finitude19,20. Estar presente é procurar focar e centralizar-se nas preocupações e história do paciente. Ouvir é responder de tal maneira às suas preocupações e angústias que esse se sinta compreendido. A empatia está no coração e na arte de ouvir. O objetivo maior dessa abordagem na fase terminal é ajudar no processo de aceitação à vida vivida e, finalmente, chegar à aceitação da morte; em outras palavras, enfrentar a morte com serenidade e paz! William Breitbart afirma: Reconhecer e encarar com serenidade a própria morte, nossa finitude de vida, pode ser para muitos, um fator de transformação. A atitude de enfrentar a pró- pria morte leva a pessoa a se voltar para encarar e abraçar a vida que foi vivida (p. 211)18. Ao olhar e examinar para a vida que viveu e que luta para aceitar, esta pessoa enfrenta uma série de desafios. Enfrentar a morte pode aprimorar o processo ao se buscar um senso de coerência, significado e completude de vida. Isso permite, também, que tenhamos a consciência de que o último capítulo da vida é a última oportunidade para viver toda sua potencialidade, para deixar um autêntico legado e se conectar com o além, colocando a vida numa perspectiva de transcendência. Neste momento ainda existe vida para ser vivida, tempo para simplesmente ser, de formas que o paciente pode partir com um senso de paz e de aceitação da vida vivida. O paradoxo desta dinâmica de final de vida é que através da aceitação da vida que se viveu, surge a aceitação da partida e da morte, conclui o psiquiatra W. Breitbart, paliativista do Memorial Hospital de Nova Iorque (p. 212)21. Como seres humanos, buscamos o sentido maior das coisas e da vida e nos preocupamos com três questões bá- sicas: 1) De onde vim?; 2) Por que estou aqui?; 3) Para onde vou? (existe algo além da morte?). Essas são questões centrais na experiência religiosa e espiritual. A palavra religião vem do latim religio, onde a raiz re (novamente) e ligare (conectar), fundamentalmente diz respeito ao esforço de se reconectar ou ligar junto. A busca de transcendência ou conexão como algo a mais de nós mesmos é a maneira básica e simples de uma aventura espiritual, não importante se acreditamos em Deus ou não. 322
A importância da dimensão espiritual na prática dos cuidados paliativos
Para as pessoas que cultivam uma fé religiosa, pode-se oferecer cuidados e respostas confortantes para essas questões existenciais. Para os que não possuem um sistema de crenças religiosas, podemos prover conforto via solidariedade e compaixão, que ameniza os medos associados com a dor, o sofrimento e o sentimento de sentir-se relegado ao “esquecimento” após a morte.